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A palavra que faltou e não virá
Era tarde para expressar meu lamento, quando eu soube do 'falecimento' da Meg: já dado como pretenso, foi contribuinte ativo da densidade do final de semana que revolveu parte da intelectualidade brasileira e portuguesa em seus blogs, sites e listas. Em tela, a palavra. Em cena a morte, a doença, a loucura, a farsa, os motivos. Como protagonistas Paulo José Miranda - escritor português residente em São Paulo, vencedor do primeiro Premio José Saramago em 1999 - e Maria Elisa Guimarães (Meg), do Subrosa weblog, professora de Filosofia, crítica e animadora cultural. Não sei dos motivos ou o que 'encenam' a Meg e o Paulo. Dizer que o conheço pessoalmente é frágil afirmação, embora tenhamos nos encontrado e conversado muito - junto com amigos comuns que nos apresentaram - por duas vezes, em 2006: uma delas num jantar pequeno que lhes ofereci em minha casa. Tampouco a Meg e eu nos conhecíamos pessoalmente: houve um momento – breve -, também no ano passado, em que nos cruzamos e correspondemos por e-mail. O suficiente para que ela visitasse e indicasse meu blog como um dos seus favoritos; para que o texto de Haroldo Maranhão, postado por ela, fosse por mim publicado no periódico digital Laboratório da Palavra. A parte gostosa da rede, agindo. Sei que a esses nomes correspondem pessoas reais que não me foram indiferentes, pelo contrário. E que esse turbilhão em que se meteram é a parte não-gostosa da rede. A parte que me invade a casa para contar do que não cogito ou quero partilhar. Uma farsa, essa morte? Uma encenação, uma performance, um espetáculo que tem causas e produz efeitos nas pessoas e personas, nos mundos virtual, real, imaginário – talvez até no simbólico. E jamais se saberá dos danos - que nunca serão qualificados ou quantificados -, se é a vida " uma fúnebre farsa em que nós – mais ou menos inconscientes – representamos os mais diferentes papéis, pobres marionetes nas mãos do destino cego" [ PIRANDELLO]. A citação acima é de A Dúvida de Pirandello, de Gustavo Bernardo, onde também li: "As discussões entre os dois grupos vão crescendo, bem como as discussões internas de cada grupo, o que leva o Pai a reconhecer o mal exatamente nas palavras, que ora não dizem o que se queria dizer, e portanto são insuficientes, ora dizem o que não se queria dizer, e portanto são excessivas: Mas aí está todo o mal! Nas palavras! Todos temos dentro de nós um mundo de coisas; cada qual tem um mundo seu de coisas! E como podemos nos entender, senhor, se nas palavras que eu digo ponho o sentido e o valor das coisas como elas são dentro de mim; enquanto quem as ouve, inevitavelmente as assume com o sentido e com o valor que têm para si, do mundo assim como ele o tem dentro de si? Acreditamos nos entender – jamais nos entendemos! Olhe – a minha piedade, toda a minha piedade por esta mulher, ela a assumiu como a mais feroz das crueldades! [Obra citada: 197] Logo a seguir, lamenta, em fala tipicamente cética: "pudéssemos nós prever todo o mal que pode nascer do bem que acreditamos fazer!". Assim como o mal se encontraria escondido no bem, por baixo da dignidade de cada um se esconde o inconfessável. Ainda que estejamos acostumados a jogar sucessivas capas de herói sobre os ombros, no íntimo seríamos apenas mesquinhos e assustados. (...) Pirandello reduz o leitor a uma série de peças de um mosaico, detonando a noção de unidade. O ser humano que surge a partir dessa detonação é irônico como um desenho cubista. Abandonado pelo destino, percebe a contingência em todas as coisas – mas não se resigna a ela. Sua liberdade é uma ficção – pois que seja." De todos os ditos, o mais aprisionado me parece ser o da protagonista Meg. É dela a palavra que faltou e não virá, porque morreu. Sem falecer, o que lamento. Este, não é tarde para expressar.
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