--- Em keshara@..., "massamikurokawa"
<massamikurokawa@...> escreveu
Olá Massami e pessoal!
Minha visão é diferente, principalmente por eu estar aqui nos EUA,
estou no contexto do problema e não vendo o problema de fora e tirando
conclusões baseados na mídia.
> Os EUA ainda vão passar por muita coisa e que a ignição talvez seja
> este "incidente".
Talvez, mas economicamente é pouco provável. Espere um pouco e verás...
> Desde o escândalo da Enron e da Arthur Andersen no vácuo os EUA
mostra que tem muita coisa
> errada ali.
A política interna nos EUA não é perfeita (muito melhor do que em
muitos países sim), e o que está se passando agora, pode ser comparada
com Enron só que numa escala muito maior.
O que está acontecendo agora, não tem nada a ver com o dinheiro gasto
no Iraq, talvez como arrumar o problema, sim tenha a ver.
Para entender o problema atual, é preciso saber como funcionava o
sistema de crédito (e também todo o sistema financeiro em cima disso)
aqui nos EUA, principalmente o crédito imobiliário, que foi o fator
principal do problema.
O problema com o crédito imobiliário vinha se arrastando e piorando de
uns 5 ou 6 anos pra cá, e em 2007 e nesse ano, ele atingiu máximo.
Aqui é muito fácil ter crédito (contanto que se tenha um número de
seguro social "SSN"), eu mesmo já fiz muitas burradas financeiras,
quem lê meu blog sabe.
O negócio é que, até antes desse problema todo, era possível comprar
casa somente com o passaporte, sem nem ao menos ter o "SSN" - conheci
brasileiros aqui que fizeram isso. Mas mesmo para os americanos a
coisa era bem fácil.
O mercado imobiliário estava em alta, os corretores de imóveis
faturando uma grana enorme, e os bancos queriam mais dinheiro, ou
melhor o contrato do empréstimo que muitas vezes era muito maior do
que a pessoa podia pagar, e muito maior do que o valor real da casa.
Não querendo perder a oportunidade de ganhar dinheiro, os bancos,
começaram a facilitar os empréstimos, mesmo para quem não tinha
condições de comprar. Uma das facilidades, eram empréstimos onde por
alguns anos (geralmente 3 ou 5), a pessoa pagava somente pelo "Juros"
fixo facilitando em muito a compra de imóveis para quem na verdade não
tinha condições de pagar o valor da prestação real
(http://en.wikipedia.org/wiki/Subprime_mortgage_crisis) criando uma
ilusão nas pessoas. E depois desse prazo o juros se tornava variável e
também era incluindo o valo do "principal" no pagamento mensal.
Como o mercado estava em alta, quero dizer, o preço dos imóveis subiam
como foguetes, o pessoal (muitas vezes imigrantes que não conheciam
nada sobre o processo, mas que tinha um amigo "corretor" também
imigrante que passou a ajudá-lo, as vezes até ensinando como burlar o
sistema ou até mesmo falsificar documentação para conseguir
empréstimo) começou a entrar nessa de comprar casa, com o pensamento
de que depois de 1 ou 2 anos o valor subiria bastante (em alguns
locais chegou a subir 20-40% muito rápido) e então talvez vender ou
refinanciar mudando o tipo de empréstimo feito, e ainda tirar uma grana.
Essa subida dos preços durou uns 2 ou 3 anos, imóveis de $400 mil,
estavam custando $700 mil e por ai vai. E o imposto predial (que é
geralmente guiado pelo preço do imóvel) começou a subir de maneira
astronômica também. E é ai que a coisa começou a explodir.
Passados os primeiros anos do juros fixo, e aumento do imposto
predial, muita gente começou a ter problemas para pagar suas
prestações mensais, e começaram a não pagar as prestações entrando num
processo chamado de "foreclosure" (o processo onde o banco ou o
governo - se o valor devido era dos impostos - toma a casa da pessoa)
e esse foi o inicio de todo esse problema.
Um ou dois processos de foreclosure aqui ou ali é normal, agora quando
esse número chega à milhões em um ano, todo o mercado que vive em cima
dos contratos de financiamento de imóveis cai, e todo os outros que
dependem desses também caem, e assim vai....
Para você entender o lado do mercado financeiro da coisa, o que
acontece é o seguinte. Os bancos que oferecem empréstimos para
imóveis, pegam esses contratos e agrupam os semelhantes em pacotes que
são negociados pelo mundo a fora. Ou seja, esses contratos são
negociados com garantia pois, por 20 ou 30 anos, o pessoal vai estar
pagando suas prestações. É o mesmo com qualquer outro tipo de
investimento entre bancos (eu trabalhei no Departamento Financeiro do
(agora antigo) Banco America do Sul - ali na Brigadeiro com a Paulista
;-D), só que aqui, entram também bancos internacionais na jogada, não
é um processo somente entre bancos nacionais.
Quando o problema começou, os bancos não conseguiam mais negociar
esses pacotes (contendo um monte de contratos de empréstimo de imóveis
falidos) ficando com eles nas mãos, sem rodar dinheiro imediato. E sem
rodar dinheiro, os bancos ou empresas de investimento começaram a ter
problemas financeiros graves, e começam a quebrar. O plano atual do
governo é de injetar US$700 Bilhões na economia, e boa parte desse
dinheiro vai ser utilizado para "comprar" esses pacotes que estão
parados nas mãos dos bancos sem gerar dinheiro. Dando de volta aos
banco o dinheiro imediato, para assim, fazer com que eles comecem a
dar crédito novamente.
Bom eu acredito em muitas coisas, acredito que talvez, para o pais,
seja até bom o que esta acontecendo. O preço da gasolina já baixou
quase US$1 por galão - o que é muito bom.
Mas existem também as teorias de conspiração contra o governo Bush. O
governo é Republicano, ajudam as empresas dizendo que estão ajudando
ao povo, mas na verdade a coisa é bem diferente - o povo sabe. Eu
mesmo penso que, como muito disso já era previsto, e que como esse é o
último ano dele, deixaram a coisa acontecer (talvez não pensaram que
iria ter a repercussão que teve) para que em seu último ano de mandato
ele seria visto como o "Salvador da Pátria", ou seja seria o herói da
história, o Presidente que tirou o país da recessão... mudando assim o
mal nome da família Bush - mas parece que o tiro saiu pela culatra :-D
Abraços!
Alex
http://www.naterradotiosam.com/