A internacionalização da floresta amazônica já começou, para desespero de muitos.
O governo da Guiana, ex-colônia inglesa no extremo norte da América do Sul, ofereceu à Grã-Bretanha a sua parte da Amazônia em troca de financiamento inglês para tornar sua indústria mais ambientalmente sustentável. É uma sinuca de bico e tanto para quem defende a soberania dos países sul-americanos sobre a floresta. Afinal de contas, se a Guiana é soberana sobre aquele pedaço da Amazônia, pode cedê-lo para quem quiser, da forma que bem entender, certo? Ou não? A alternativa parece assustadora: ver o pobre país desmatar tudo e ainda ter um parque industrial podrão.
O pior é que os ingleses não só gostaram da idéia como pretendem fomentá-la por toda a região. Ó só o que Chris Huhne, porta-voz para meio ambiente do Partido Liberal Democrata, o segundo mais importante de oposição no Reino Unido, depois do Partido Conservador, disse sobre o acordo:
"Esta é uma novidade muito interessante. Precisamos trabalhar nas propostas que a Guiana fez em um nível internacional e expandir para cobrir não apenas a Guiana, mas também o Brasil, Venezuela e outros países onde está a floresta tropical."
Hoje é a floresta amazônica, amanhã é o aquífero Guarani (maior reservatório de água doce subterrânea do mundo), depois quem sabe o campo de petróleo Tupi, que exige grandes investimentos para ser explorado. Floresta, água, energia… e uma grande crise que se avizinha. Os quatro cavaleiros do apocalipse?
O grandes tycoons do capitalismo mundial já esfregam as mãos ansiosamente. Afinal, onde há crise, as grandes corporações farejam oportunidades de bons lucros. Com a conivência dos políticos.
A jornalista Naomi Klein, autora do instigante No Logo, revela essa intrigante parceria em seu novo lançamento, Shock Doctrine - The Rise of Disaster Capitalism (Doutrina do Choque - A Ascenção do Capitalismo do Desastre), mostrando como o capitalismo e suas grandes corporações se movem bem por entre crises políticas, econômicas, ambientais, o que for. Hay crise? Estan dentro!
Diz Naomi:
"Olhe de novo para os eventos emblemáticos de nossa era e por trás de muitos deles você encontrará a lógica da doutrina do choque em funcionamento. Esta é a história secreta do livre mercado, que não nasceu sob liberdade e democracia; nasceu do choque."
O filme abaixo, dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón (do Y Tu Mama Tambien e o terceiro filme da série Harry Potter), dá outras pistas:
Sob choque, ficamos todos mais suscetíveis a aceitar a trozoba que for. Ficamos mansinhos, incapazes de reagir. Serve também para sociedades inteiras. O choque pode ser induzido, provocado ou mesmo natural - o importante é saber aproveitar o momento de torpor que se segue para obter o máximo de vantagem. E isso as corporações sabem fazer como ninguém.
Dizae, Milton Friedman:
Só uma crise, real ou percebida, produz mudanças reais.


