Para entendermos a distinção que há entre adoração e louvor, verifiquemos este verso: "Dai-lhe do fruto das suas mãos, e deixe o seu próprio trabalho louvá-la
nas portas" ( Pv 31:31 ).
Os provérbios suplementares de Lemuel apresentam uma
mulher virtuosa que se dedica ao marido e aos filhos. Após apresentar as
virtudes da ditosa mulher, Lemuel demonstra que todos que a cercam hão de bendizê-la ( Pv 31:28 –30), porém, a
despeito do testemunho dos seus filhos e do marido, Lemuel diz que ela será recompensada
pelas suas próprias realizações, e que suas obras hão de render-lhe o devido louvor ( Pv 31:31 ).
O que se depreende do texto? Depreende-se um princípio do
louvor! Fica demonstrado no provérbio que as obras da mulher virtuosa lhe
conferem o louvor devido. Por
conseguinte, as pessoas que a cercam passam a bendizê-la em função de suas realizações. Ou seja, não podemos
confundir `louvor' com `bendizer'. O louvor é intrínseco à obra realizada,
tributo a quem a realizou, enquanto `bendizer' é `falar bem de'.
Do mesmo modo que `as
obras' da mulher virtuosa a louvam, são `as obras' de Deus que O louvam "Todas
as tuas obras te louvarão,
ó SENHOR, e os teus santos te
bendirão" ( Sl 145:10 ). Enquanto os santos bendizem, as obras de Deus O
louvam.
Deste modo, entendemos a
extensão das palavras do salmista quando diz: "Louvai ao SENHOR
desde a terra: vós, baleias, e todos
os abismos; Fogo e saraiva, neve e vapores, e vento tempestuoso
que executa a sua palavra; Montes
e todos os outeiros, árvores frutíferas e todos os cedros; As feras e todos os gados, répteis e aves voadoras; Reis da
terra e todos os povos, príncipes e todos os juízes da terra; Moços e moças, velhos e crianças" ( Sl 148:7 -12), pois tudo que foi
elencado são obras de Deus que O louva, mesmo as obras que não possuem fôlego
de vida ou voz, como se segue: "Louvem o nome do SENHOR, pois mandou, e
logo foram criados" (
Sl 148:5 ).
Todas as obras de Deus
constituem-se em louvor à sua onipotência e os seus santos bendizem ao Senhor
por tudo que Ele tem realizado. Deus mandou e tudo foi criado para Seu louvor.
Sobre o louvor, o apóstolo
Paulo escreveu aos cristãos em Éfeso: "Com o fim de sermos para louvor da sua glória,
nós os que primeiro esperamos em Cristo" ( Ef 1:12 ). Ou seja, os que creram (esperaram)
em Cristo foram feitos herança e predestinados a serem filhos por adoção, e tal
obra divina constitui-se louvor à Sua glória.
Todas as obras de Deus O
louvam, visto que testemunham acerca da grandeza e do poder de Deus, porém,
os que esperam em Cristo, segundo o propósito e conselho de sua vontade,
louvam e glorificam especificamente à Sua graça "...segundo
o beneplácito de sua vontade, para louvor e glória da sua graça..."
( Ef 1:5 ).
Ao predestinar os que crêem para serem
filhos por adoção por Jesus Cristo, Deus assim o fez para louvor e glória de
sua graça ( Ef 1:5 ), ou seja, a sua própria obra é fonte do seu louvor. Do
mesmo modo que os céus e a natureza constituem-se em louvor ao poder de Deus,
sua fidelidade constitui-se em Seu louvor na assembléia dos santos "E os céus louvarão as tuas maravilhas, ó SENHOR, a
tua fidelidade também na congregação dos santos" ( Sl 89:5 ).
Os céus louvam as
maravilhas de Deus, da mesma forma que a fidelidade de Deus O louva na
assembléia dos santos, pois os santos, obras exclusiva de Deus, passaram a
existir em função da fidelidade de Deus.
Concluímos que, o
verdadeiro louvor procede da obra que Deus realiza em prol das suas criaturas,
e aos seus servos cabe reconhecer, bendizer e adorá-lo.
Somente os mansos, aqueles que
aprendem de Cristo, comerão e se fartarão de justiça ( Mt 11:29 ). Somente os
que buscam ao Senhor verdadeiramente O louvam. Somente aqueles que receberam um
novo coração e um novo espírito viverão eternamente ( Ez 36:26 ; Sl 51:10 ), pois
todas estas obras são realizadas exclusivamente por Deus "Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao
SENHOR os que o buscam; o vosso coração viverá eternamente" ( Sl 22:26 ).
O apóstolo Paulo ao
escrever aos cristãos em Éfeso deixou claro que, Deus faz todas as coisas
conforme o conselho de sua vontade com o único objetivo: que os homens agraciados
em Cristo sejam constituídos em louvor de sua glória ( Ef 1:12 ).
Ou seja, o verdadeiro
louvor não parte do reconhecimento dos homens, antes tem origem na obra
realizada por Deus. A obra realizada por Deus é que o louva, e ao reconhecer as
dádivas de Deus proveniente desta obra, resta aos homens bendizerem, anunciarem
e adorarem o seu Santo nome ( Sl 103:1 ; Ef 1:3 ; 1Pe 1:3 ).
O povo de Israel pensava
que estavam louvando a Deus quando entoavam cânticos no templo ou nas suas
casas, porém, o protesto de Deus para com eles dá conta que o coração deles
estava longe de Deus. Por quê? Porque o temor deles consistia somente em seguir
mandamentos de homens e não acataram o mandamento que diz: "Circuncidai,
pois, o prepúcio do vosso coração, e não mais endureçais a vossa cerviz" ( Dt
10:16 ).
Ora, a circuncisão do
prepúcio ocorria especificamente no oitavo dia após a criança nascer, isto
conforme foram instruídos ( Lv 12:3 ; Jo 7:22 – 23), porém, a circuncisão que
Deus exige, a circuncisão do coração, quem efetuaria? Como efetuariam? E as
mulheres, como seriam circuncidadas?
Enquanto a circuncisão do
prepúcio era quesito para ser membro da nação, a circuncisão do coração é
imprescindível para que fossem participantes do Israel de Deus ( Rm 9:6 ).
Somente Deus pode realizar a circuncisão do coração do homem "E
o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração, e o coração de tua descendência, para
amares ao SENHOR teu Deus com todo o coração, e com toda a tua alma, para que
vivas" ( Dt 30:6 ).
Só um coração circuncidado
pelo Senhor pode amá-Lo de todo. Somente após a obra realizada por Deus, a
circuncisão do coração, é que o homem e a mulher podem amar a Deus com toda a
sua alma. Enquanto um coração incircunciso está morto diante de Deus, somente
um coração circuncidado, obra realizável somente por Deus, vive perante Ele "E
o SENHOR teu Deus circuncidará o teu coração (...) para que vivas" ( Dt
30:6 ).
Ora, se a circuncisão é
necessária para que o homem viva, segue-se que, sem a circuncisão de Deus o
homem está morto, continua na incircuncisão da carne herdada de Adão, mesmo
após circuncidar o prepúcio.
Após ser circuncidado pelo
Senhor, o homem recebe um novo coração e um novo espírito ( Sl 51:10 ), sendo
de novo criado em verdadeira justiça e santidade ( Ef 4:24 ). Após receber novo
coração e novo espírito, o homem criado de novo passa a adorar a Deus em
espírito e em verdade.
Em espírito porque foi
gerado do Espírito Eterno, e em verdade porque foi gerado através da semente
incorruptível ( 1Pe 1:23 ), que é a palavra de Deus (verdade). Desde os
profetas a obra de Deus é espargir água pura sobre os homens, concedendo novo
coração e novo espírito ( Ez 36:25 -27). É Deus quem executa a obra de espargir
água (nascer do Espírito). Água pura é a palavra de Deus, que lava o homem
completamente de sua imundície ( Jo 3:5 ).
A obra que Deus realiza ao
criar o novo homem em Cristo constitui-se em louvor e glória da Sua graça.
Aqueles que são gerados de novo, por sua vez, tornam-se verdadeiros adoradores,
pois adoram em espírito e em verdade ( Jo 4:24 ). Quando o homem entoa cânticos
e anunciam as obras de Deus, bendiz o santo nome de Deus ( Sl 103:1 e Sl 104:1
). Ao ser gerado de novo, segundo o poder que Deus concede aos que crêem ( Jo
1:12 ), todo o ser da nova criatura constitui-se em louvor e glória à graça de
Deus.
Porém, em nossos dias, há uma confusão de nomenclatura, visto que reputam como `louvor' o `bendizer' a Deus. O problema não reside no simples fato de se designar o bendizer como louvor, antes está em não abstrairmos o verdadeiro significado do louvor, quando se adota como louvor o que é produzido pelas emoções humanas através das cordas vocais e instrumentos musicais.
Claudio Crispim
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