Em História da Filosofia, Nova Cultural, texto de Bernadette Siqueira Abrãao,
ao passar por Sócrates, esse trecho quase me derruba da cadeira:
"Pensar racionalmente as questões morais implica denunciar tudo aquilo
que aparece como virtude, desmascarando-o na sua falsidade. Mas com
isso Sócrates põe o dedo na ferida da própria Atenas, que mergulhara em
vícios e na corrupção, e fingia ser justa. Os poderosos decidem condená-lo.
O pretexto é ofender os deuses da cidade e corromper a juventude.
Baseia-se, esta última acusação, no fato de Sócrates não esconder seus
hábitos homossexuais (um compromisso permitido e comum na época).
Procurava cercar-se sempre de rapazes jovens e belos."
Os outros textos sobre Sócrates com quem tive contato dizem que:
- Ao ser julgado, Sócrates teria por volta de 70 anos. Haja tesão para
lidar com homossexualismo até essa idade.
- Sócrates tinha esposa e filhos. Não prova nada, mas é relevante.
- O próprio Sócrates alega, para se defender, que principalmente os jovens
o buscavam porque ficavam fascinados com seu método de desmascarar
os falsos sábios, presumivelmente velhos. A "corrupção" dos jovens
referia-se a Sócrates ensinar o desafio "desrespeitoso" aos sábios oficiais,
o culto de demônios e a desacreditar os deuses oficiais; mentiras que,
diga-se de passagem, Sócrates desmascara com maestria, como sempre.
- Há um episódio em que algum discípulo de Sócrates, cujo nome esqueci,
confessa que sente atração por ele, mas Sócrates aproveita a oportunidade
para tirar uma lição de moral da confusão do rapaz.
- Sócrates pregava o controle irredutível dos desejos como meio de
alcançar a virtude. Até minha experiência pessoal recomenda
que é prudente não chafurdar nas próprias fraquezas. Tivesse Sócrates
desejos homossexuais, é de se esperar que ele os controlasse de
maneira invejável.
- Sócrates preferiu a pena de morte a cometer contra ele mesmo
a injustiça de parar de filosofar. Ele teria que ser absolutamente insano
para ter tanta convicção do que dizia/fazia e ainda assim ficar,
ao contrário do controle que venerava, lidando com homossexualismo.
- Sócrates (ou talvez Platão) prova sucessivas vezes que não há distinção
razoável entre *saber* o certo e *fazer* o certo. Segundo Sócrates,
a nossa famosa frase "faça o que eu digo e não o que eu faço" seria
a mais contundente das hipocrisias.
Concluo que essa Bernadette Siqueira Abrãao carrega uma burrice leviana.
Alguém conhece uma "História da Filosofia" mais decente para recomendar?