Um Nota
Prezados;
Passei algum tempo sem escrever, pois compromissos
diversos e inadiáveis no período deixaram-me sem poder manter a cadência de textos. Volto agora e
aproveito para mudar um pouco a periodicidade desta newsletter, de quase-quinzenal
para "nunca mais de duas por mês". O conceito é um pouco diferente, pois
na primeira forma há uma periodicidade esperada pelos que a assinam, na segunda
não, somente um compromisso meu de não encher a caixa postal de ninguém,
limitando a newsletter a, no máximo, duas mensagens mês. Esta nova forma está
mais adequada às circunstâncias, e qualquer mudança futura será novamente
avisada.
Agradeço a compreensão e peço desculpas pelo silêncio no
último mês e meio.
Ivan
Assimetria Criativa
Ivan de Almeida - novembro de 2007
O que tona uma imagem interessante? Há algum tempo, em uma
conversa em um fórum, fui levado a examinar as fotos do LaChapelle disponíveis
na rede. Falávamos sobre a criação fotográfica, sobre fotógrafos com linguagem
pessoal forte, etc. Fiquei alguns dias observando fotos dele, entre elas, a seguinte:
http://blog.zenithmedia.ch/upload/David%20Lachapelle%201.jpg
Gostei imediatamente da foto, o jogo do ambiente azul com
os tons quentes dos dançarinos, a cidade lá fora das janelas, a armação
geométrica cuidadosa, com as linhas do teto fugindo para os cantos da
fotografia e a linha da perna fugindo para o canto inferior direito, a
concentração do olhar no terço horizontal direito (a mão que segura a dançarina
e o rosto da dançarina), etc. Em tudo rigor e planejamento, em tudo muita
determinação. Mas a foto não é nítida.
Fiquei pensando cá com meus botões: a foto não é nítida
e é ótima! Não precisou ser nítida, talvez até mesmo a nitidez diminuísse a
graça. E não é a única. O famoso O Beijo do Doisneau não é nítido
também. Não é nítido no primeiro plano devido ao movimento do sujeito, não é
nítido no backgroud devido aos limites do DOF.
No entanto, fotos que não são nítidas são em geral
repudiadas como ruins, e essas não são ruins, são, ao contrário, excelentes.
Como pode isso?
Calhou, então, outro dia de fazer uma foto usando ISO3200
de uma DSLR já antiga, e, naturalmente, veio cheia de ruído. E não era nítida
também... Mas gostei da foto, e em relação à minha produção, dentro de meus
limites, ela pareceu-me boa. Havia algo nela mais significativo do que a
perfeição, uma atmosfera, talvez.
O que torna a fotografia interessante? Repito
agora a pergunta, já de algum modo, adiantando algumas premissas. Talvez se
possa falar de uma assimetria criativa, não assimetria geométrica (que
também pode e em geral há) que em muitos casos é benéfica à fotografia, mas
talvez seja ainda melhor inverter a questão e falar sobre a capacidade
esterilizante da busca pela simetria criativa, aqui significando um
conjunto de preocupações formais e técnicas que mantém a fotografia dentro de
parâmetros consagrados, seja quanto à forma de fazer, seja quanto à
aparência, seja mesmo quanto ao assunto.
Um amigo diz que a fotografia é sempre um compromisso, que
temos de escolher entre as coisas importantes e as menos importantes em
muitas situações. A própria idéia desse compromisso contém a idéia da
assimetria, isto é: vale a pena fazer assim apesar de tal ou qual coisa ficar
fora do normal. Vale a pena disparar lentamente agora, mesmo sabendo que a mão
não agüenta tanta lentidão. Vale a pena usar o ISO alto, mesmo sabendo que a
imagem será totalmente cheia de ruído. Vale a pena deixar estourar esta parte
da fotografia, pois do contrário não conseguirei traduzir direito aquela outra
parte. São escolhas. São compromissos.
Uma certa quantidade de circunstâncias e de assuntos não
os exige, ou exige menos, é verdade. Um dia generoso em luz, um contexto
controlado (digamos em estúdio), enfim, há inúmeras circunstâncias nas quais o
compromisso é muito pequeno, nada ou quase nada é preciso comprometer para
fazer a foto. Mas há outros tantos contextos em que é impossível deixar de
fazer escolhas. E fazê-las é a diferença entre fotografar e não fotografar. Por
mais insumos tecnológicos que se acrescente à mistura, ainda assim essas
escolhas terão de ser feitas, pois até mesmo o equipamento é um compromisso
entre portabilidade, discrição, desempenho, etc. Não há um equipamento que
reúna todas as qualidades.
Provavelmente, a abordagem mais frutífera para julgar esse
compromisso é analisar se o elemento mais importante da foto, isto é, o seu
interesse está preservado pelo compromisso. Isso vale para os dois momentos
da fotografia: o momento de feitura, esse de análise mais difícil, sutil, exata
no tempo e nem sequer inteiramente consciente (por mais atento que se seja, há
algo da esfera do não-enunciado, isto é, do não-consciente, que se imiscui na
fotografia e que pode estar altamente relacionado com o interesse), e o momento
da observação. Quanto à observação, por muitas vezes leio manifestações
críticas a fotos nas quais tudo o que o crítico faz é apontar o item em não
conformidade com a tal simetria paradigmática. "Falta nitidez!", "Há muito
ruído!", "O bokeh está estranho!". O que diriam da foto do LaChapelle se a
vissem sem o nome do autor? O que diriam do O Beijo se não conhecessem nada
sobre os fotógrafos do passado? O ponto de interesse fica esquecido e
ocultado pela demanda da tal simetria, e fica invisível quase, psiquicamente
invisível, embora fisicamente visível, pois a orientação da análise é praticar
uma espécie de jogo-dos-sete-erros no qual se busca em que determinada
fotografia foge do modelo paradigmático. O item assimétrico é o defeito, não
importa ele ser o preço para o reinar do interesse.
Contudo, a criação é sempre um compromisso. Manter-se no modelo paradigmático é o mesmo que renunciar à exploração. Não há erro na exploração. Tudo o que se deve questionar é se o compromisso preservou o interesse ou não. Evidentemente fotos erradas há, aliás, é o comum, mas erros em fotografias não são meramente aquilo que foge ao paradigma, e sim aquilo que não deu certo.
Jogamos ao fotografar e ao comentar e criticar fotografias um jogo social. Esse jogo vai fixando, consolidando, direcionando as ações dos participantes do jogo. Os fotógrafos, bem ou mal, guiam-se pelas críticas e as reproduzem nas fotografias. Isso forma um sistema capaz de dirigir a criação coletiva sem que ninguém perceba exatamente que está sendo dirigido.
Por que nas fotografias dos consagrados aceitamos e reconhecemos o interesse para além da correção paradigmática e não aceitamos a mesma coisa nos que nos cercam? Há algo aí a investigar. O olhar que aceita a assimetria criativa nos já reconhecidos é, muitas vezes, o mesmo que a condena no seu ambiente. E que a condena para si, afinal, pois ninguém é imune ao que condena.