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#30 De: Anacreonte Fonjic <anacreonte@...>
Data: Ter, 23 de Nov de 2004 9:17 am
Assunto: Novolan - Das muitas coisas que se faz quando se demora a mijar
anacreontefo...
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Anacreonte está, provavelmente, louco, e desse estdo sofrífel saiu mais uma
triste obra. Acessem www.fonjic.com.br para ler a obra completa do autor e
cliquem no anunciantes para sustentar um escritor furreca

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Das muitas coisas que se faz quando se demora a mijar
                                                  AvG
                                                  6:12 am  Vidálico,
23/11/04  em casa
          Eu largara a vida de escritor pela de conselheiro.
          Aconselhava jovens em busca de fama, fortuna e fodas para ajeitar
o texto e arrendondar o conteúdo.
          É claro, a maioria era lixo sem chance, mas o que importava era a
grana que me pagavam, não minha sinceridade de análise.
          Teve o cara que me mandou o soneto do cão falecido, que começava
com a emblemática estrofe: Oh... au-au cãozinho!
          Outro falava sobre as diferenças de sabores dos fluidos vaginais.
O cara era um gênio, conseguia pelo gosto distinguir qualquer coisa numa
mulher. Dizia que o paladar masculino em geral detectava apenas três
sabores: mulher normal, mulher menstruada e outros.
          Ele não. Já havia detectado e catalogado mais de duzentos tipos de
sabores e aromas diferentes. Se gabava de acertar com mais precisão os
testes de gonorréia do que os exames clínicos. Segundo ele um certo gosto
deixava a marca inconfundível da doença. Bem diferente da sífilis, que era
mais ácida, mas mais suave.
          O fato é que eu era um farsante que vivia apenas da renda que as
pessoas me pagavam para ler o lixo que escreviam, crentes de que eu tinha
contatos com editores e podia lhes lançar ao mundo da fama. Mundo esse que,
por sua vez, lhes renderia dividendos na forma de bucetas por hora. Mundo
esse que lhes renderia o paraíso em forma de vulva.
          Mas, o problema era, eles estavam errados. E eu sabia disso. Podia
não entender nada de paladar. Podia não entender nada de vulvas. Podia não
entender nada de mulheres. Podia não entender nada de literatura. Mas uma
coisa eu sabia: eu era uma farsa.
          Parece estranho, mas sempre que eu lia um novo poema ou conto que
me enviavam, eu lembrava de meu avô.
          Ele, talvez, tenha sido uma das figuras mais importantes em minha
vida, embora eu só tenha percebido tarde demais. Ele dirigira o Zepellin
quando este estivera no Brasil. Ele fora perseguido por espiões na época da
guerra. Ele virava doses de bebidas com meus colegas adolescentes. E ao
contrário de meus colegas adolescentes, mantivera-se macho até a morte.
          Era, de fato, o herói de minha infância. E embora não tenha
servido para me situar quanto às mulheres no mundo, pois gente antiga
raramente falava sobre isso, deixou-me tristezas bem maiores que essas.
          Morreu num pacato domingo, à beira da praia, enquanto uma
enfermeira fazia nele um derradeiro boquete. Ela começou enquanto ele
estava vivo, mas desconfio que mesmo quando esporrou ele já estava pra lá
de morto. Apenas reflexos corporais pré-programados.
          Por que eu falo isso? Não, não fugi do tema. Outro dia um escritor
me mandou sua obra-prima, que versava sobre os valores sexuais da terceira
idade.
          Ora, qualquer um que já tenha usado o pau um dia sabe quais são
esses valores. E uma vulva sessentona, apesar de caída, está mais que apta
para a satisfação cosmológica final, ou qual seja o nome que vocês queiram
dar à coisa.
          E apesar de nós homens dos anos noventa sermos mais versáteis. Nem
sempre temos a experiência dos anciões. Os homens do noventa se viram,
trocam de pênis, gritam para ganhar forças, mas tudo isso não só não os põe
no mesmo nível, como os rebaixa, comparado aos homens de antanho. Os homens
anteriores aos anos sessenta é que sabiam fuder. Não a elite, é claro, que
sempre foi estéril. Falo dos homens comuns. Aqueles que cheiram a cavalo,
Aqueles que cheiram à gordura de lanchonete. Aqueles que têm cheiro de
bichos selvagens
          E quer queira, quer não queira, muitas vezes um homem se excita.
Alguns se excitam com uma cadela no cio. Outros se excitam com o
pôr-do-sol, outros com blasfêmias religiosas, outros com palavras chulas,
outros com o simples contemplar de mulheres, outros com o simples
contemplar de curvas femininas e outros ainda, com sua própria existência.
Mas quando se começa a mijar, nada disso importa. Apenas a contração e o
milagroso jorro.

#29 De: Anacreonte Fonjic <anacreonte@...>
Data: Sáb, 20 de Nov de 2004 6:29 am
Assunto: Novolan - Capítulo 322: dos muitos chatos que já chuparam meu saco
anacreontefo...
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Fonjic decidiu escrever uma obra bela e comovente sobre a felicidade e a
confiança no rumo certo do mundo, que entitulou de

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Capítulo 322: dos muitos chatos que já chuparam meu saco
                                                  AvG

          Às vezes o sentimento estranho da lembrança me acomete. Estava
andando no meio da rua quando uma memória me atacou, implacável e
insolente, forçando-me a reconhecer sua existência.
          Lembrei-me dos pequenos parasitas, grudados em meu saco e chupando
meu sangue, como se eu e eles, nós, fôssemos parte de um único todo.
          Eles eram a última memória remanescente de um amor perdido. Xana,
a filha do padeiro, havia nutrido aqueles chatos e os transferidos para
mim. E me causava um pouco de dó ter que retirá-los, de forma que eu estava
sempre adiando a visita ao médico.
          Ela terminara comigo porque eu roubava suas calcinhas. Toda vez
que transávamos, ela perdia sua calcinha e punha a culpa em mim. Eu tinha
particular orgulho pelas calcinhas menstruadas, que até hoje conservam o
cheiro.
          Mas tergiverso. Chato é que nem cupim, depois que se instalam é
difícil livrar-se deles. Estão sempre bebendo seu uísque, melando suas
revistas e ocupando seu banheiro.
          Eram tempos difíceis aqueles. E parecia natural que uma
dificuldade natural como chatos se instalasse na sua vida. Eles coçam.
Ardem. Engordam. Se reproduzem e morrem. Fazem tudo aquilo que você também
quer fazer, então não há sentido em culpá-los.
          Eram tempos difíceis em que eu decidira me aposentar da escrita.
Não havia sentido. A realidade suplantara toda e qualquer obra de ficção.
Na Alemanha um casal matara o filho de um ano de desnutrição, pois eram
vegetarianos e a mulher se recusara a amamentar, dando-lhe leite de amêndoa
no lugar do leite materno. Desnutrição e pneumonia, pois o bebê sem leite
materno era também obviamente desprovido de anticorpos. Outro casal alemão
descobrira, depois de cinco anos de casamento, que o motivo de sua
infertilidade era a ausência de sexo, que eles desconheciam ser necessário
para a reprodução. Na América Latina um prefeito de cidadezinha fora
currado e fotografado sendo currado para persuadi-lo de conceder um
benefício fiscal ao currador. Em dado local da Ásia 97% da população
acreditava que os políticos eram honestos. Na África epidemias estavam
voltando pois autoridades religiosas proibiam vacinação. Ah sim, e claro, a
patética guerra ao terror continuava.
          Peguei uma cerveja e sentei-me no chão. Era engraçado observar e
pensar naqueles bichinhos lá embaixo. Para eles eu era o Universo. Poderia
ser tanto um Universo malvado punindo-os com desgraça, quanto um Universo
bondoso, recompensando-os com fartura. Quais maravilhosos sentimentos não
os percorriam quando sugavam o sangue fresco? Quais fantásticas fantasias
não possuíam? Quantos projetos? Quantos prazeres triviais?
          Talvez tudo isso fosse apenas delírio de uma mente bêbada. Talvez
eles apenas sugassem como autômatos, uma vez que conceitos como dor e
prazer são conceitos humanos, dificilmente aplicáveis a insetos. Mas é
difícil não crer que uma espécie de euforia biológica não tomasse conta
deles, algum mecanismo evolutivo que induzisse algo remotamente relacionado
a prazer e, conseqüentemente, mantivesse a espécie existente, pois seus
muitos membros, em busca do prazer, fartariam-se no sangue de minhas partes
íntimas.
          Afinal, se era dali que eu extraia o prazer máximo de minha vida,
não seria justa que justamente dali, extraíssem eles o prazer máximo das
suas existências?
          Eu e meu saco ficamos horas e horas pensando. A tevê estava
ligada, mas a programação acabara e apenas ruído de estática era exibido na
tela. Aquilo me excitava.
          De alguma forma, era como se aquele emaranhado de chuviscos fosse
uma sedutora atriz procurando minha glande.
          Era como se aquele emaranha de rabiscos fosse uma sensual silhueta
se despindo para mim.
          Comecei a me masturbar. O fluxo sangüíneo elevado excitou os
chatos e eles começaram a beliscar ferozmente. O mundo girava e alucinava a
medida em que eu aumentava mais e mais a velocidade e eles picavam com mais
e mais fúria. Às vezes, sem querer, alcançamos a perfeição.

#28 De: Anacreonte Fonjic <anacreonte@...>
Data: Sáb, 13 de Nov de 2004 3:37 am
Assunto: Novolan - Das muitas qualidades perdidas por Dudu Trinidad
anacreontefo...
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Anacreonte Fonjic está de folga esperando por respostas de seu orientador,
isso o motivou a quebrar o autoprometido jejum de publicações e escrever o
melancólico conto conhecido como ...

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Das muitas qualidades perdidas por Dudu Trinidad
                                                  Anacreonte
                                                   0:27 am    priápico,
13/11/04  em casa

          As reminiscências do passado andavam ao meu lado agora. Milhares
de frases do falecido mendigo de mais de cem anos que me acompanhara nos
botecos da vida. Rutwanna Wers sempre dissera: há duas provas da
inexistência de deus, uma é a dor de dente, outra o filme pornô com história.
          Apesar de discordar dele e achar que o número de evidências para
tal tese eram bem maiores, confesso que entendo o ponto de vista dele. Eram
dias nublados e estranhos... e por causa disso comecei a chamá-los de dias
estranhos. Dias estranhos.
          Rutwanna tinha outra frase que parecia agradar ao pessoal do
boteco e me repetia incansavelmente: essa tua geração só não me dói mais no
saco porque os testículos já se foram na guerra!
          Nunca soube que guerra era essa, nem ele nunca explicou. Mas isso
talvez explicasse o fato de ele nunca ter tido mulher e filhos. A julgar
pelo jeito dele, poderia ser a primeira guerra mundial, ou até mesmo as
guerras napoleônicas. Embora ninguém duvidasse que ele tivesse lutado
durante a época da segunda guerra, provavelmente na Espanha, contra os
franquistas.
          Seu sotaque era estranho. Nunca soubemos se ele era húngaro,
turco, egípcio ou o que quer que fosse. O fato é que sempre que
perguntávamos ele se sentia ofendidíssimo e dizia: sou brasileiro porra,
ouviu, brasileiro igual a você. Mas isso ele não era mesmo. Viva trocando
os “as” com os “os” e tinha um sotaque de lugar nenhum do país. A única
coisa em que todos concordavam que ele se parecia genuinamente brasileiro
era afirmar categoricamente que esse país era uma merda. Daí ninguém
entender o porquê das crises de raiva quando alguém suspeitava de ele ter
uma nacionalidade outra.
          Uma vez ele me disse:
          --- Você é um idiota!
          Eu ri e olhei para ele seriamente, como sempre fazia quando não
havia nada que eu pudesse dizer. Não podia concordar por motivos óbvios,
mas tampouco queria discordar, pois sabia que isso o impediria de continuar
seu raciocínio. Pode parecer uma atitude submissa e covarde da minha parte,
mas o fato é que isso me proporcionou muitas descobertas que de outra forma
Wers me teria negado, como a vez em que ele me ensinou como fuder um poste.
          --- E por que eu sou um idiota?--- perguntei rindo
          --- Por que não se revolta com as coisas. Concorda com tudo, fica
aí parado, contemplando o mundo. E quando se fode nem sequer reclama.
          Aquilo doeu. Com que direito ele entrava na intimidade da minha
vida para fazer tais suposições? Com que direito tirava ilações?
          Paguei minha cerveja e fui para casa. E até hoje me arrependo
disso. Normalmente voltávamos Wers e eu, eu o ajudando e guiando, pois não
conseguia se equilibrar sobre as pernas no caminho para casa, parte culpa
da bebida, parte culpa da idade. Naquela noite voltei antes e nunca mais vi
Rutwanna Wers. Atropelado por um caminhão, foi o que disseram.
          É difícil carregar uma culpa quando não podemos amenizá-la. Pior
que isso, é difícil carregar uma culpa indesejada, pois culpas desejadas
podem proporcionar grandes prazeres mentais, como a vez em que com quatro
anos segurei uma galinha e bati em seu pescoço até sentir um troc. Depois,
quando acharam a galinha morta, pus a culpa no filho do vizinho, que deve
ter levado uma boa surra naquela noite.
          Mas às vezes a culpa é indesejada. E é só aí ela se torna
realmente culpa. Quando penso se poderia ter salvo o velho mendigo, chego a
conclusão de que devo mudar de assunto para não enlouquecer. Lembro que ele
me disse: minha geração se identifica pelas coisas que produz, um ferreiro
se simpatiza de outro ferreiro e por aí vai, a de seus pais se identifica
pelo que consome, usuários do shampoo tal simpatizam com outros usuários do
mesmo shampoo, a sua não, sua geração é a mais idiota que eu já vi, não
consigo entendê-la.
          Eu pensei por anos nessa frase do Rutwanna, que a repetia com
freqüência. Eu matei a charada, velho, eu matei. Minha geração é a mais
imersa no mundo das mercadorias, aquela que não consegue conceber como
humano a produção em si das coisas. Minha geração é daqueles que não vêem
os objetos como mercadorias, é daqueles que são mercadorias. Dos
neo-yuppies que precisavam valorizar seu portifólio recebendo diplomas
inúteis, das garotas e garotos de academia que precisam se bombar, enfim,
pessoas que precisam se transformar em mercadoria aceita pelo mercado para
poderem se comercializar.
          Mas de que adianta, Wers, se você morreu, e não há ninguém mais
para quem eu posso contar isso e que vá entender? Eu provavelmente prestei
atenção demais as suas perguntas e baboseiras, quando deveria ter me
limitado a rir como os outros bebuns.
          É... você estava certo, Rutwanna Wers, meu maior defeito é não
conseguir mais me indignar com as coisas que exigem indignação. Eu deveria,
eu sei. Mas a tristeza que deriva quando contemplamos as coisas e as
pessoas como são hoje é por demais forte, por demais opressora e por demais
incapacitante. Me desculpa, meu velho mendigo, deixei você morrer, e
contigo se foi o que restava da humanidade no mundo.

#27 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Qua, 11 de Ago de 2004 2:25 am
Assunto: updated: novolan - eu, um pônei, duas bisca , uma baranga e a maneira certa de fuder um poste
anacreontefo...
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ops... tinha uma frase incompleta no primeiro parágrafo, por isso reenvio
com o erro já corrigido... corrigi muitos typos também... os outros erros
permacecem... damn, meu cérebro está derretendo

>Date: Tue, 10 Aug 2004 23:13:27 -0300
>To: fonjic@yahoogroups.com
>From: Anacreonte <anacreonte@...>
>Subject: novolan - eu, um pônei, duas bisca, uma baranga e a maneira certa
>de fuder um poste
>
>
>AvG deveria ter ficado em casa e feito seu trabalho rotineiro, invés disso
>produziu outra obra degenerada que ficou conhecida com o nome de
>
>-------------------------------------------------------------------------------\
-
>
>eu, um pônei, duas bisca, uma baranga e a maneira certa de fuder um poste
>
>         Eu estava num dia estranho, daqueles que não se deve sair de
> casa. Qualquer coisa é valido, desde que se permaneça trancado em casa. É
> um daqueles tipos de comportamentos estranhos que só se adquire depois
> que o consumo de álcool acha um meio termo correto que permite o sujeito
> viver em moderada alcolidez. Uma espécie de ímpeto sem sentido que te
> obriga a ficar se movendo de um lugar para outro. E quando você percebe
> está indo de uma parede à outra, um ambiente ao outro, como se estivesse
> procurando algo, você para e grita com sua mente para que ela pare, mas
> ela continua te exigindo esse vagar a esmo.
>         E se você não controla a única saída é botar uma muda de roupa
> nas costas e sair para ganhar o mundo. Conhecer a vida de amizades fáceis
> e rapidamente desfeitas. Amizades perpétuas de uma noite só, amores que
> só duram até a ressaca começar.
>         Era um dia estranho e um momento estranho para quem tem quinze
> anos. A vida no ambiente familiar é peculiarmente sufocante e eu não
> tinha alternativas que não fossem ganhar a estrada e deixar que o mundo
> me usasse como a poeira que é soprada sobre as casas.
>         Um dia que não se deve sair de casa, como disse.
>         Era um domingo, e não havia nada para se fazer, como todos os
> domingos, desde que os malditos católicos tomaram as rédeas e começaram a
> cagar regras. Comecei a andar em direção ao nada, passei pelas ruelas
> marginais da Tindade e segui a rua principal deste triste bairro.
>         Cheguei onde inconscientemente meus pés queriam me levar. Uma
> praça. E na praça tinha uma feira. E na feira tinha umas coisas bizarras,
> tipo freak horror show. A mulher de três seios até que era gostosinha,
> mas o resto era desinteressante.
>         Tinha um cara charlatão que dava um prêmio para quem conseguisse
> domar o pônei mais feroz do mundo. Ele cobrava 1 pila por tentativa e
> dizia que pagava um milhão para quem conseguisse. Realmente era um pônei
> bizarro. E para completar o velhaco tinha posto espinhos de metal em todo
> corpo do bicho. Paguei o um pila e topei a parada. Na hora em que o bicho
> veio, não tive dúvida, subi em cima do bicho e torci pra não morrer com o
> cú rasgado.
>         O bicho regateou, regateou, mas não agüentou meu peso e arregou.
> Caiu no chão e não se mexia mais. Meu truque sujo é que no inverno eu
> usava uma calça de couro por baixo do jeans para amenizar o frio, e
> tirando a dor e uns furos na bunda e coxa, consegui me dar bem. O
> sujeito, é claro, não tinha a grana prometida, e me deixou com o que
> tinha, uns cem pila e o pônei.
>         Duas vadias loiras que assistiam tudo logo se assanharam. Me
> levaram prum canto e dizeram que queriam um ménage à quatre: eu, elas e o
> pônei.
>         Fomos para uma casinha ali perto caindo aos pedaços. Elas eram
> universitárias e moravam com mais duas amigas. Pediram para as duas
> amigas saírem e ficamos os quatro a sós. Elas acenderam um baseado e
> começaram a fumar e se esfregar em mim e no pônei. Eram feias como o
> diabo, e nem eu nem o pônei estávamos ficando excitados. Me partiu o
> coração fazer aquilo com o pobre animal, mas eu precisava de uma fuga. O
> ar intoxicava com uma mistura de maconha, incenso e bosta do pônei, que
> se aliviara por ali. Eu tentava justificar para mim mesmo que eu não
> teria o que fazer com o pônei, ainda assim não acho justo o que fiz com
> ele e tenho pena até hoje. Desafiei as duas bisca a conseguirem juntas
> botar todo o treco dele na boca, e enquanto estavam ocupadas tentando,
> pulei a janela e me mandei.
>         Cheguei no boteco da esquina e comecei a beber todo o dinheiro
> que ainda estava comigo. Uma certa paz me subiu à mente e aliviou a
> consciência pelo que eu fizera ao pobre animal. Peguei uma baranga
> perdida no canto do bar e comecei a pagar-lhe doses de conhaque e
> lamber-lhe o pescoço. Algumas horas depois eu já tinha conseguido
> beijar-lhe a boca e lamber um dos mamilos. Ela foi no banheiro e, como
> demorava, resolvi partir.
>         Estava a caminho de casa. Já era noite. Mais uma noite perdida.
> Encontrei um velho bêbado que costumava dormir na rua e ele se propôs a
> me ensinar seu segredo contra noites perdidas. E eis que vêm o momento
> que todos aguardavam: seu segredo consistia num método preciso e
> engenhoso. Era preciso achar um poste cujos fios fossem conduzidos
> externamente por canos de PVC. Em seguida tocar nos canos e nos postes
> para ter certeza de não haver nenhum vazamento de energia. Depois
> botava-se um papelão entre os canos e o poste para evitar ralar o pau no
> cimento, alargava-se um pouco os canos e botava o pau ali. A sensação era
> boa. Primeiro uma pressão quase insuportável na glande. Em seguida você
> abraça o poste e começa com uns beijos. A coisa começa a bombar e a dor
> passa. E quanto mais a coisa bomba, mais ela força os canos, e mais
> pressão se sente. Logo a coisa chega num ritmo frenético e em cinco
> minutos você já está cobrindo o poste com sua própria seiva branca.
>         Eu me sentia finalmente saciado.
>         Tirei o pau, limpei-o num jornal tirado do lixo e sentei-me ao
> lado do velho para bebericarmos. Aquele velho era realmente um gênio. Fui
> para casa satisfeito e nunca mais passei por outra noite de necessidades,
> o bom poste estava lá com suas manchas para saciar meu amor.

#26 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Qua, 11 de Ago de 2004 2:13 am
Assunto: novolan - eu, um pônei, duas bisca, uma baranga e a maneira certa de fuder um poste
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AvG deveria ter ficado em casa e feito seu trabalho rotineiro, invés disso
produziu outra obra degenerada que ficou conhecida com o nome de

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eu, um pônei, duas bisca, uma baranga e a maneira certa de fuder um poste

          Eu estava num dia estranho, daqueles que não se deve sair de casa.
Qualquer coisa é valido, desde que se permaneça trancado em casa. É um
daqueles tipos de comportamentos estranhos que só se adquire depois que o
consumo de álcool acha um meio termo correto que permite o sujeito viver em
moderada alcolidez. Uma espécie de ímpeto sem sentido que te obriga a ficar
se movendo de um lugar para outro. E quando você percebe está indo de uma
parede à outra, um ambiente ao outro, como se estivesse algo. E você para e
grita com sua mente para que ela pare, mas ela continua te exigindo esse
vagar a esmo.
          E se você não controla a única saída é botar uma muda de roupa nas
costas e sair para ganhar o mundo. Conhecer a vida de amizades fáceis e
rapidamente desfeitas. Amizades perpétuas de uma noite só, amores que só
duram até a ressaca começar.
          Era um dia estranho e um momento estranho para quem tem quinze
anos. A vida no ambiente familiar é peculiarmente sufocante e eu não tinha
alternativas que não fossem ganhar a estrada e deixar que o mundo me usasse
como a poeira que é soprada sobre as casas.
          Um dia que não se deve sair de casa, como disse.
          Era um domingo, e não havia nada para se fazer, como todos os
domingos, desde que os malditos católicos tomaram as rédeas e começaram a
cagar regras. Comecei a andar em direção ao nada, passei pelas ruelas
marginais da Tindade e segui a rua principal deste triste bairro.
          Cheguei onde inconscientemente meus pés queriam me levar. Uma
praça. E na praça tinha uma feira. E na feira tinha umas coisas bizarras,
tipo freak horror show. A mulher de três seios até que era gostosinha, mas
o resto era desinteressante.
          Tinha um cara charlatão que dava um prêmio para quem conseguisse
domar o pônei mais feroz do mundo. Ele cobrava 1 pila por tentativa e dizia
que pagava um milhão para quem conseguisse. Realmente era um pônei bizarro.
E para completar o velhaco tinha posto espinhos de metal em todo corpo do
bicho. Paguei o um pila e topei a parada. Na hora em que o bicho veio, não
tive dúvida, subi em cima do bicho e torci pra não morrer com o cú rasgado.
          O bicho regateou, regateou, mas não agüentou meu peso e arregou.
Cai no chão e não se mexia mais. Meu truque suje é que no inverno eu usava
uma calça de couro por baixo do jeans para amenizar o frio, e tirando a dor
e uns furos na bunda e coxa, consegui me dar bem. O sujeito é, claro, não
tinha a grana prometida, e me deixou com o que tinha, uns cem pila e o pônei.
          Duas vadias loiras que assistiam tudo logo se assanharam. Me
levaram prum canto e dizeram que queriam um ménage à quatre: eu, elas e o
pônei.
          Fomos para uma casinha ali perto caindo aos pedaços. elas eram
universitárias e moravam com mais duas amigas. Pediram para as duas amigas
saírem e ficamos os quatro a sós. Elas acenderam um baseado e começaram a
fumar e se esfregar em mim e no pônei. Eram feias como o diabo, e nem eu
nem o pônei estávamos ficando excitados. Me partiu o coração fazer aquilo
com o pobre animal, mas eu precisava de uma fuga. O ar intoxicava com uma
mistura de maconha, incenso e bosta do pônei, que se aliviara por ali. Eu
tentava justificar para mim mesmo que eu não teria o que fazer com o pônei,
ainda assim não acho justo o que fiz com ele e tenho pena até hoje.
Desafiei as duas bisca a conseguirem juntas botar todo o treco dele na
boca, e enquanto estavam ocupadas tentando pulei a janela e me mandei.
          Cheguei no boteco da esquina e comecei a beber todo o dinheiro que
ainda estava comigo. Uma certa paz me subiu à mente e aliviou a consciência
pelo que eu fizera ao pobre animal. Peguei uma baranga perdida no canto do
bar e comecei a pagar-lhe doses de conhaque e lamber-lhe o pescoço. Algumas
horas depois eu já tinha conseguido beijar-lhe a boca e lamber um dos
mamilos. Ela foi no banheiro e, como demorava, resolvi partir.
          Estava a caminho de casa. Já era noite. Mais uma noite perdida.
Encontrei um velho bêbado que costumava dormir na rua e ele se propôs a me
ensinar seu segredo contra noites perdidos. E eis que vêm o momento que
todos aguardavam: seu segredo consistia num método preciso e engenhoso. Era
preciso achar um posto cujos fios fossem conduzidos externamente por canos
de PVC. Em seguida tocar nos canos e nos postes para ter certeza de não
haver nenhum vazamento de energia. Depois botava-se um papelão entre os
canos e o poste parta evitar ralar o pau no cimento, alargava-se um pouco
os canos e botava o pau ali. A sensação era boa. Primeiro uma pressão quase
insuportável na glande. Em seguida você abraça o poste e começa com uns
beijos. a coisa começa a bombar e a dor passa. E quanto mais a coisa bomba,
mais ela força os canos, e mais pressão se sente. Logo a coisa chega num
ritmo frenético e em cinco minutos você já está cobrindo o poste com sua
própria seiva branca.
          Eu me sentia finalmente saciado.
          Tirei o pau, limpei-o num jornal tirado do lixo e sentei-me ao
lado do velho para bebericarmos. Aquele velho era realmente um gênio. Fui
para casa satisfeito e nunca mais passei por outra noite de necessidades, o
bom poste estava lá com suas manchas para saciar meu amor.

#25 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Sex, 30 de Jul de 2004 3:25 pm
Assunto: Novolan - As melhores coisas da idade
anacreontefo...
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Fonjic vem a algum tempo matutando na composição de mais uma obra, que
lança aos leitores com o título de...

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As melhores coisas da idade
                                Fonjic

  	 Era pouco depois do meio-dia e milhares de pensamentos esvoaçavam em
minha cabeça. Mas nenhum deles era o realmente certo. Mas não importa,
noventa e três anos é assim mesmo, é uma idade de merda.
	 Tentei me mover na cadeira, mas desisti.Tenho emagrecido muito ultimamente
e as pelancas da carne se grudam na madeira e fica doloroso se mexer.
Tentei achar uma melhor posição e dei um cochilo.
	 É foda, pensei. Todos acham que nesta idade o cara não se interessa mais
por mulher. Mas é o contrário, noventa e três é uma idade magnífica nesse
sentido, pois toda mulher parece uma menina cheia de amor pra dar. Tem uma
vizinha perto dos setenta que vem aqui de vez em quando e ainda é uma flor
de formosura. Quando eu finalmente consegui vencer a resistência daqueles
vestidos velhos ela vai ver que nós homens de antigamente é que sabíamos
como deixar a coisa dura.
	 Mas tem que ser no dia certo. Ela não vem todo dia e não é todo dia que o
cão véio pega no tranco. Na maior parte das vezes que o treco sobre eu
estou sozinho, então tenho que recorrer à memória e aproveitar com uma
solitária antes que o vigor passe.
	 Hoje mesmo eu tive uma oportunidade. Lembrei de um filme que eu vira na
adolescência e o bicho subiu com uma força que há tempos não tinha. Afastei
a manta de lã do colo, desci o feixe éclair da calça de linho, abri caminho
entre as ceroulas, entre as cuecas, arrastei pro canto o fraldão geriátrico
e tirei o monstrengo pra fora.
	 Comecei a bater com empolgação e senti que arfava logo nos primeiros
trinta segundos. Fiquei tonto. Uma quentura boa me envolveu e pude ver
Marlene Dietrich nua na minha frente como naquela vez em que nós
encontráramos na Riviera Francesa. Sonhei com mil carícias e aventuras de
capa e espada ao lado das mulheres famosas do cinema, mas quando acordei
deparei-me com o treco murcho e morto no meio das pernas.
	 Guardei-o novamente e tentei me consolar pensando: "melhor assim, guardo
para quando eu precisar com mais urgência". É claro que eu nunca me
encontrara com Marlene Dietrich, nem estivera nas praias de nudismo da
Riviera onde os peitões se expõem ao sol como grandes frutos aguardando o
momento da maturação. Comecei a me imaginar passeando pelas praias e
colhendo os peitos maduros que reluziam ao sol e cochilei de novo.
	 Acordei algum tempo depois. O sol ainda não tinha baixado, então acho que
ainda era de tarde. Acordei porque me sacudiam e era uma bisneta de quinze
anos que cuida de mim e tinha vindo ver se eu já molhara os fraldões.
	 "Tá seco ainda, bisa" ela disse. E me olhou com aquela cara de safada que
todas as moças têm aos quinze anos. Eu gostava quando ela mexia no troçolho
de cá pra lá e de vez em quando eu pedia pra ela conferir de novo. Quando a
família imcumbiu ela da tarefa ela tinha muita vergonha, mas hoje ela já se
convenceu que ali não tem mais vida e mexe com bastante profissionalismo.
	 Ah, mas essas carnes velhas e maltratadas têm ainda um pouco de vida e de
vez em quando o treco fica tão vivo que quase foge das mãos dela. Ela não
se importa. Eu finjo que não percebo nem sinto nada. Ela pensa que é algum
espasmo involuntário. De vez em quando, quando consigo acabar uma punheta,
acabo me esporrando todo e fico sem ter como me limpar. Quando ela vem e
percebe o que é aquilo logo reconhece (já está madura essa menina) e logo
fica vermelha. Pega um pano e começa a limpar a coisa grudenta ressecada.
Às vezes me dá bronca e pergunta o que é aquilo. Eu digo que velho é assim,
tem sempre algo vazando.
	 E depois de limpar ela se vai com aquele corpo perfeito e aquela bunda
perfeita dentro da roupa minúscula de adolescente. Eu lembro da minha
infância no bananal nos fundos de casa, quando pegávamos bananas velhas e
vovó dizia (hoje ela teria 140 anos): "banana murcha não enche barriga,
menino". É, eu sei vovó, mas ainda hoje essa banana de vez em quando enrijece.
	 Então novamente lembro de Marlene Dietrich e Jane Fonda. E quando acordo
já é noite e estão me pondo na cama. O treco continua cabisbaixo.

#24 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Dom, 25 de Jul de 2004 10:11 am
Assunto: novolan - A história da humanidade em zero partes
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Anacreonte resolve romper com a solidão e o exílio de sua auto clausura e
se pronuncia uma vez mais em uma história conhecida como ....


A história da humanidade em zero partes
                                                          Fonjic

          Sete anos. Eu era moleque de sunga na praia e lembro de ter
passado por mim a mulher mais bonita do mundo. Eu não tinha na época a
mínima idéia do que fazer com aquilo, mas aquelas mulher tinha de fato
PERNAS incríveis e COXAS incríveis e um volume no meio das PERNAS E COXAS
mal e mal escondido pela calcinha do biquíni que fazia alguma coisa mais
forte do que eu despertar dentro de mim. Uma espécie de vontade de chorar
sem saber porque. Algo que doía muito e era bom ao mesmo tempo. Algo que me
dava vontade de me jogar na areia e ficar tendo convulsões musculares.
          Eu jamais poderia saber o que era isso aos sete anos, pois nem
mesmo hoje consigo ao certo dizer. Mas sei que dali em diante aquela mulher
passou a representar a perfeição. Aquilo que eu, por algum desconhecido e
misterioso  motivo, deveria batalhar minha vida para ter. Aquilo que dava
sentido a um mundo onde sentidos não existem ou, quando existem, se
desmanchavam no ar. Aquilo que justificaria crescer, estudar e trabalhar.
Aquilo que seria a justificativa final para tudo.
          Anos mais tarde, na quinta série, eu tinha dez anos. Aquele algo
ganhou nome. Meu caríssimo colega de aula Wagner um dia se virou para mim
no meio da aula de português e falou: a professora tem um bocetão!!!
          E era verdade. Havia um volume no meio daquelas pernas joviais que
pareciam emitir uma canção solitária e aconchegante, um odor insensível que
fazia o pulmão se encher de um ar inebriante, de um prazer que só mais
tarde eu descobriria nos gargalos do álcool. Daquele dia em diante a coisa
ganhara nome. Um nome que se marcaria como um anagrama em meu tecido
cerebral e seria matriz geradora para toda a posterior evolução do
desenvolvimento sináptico e intelectual. Pois a palavra buceta se
armazenara em meu cérebro formando uma geometria de sinapses, que dali em
diante serviu de modelo para toda a posterior replicação e armazenamento de
qualquer conhecimento. Boceta. Boceta. Buceta.
          Ali se consagrou o fato que, a despeito das dúvidas de todo mundo
em casa, viria se confirmar: eu não era nem viraria viado. E ali também se
desenhou o gancho para que em minhas memórias eu relembrasse aquele aroma
de outono na praia, uma aroma de outono não do cachorro de Ray Bradbury,
mas da coisa que eu vira aos sete anos e agora adquirira nome: BUCETA!!!.
          E essas certas indistinguíveis e intangíveis sensações são tão
marcantes que lembro de aos sete anos, ainda atordoado pelo impacto daquela
mulher em forma de coxas que por mim passara, ter ido ter com o filho dela
e perguntado o que era aquilo, o que a mãe dele era.
          A resposta do pequeno moleque era de que a mãe era engenheira
mecânica. E eu cresci com a ilusão de que era aquilo que eu queria do
futuro, que aquilo só podia ser a melhor coisa do mundo, algo no qual você
se deita entre as pernas e não quer nunca mais sair.
          E foi desde os meus sete anos de idade que cometi o primeiro erro
estatístico da vida, um erro de amostragem, mais precisamente, pois
descobri à duras penas que não era possível fazer uma generalização à
partir de uma amostragem de um único espécime.
          Daquele momento em diante dediquei minha vida aos estudos e com
folga consegui sucesso em entrar, dez anos mais tarde, no curso de
engenharia, apenas para descobrir que o que eu vira na infância não era a
regra, mas sim a exceção.
          Tudo que eu vi lá não era a beleza que eu conhecera na infância,
apenas a feiúra. E por perder o parâmetro que diferenciava a beleza da
feiúra minha própria vida entrou em colapso e desci aos porões mais úmidos
da condição humana, experimentado as mulheres mais feias da humanidade como
quem acha natural a feiúra. Pois feiúra tornou-se para mim sinônimo da vida
e natural era que eu quisesse me imiscuir à ela.
          Até que tudo chegou a um ponto em que as coisas não poderiam mais
continuar do jeito que estavam e tudo precisava mudar ou piorar de vez. A
decadência se tornara total e exigia de mim uma ação. Mas esses são eventos
que envolvem um padre, uma sacristão manco e uma anã albina transando no
altar de conhecida igreja. Mas essa é outra história e por enquanto é
melhor não falar sobre tais assuntos.

#23 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Ter, 29 de Jun de 2004 1:28 am
Assunto: Novolan - duas cerveja, dois cigarro e um pote de mel no fim do arco-íris
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Anacreonte perdeu de vez o talento e seus leitores já o abandonavam quando
deu o que parecia um último suspiro entitulado:

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duas cerveja, dois cigarro e um pote de mel no fim do arco-íris
                                                          Fonjic
                                                          22:25 - Metático,
28/06/04 - em casa

          Hoje conheci um velho foda. Uma criança de setenta anos chamada
Flávio Tavares. Um dos remanescentes de uma geração que ainda teve alguma
moral pra chamar a nossa de caga-bostas, a geração de meu avô, cuja única
falha foi gerar uma cria maldita como a geração de meus pais.
          Isso me dá a esperança de eu comece a escrever decentemente quando
tiver meus setenta...
          Embora ele tivesse o direito de achincalhar minha geração, não o
fez. Na verdade ele acabou lembrando dos próprios membros da geração dele,
dos amigos de infância que desistiram de ler seu livro ao abrir no primeiro
capítulo e encontrar a narração de uma seção de tortura com choque no saco.
Isso dói só de imaginar, dá pra entender o desânimo dos vovôs ao ler tal coisa.
          Meu avô costumava vir aqui em casa virar steinhager com meus
amigos. Bando de filhos da puta os que nasceram nos anos 20 e 30. Apenas um
amigo meu conseguia acompanhá-lo, mas acho que de alguma forma isso estava
relacionado ao fato de ele ter se formado em naturismo. Toda aquela
viadagem de andar pelado pra cá e pra lá lhe dava algum ânimo.
          Mas eu nunca fui torturado com choque nos sacos, e sou grato a
isso. Todas as namoradas que me sugeriram isso na adolescência como
brincadeira sensual já se foram, e eu resisti bravamente. O mais perto que
cheguei disso foi ser mordido na virilha, às seis da manhã, por um cara que
achava que tinha virado vampiro. Mas isso já está viado demais e é melhor
parar por aqui. Na virilha eu disse, ênfase nisso, nem no saco nem ali por
perto. Bem, foi mais pra perto da coxa, na verdade, quase no joelho.
          Depois fui comprar carne na promoção. A promoção acabara. Fui
comprar uma estante na promoção. As estantes acabaram. Eu era um fracasso.
Tinha meu nome lá no verbete do dicionário. Senti saudades do tampo do
racionamento, em que eu acordava de manhã pra ir com pais comprar leite
pois era limitado a dois litros por pessoa. Chegava atrasado na aula, esse
era o maior prêmio.
          Um leitor me mandou um conto seu. Um elevador lotado, alguém
peidava e um índio, em pânico, arrombava a porta e fugia. Bom roteiro, bom
saber que alguém se preocupa com o resgate dos valores da comunidades
indígenas.
          Outro leitor me mandou uma carta ameaçadora. Se eu não parasse de
divagar e voltasse a escrever coisas com sentido ele me mandava uma carta
bomba.
          Isso tudo eram detalhes que absorviam meus pensamentos quando
cheguei em casa e peguei minhas duas cervejas na geladeira. Despejei na
jarra de leite e tomei tudo como se ali estivesse a salvação.
          Nada.
          Fumei um cigarro. Dois. Três, mas para efeitos literários resolvi
que omitiria o terceiro.
          Ainda assim, nada.
          Meditei sobre a salvação do universo.
          Nada. De novo.
          Eu era um fracasso. Deitei pelado no escuro tentando dormir e ouvi
aquele barulho característico de bater de asas. Lá estava. Parada ao meu
lado, mantendo-se no ar apenas pelo lento bater de suas asas, a grande
vulva colossal. Brilhando em púrpura. Sedenta pelo meu corpo e minha mente.
Sedenta de calar minha buscas por respostas.
          Fiquei ali parado, como sempre, assistindo aquele espetáculo
grandioso que embalava meus sonhos mais belos. Os lábios se abriram mais e
mais e o grande jorro do fluído vaginal começou. Escorria pro chão e
espirrava esguichos nas paredes e no teto. Um arco-íris se formou quando
uma réstia de luz que passava pela cortina cortou os vapores vaginais em
suspensão.
          Eu estava quase dormindo e deixei que meu corpo levitasse por
aquele arco-íris rumo ao prazer. Um grande pote de mel dourado escorria e
ali lembrei que a felicidade era possível.
          Mais um dia de trabalho concluído.

#22 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Ter, 8 de Jun de 2004 2:23 am
Assunto: Novolan - Sinfonia da derrota
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Fonjic passou muito tempo se abstendo da escrita para ver se trabalhava
mais, e o resultado foi um mês sem trabalhar nem escrever, de forma que ele
rompe seu jejum em mais uma peça de esperança e felicidade que John Kassir
narrou pelo nome de ...

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Sinfonia da derrota

          A bebida me levou à insônia. E a insônia me levou a mais bebida. E
essa é a fórmula geral da felicidade que sustêm juntos os laços da realidade.
          Ruídos de merda saíam de meus dedos, enlouquecendo. Tudo parecia
fazer parte da enorme sinfonia do desconforto. Eu perdera a sanidade, e
logo levariam de mim todos os títulos que eu conquistara. Desde a medalha
do verme conquistador até o obelisco de marfim.
          Elefantes morango-achocolatados invadiam meus pensamentos e eu
sabia que era o fim. Meu talento acabara. Queijo Cheddar de Pennis Altíssimus.
          A campainha toca e é uma vendedora de escravas brancas. Hoje ela
tem em promoção uma menina belga de doze anos que já sabe chupar como gente
grande. Eu digo que estou sem dinheiro e fica pra outro dia.
          A casa de um escritor é seu espaço impenetrável e incompreensível.
A casa violada de um escritor é como um caramujo com a concha encharcada de
esperma, inútil e impossível de ser habitada.
          A campainha toca novamente e é a síndica. Veio me avisar que eu
ando muito recluso e corro o risco de ser expulso do prédio acusado de
comportamento anti-social. Eu prometo a ela que dedicarei mais tempo para
andar pelo pátio e sorrir para as pessoas. Isso a faz contente e ela me
deixa novamente em paz. Na paz de meus tormentos pessoais incessantes.
          Fecho os olhos e sonho. O cansaço é tanto ultimamente que não
consigo mais o sono interrupto, de forma que ele me assalta em pequenos
intervalos ao longo do dia. Sonho com um austríaco barbudo que me convida a
atravessar um jardim de pedra. Whadda fock? Pergunto a ele em um inglês
polido e ele me explica que me encontrará do outro lado.
          Em um minuto ele sumiu e tudo que restou sou eu e as pedras. A
imóveis insípidas e insignificantes pedras, que enfeiam a paisagem. Ainda
assim o clima de sombria secura me assusta e eu sei que jamais serei capaz
de tocar nas pedras deste jardim. O jardim de pedras. Cada pedra é um seio
a ser tocado, uma vulva a ser penetrada.
          Me excito com a idéia de encontrar nas pedras algum buraco onde eu
possa me enfiar e fuder a pedra até que o sangue brote. Você é um
incorrigível, Anacreonte, berra o fantasma do natal futuro. Vai te fuder,
eu respondo, eu nem sequer leio Dickens. A vez se cala. Meu Dickens já não
pulsa mais ansioso pelas pedras e eu percebo que isto é um trocadilho
horroroso. Tudo de muito mal gosto, inclusivo o jardim de pedras feito de
isopor e gesso. Um cenário falso e grotescamente patético. Meus sonhos têm
essa capacidade estonteante de se perverterem em réplicas mal-feitas deles
mesmos. Corte de orçamento, é isso, o cérebro está tão esgotado que nem se
esforça mais em fazer sonhos decentes.
          As pedras começam a desabar e derreter, como isopor na gasolina.
Percebo o quanto tudo é mal-feito, a começar pelo principio. A própria
idéia de um jardim de pedras de inalcançável erotismo vem do sobrenome de
uma atriz dinamarquesa morta cujo filme assisti de madrugada e me
entristeci em saber que jamais tocaria naqueles seios convidativos. Jardim
de pedra era o sobrenome dela na bela língua de Hamlet.
          A simples tomada de consciência disso criou um pânico no jardim,
como se eu pronunciasse em voz alta um terrível segredo que devesse ficar
calado. Acordo suando caído no chão da cozinha. Minha cerveja está em pé do
meu lado e eu fico feliz por ter conseguido desmaiar sem derrubar a
cerveja. Ainda está gelada, de forma que tudo deve ter durado pouco mais
que alguns minutos.
          Vou em todas as portas e janelas do meu apartamento e verifico se
está tudo trancado. Tudo tranqüilo, ninguém entrou enquanto eu estava
apagado. É preciso ficar de olho neles, meu caro, minha voz interna diz. Eu
sei, respondo. Você está ficando paranóico, meu caro, louco, louco, diz a
voz. É... eu sei, respondo. E isso não é nada bom, meu caro, insiste a voz.
É... é... eu sei.

#21 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Sex, 30 de Abr de 2004 12:45 pm
Assunto: Novolan - dias que os títulos não dão conta de narrar
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Fonjic talvez tenha ouvido Wander Wildner demais ou visto na tevê filmes
demais ou lido livros demais ou ficado tempo sozinho demais ou matado aulas
demais mas o fato é que escreveu um novo conto que será chamado de ...

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dias que os títulos não dão conta de narrar
                                  Fonjic


          Eu andava sem rumo pelas ruas, não me lembro ao certo se de
Floripa, Oslo ou Leningrado. O vinho da noite anterior não caíra bem e eu
fizera mais uma anotação mental de combinações desaconselháveis: vinho vô
luiz com chocolate, definitivamente seus efeitos não eram agradáveis.
Sentia o estômago convulsionando e a garganta amargando e o corpo suando e
a mente pulsando e tudo que eu queria era andar, andar, andar e andar sem
destino até que a dor amainasse. Uma música me acompanhava mentalmente e eu
podia quase, quase relembrar a letra. Fragmentos esparsos de memórias
vinham trazendo pequenos trechos. oh walk away...
          Sim, era uma peça de música memorável. Como todas as outras do
baixinho que cantava frases perfeitas como "maybe life is a losing game".
Sim, ele tinha sacado a coisa da maneira certa e feito a música mais triste
que já ouvira. Tentei me animar um pouco lembrando de trechos da série dos
Monty Python, mas nem John Cleese iria me animar naquele dia. Eu estava num
lugar estranho, num dia frio, andando à esmo, sem motivações e nada pior
poderia acontecer, a não ser aquilo que aconteceu. she's loookin to love you...
          Encontrei Azaléia, uma das muitas mulheres que parara de dar pra
mim quando notou o fracassado que eu era. Nunca descobri ao certo o que
aconteceu, o fato é que com o tempo mais e mais a voz dela começou a soar
cínica e seu riso falso e seu olhar de escárnio. E eu era jovem e estúpido
e insensível e cretino e por mais que eu fosse completamente louco por ela
na época em que estávamos juntos, eu tinha certeza que era eu quem iria
acabar fazendo merda e destruindo tudo. Vinha ela em sentido oposto ao meu
na rua e só notei tarde demais, quando já não era mais possível desviar ou
fingir que não a vira ou fechar os olhos e seguir cantando a música que me
atormentava os pensamentos. there's nothing to say...
          Paramos frente a frente sem termos como desviar ou fingir que não
nos vimos. Oi, oi. Tudo bem, tudo bem. Sua voz estava amarga e parecia
brotar com sarcasmo. A coisa toda parecia ter atingido ela muito mais que
eu. Seus olhos me acusavam e eu nem sabia ao certo do que, pois havíamos
passado a maior parte do tempo bêbado. Bem, talvez não ela, mas eu sim. O
silêncio era desconfortável, mas não tanto quanto as palavras secas que ela
acabara de dizer. Havia ódio nela e eu me sentia tão culpado que sabia que
não havia nada no mundo que eu pudesse fazer, não para me redimir, mas para
parar de me sentir assim. Eu afinal fora o canalha no fim e ela parecia
esperar que eu dissesse algo como "desculpa", ou "foi mal" ou um "vamos
tomar um café e tentar de novo". Mas apesar da lembrança das coxas e dos
peitos e dos cabelos e do aroma dela eu não me sentia com vontade de
reiniciar nada mais. Por pior que eu estivesse, sabia que estaria melhor
sozinho. Ainda assim aquela amargura na voz dela me incomodava e me fazia
sentir pior e quase cheguei a esquecer a música que ainda mentalmente
cantarolava. just turn your head and...
          "Então, como vai a vida?" eu disse, e pude perceber que em minhas
palavras também havia ódio e rancor e um certo cinismo de vitória porque
por mais fudido que eu estivesse e eu tinha, naquele momento, a certeza de
que estava bem melhor que ela. Não havia nada aparente nisso que pudesse
justificar meu pensamento. Ela estava melhor vestida, melhor cuidada,
melhor nutrida, melhor perfumada e quem olhasse de longe poderia até mesmo
perceber certo brilho de vitória que pairava ao redor dela contrastando com
meu ar de fracasso. Senti um profundo ódio que brotava em mim e lembrei de
todas as noites em que estávamos juntos e eu a odiara profundamente e
simplesmente fugira. Lembrei de como a voz, o riso o olhar, o aroma e as
pernas delas me faziam odiá-la e de quão horrível foi o tempo em que
estivemos juntos e o alívio que veio com a separação. Pensei tudo isso em
fração de segundos enquanto a música continuava a tocar em minha mente e
ela movia lentamente os lábios iniciando sua resposta que, ambos sabíamos,
eu não estava interessado. Nem saíra ainda o primeiro som de sua garganta e
eu corria pela rua, histérico de desespero e alegria, gargalhando alto ao
mesmo tempo em que chorava de alíviado, por finalmente entender porque
nunca tínhamos dado certo juntos. walk away...

#20 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Sáb, 17 de Abr de 2004 12:20 am
Assunto: Novolan - Tchuchukays from outer space
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Anacreonte ficou tão contente com seu dinheiro que recebeu hoje que
escreveu mais um conto onde se descobre que ele se curou de vez da loucura
e falta de talento... ou agora é que piorou mesmo...

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Tchuchukays from outer space
                                                          Fonjic

          Era um daqueles dias quentes e agradáveis em que tudo que o cara
quer é sentar de cueca numa poltrona com uma cerveja gelada na mão e sentir
o corpo derretendo em suor, que é rapidamente absorvido pelo tecido
engordurado e encardido.
          Simples, direto e objetivo.
          Nada mais me importava. Zapeei os canais de TV para me certificar
de que passava o mesmo lixo de sempre e desliguei. Meu salário atrasado
finalmente chegara e apenas ficar lá, a sós, sentado, sem fazer
absolutamente nada, era muito mais do que a maioria da população conseguia.
A grande maioria estava em casa lotadas de filhos e parentes e vizinhos e
cunhados (que não é parente) e animais e barulhos e rádios e tevês e jogos
eletrônicos e toda sorte de parafernália feita para deixar o homem moderno
exausto demais para que o pau levante.
          Fiquei a sós comigo mesmo sentindo os movimentos e barulhos
internos de meu estômago enquanto o mesmo recebia a cerveja e processava
sua saída. A paz finalmente havia chegada para mim, nem que fosse por
alguns milésimos de segundos.
          Lá fora um zumbido que começara muito baixo tornava-se cada vez
mais alto, e quando me dei conta uma música pop muito alta começou a tocar
e pelas janelas do meu apartamento começaram a entrar dúzias de mulheres
semi-nuas. De bíquinis, para ser mais exato.
          Pareciam todas na faixa dos dezoito aos vinte anos, quase
adolescentes, com seios desproporcionalmente grandes e bundas e pernas
modeladas. Eu morava no quinto andar e não tinha menor idéia de como aquele
bando de mulheres fizera para entrar, nem por que estavam ali.
          Tudo que eu sei é que dançavam e pulavam e se esfregavam e
beijavam e gritavam e pareciam curtir muito ao som daquela música que vinha
sabe-se lá daonde. Eram ao todos umas vinte ou trinta, com ampla
representatividade étnica incluindo loiras, ruivas, morenas, japonesas,
negras, índias, inuits, e algumas outras etnias que não soube identificar.
Juntavam-se em pares trios e até um grupinho com cinco e esfregavam os
seios uns nos outros de forma que parecia que iriam estourar como grandes
balões inchados. Naquele momento eu podia jurar que havia mais silicone no
meu apartamento que em todo o resto do planeta.
          Pensei em gritar para botar uma ordem naquela zorra. Pensei em ter
uma ereção e ficar ali assistindo elas. Pensei em muitas coisas mas nenhum
pensamento teve tanto peso em minha cabeça quanto o de quanto eu estava de
saco cheio e queria um pouco de silêncio por ali. Esbocei um grito, mas
tudo que saiu foi uma voz rouca quase inaudível. Percebi que algumas
garotas mais afoitas já começavam a tirar a roupa e outras vinham tentar
sentar-se no meu colo, caso eu não as espantasse abanando com as mãos.
          Levantei-me e comecei a caminhar pela casa. Tinha que ter algum
truque naquilo ali. Tinha que ter uma explicação qualquer que minha cabeça
não conseguia atinar por estar já muito cansada, ou desgastada demais pelos
anos de álcool para formular um raciocínio coerente. Eu precisava achar
algum sentido para aquilo como um peixe precisa de água. Uma delas, talvez
a líder, me disse que eu relaxasse, que bastava eu tirar a roupa e deitar
no chão que elas me deixariam feliz.
          Não acredito que elas sumissem caso eu fizesse isso. Ignorei
solenemente a moça de cabelos azuis que me falara e continuei andando. Fui
até a janela procurando alguma escada ou corda pelo qual elas entraram, mas
nada. Procurei alguma câmera escondido para ver se não estava em algum
programa tolo de família. Também nada. Minha cerveja já esvaziara e
dificilmente eu conseguiria chegar na geladeira com aquela zorra toda, de
forma que fui forçado a tomar uma atitude. Gritei o mais alto que pude:
          --- Vamos parar com essa zorra? Quer fazer a merda do favor de
irem pra casa? Caiam fora!!
          A música parou. A dança parou. As esfregações pararam e apenas uns
gemidos de uma garota tendo orgasmos num canto ainda ressoaram por segundos
até que pararam.
          --- Agora todo mundo põe a roupa de novo e se manda.
          Gemidos, lamentações, cochichos e outras zunzuns encheram a sala e
a líder veio em minha direção parecendo esboçar um protesto. Gritei de novo:
          --- E silêncio. Ninguém dá mais um pio.
          Mãos foram tiradas de dentro de lugares úmidos e roupas começaram
a ser vestidas. Uma a uma as garotas saíam pela janela e eu fui até a
cozinha em busca de uma cerveja. Abri a lata e com prazer constatei que
aquele era o único barulho que se escutava, agora que o silêncio voltara e
as garotas andavam pé ante pé para não me incomodar.
          Voltei a sala e as últimas ainda saíam pela janela. Pelo movimento
que faziam ao sair não pude deduzir se iam para cima ou para baixo, mas
quem se importa.
            Finalmente fiquei outra vez a sós e em silêncio. O cheiro de
bucetas úmidas ainda impregnava o ambiente e a cerveja continuava
estupidamente gelada.

#19 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Sex, 16 de Abr de 2004 5:38 am
Assunto: Novolan - O caminho para Berenice
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Fonjic ficou noites e noites se lamentando e bebendo e choramingando e
perguntando por que, por que as musas lhe tiraram todo seu talento quando
elas se apiedaram de sua miséria e permitiram que ele escrevesse mais um
belo conto narrando as belezas da vida...

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O caminho para Berenice

          Já faz muitos anos desde o acidente com Berenice. Quase dez, desde
que o ônibus em que viajava colidiu e ela perdeu os movimentos das pernas.
Eu e Berenice havíamos planejado férias, iríamos fugir de tudo e todos,
pegar uma trilha no mato e passarmos o mês trancados numa barraca sem
roupas, como quando éramos adolescentes.
          Ainda hoje sei que vivo em suspensão, preso à missão que eu mesmo
me encarregara, de fazer com que Berenice voltasse a andar. Meus sodales
aconselhavam em vão que eu esquecesse, deixasse que a família dela tomasse
conta e partisse para outra, que eu era jovem e amor eterno era coisa que
não existia. Mas eles não podiam entender, jamais conseguiriam, que a vida
toda eu planejara aquelas férias no mato com Berenice, e eram as férias,
não ela, que ainda me mantinha junto à ela.
          Até de início consegui empolgá-la. Fiz com que ela sentisse que
poderia, de uma hora para outra, acordar curada. Que não era uma fratura na
coluna que a manteria presa na cadeira pelo resto da vida. E por muitos
anos ela tentou e sofreu e chorou de dor, mas sempre olhava para mim, preso
à ela assim como ela vivia presa à cadeira ou às muletas, e em meio ao
rosto cansado seu olhar de ternura parecia revigorar em mim a disposição de
ajudá-la, e isso a revigorava no esforço de não desistir.
          Mas nos últimos anos percebemos que não será possível. Berenice
jamais voltará a andar. Embora ainda assim eu cobre dela as sessões diárias
de exercício e em meio a um olhar suplicante ela tente ainda, sustentar-se
nas pernas, logo tombando. E quando o tombo chega não representa mais a dor
da queda, como antes, mas sim o alívio para ela que sabe que depois de
muitos tombos a deixarei descansar e retomaremos no dia seguinte. Berenice
e eu continuamos tentando dia após dia, embora ela saiba que estamos num
beco sem saída, e eu também o saiba. E ambos já compreendemos que a
desesperança é compartilhada, mas ainda continuamos tentando porque é a
única coisa a se fazer.
          À princípio não quis comprar a muleta nem a cadeira, pois estava
certo que em pouco tempo não mais seriam necessárias. A esperança é algo
que morre aos poucos, e talvez tenha começado a morrer no dia em que
aceitei que sairia mais barato se as comprássemos. Daquele dia em diante
assistimos quase calados ao declínio constante, uma pequena derrota a cada
dia, sem que nada disséssemos, a não ser ocas palavras de consolo mútuo.
Ainda assim mesmo quando se perde a esperança não se pára de tentar, pois
simplesmente não há nada mais para fazer, nada mais.
          E por mais que soubéssemos ambos que todo esforço era inútil, e
por mais que Berenice por mil vezes me dissesse que desistisse, que eu
ainda era jovem e poderia começar de novo com outra mulher, uma mulher
saudável e inteira, eu sempre declinava sua súplica e vinha com outra falsa
palavra de apoio e confiança no futuro.
          E embora Berenice não sentisse mais nada da cintura para baixo,
consentiu que eu ainda transasse com ela, para que ao menos meu sofrimento
fosse minorizado. Mas eu percebia sempre que quando eu começava ela
escondia o rosto para que eu não visse que chorava. Era horrível ter que
saciar meus instintos animais dessa forma, num corpo insensível, semelhante
a um cadáver, mas eu justificava a mim mesmo dizendo que dessa forma ela
sentiria que minha infelicidade seria menor e isso a contentaria. Mas a
consciência do choro por vezes me fazia brochar e eu fingia orgasmos para
acabar logo sabendo que ela nunca sentiria a diferença mesmo. E às vezes
masturbava escondido, quase chorando com o rebaixamento de minhas esperanças.
          A muleta no canto hoje já apresenta boas partes enferrujadas. O
sinal de que os anos se passaram enquanto minha vida aguardava em suspensão
por aquele acampamento nas férias, para que pudéssemos finalmente retomar
de onde havíamos parados, apagando todo esse espaço de tempo intermediário.
A muleta, se bem usada, pode se tornar uma arma perigosa, fatal. Pode em
uma única pancada abrir um crânio, derramando a massa encefálica e
terminando uma vida para sempre. Peguei a muleta e fui ao quarto de
Berenice para acordá-lo e tentarmos mais uma última vez. Hoje, de qualquer
forma, o sofrimento acaba.

#18 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Seg, 12 de Abr de 2004 8:24 am
Assunto: Fwd: novolan - bunda suja se raspa em casa
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>
>
>Fonjic marca o declínio de sua carreira, passando do cômico ao chato e do
>pessimista ao trágico, em mais uma obra despropositada conhecida pelos
>guardães do inferno como...
>
>-------------------------------------------------------------------------------\
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>bunda suja se raspa em casa
>                 Fonjic
>
>         Eu estava um caco. A porra do inverno começava a chegar e isso
> queria dizer que eu não teria mais coragem de sair da cama de manhã ou de
> tarde ou de noite ou sair de casa ou fazer porra alguma que não fosse
> choramingar pelos cantos reclamando do frio.
>         Puta que pariu. Eu não escrevia nada decente há tempos e cada vez
> mais me convencia que isso era um presente que eu dava à humanidade. O
> mundo seria um lugar melhor de forma inversamente proporcional ao número
> de escritores nele. E a pior parte de tudo: já não havia mais dinheiro
> para beber todos os dias, nem força de vontade suficiente para que me
> interessasse por trabalho. Que desgraça, desde criança sempre quis me
> aposentar e nunca pretendi ter vocação para os estudos ou trabalho, não
> sei como acabei caindo nessa desgraça por tanto tempo, atraído talvez
> pelo canto da sereia de minha própria vaidade que me queria ver como
> doutor de qualquer porra.
>         Decididamente não era vida para mim, e a causa do embotamento que
> me assolava devia residir justamente ali. Eu lia todos os livros que me
> passavam a frente, mas percebia que não havia mais literatura à venda,
> apenas livros, objetos de consumo que se compra antes de conhecer na
> íntegra seu conteúdo, logo avalia-se a compra apenas pela forma e o nome
> do autor. Não é de admirar que houvessem tão poucos compradores. Mais
> vale locar um filme, afinal todos sabem como eles acabam: da mesma forma
> como todos os filmes acabam. Provavelmente com alguma criança idiota
> sorrindo enquanto uma bandeira americana sacode no fundo da cena.
>         Cheguei a culpar minha ausência de pesadelos pelo desastre
> criativo que me assolava. Mas eles voltaram, meu talento não. Até meus
> sonhos andavam desimaginativos e sem graça. Tentei culpar a tevê, os
> estudos, a monogamia, a preguiça, o estresse, a azia e até mesmo o
> fechamento de meu bar amigo que por tantas noites me acolhera na lagoa.
> Eu virara um estrangeiro em minha cidade, não tinha mais onde ir.
>         O mundo cambiava de formas e no meio da incerteza não haviam mais
> heróis. Apenas um restava, Waldecir, o eterno garçom, com sua eterna
> calça preta e camisa branca, servindo goles de eternidade gelada no verão.
>         Mas o verão se findara e o inverno chegava e minha casa ficava
> tão fria que nem masturbação era possível, a não ser mental. Fechava os
> olhos e ficava tentando rememorar todas as playmates desde que Marilyn
> tirara a roupa na primeira edição. O sentido só era possível entre as
> pernas de uma dama, e embora essa seja uma verdade de fácil compreensão
> para qualquer adolescente, não garantia sua facilidade no futuro.
>         Vovó uma vez perguntou "o que você quer ser quando crescer, meu
> querido?", "gigolô, vovó", eu pensei, mas nem sabia ao certo o que isso
> queria dizer, apenas gostava do som da palavra e intuía pelos adultos que
> devia ser algo bom. Na falta de ter o que responder eu sempre repetia os
> lugares comuns para que não suspeitassem que eu não era uma criança
> normal. Bombeiro, médico, engenheiro, advogado, até que um dia enchi o
> saco e falei que meu sonho era ser lixeiro, no que fui considerado muito
> hilário pelos familiares.
>         Mas que porra, nem sequer pra lixeiro eu servia, como podia
> constatar pela flacidez dos meus músculos e suavidade das mãos. São mãos
> de viado, mãos de escritor, sem calos ou rugas. Mãos que denunciam falta
> de atividade, tão diferentes da mão de um trabalhador braçal ou pianista.
> São mãos de quem só as usa para coçar o saco, tirar pequenas pedrinhas do
> nariz e raspar a caspa. Ah, sim, e cera do ouvido, cera do ouvido era uma
> coisa importante para também ser retirada.
>         Outro dia um fã me mandou uma carta dizendo que minha obra estava
> ficando muito escatológica e corporal, só o que fazia era falar de odores
> e excreções expelidas pelo meu corpo. Era o que acontecia quando se
> ficava tempo demais isolado consigo mesmo, respondi, questões de higiene
> pessoal se tornam complicadas equações. Só hoje compreendo, lentamente,
> foi aí que perdi meu último fã. O único, talvez, ao menos que eu saiba...

#17 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Qua, 17 de Mar de 2004 12:00 am
Assunto: novolan - As flores de Luxemburgo
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Fonjic deve estar louco, pois depois de tempos de silêncio escreve um conto
onde até mesmo citações repetidas ocorrem de forma involuntária e
convergente, correlacinando inmstâncias diferentes a avacalhando com os
próprios propósitos ocultos que toda obra pode ter...

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As flores de Luxemburgo

          Merda.
          Merda, merda, merda. O cú sangrando, uma faca na mão e um cadáver
no chão não é exatamente o tipo de situação que te dá muito tempo para pensar.
          Mesmo assim, em pânico, minhas pernas recusavam a fuga. Eu pensava
em Goethe, que segundo um técnico de futebol era um grande poeta francês.
Pensava mais precisamente no seu conterrâneo, Thomas Mann, mais
precisamente no filho dele, Klaus Mann. Em verdade tudo pairava em torno da
figura de Fausto, que vendera a alma ao cão em troca de poder, dinheiro,
fama, xana, e demais coisas que os homens costumam querer.
          Jello Biafra entrou no recinto, viu a cena e disse: "too drunk to
fuck..." Deu meia volta e saiu. Isso me levou de volta aos pensamentos
sobre Goethe, que dos três citados fora o único que escrevera um final
feliz para aquilo que deveria ser uma tragédia.
          Mas Goethe era um otimista convicto, assim como Hegel, e essa era
a grande divergência que o separava dos românticos: estes eram
melancólicos, tristes e trágicos demais. Goethe acreditava na salvação, na
possibilidade de redenção. E é engraçado como foi justamente um discípulo
de Hegel que levou o espírito de Goethe adiante, o jovem Marx, que leitor
fervoroso de Goethe elaborou sua própria teoria onde a humanidade estava
condenada, mas acabava se salvando graças à sua própria capacidade de
superar-se e, na catástrofe, gerar a classe que conduziria à salvação: o
proletariado.
          Mas claro que isso nada adiantava agora, pois ele nunca fora
flagrado com o cú sangrando, a faca na mão e o presunto no chão. Assim como
nunca vivera o suficiente para ver a classe trabalhadora ser traída pelas
direções que ela mesma criara e elegera, mas a social-democracia de sua
época já prenunciava a futura traição.
          Olhei em volta e tentei enumerar as opções: 1- cortar minha
própria garganta, o que levaria à conclusão de que o morto era a causa de
meu cú sangrante e este a causa do suicídio. 2- Fugir, como quem nunca
fugiu da lei antes, aceitando todas as conclusões que pairassem sobre meu
ser. 3- Ficar e contar a verdade, mesmo que desacreditada.
          Era uma situação em que eu perderia de qualquer jeito, o que
estava em jogo ali era como perder menos. Ouvi as sirenes de polícia ao
longe e pensei em como isso tudo estava fadado à desgraça. Ao contrário de
Fausto eu não vendera minha alma a ninguém , exceto a um amigo de confiança
em troca de umas poucas cervejas. Logo eu não teria a chance de salvação,
no máximo uma nova história.
          Eu estava no bar do Sang, quando o sujeito apareceu. O bar do Sang
fora por anos o melhor bar da cidade, lar do rock, lar do mecânico
underground, lar das bandas, lar de todos os desvalidos da noite. Foi
naquela noite que eu descobri uma das muitas maneiras de se descobrir
hemorróidas. Parecia uma simples cólica, aquela cagada básica, se não fosse
pelo barulho, um pequeno barulho ecoando no vaso sanitário mais alto que o
som ambiente: ping, ping, ping. Três gotas. Três malditas gotas que te
fazem olhar pra baixo e ver o sangue na água. Três malditas gotas
delatoras, que te revelam a verdade sobre aqueles comichões misteriosos.
          Aí entra o cara. Você já nem lembra mais dele, mas há cinco anos
ele prometera cortar teus bagos, e hoje decide fazer valer a jura. Vêm com
a faca pra cima de você, espumando pela boca, e você, num instinto
primitivo de sobrevivência do mecanismo de transmissão dos seus genes, tira
a faca e corta de fora a fora a garganta do cara. E você está ali parado,
no banheiro, calças arriadas, você e o defunto, quando começa a chegar a
aglomeração e reparar no sangue que escorre entre suas pernas. Você empaca
sem ter o que dizer. Lembra da piada do cara que comeu a vaca e dos dois
gaúchos que andavam pelados no mato, quando o primeiro pára de súbito e
pergunta: "Que isso tchê? Virastes viado?" e o outro que vinha atrás
responde "Agora virei, não?". Há certas coisas que não há como explicar.

#16 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Sex, 30 de Jan de 2004 5:31 pm
Assunto: novolan - Com a mão na massa
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Ainda sofrendo os efeitos da ressaca, Fonjic lança mais uma empolgante
estorieta para seus fiéis leitores...

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Com a mão na massa

          Todo mundo sabia que ele comia a mulher do padeiro. Inclusive o
padeiro.
          O pessoal do boteco acreditava que a índole pacífica do padeiro
decorria da sua profissão, tantos anos acostumado a servir os outros e
preparar aquilo que todos no bairro comiam antes de acordar e depois de
dormir, ou vice-versa, algo assim. Bem, tantos anos fazendo isso lhe
deixaram acostumado e com esse jeito complacente de permitir que os outros
comam aquilo que é dele. E quem duvidasse que ele a possuía podia verificar
seu nome impresso na coleira que ela levava no dedo ou na certidão que o
padeiro emoldurara e pregara na parede.
          Mas o chato é que não contente em comer a mulher do padeiro, não
contente em já ter espalhado a notícia no bairro todo, o sujeito ainda
ficava se gabando disso no boteco. Era irritante vê-lo horas e horas no
balcão, puxando conversa com os outros e, sempre que podia, inserindo no
papo alguma coisa relativa aos peitos macios da mulher, ou os ornamentos
capitais do padeiro, ou o barulho que a cama fazia ou qualquer coisa mais
desinteressante.
          Aquilo me irritava tanto que me decidi sacanear aquele sujeito.
Fiquei horas e horas vendo ele beber e pensando num jeito, e quando ele se
foi dizendo que ia dar mais umazinha antes que a padaria fechasse,
continuei lá pensando e mais alguns dias pensando. Não adiantaria nada
tentar instigar o marido traído pois ele era incapaz de qualquer reação.
Precisava ser de outra forma. O cara era metido a Casanova, mas no fundo
era mesmo um baita amador sem estilo ou inteligência. Era com isso que eu
tinha que trabalhar para arquitetar minha maldade.
          A coisa foi mais simples do que eu esperava. Bastou esperar um
pouco e um dia, no bar, enquanto ele se gabava da coisa molhada que
encontrava no meio das pernas perfeitas dela, entrei na conversa e em tom
desafiador disse que isso não era nada. Ele respondeu furioso e cobrou uma
explicação de mim. Falei que o negócio quente era pedofilia, que tinha um
amigo que agarrara uma menina de onze anos e dissera que era o máximo. O
cara ficou cabreiro, pensativo. Argumentou que isso dava cadeia e eu disse.
"que nada, não dá nada. O esquema é que a menina é parente dele, então fica
tudo por isso mesmo".
          O sujeito se calou e não falou mais nada enquanto estava no bar.
Era um amador mesmo, tinha caído na armadilha  nem se dera conta.
          Em menos de um mês a polícia apareceu para levá-lo. Instigado por
uma vozinha no fundo que o obrigava a provar sua superioridade, começou a
tentar comer a filha do padeiro, que tinha onze anos. Quem descobriu foi a
mulher, que chegou em casa um dia e encontrou o cara no quarto da filha
fudendo e gritando. O escândalo foi geral e o cara foi preso por estupro.
          Mas aí é que as coisas começaram a ir mal pro padeiro. A mulher
tudo bem, mas o cara ter comido a filha dele ele não perdoava. Passou a
fechar a padaria mais cedo e ir pro boteco beber até tarde. Chegava em casa
e nem olhava para as duas. A mulher, que já não dava pra ele há muito
tempo, se encheu daquilo e pediu o divórcio. Uma vez morando sozinho, os
negócios do padeiro afundaram de vez. A padaria não tinha mais hora pra
abrir e o pão virou uma merda. Passava o dia inteiro bêbado reclamando da
vida, enquanto a mulher e a filha, que moravam agora num apartamentinho
alugado, começaram a trabalhar a noite nos puteiros para terem como ganhar
dinheiro.
          Um dia ele bebeu tanto que acordou num quarto cheirando a mofo e
urina, numa cama cheia de pulgas, pelado entre a mulher e a filha também
nuas. Ele tinha pago adiantado e os três passaram a noite inteira fudendo
até que apagaram. As memórias começaram a vir como explosões, fragmentos
visuais dele com a mulher, dele com a filha e da filha com a mulher. Sentiu
uma náusea que vinha do fundo e se revirava, contorcia seu estômago e
mente, em parte por culpa da bebida. Olhou de novo para as duas e pensou,
"que merda". Sentiu outra fisgada no estômago e fechou os olhos para
dormir, esperando que a dor passasse.

#15 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Seg, 26 de Jan de 2004 12:44 am
Assunto: Novolan - Uma noite perfeita
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Fonjic deveria aproveitar a vida reclusa para dedicar-se aos estudos, mas
invés disso traz a vocês mais esta clássica história de amor pela vida
intitulada...

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Uma noite perfeita

          Quem nunca copulou com um ganso talvez não tenha a mínima idéia do
que eu estou falando. Quem pode culpar as crianças por seu julgamento
precipitado?
          Precisos ou não os fatos, eu precisava ir naquela estréia. Era
Shakespeare, mas o diretor resolvera interpretar a peça original à sua
maneira, o que queria dizer que provavelmente era uma merda. Assisti a duas
horas de peça para descobrir que a grande modificação no roteiro da peça
era que o infante príncipe invés de apaixonar-se pela mãe era apaixonado
pelo pai.
          Uma bomba, como eu previra, e quase fui expulso do teatro quando
comecei a rir na hora do suicídio de Ofélia, que nesta versão se matava por
ter descoberto que seu amado tinha um caso com seu irmão, Laerte. Triste e
hilário, transformaram o bardo inglês em novela mexicana.
          Além disso havia apenas uma modificação a mais de peso, que era o
motivo de minha ida. O diretor incluíra nas cenas um coral, que recheava as
cenas com uma música que dava explicações psicanalíticas nonsense. Era um
coral de homens semi-nus, cujo um dos membros era um amigo biólogo que me
fizera prometer que ia ver sua estréia no mundo das artes. Não tive como
recusar.
          Saí mais cedo da peça, uns cinco minutos antes do fim, quando o
príncipe e seu oponente no duelo confessam em público seu amor mútuo. Saí
deprimido, fazendo notas mentais de deixar proibição expressa antes de
morrer proibindo a encenação de qualquer conto meu. A crítica no dia
seguinte arrasou a peça, e este talvez tenha sido o motivo pelo qual meu
amigo tenha se decepcionado com o mundo teatral e seguido carreira acadêmica.
          Na volta para casa, naquela noite estranhamente fria para um
janeiro, uma chuva fina começou a cair. Merda, era tudo que me faltava.
          Não, não era tudo ainda. Para fugir da chuva e chegar mais cedo
tive a infeliz idéia de pegar um caminho que eu julgara mais curto. De
fato, mais curto era, mas mal eu entro na ruela e vêm um bando de gansos
com suas armas mortais, bicos na altura exata de um saco humano. O ganso,
meus amigos, é o legítimo predador do homem, mais perigoso que o leão ou o
tigre, até mesmo que as mulheres.
          Eu estava bêbado, como sempre. E eu perdera meu óculos, como
sempre acontecia quando eu bebia demais. Mas quem poderia deixar de beber
depois de ser obrigado a passar duas horas de tormento numa peça ruim?
          Comecei a correr e sentir mil dentadas e tormentos que me
infligiam os gansos. Caí no chão uma, duas, três, até que na quarta vez eu
não mais levantei. Estava molhado e enlameado e sujo e deprimido e fedendo
e arrasado e derrotado por um bando de gansos praticamente sem cérebros.
Protegi o saco e deixei que suas bicadas fizessem todo o trabalho sujo.
Então o álcool fez um click na cabeça, e tudo escureceu.
          Acordei no quintal de uma casa. Eu estava deitado sem roupas no
chão, mas quentinho. Em cima, em baixo e ao meu redor dormiam comigo cerca
de uma dúzia de gansos. Eu fora adotado. De alguma forma eu sentia que em
meu sofrimento aqueles pobres animais sentiram minha dor, e se apiedaram de
mim e me deram abrigo e foram minha família. Eu me sentia em comunhão com a
natureza e com o mundo, a chuva passara e o sol brilhava forte, e uma
alegria sofrida me fez chorar por me sentir tão magnanimamente aceito pelo
mundo em que eu vivia pela primeira vez.
          Foi quando um vulto me fez um frio subir a barriga e cortou meu
barato pós-hiponga fora de época. Uma criança melequenta, daquelas que
deixa um fio de ranho escorrer do nariz até o chão ou as roupas ou o que
quer que esteja no caminho, me observava. "Meu pai disse que você é uma
bicha nojenta", ele falou. Balancei a cabeça tentando fazer sentido das
palavras dele. Será que ele não podia notar que eu era um ganso agora? Que
eu pertencia ao bando?
          Uma voz de homem ecoou no pátio "Tonico, sai já de perto dele,
pode ser perigoso". Um cara com revólver na mão. O dono da casa, presumi.
Me manteve lá, parado, pelado, sem poder sequer coçar as mordidas das
pulgas que os gansos me passaram. A polícia me levou para a DP e até que
não apanhei tanto. Fui solto sob fiança e nunca mais fui ao teatro de novo.
Nunca consegui explicar o que houve naquela noite, mas e quem acreditaria
mesmo...

#14 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Seg, 12 de Jan de 2004 6:42 am
Assunto: Novolan - Meu ódio será tua bonança
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Anacreonte Fonjic sai da reclusão ocasionada pela decupinização de seu
local, festas de fim de ano, sempre acompanhadas das tradicionais depressão
de fim de ano e ressaca de início de ano, e escreve este conto revelador em
que os aspectos psicológicos do protagonista conduzem o leitor à verdade
sobre a veia indigenista que se aprofunda num absimo avassaloador de
redemoinhos de... err, chega de viadagem, leiam o conto...

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Meu ódio será tua bonança


          No começo parecia que ia ser um sonho. Romy Schneider esfregava
suas pernas em meu pescoço e Anita Elkberg me mostrava o que que a sueca
tem. Elkberg passava então a correr como louca montada em uma manada de
alces vindos sabe-se lá de onde enquanto Schneider, com uma tesoura,
retalhava meu corpo.
          Ao fundo, no topo de uma montanha, ele fumava seu cachimbo. Não
podia ver seu rosto, mas a silhueta me era inconfundível. Tudo era culpa
dele e sua maldição perversa que recaía sobre mim: a maldição do índio.
          Éramos criança e o índio já era um velho muito velho. Como queimar
índio ainda não tinha entrado na moda, nos divertíamos jogando meras pedras
nele. Um dia acertei-lhe uma na cabeça que o deixou sangrando e irritado.
Veio andando até mim com seu olhar escondido pelo cabelo e passo firme. As
outras crianças saíam correndo gritando enquanto eu ficava parado, mais por
estar assustado demais para correr do que por coragem. Foi nesse momento
que sua maldição se lançou sobre mim, ele disse:
          --- Garoto, você tá fudido. Você vai crescer e virar escritor, e
em teus sonhos virá teu tormento. Quando começares a não dormir mais,
perder o poder de articular as idéias e confundir tequila com mijo, das
duas uma: ou estarás virando viado ou ficando louco.
          Aquela foi a última vez que vi o índio com vida. No dia seguinte
as crianças continuavam brincando na rua, mas o índio não passou mais por
ali. Rumores circularam. Uns diziam que um caminhão o teria atropelado,
outros que um delegado nada gentil que rondava nas vizinhanças o teria
matado, ou ainda que ele teria sido levado por um grande objeto alongado e
prateado que descera do céu e depois sumira. O fato é que seu corpo nunca
foi encontrado e os índios diziam que ele não tinha morrido porque os do
povo deles não morriam. Diziam que o velho tinha virado cobra e voltado pro
meio do mato, onde ele pertencia.
          Mas ainda assim a maldição persistia. E o cumprimento dela começou
a se realizar pelo terceiro item. Chegava eu na casa de alguns sodales já
completamente embriagados. Eu sempre evitara a tequila, com medo da
profecia do velho. Mas aquele dia estavam todos bêbados. Bêbados e alegres.
Muito bêbados e muito alegres. Já faziam dez anos que o índio sumira e
desde então aquele fora meu primeiro momento de relaxamento, o único
descuido ao longo de uma década.
          --- Que gosto estranho tem esta tequila? Vocês botaram sal aqui
dentro?
          Todos apenas riram e demoraram quase meia hora pra me confirmar
que aquela era a urina de Arnaldo. Era o dono da casa, um cara simpático,
grande amigo, mas eu realmente não queria ter tomado a urina dele. Ele
tinha guardado porque ele e a namorada curtiam algo que chamavam "ducha
dourada", mas ele nunca conseguia porque estava sempre com tesão demais.
Não quis mais detalhes. Estavam todos muito bêbados e muito alegres. Eu não
estava mais alegre. Nem bêbado.
          Depois, há cerca de cinco anos, começaram as insônias. Freqüentes,
constantes e irritantes. E quando eu pregava o olho vinham os pesadelos. E
nos pesadelos, sempre ao fundo, lá estava o índio. Como um figurante e
criador ao mesmo tempo. A profecia se realizava, e como eu não estava
virando viado, só podia concluir que estava ficando louco.
          Romy já tinha, à essa altura acabado de retalhar meu corpo,
enquanto Elkberg se recolhia em prantos no colo juvenil de Asia Argento. O
sol se cobria de sangue enquanto meus olhos rolavam pela terra, cobrindo-se
de sujeira. Ao longe o índio devia sorrir. Tudo se apagava pra mim agora
enquanto eu imaginava um último sorriso de triunfo do índio velho, que se
espreguiçava e dava uma pitada longa e demorada em seu cachimbo. Tudo muito
prazeroso.

#13 De: anacreonte <anacreonte@...>
Data: Ter, 25 de Nov de 2003 7:53 am
Assunto: Novolan - O insondável dia em que eu se dei bem
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Fonjic aproveita mais um dia e noite de ócio e fantasias e insônia para dar
aos seus leitores o prazer de mais uma inominável historieta, também
conhecida pelo título...

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O insondável dia em que eu se dei bem
Fonjic

Foi realmente estranho. Naquele limiar entre o dormir e o acordar é que
percebi aquela enorme Águia Careca, parada ao fundo do sonho, como um
figurante de filme pornô barato. A primeira coisa que pensei foi: "O que
diabos uma Águia Careca está fazendo posando de figurante num filme pornô
barato?" E foi bem nesse instante que percebi que os olhos dela não só
estavam voltados pra mim, mas cravavam-se em mim como facas afiadas, como
lâminas com profundidade de abismo.
Acordei gritando em agonia e banhado em suor, como era comum no verão, mas
dessa vez parecia haver um motivo. Sim, num daqueles raros momentos de
clareza que acomete nossa mente quando o efeito do álcool passa, pude
perceber nitidamente que em minhas memórias, há muito, faltava um pedaço,
um único pedaço, que sempre estivera lá, ao longe, me contemplando: a
insondável Águia Careca.
Como um estalo, um despertar para a consciência, pude começar a relembrar
de todos os sonhos em que ela estivera lá, sempre ao fundo, sempre nos
minutos antes do despertar, sempre alheia ao conteúdo barato de meus
sonhos. E pude perceber mais, mais real, mais tangível. Lembrei-me das
incontáveis vezes em que ela passara voando por mim e meus sodales, quando
bebericávamos gentilmente à beira da Lagoa, no amigável Bar do Gank.
Havia algo ali. Tinha de haver uma explicação. Minha cabeça era agora
invadida por uma enxurrada de lembranças das vezes em que a Águia Careca
sobrevoara o local. E era sempre por volta das cinco e meia ou seis da
manhã. E era sempre quando pedíamos a saideira.
Tem gente que vê vultos. Gente que vê almas. Gente que vê aliens. Gente que
acredita em um ou mais deuses. Mas comigo não, uma maldita Águia Careca. O
que ela queria? O que significavam aqueles vôos noturnos ao longo da
saideira e aquela presença brochante em meus sonhos na fronteira do
pré-despertar?
Tinha que haver algo. Um significado. Um aviso.
Lembrei do nome do bar. É claro. Bar do Gank tinha este nome por causa de
alguma velha história indígena, um índio jovem chamado Gank (é claro) que é
seqüestrado por outra tribo, e uma vez tendo conseguido escapar e vingar-se
de seus captores, busca refúgio no pântano onde eram enterrados seus
antepassados. Ao amanhecer é descoberto por membros de sua tribo, que ao
verem-no saindo do pântano o matam por ter desrespeitado a tradição. Tudo
bem, até aí tudo bem, mas onde que a águia entrava na história?
Eu não sabia, mas talvez se eu fosse até o bar descobriria. Em verdade, a
única pessoa que podia me ajudar era um índio velho antigo freguês do bar,
mas desde que certos acontecimentos ocorreram há alguns anos, nunca mais
fora visto.
Eu estava numa sinuca. Condenado ao eterno olhar da Águia Careca.
Saí andando à esmo pela cidade, como fazem normalmente os alcoólatras
quando não têm dinheiro suficiente para beber de dia e precisam guardar os
trocados para a noite. Bem, isso se referia aos de primeiro estágio, como
eu, pois no segundo já não havia mais distinção entre dia e noite, apenas
quente, frio, muito frio e hospital, com pequenas variações que incluíam
cemitério.
Andei por algumas horas, suando embora todo o líquido acumulado em noites
de cerveja e a gordura de anos de sedentarismo. Eu tentava tomar
consciência de algum significado, mas continuava ainda a enxurrada de novas
recordações da ave.

Não coincidentemente escurecia quando cheguei no bar. Estava cansado e
suado e fedendo, o que me fazia sentir como homem. A travessia do morro a
pé, inevitável, pois ficava no caminho, sempre deixava meus braços e rosto
coçando. Alguma coisa na maldita vegetação.
Gritei na frente do bar até que me deixaram entrar, faltavam ainda algumas
horas até abrir. Pedi pra ir ao banheiro e lavei-me na água fria até a
coceira passar. Voltei ao salão do bar que estava deserto e atravessei a
série de portas que levavam ao fundo. Lá vi o dono que parecia trazer algo
nas mãos e dizendo:
--- Veja só, essa filha da puta tá sempre aqui por perto incomodando. Hoje
acertei-lhe uma pedrada que acabou com tudo. Será que isso dá um assado?
Apoiou numa pedra o pescoço da Águia Careca desmaiada e com um golpe
certeiro do facão degolou-a. Fiquei pro jantar e pro resto da noite. Nunca
mais vi a Águia Careca, quer em sonhos ou na vida real, tampouco descobri o
que ela significava ou percebi melhoras na qualidade de meus sonhos. Mas
ensopada ficou uma delícia.

#12 De: "anacreontefonjic" <anacreonte@...>
Data: Ter, 18 de Nov de 2003 12:30 am
Assunto: Novolan - A noite do Dragão
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Fonjic aproveita a tranquilidade de uma noite de segunda feira e
escreve a clássica seqüencia que todos estavam esperando, em mais uma
historieta de medo, pavor e suspense...

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A noite do Dragão
		 Fonjic

	 Segunda noite num puteiro do mexicano. Vestido apenas com
algumas roupas roubadas de uma loja, a ressaca ainda doía forte na
cabeça, desde que acordara naquela, nu e sem nada, em pleno centro da
capital mexicana. A vantagem de se acordar nu numa cidade tão grande,
é que há tanta gente na rua, que mal ser nota um a mais, mesmo que
esse um esteja desnudo. Alguns poucos chegaram a me notar,
principalmente aquele mulher que estava na minha frente numa fila por
um telefone público, e que devido ao tumulto não pude deixar de ficar
com o corpo grudado no dela. Ao me ver encostado nela, desnudo e
salivando, achou que eu me tratava de um tarado e fez o maior
escândalo. Quando a polícia chegou estava bem longe.
	 Mas depois de roubar as roupas e andar descalço o dia
inteiro, eu finalmente iria ter minha vingança. Chegara no puteiro, e
sabia que lá dentro estavam os sacanas que se aproveitaram de minha
embriaguez na véspera, para me largarem no centro. Provavelmente fora
o bigodudo do caixa, junto com o leão-de-chácara japonês e o velho da
sanfona. Aquele velho bastardo! Começaria minha vingança por ele,
pois era o único que eu sabia que podia quebrar alguns bons ossos.
	 Não, eu não tinha um plano. Não, eu não tinha comido nada
durante o dia inteiro. E sim, eu estava tão imundo que meus pés eram
uma mistura de barro e sangue, dormentes pela umidade da lama onde
agora se enterravam. Eu estava num lameiro aos fundos do
estabelecimento e sabia que poderia chegar por ali sem ser visto.
Estava quase a dez metros da porta quando o bigodudo apareceu e
gritou pra mim:
	 --- Ora, si no es el señor Anaquito? Adentro, venga!
	 Eu não entendia lhufas do que aquele piscopata dizia, e
depois de romper com os dois segundos de inércia por ter sido
descoberto, me joguei na lama e comecei a chafurdar, na expectativa
de me ocultar.
	 --- Don Anaquito? Qué se passa? Venga, toma una cerveza!
	 Eu podia não saber nada daquela língua maldita, mas se havia
algo que eu podia compreender em vários idiomas era cerveja, ou
cerveza, bierre, Bier, beer, birra etc. Levantei meio ressabiado e
Ramon, esse era o nome do bigodudo, veio e me disse para entrar, que
tinham me visto lá fora e estavam com pena do grande amigo que eu
era. Eu não entendia mais nada. Meu ódio que pulsava e exigia
vingança estava por ora contido dentro de mim, como uma mangueira
plástica com um nó represando a força da água.
	 Entrei todo enlameado. Podia perceber que o salão todo me
olhava com ar de deboche. Algo acontecia ali, algo que ia além da
minha compreensão, algo que era compartilhado somente por aqueles que
agora controlavam meu destino.
	 Logo que Ramon começou a me contar o que acontecera na noite
anterior, descobri o que era. Segundo Ramon, depois de beber até
apagar me tiraram do quarto que eu ocupava inutilmente e me jogaram
num depósito dos fundos. Lá Dolores, a puta mais feia do México que
eu acreditava ter me recusado a comer, me amparara. Eu ia me
encolhendo a medida que a história ia sendo contada, pois nada disso
eu lembrava. Depois de levantar e beber ainda mais, comecei a pedi
por ópio, até que me deram uma seringa cheia de morfina. Depois disso
dizem que eu virei uma verdadeira fera selvagem e fiquei fudendo
Dolores por horas até o amanhecer, quando saí correndo pelado dizendo
que mais tarde voltaria para me casar com ela.
	 O quê? Falei espantado, não podia ser, eu nunca comeria
Dolores, nunca me casaria com alguém, muito menos com ela. Eles me
olharam sério e senti todo o peso da tradição religiosa mexicano
(aquela cidade em específico fora o maior centro religioso do mundo
antes da independência do México, com mais de duas mil freiras).
Engoli seco, tremi nas bases e quase caguei. Eles me olharam e
disseram que Dolores estava lá em cima, à minha espera, e que eu
devia ir lá e agira como homem. Mas qual homem teria coragem de comer
Dolores? AO que eu saiba nenhum, pelo menos nenhum até eu chegar ali.
	 Subi as escadas com o peso da guilhotina e comecei a tentar
esvendar um jeito de cair fora. Só tinha um jeito e eu sabia qual
era, eu tinha que dar uma comida muito mal dada nela, explicar que a
coisa não funcionaria entre nós e cair fora.
	 E foi o que fiz, condoídos leitores. Não fora a primeira vez
que eu usara essa estratégia, embora nas outras eu precisasse me
esforçar pra fingir que não estava gostando e a desculpa colar. Com
Dolores foi o contrário, precisei me esforçar pra realizar o ato pois
só olhar pra ela já era algo terrível, capaz de brochar o próprio
deus príapo. E pra piorar as coisas, na hora em que comecei a meter,
logo ouvi a infame gargalhada do velho da sanfona, tão velho que
talvez nem andasse mais entre os vivos. Precisei revisar todas as
cinco mil punhetas da adolescência pra manter um mínimo de ereção.
Depois de gozar o mais rápido que pude, bem, na verdade eu fingi,
Dolores ainda quis que eu tentasse à espanhola, mas ela nem segquer
tinha peitos para eu por no meio. E;a era uma verdadeira tábua, da
barriga pra cima, onde depois se tornava suporte de pelancas. Ela
ainda me ofereceu a bunda, numa tentativa de me animar, e eu disse
que não precisava, que estava tudo bem, que a vida era assim mesmo,
que a gente não ia dar certo, etc, etc, etc.
	 Consegui finalmente dar o fora nela e evitar maior confusão.
e ela, pra surpresa minha, foi docilmente gentil, parecia quase rir
enquanto eu a dispensava. Mas no fundo de mim o asco somente
aumentava, junto com o volume da sanfona debochada que tocava lá
fora. Como eu pudera comer aquilo? Como eu pudera prometer que
casaria com aquilo? Tudo começou a vir a tona de repente, desde a
feiúra desmedida, à risada do velho, ao cheiro de mofo, à mais uma
farpa que fincara no meu saco, solta da madeira da cama.
	 Desci de cuecas e passei pelo meio da dança no salão sem que
ninguém se importasse muito com isso. Cheguei no bar e pedi uma
tequila. Garrafa, não dose, que virei até a metade. Estava melhor,
mais anestesiado. Ramon me perguntou se eu queria uma cerveja. Não
tenho dinheiro, falei. Não precisa, ele está pagando. Olhei um
americano com um jeito amuado na mesa. Como assim, perguntei.
	 Ontem, disse Ramon, quando o senhor falhou em sua aposta e
constatamos que não tinha dinheiro, apostei com o americano mil
dólares como eu conseguia te fazer comer Dolores. Ele disse que era
impossível, que jamais poderia ser feito. Então bolamos o plano,
largamos o senhor pelado na cidade e inventamos a história. Até este
ponto o acordo cm o gringo era cem dólares como você voltava. Depois
mais mil dólares com além de voltar nós faríamos com que o senhor
comesse Dolores. E como o senhor cumpriu, pelo que vejo, seu papel,
somos muito gratos pela renda extra que proporcionou à casa. Já
mandei tirar suas coisas do lixo e quando o senhor quiser partir,
esteja à vontade.
	 Senti uma raiva que nunca pensara possível, aliada à uma
sensação de estupidez e fracasso que só agora eu conhecia. Então todo
o nojo e sofrimento pelo qual eu passara fora à toa, apenas parte de
uma aposta maior que cobriria o fato de eu dever algum dinheiro a
eles. Eu não teria forças para me vingar pois a humilhação gritava
mais alto que o ódio. Apenas me limitei a pedir minhas coisas e cair
fora.
	 Saí de lá sentindo que meu pau nunca me perdoaria daquele
crime que eu havia cometido contra ele, e que eu talvez fosse o ser
humano mais estúpido na face da terra, por isso teria merecido comer
a mulher mais feia já nascida. Ao menos conseguira minhas roupas e
minha passagem de volta pra casa, e no estado de degradação física,
moral, psicológica e sexual que eu me encontrava, isso era o
suficiente. Apenas queria conseguir voltar pra casa o mais rápido
possível, e lá me esconder, e nunca mais sair, e nunca contar pra
ninguém como fora minha viagem ao México.
	 "Encontre a felicidade no México!" era o que dizia o panfleto
de propaganda da agência de viagens pela qual eu viajara. E eu estava
a uns cem metros já do local maldito quando ainda pude ouvir, pela
última vez, ecoar no ar alguns acordes de sanfona, acompanhados pela
gargalhada debochada do velho.

#11 De: "anacreontefonjic" <anacreonte@...>
Data: Qua, 12 de Nov de 2003 7:36 am
Assunto: Novolan - Apenas mais um motivo pelo qual não fui soldado
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Fonjic provavelmente anda trabalhanda demais, ou de menos, e acabou
desenvolvendo uma neurose de guerra, o que resultou em mais um conto
meia-boca, sem puteiros ou cidade mexicanas, chamado...

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Apenas mais um motivo pelo qual não fui soldado
			 Fonjic


	 Acho que todo mundo tinha um amigo que fora currado no
exército. E eu não era exceção. Sempre que podia eu contava às
pessoas como meu melhor amigo tinha sido currado quando tudo o que
ele queria era servir à nação.
	 Se isso servia para alertar as pessoas do risco, não sei, mas
sei que fazia com que nunca quisessem se dizer minhas amigas. Muito
menos melhor amigo.
	 Por que você não fala das coxas de Madalena? Ah, sim, era
isso que me perguntavam. Todos queriam saber das macias e sedosas
coxas de Madalena. Mas eu não me rebaixaria a tal ponto, não era
assim que se fazia amizades, mas sim dando conselhos úteis para as
pessoas. Quem não quer ser amigo de alguém que dá conselhos supimpas?
E que conselho melhor do que alertar contra os perigos da vida em
caserna? E que história melhor ilustraria isso do que a do meu melhor
amigo, que fora currado em plena cerimônia da bandeira?
	 Eu tive uma namorada, quer dizer, quase namorada, bem, me
cumprimentou uma vez na saída do ônibus. Ela me disse que eu
assustava as pessoas. Será que ela também preferia que eu falasse das
coxas de Madalena? Nunca, jamais me rebaixaria a este ponto.
	 É claro que nada me impediria de narrar o antes, os momentos
mágicos que antecederam minha entrada naquele quarto enquanto
Madalena, sem saia, removia a meia-calça. Eu entrara no quarto porque
tinha brigado com um vizinho por causa de um motivo tolo que nem me
lembro, a não ser da motivação real que havia que era descontar dele
a vergonha que me fizera passar no dia anterior, quando ele comentara
para todos que eu tinha uma cicatriz na virilha, que ele sabia porque
íamos nadar no mesmo lugar quando éramos criança e a cicatriz, que
hoje mal se nota, era então um grande troçolho que poluía a vista das
pernas sem pêlos de um jovenzinho.
	 Não, não é totalmente verdadeiro. Isso apenas dizia respeito
à minha motivação, enquanto que a dele era a suspeita de que eu
estava espalhando na vizinhança uma história absurda sobre ele quando
servira no exército.
	 Realmente, têm pessoas que são rancorosas demais. Que mal há
em se pegar uma história verdadeira e pintá-la com as cores vivas da
realidade como deveria ser, e não como é. Que diferença faz se era só
um cara ou um bando de uniforme que se revezava enquanto os outros
entoavam em coro hinos patrióticos? E eram tantos hinos que eu já nem
lembrava mais.
	 Mas falar das pernas da doce Madalena, nunca. Poderia encher
páginas e mais páginas falando dos seios que lhe caíam na medida
exata do corpo (ops, caíam é palavra que se deve evitar ao falar-se
de seios). Erguiam-se, seria correto dizer, como defuntos molestados
voltando à superfície da terra em busca de vingança, como dois
coelhos machos preparando-se para a luta mortal, com a crista de um
garnizé cheio de fúria, sim, esse era o modo como se erguiam em graça
e beleza os seios de Madalena, apontado para os lábios sedentos de ...
	 Tergiverso. Esse era pra ser um panfleto educativo alertando
os jovens para os riscos do internato militar. Um aviso de cuidado
com as partes do touro que costuma ser introduzida no recruta pelo
animal com o apoio e incentivo dos demais membros da corporação. Um
aviso sincero e corajoso que somente um amigo de verdade faria. E
como me dirijo a amigos de verdade, tenho certeza que a sinceridade
será apreciada.
	 Cuidado, jovem. Se você tem, terá ou já teve dezoito anos,
pode ter sido currado e nem sabe, ou um dia ainda será. Este é um
aviso de amigo, de melhor amigo.
	 Já falei das coxas de Madalena?

#10 De: "anacreontefonjic" <anacreonte@...>
Data: Dom, 26 de Out de 2003 9:54 am
Assunto: Novolan - Aventuras numa terra estranha
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Fonjic sente saudades do seu tempo de Mariachi e escreve mais uma
parábola envolvente em defesa dos valores éticos dos povos
minoritários dentro da etnia Bantu

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Aventuras numa terra estranha
	 Fonji


	 Primeira noite num puteiro mexicano. Cãibras, pulgas, farpas
do estrado da cama soltas pelo colchão e ameaçando entrar no saco, um
velho caduco com uma sanfona que ria e gritava sem parar, que me
fazia botar as calças e ir até a porta gritar: "cala a boca aí seu
filho duma puta! vou enfiar essa sanfona no teu rabo!"
	 Depois fechar a porta ainda ouvindo as risadas do velho e
sabendo que era inútil. Tudo aquilo era inútil. Todo o esforço por
fazer o velho se calar, todo o empenho na viagem, toda a preocupação
com uma noite decente. Senti uma espetada no saco e descobri que uma
das farpas conseguira abrir caminho até seu objetivo.
	 Peguei a garrafa de tequila e achei melhor desisti da aposta.
Tudo o que eu queria era uma noite de paz, e eu apostara com os caras
do bar que eu conseguia comer a mulher mais feia daquele lugar. Se eu
fizesse isso, eles me pagavam todas as despesas da noite. Mas eu não
tinha estômago. Ninguém tinha. Ela apenas continuava por lá porque os
caras do bar adoravam fazer essa aposta com estranhos, o que era
sempre um bom negócio porque invariavelmente ganhavam.
	 Dolores estava na cama, com seu sorriso de diabo ao avesso.
	 --- Cai fora! Hoje não vai dar.
	 --- Como?
	 --- Acabou! C'est finni!
	 --- Qué se passa?
	 Aquele diálogo não estava dando certo, eu falava espanhol tão
bem quanto uma capivara se equilibrando num arame. Tirei o pau pra
fora e ,balançando, disse:
	 --- El está muerto!!! Adios.
	 Dolores baixou o rosto escondendo o choro e foi embora assim,
de rosto escondido. Era a puta menos comida de todo o México. Talvez
do mundo. E eu devia uma boa grana pros caras do bar, mas agora não
importava mais nada, só queria um pouco de sono.
	 Deitei na cama emborcando a tequila e ouvindo ao longe a
gargalhada do velho. Estava debochando de mim, na certa. Comecei a
sentir o corpo formigar e flutuar, rumo a sonhos doces e
reconfortantes. Sonhei com a vulva multivalvulada. Talvez a coisa
mais incrível que qualquer ser humano possa ter pensado. Sonhei com
mulheres de oito pernas e ventres cheios de pequenas aranhas pra me
devorar. Sonhei com bucetas bicamerais, com raças inteiras cuja
ausência do coração lhes dava importância ímpar aos órgãos sexuais,
se parassem de copular por muito tempo, a pulsação desregulava e
morriam. Sonhei com ovários com dentes de morcego que uma vez
fecundados, rasgavam a carne e saíam do corpo para se enterrarem na
areia. Sonhei com o puto do velho da sanfona, que apareceu no meio do
meu sono rindo de forma doentia só para estragar o que teria sido uma
noite perfeita. Por fim já quase amanhecia quando sonhei novamente
com a vulva multivalvulada, que dessa vez se abria para mim e me
convidava a explorar as maravilhas tecnológicas de seu interior.
	 Acordei sem minhas roupas, sem meu pertences, sem
absolutamente nada. Não estava mais no puteiro, mas sim jogado numa
rua em pleno centro da cidade do México, ao amanhecer. Eu estava nu,
numa terra desconhecido, cujo idioma eu não dominava, sem dinheiro
nem documentos. Eu achava que a noite anterior fora uma merda, mas
por algum motivo começava a sentir saudades dela.

#9 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Dom, 5 de Out de 2003 10:30 am
Assunto: Novolan - Memórias da caserna
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Dando vazão à sua verve patriótica, Fonjic escreve mais este libelo em
defesa dos valores morais e da poética delicada para senhoras de idade...

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Memórias da caserna
                          Fonjic


          É claro que o exército quando quer inventar uma viadagem nova
sempre arranja desculpa. Neste caso a desculpa era de que a incidência de
câncer na próstata estava aumentando entre os jovens, daí a necessidade de
incluir o exame de toque na próstata no menu de exames do alistamento militar.
          Eu não gostei daquela história. Principalmente porque eu estaria
fazendo dezoito e precisava me alistar. Corria pela cidade histórias de
jovens que saíram do quartel mais comidos do que cego em tiroteio, de forma
que pra aumentar minhas chances de não ser agarrado, chamei um colega que
praticava alguma coisa oriental que terminava em fu ou tsu, para nos
alistarmos no mesmo dia e local.
          O nome dele era Zeca. Na verdade, eraRodiclei, mas achei por bem
chamá-lo de Zeca porque: 1- Rodiclei é foda!, 2- Zeca ia ficar melhor num
conto, 3- para preservar a identidade dele, afinal, hoje ele é casado, pai
de família etc.
          Voltando ao assunto do exame, o médico era um grandíssimo filho da
puta, conhecido e temido por todos. Certamente a idéia do exame partira
dele, pois diziam que ele tinha alguma influência no alto escalão. A rotina
do exame médico ficara quase inalterada com a inclusão do toque retal,
primeiro todos ficavam de cueca, depois eram obrigados a ficar em fila,
um  atrás do outro numa sala apertada, para depois entrarem todos na sala
do exame. Lá todos baixavam a cueca e ia o médico com um tenente, um por
um. Dava uma olhada no sujeito, mandava levantar o pau e assoprar e mão
enquanto olhava o saco, depois mandava o sujeito se virar de costas e tocar
nos dedos dos pés. Lá vinha então a dedada, e dizem que ele costumava a
demorar uns cinco minutos apalpando o interior de cada um para ter certeza
que a próstata estava em bom estado.
          O sujeito, o médico, era também conhecido pelas piadinhas e
comentários que soltava durante o exame, e Zeca fora decidido e encher o
cara de porrada se ele nos incomodasse. O negócio é que pra nossa sorte, o
tal do médico adoecera feio justo no dia em que fomos, e teve que ser
substituído às pressas por uma tenente recém formada em medicina. Nunca
achamos que podia haver mulher bonita num quartel, ainda mulher daquelas.
Porque a mulher não só era bonita, como gostosa, e ainda usava uma saia
militar um pouco curta que o que a norma costuma estipular e decotes
generosos na parte superior do uniforme. Aquilo devia ser completamente
irregular, mas acho que soldado ou oficial algum reclamara.
          O ambiente, que era tensão e nervosismo, se transformou num
alvoroço de jovens precisando descarregar testosterona, todos tentando
bolar um jeito de comer aquela médica. Mal entramos na sala e ninguém
conseguia esconder a ereção por baixo da cueca. Ela foi logo perguntando se
alguém tinha atestado e eu, como era míope, tinha. Eu e mais uns cinco
fomos liberados. Botei as roupas e fui pro lado de Fora esperar Zeca.
          Meia hora depois ele chegou. Com um baita sorriso no rosto. “Como
foi?”, perguntei, “Acho que me dei bem!”, “Como assim?”, “Acho que a médica
tá gamada em mim?”, ”sério?”, “sério”. Fiquei em silêncio, ainda espantado
com a sorte dele em conquistar um gata daquelas. Ele perguntou, “Vem cá, se
existe penetração, então é porque houve sexo, não? É porque as pessoas
transaram, não é isso?”, “é, acho que é”, respondi, com ares de quem ente
alguma coisa do assunto. “Então transei com ela”, respondeu.
          Hoje, passados muitos anos, nunca mais vi ela nem soube o que lhe
aconteceu. Algumas noites ainda começo a tremer quando lembro daquele corpo
e daqueles lábios, e lamento por nunca mais tê-la visto, pelo fato de que
nunca a agarrei ou comi. Hoje, parando bem pra pensar, acho que Zeca também
não.

#8 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Dom, 5 de Out de 2003 3:14 am
Assunto: Novolan - Noites sombrias
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Fonjic resolve desatrasar a sua produção literária e traz aos
leitores mais uma peça de encorajamento e esperança, além da apologia às
belezas naturais do lugar em que vive

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Noites sombrias
                  Fonjic

          Era preciso alguma dor para se escrever algo naqueles dias, mas às
vezes se exagerava. A primeira coisa que vi quando entrei no bar foi o
velho Carlos, bêbado, com as barbas dentro do caneco vazio de chope.
          Sentei do lado dele em silêncio e o observei enquanto ele começava
a chorar. Por quanto tempo mais isso continuaria assim? Pedi um caneco ao
dono que me avisou que estava fechando, que aquele era o último que ele servia.
          Bebi em silêncio enquanto o velho continuava com seu choro, agora
suavizado para um balbuciar choramingante infantil. Bebi o mais devagar que
pude, mas mesmo assim já o esvaziara, e tentei cantar velhas canções
socialistas para animar o velho. Nada.
          Ficamos novamente em silêncio. Eu parara com a cantoria, o velho
com o choro, e o dono do bar com as bebidas. Pagamos a conta e viemos
embora em silêncio e caminhando devagar, pois ele já não tinha mais o vigor
de outrora, quando emborcava todas e corria bêbado e desnudo pelas ruelas
da cidade. Minha cidade, que com o passar dos anos vira seus prédios
passarem de colorido para cinza.
          Enquanto ele subia as escadas da entrada do seu prédio, praguejou
contra o governo, falou algo em traição de classe, reclamou que as mulheres
estavam ficando sem bunda e por fim, confessou que estava morrendo.
          Era todo dia a mesma coisa. Quem o via durante o dia ativo não o
reconheceria depois das quatro da manhã quando chagava em casa bêbado e
choramingando. O câncer o corroía por dentro, e não havia nada que pudesse
ser feito. E todo dia ele me repetia essa mesma história. E todo dia eu
ouvia calado e ao fim tentava animá-lo. Ia para casa e lavava o rosto para
me livrar dos ciscos que caíam na vista ao ponto de me deixarem lacrimejando.
          Naquele dia ele parou a história no meio e me olhou com seriedade
e disse: “você vai me substituir, você sabe disso, não?”. “Espero que não”.
“Ah, vai, sim. Guarde o que eu disse”. E como quem tinha acabado de rogar
uma praga se virou e continuou a subir sozinho.
          Fui pra casa sem pressa. Irritado demais com a falta de bebida no
sangue e com o fardo que eu mesmo me arranjara. Porque começara a ajudar
aquele velho fudido, se nem minha vida eu conseguia dar um jeito? E por que
ele lançava em mim sua maldição carregada pela teia e o mofo dos anos que
ele vivera. Ele vira as duas grandes guerras. Ele lembrava dos fogos de
artifício comemorando a passagem do século 19 pro vinte. Ele vira surgir o
bonde, a luz elétrica, o rádio,  a tevê,  o computador, o vídeogame, o LSD,
o jazz, o rock, mas isso eram histórias que não interessavam a mais ninguém.
          Acho que todos estavam preocupados demais com o futuro, e acho que
razões não faltavam para isso. Eu, que sempre me achara pessimista, cada
vez me surpreendia mais com a merda em que o mundo estava. Principalmente
no canto em que vivíamos, pois nunca se é pessimista o suficiente quando se
vive no terceiro mundo, algo pior sempre vai acontecer.
          Cheguei finalmente à minha casa e estremeci quando botei a chave
na fechadura e reconheci, no ar gélido da madrugada, que o que ele dissera
era verdade: em breve ele estaria morto e eu tomaria o lugar dele,
choramingando bêbado nas mesas dos bares de madrugada, velho e com uma
barba esbranquiçada de molho no caneco. Um cisco voltou a cair no meu olho
e sequei apressadamente a lágrima que caía, olhando em volta para ver se
era observado. Entrei em casa lavei o rosto e fui dormir. Lá fora uns
passarinhos já começavam a cantar e incomodar e ainda pensei que talvez
pudesse evitar, mudar o rumo das coisas. “Amanhã talvez eu não vá no bar”,
menti pra mim mesmo antes de finalmente apagar.

#7 De: Anacreonte <anacreonte@...>
Data: Qua, 1 de Out de 2003 7:35 am
Assunto: Novolan - Do porque fracassaram as negociações de paz entre o imperador Formiguinha e a madame Guilhermina Varadentro Montaro Cabresto da Silva
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Anacreonte Fonjic provavelmente ficou tempo demais sem escrever, e isso
provavelmente afetou o cérebro dele, e ele provavelmente não anda batendo
bem da bola e ele provavelmente escreveu mais uma história absurda e sem
sentido...

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Do porque fracassaram as negociações de paz entre o imperador Formiguinha e
a madame Guilhermina Varadentro Montaro Cabresto da Silva
                                                          Fonjic


          O leitor que me perdoe, mas merda é merda. Já buceta é uma coisa
doce e perfumada que brota na pele da gente nos dias quentes de verão e faz
as têmporas incharem até que o suor se transforma em gosma branca que gruda
na cueca durante o sono.
          Mas tergiverso. Comecei falando em política e terminei em
prazeres. O fato é que eu andava intrigado com os mistérios dos aromas
vaginais. Lembrava-me de na infância ter visto os cães começarem a
perseguir as meninas da rua uma vez por mês depois que elas fizeram treze
anos. Quando a menina deixava o cãozinho alegre chegar perto, em vez de
pedir carinho ele ia zzzup, na seca com o focinho enterrar bem no meio das
pernas, na junção fértil das mulheres. Foi minha primeira lição sobre ciclo
menstrual, que mais tarde pude ver com mais exatidão na escola.
          Nonsense. Não conheço nenhum artigo que descreva tal comportamento
canino referente ao ciclo fértil humano, mas também desconheço qualquer
cientista tarado o suficiente para passar um ano sentado numa banqueta
observando e anotando o comportamento dos cachorros que havia na rua da
minha infância.
          Já meu cachorro era diferente. Quando eu chegava em casa com
minhas botas de borracha e as atirava para ele, ele também nem queria saber
de carinho, mas sim de enfiar o focinho até o fundo da bota, e cheirar até
gastar o cheiro. Logo, eu poderia concluir, se fosse um homeopata, que os
garotos menstruam pelos pés. Não faz muito sentido, mas ao menos seria mais
útil que as gotas homeopáticas que mamãe me dava quando criança. Bastava de
uma a duas semanas para curar qualquer gripe, o que coincidia com o tempo
sem remédio, mas isso não era relevante na época.
          O que era relevante na época é que, em meio à inocência da
infância, já começava a surgir meu ódio pelo mundo, incontrolável como as
poluções noturnas que mais tarde viriam. Sim, é loucura, mas há um método
nela, diria Polônio. Mas embora ande em círculos, do que este conto se
trata mesmo é de formigas e do ódio sistemático que aprendi a desenvolver
por elas, embora eu preferisse falar de bucetas.
          Quão feliz não é uma criança que tem um limoeiro? Qual criança não
se entusiasma e trepida de emoção ao verem brotar as auriradiantes folhas
verdes de um limoeiro? Qual jovem não lembrará com regozijo, ao lamber pela
primeira vez as entranhas vaginais de uma mulher, do doce sumo que corria
dos frutos do seu limoeiro? Do mesmo cheiro azedo? Da mesma coloração
esverdeada?
          Eram os tempos felizes da infância quando a grande nuvem de
formigas veio e devorou o pé de limão. Nunca mais botou frutos. E o que
sobrou virou sustento estéril dos pulgões vorazes, que sugavam e destruíam
o limoeiro da infância, assim como os chatos fariam mais tarde com a vulva
amada.
          Pode um homem ser culpado pelo seu ódio às formigas? Ou seu amor
ao limoeiro-buceta, condenado ao distanciamento eterno? E é por isso
leitor, que deveis tomar cuidado com o monstro ardiloso que se esconde em
cada formiga, que deve ser esmaga, pisada, raspada e desfigurada até que
nada mais reste a não ser o ódio. E isto pode até não parecer um conto, mas
há um método nele.

#6 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Sex, 22 de Ago de 2003 10:08 am
Assunto: Novolan - Enquanto as unhas dos pés continuam sujas
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Anacreonte Fonjic completa 1 semana de internet a cabo e começa a
trabalhar porque agora não tem mais a velha desculpa de não conseguir
se conectar na porcaria de uma conexão discada furreca e gratuita...

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Enquanto as unhas dos pés continuam sujas
			 Fonjic


	 Quem já levou um chute no saco talvez me entenda. Era um daqueles
dias em que o sujeito não quer fazer mais nada, a não ser procurar um
banheira com água quente e afundar nela. Sente primeiro os pés
esquentando, as peles do corpo se distendendo, as banhas que
substituem os músculos relaxando.
	 Eu ainda não tinha banheira em casa mas precisava urgentemente de
uma. É como uma daquelas necessidades inadiáveis ou pensamentos de um
personagem em uma história em que o autor não sabe sobre o que falar.
Minha única diversão, enquanto isso, era saber que toda vez que eu
usava o banheiro pingava merda da minha privada no vizinho de baixo. E
isso já estava assim a um mês, mas eu disse a ele que ia chamar um
encanador um dia, não disse? O que mais ele quer que eu faça?
	 Deitei no chão do banheiro e comecei a me esfregar no piso úmido
imaginando o quão bom seria ter agora uma banheira. Uma banheira
quente e molhada, como uma buceta gigante que vem e nos acomoda em seu
interior. A banheira simbolizava a felicidade, e era nessa felicidade
que eu tentava chegar ao me esfregar no chão cheio de pentelhos.
	 Lembrei dos sonhos que me atormentavam, incêndios, febre aftosa, tudo
era motivo de sonhos. Cheguei a sonhar que ia no meu bar de costume e
lá me davam pra beber uma cerveja da marca errada. Era o inferno sobre
a terra.
	 Olhei pro porta-toalhas na parede e tive a certeza que aquilo não era
nada menos do que os chifres de Baphomet. Senti o hálito de bode
invadir o ambiente e uma risada maníaca pareceu ecoar em algum lugar
lá fora.
	 Depois da risada veio um grito feminino. Daí outra risada. Um risinho
feminino dessa vez e, por fim, um rádio de carro sendo ligado tocando
poperô a todo o volume.
	 Eu estava no inferno. Era isso. Tudo se explicava. Eu tivera um
enfarte, derrame ou isquemia cerebral enquanto mijava e agora estava
morto. Lúcifer ao meu lado olhava com um jeito andrógino e debochado e
eu lhe disse:
	 --- Foi mal, meu caro, mas não acredito em deuses nem anjos, caídos
ou não...
	 Ele sumiu. E quando abri os olhos constatei que continuava no
banheiro deitado no piso frio ouvindo o maldito som que saía do
maldito rádio do maldito vizinho.
	 O mundo estava apodrecendo. Era isso. Alguma praga corroía tudo e
transformava a vida em imundíce. As pessoas já haviam deixado de
viver, apenas assistiam tv e trabalhavam.
	 Botei de volta minha calça de moleton, que se alguém visse, poderia
pensar pelo buraco nos fundos que eu havia parido um bezerro através
dela. Sentei na privada e comecei a espremer espinhas e tirar cracas
da pele.
	 Tirei de debaixo das unhas do pé aquela sujeirinha que fica lá mais
de meses sem ser lavada, sem conhecer água ou limpeza alguma. Juntei
tudo num bolinho macilento e senti que tinha cheiro de queijo. Provei
um pouco e o gosto também parecia o de queijo.
	 Concluí que aquilo que saíra de mim não poderia me fazer mal e comi
aos poucos a bolota de sujeira de unha dos pés. Eram pequenas alegrias
como essa que faziam a vida continuar valendo a pena.

#5 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Ter, 5 de Ago de 2003 8:01 am
Assunto: Novolan - Uma obra de arte
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Comemorando a união gay estável de seus amigos bacharéis solteiros,
Fonjic resolve fazer mais uma historieta sobre a alegria e bons
valores da sociedade...

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Uma obra de arte
	 Fonjic

	 Tudo começa com um sonho estranho. Um índio soprando um instrumento
musical enquanto, através de um ritual solitário de autogratificação
sexual, eu, dentro de uma catedral gótica, me esporro sobre um desenho
de corpo inteiro de Judite da Baviera, que durante o século IX
desposara Luís o Piedoso e fora mãe de Carlos o Calvo.
	 Confesso que aquilo tudo me perturbou. Eu andava meio impressionável
com os sonhos ultimamente, embora não fossem nem um décimo do bizarro
que eram no passado.
	 Comecei a visitar galerias de arte, leilões de colecionador,
vernisage de pintores médiuns cambalacheiros, mas nada me fazia
encontrar aquele desenho perfeito das carnes de Judite da Baviera.
	 Um dia, enquanto contemplava os desenhos arquitetônicos da planta da
grande obra que marcou o império de Justiniano II, a cloaca maxima,
senti-me compelido ao sono e posso dizer que desmaiei.
	 Desta vez lá estava de novo o mesmo índio, soprando um instrumento
rudimentar diferente, cuja música poderia soar agradável para qualquer
ouvido, mas a mim surtia o sinistro efeito de aumentar minha ânsia e
desespero. Estávamos num deserto e um grande falo despenca logo à
minha frente. GRANDE. Mais ou menos do tamanho de quatro ou cinco
elefantes empilhados. Eu me aproximo para investigar e sinto o cheiro
forte que emana da poça de esmegma e sangue que começa a se formar e
dissolver as rochas ao redor. Vermes do tamanho de jibóias escavam
verdadeiros túneis dentro daquela maça gigantesca de carne podre, e
talvez seja o tempo passando mais rápido ou eu passando pelo tempo
mais devagar, mas tudo parece acontecer numa velocidade incrível até
que o vejo o falo sendo devorado e consumido pelos vermes e o tempo e
tudo que sobra é uma pequena na pilha de poeira da qual partem os
vermes voando em douradas asas em direção ao sol que nunca se move.
	 Olho para o índio de novo e ele ri de mim. Quantas vezes já não terei
pedido desculpas pelos crimes de meus antepassados e contemporâneos,
mas como uma maldição ele continua lá, rindo, até que acordo chorando
numa poça de suor e fezes. Acho que me descontrolei de novo durante a
noite, e isso não é agradável.
	 Fico sabendo que me encontraram sob torpor, numa espécie de desmaio
que beirava o coma, e me tiraram da mesa onde estudava as maravilhas
romanas para me deitarem em meu leito. Meu imundo leito.
	 Novo banho. Novo dia. Talvez um fio de esperança possa explicar o
sonho ou o índio ou o falo ou os vermes ou as ligações cabalísticas
que regem o projeto da cloaca de Justiniano II. Experimento um
misticismo transcendental fresco quando o sol da manhã invade o
banheiro e quase pode me explicar porque o cano rachado do meu esgoto
faz com que caia merda no vizinho de baixo quando dou descarga.
	 Mas logo toda a idéia, toda a razão, todo o brilhantismo somem,
restando eu, a merda e meus sonhos. Descubro porque a cabala romana
utilizada na cloaca é falha: os malditos cretinos não tinham sequer a
porra do zero.
	 De forma que respondida essa questão pude esquecer a história romana
e voltar ao doce sonho que anteriormente me perturbara mais, o doce
desenho da doce Judite.
	 Comprei pincel, tinta, grafite, tela, e um monte de coisas que acabei
nem usando. Com um disco de música medieval pude me dedicar ao
trabalho de desenhar o que me lembrava dos contornos dela. Fugazes
como são os sonhos, lembrei pouco coisa, mas como nunca soube
desenhar, isso não faria diferença mesmo. Por fim executei o ritual
com que sonhara e deixei correr o líquido branco sobre a tela. Deixei
secar e vendi por uns cinco mil mangos.
	 Até hoje não consegui explicar os sonhos, nem porque vieram ou porque
se foram. Mas pelos menos consegui pagar algumas boas dívidas que tivera.

#4 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Sex, 4 de Jul de 2003 8:56 am
Assunto: Novolan - Uma questão de lhufas
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Anacreonte aprendeu num filme da tevê que hoje é o dia em que deve
comemorar sua independência, por isso, invés de inventar mentiras para
a academia, produziu mais uma história real para seus leitores...

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Uma questão de lhufas
		 Fonjic


	 Eu sinto muito por tantas coisas, que nem sei se sinto qualquer coisa
mesmo. Uma simples questão de referencial, que uma vez perdido, só
retorna por religião ou ideologia. Ou tratamento psiquiátrico, o que,
de certa forma, acaba conduzindo à uma das duas opções anteriores.
	 Só quem já passou pelo estágio de se sentir culpado por todos os
males do mundo, pode experimentar a conquista do estágio seguinte,
quando a própria noção de culpa se desfaz e a mente ganha a liberdade
psicótica. Não falo da simples culpa, como a que eu teria sentido
quando empurrei aquela menininha de sete anos na lama se eu sentisse
ainda algo, mas da culpa real, daquele tipo de consciência
extracorpórea que fez John Fante saber que era ele que causara um
terremoto por ter comido uma viúva velha.
	 Que mal há numa simples menina de sete anos com o vestido branco
enlameado? Alguma guerra começou ou terminou? Algum navio afundou? Um
avião explodiu? Uma estátua começou a falar e andar, as paredes a
jorrarem sangue? Alguma fêmea de leão entrou no cio no meio da Savana
por causa disso?
	 Não, nada disso aconteceu. E, além do mais, eu tinha uma
justificativa. Ela era filha de um cara que me devia oitenta pila há
mais de trinta anos. Ela tinha um daqueles sorrisos maus de criança
que se esgaçam quase que de orelha até orelha, e olham para você de
forma maligna dizendo:
	 --- Vamos brincar tio?
	 Sim, a perversidade oculta numa declaração diabólica. Com quanto
prazer não vi aquela cara de triunfo e prazer que toda criança ostenta
contra nós como uma silenciosa vitória, transformar-se no triunfal
grito de medo e espanto.
	 Tudo era perfeito. O sol brilhava, os pássaros trinavam, as ovelhas
baliam e os camelos formavam grandes cáfilas rumando para a escola de
segundo grau onde eu estudara e aprendera uma série de palavras
inúteis que talvez eu nunca usasse. A lama estava quente e úmida
devido ao calor do dia e se formara ali na beira da calçada por causa
de um caminhão de peixe que por ali passara deixando um rastro de água
fedorenta atrás. Gelo que gelara o peixe, mas tivera como destino
final juntar-se ao barro para compor a lama fedorenta da vingança. A
menina estava tão feliz por ter sido dama-de-honra do casamento que
achou que poderia sair brincando com seu vestido branco e novo
enquanto papai e mamãe não estavam olhando. Ela nem reparou no cheiro
forte de bebida que me impregnava o corpo, nem nos olhar de astúcia
planejativa.
	 Porque deveria? Eu tomara uma garrafa de uísque doze anos, que pode
ser facilmente confundido com perfume, tão belo é seu aroma. E
enquanto todos juraram que eu não apareceria no casamento, eu estivera
lá feliz e comportado e sorrindo num canto da igreja com jeito
superior à todos. E quando todos pensaram que eu ainda nutria um ódio
secreto por um dos noivos, eu triunfei sobre todos eles. Eu havia
provado que era um cara legal. O noivo havia me envolvido num esquema
de fraude bancária no qual ele saiu cheio da grana e eu peguei dez
anos de cadeia, sentença que pude trocar por seis meses de serviço
comunitário.
	 Já ela, a noiva, fora a mulher que prometera que nunca seria de outro
homem no dia em que a conheci e quando fui condenado me abandonou
dizendo que esperava que eu apodrecesse e morresse como um verme.
	 Mas eu provei que estava acima dos sentimentos normais de um ser
humano e compareci ao casamento. Me embedei, embora com certeza não
precisasse disso para encarar aquela prova que eu podia dar conta
facilmente. E quando depois de me conter por duas horas de missa
encontrei aquela emissária do mal de sete anos, lembrei-me da dívida
que seu pai tivera comigo numa mesa de pôquer da adolescência. E foi
por isso, tenham certeza, que ela mereceu a lama. E se envergonhe
aquele que disso mal pense.

#3 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Seg, 30 de Jun de 2003 8:40 am
Assunto: Novolan - Uma missão humanitária
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Sempre atento às grandes questões de seu país, Anacreonte lança mais
uma obra didática e moralizante...

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Uma missão humanitária
			 Fonjic


	 Havia algo nele que o tornava um sujeito deprimente. Ninguém sabia
precisar exatamente o que era, nem mesmo eu que o criara como
personagem. O sujeito simplesmente chegava num ambiente, sentava e as
pessoas iam aos poucos parando de falar, parando de sorrir, ficando
cansadas. Logo qualquer festa parecia um enterro.
	 Ele parecia ter consciência disso, embora tentasse guardar essa
percepção num canto recluso e afastado de sua mente, para que isso não
o perturbasse. Ia sempre no bar do Tanque, onde garotas nuas nadavam
num enorme aquário, e sempre arruinava a noite. Certa vez o clima
chegou a ficar tão pesado que uma das garotas nuas tentou
deliberadamente se afogar, sem motivo aparente.
	 Em geral também ele era um tipo quieto, recluso. Quando puxavam papo
ele simplesmente concordava com o que quer que dissessem, pegava sua
bebida e mudava de lugar. Era algo indecifrável, se era uma espécie de
tristeza ou melancolia, mas se podia notar que não era algo tão forte
que o fizesse sofrer, nem algo que o permitisse se alegrar. Era sempre
simplesmente o mesmo, como as águas que descem pela privada, correm
pelos canos, chegam na fossa, desembocam no sistema de esgotos da
cidade, vão para o tratamento, são despejadas no mar, evaporam,
precipitam sobre os rios da cidade, são captadas e tratadas para
consumo humano, bebidas, mijadas e logo estão novamente na privada
descendo.
	 Sinceramente, uma vez tive nojo dele. Cheguei no bar do Tanque e lá
estava ele, encostado no balcão, com sua cara de asquerosa ausência da
capacidade de provocar impressões. Digo isso pois era em mim, e não na
cara dele, que obviamente o asco estava se infiltrando e impregnando.
Eu tinha que matá-lo.
	 Era isso. Agora que eu disse talvez seja mais fácil explicar porque
eu estava correndo nu, na frente da agência bancária, às 3 horas da
manhã, todo ensangüentado. Era inverno, logo eu não poderia alegar
calor. E o cheiro doce do sangue jamais me permitiria clamar inocência.
	 O plano não poderia ser mais perfeito. Eu sabia certinho o trajeto
que ele fazia para chegar ao bar. Bastava esperá-lo embaixo da ponto e
atacá-lo pelas costas, certo?
	 Mas eu não contava com a iminência de que eu teria que tocá-lo.
Quando cerca de duas e meia da manhã ele passou pela ponte com seu
passo monótono, saí das trevas que me escondiam e pulei sobre ele. Não
me importavam as testemunhas, os carros que passavam, as pessoas que
valorosamente desafiavam o frio para se embebedarem e alegrarem na
rua, apenas uma morte, a dele, me vinha à cabeça como idéia fixa.
	 Mas quando cravei-lhe nas costas a faca, brutalmente Brutus, e senti
a pele de seu pescoço encostar em meu outro braço que o prendia, todo
o nojo e asquerosidade e repugnância e náusea que dele emanavam me
invadiram e sufocaram, como uma onda de carne podre, merda no
ventilador, napalm no cú de iraquiano. Senti que a vida lhe escorria
enquanto que aquela onda repugnante transbordava para mim.
	 Pois mais tolo que fosse, acreditei na hora que eu me tornaria um
igual à ele. Que ele fosse de uma terrível raça mutante ou experimento
socio-biológico, que teria me infectado e condenado à existência
medíocre que ele levava.
	 Pulei na lagoa e comecei a arrancar a roupa, me lavar nas águas de
esgoto que prali fluem dos bares, e arranhar e rasgar a pele, como se
uma coceira insensível me atacassem.
	 Depois disso o desespero, a corrida naturista ensangüentada e meu
recolhimento. Nunca em nenhum momento conheci remorso daquela ação, e
se hoje vivem as pessoas num mundo melhor, agradeçam a mim.

#2 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Sex, 27 de Jun de 2003 8:40 am
Assunto: Novolan - Henrieta dos lábios de mel
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Anacreonte dá uma pausa em seus estudos estafantes para brindar seus
leitores com mais um clássico da literatura nacional.

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Henrieta dos lábios de mel


	 Ele costumava a reclamar de Henrieta porque ela tinha lábios
pequenos. Nunca entendi a reclamação, só sei que toda vez que íamos ao
bar do Rank, onde a galera divulgava os resultados de competição da
semana, ele se embebedava como uma viúva no natal e desandava a falar
dos lábios de Henrieta.
	 Secretamente, eu nutria a idéia de que aquilo não passava de mero
fingimento, mero pretexto para declarar a todos que já provara dos
lábios dela. Os lábios inferiores, ele se referia, e justamente eu
nutria essa secreta suspeição pois não podia entender qual o motivo
pelo qual o tamanho dos lábios de Henrieta pudessem incomodá-lo.
	 Ainda se fosse o contrário... se não hora que ele fosse comê-la
surgissem aquelas enormes orelhas de jumbo e ficassem ali ventando, eu
até entenderia. Mas o contrário não me fazia o menos sentido.
	 Isso tudo mudou no dia que ela organizou a festa do "Hoje Ninguém
Paga!", no qual ela estaria cobrando absolutamente nada até a
meia-noite. Era minha chance de comer Henrieta, minha e de metade de
Florianópolis que não tinha grana para poder chegar nela. Era uma
menina de luxo, o que fazia só aumentar o respeito que todos lhe tinham.
	 Cheguei no local, uma casinha bem no final do Canto da Lagoa, quando
já eram cerca de nove horas. O movimento de carros e pessoas naquele
fim de mundo era uma coisa inacreditável e completamente inviável para
as condições locais. Desci do carro em que estava de carona e fui até,
seguindo o movimento da multidão.
	 Entrei no terreno da casa e uma fila já se formara. Não era fila para
entrar, era pra senha, pra depois entrar. Somente vinte podiam ficar
dentro da casa de cada vez, em geral na sala, onde Henrieta dava para
os convidados.
	 Sentia um pouco de ansiedade e nervosismo. Cerca de cem pessoas já
deviam ter passado por ali e mais cem passariam pelo meio das pernas
dela antes de minha vez. Eu só esperava conseguir sair sem uma doença
muito grave.
	 Dez horas eu peguei a senha e pude zanzar um pouco para esticar as
pernas. Parei na banquinha de cachorro quente e comecei a tomar umas
cervejas. Cerca de cinco garrafas de Glacial depois, eram onze e meia,
e eu temia que não desse tempo e eu perdesse pra sempre minha chance
com Henrieta, quando fui chamado. Número duzentos e trinta e dois, era eu.
	 Com a emoção da vitória entrei na casa e aguardei com pressa minha
vez. Cada minuto era precioso e ela era um pedaço de carne impossível
de se desprezar. Cinco pra meia noite chegou minha vez.
	 Dei um passo adiante e ela disse:
	 --- Baixa logo as calças e vem, não temos tempo pra desperdiçar!
	 Concordei de pronto. Tirei o Gnu de dentro das calças e avancei para
a consumação final do ato e a glória de meus dias. Foi quando lembrei
da história dos lábios e reparei. Era verdade, ela tinha lábios
vaginais incrivelmente pequenos, de forma que sua vulva mais parecia
um buraco na parede lisa, do que uma buceta propriamente dita. Algo
sem graça e deprimente como uma folha de papel ou boca sem dentes.
Lembrei da infância, do meu cachorro falecido, dos gatinhos falecidos
que eu tivera, de uma tartaruga morta que vi na praia quando era
criança, e quando me vi era meu Gnu que estava totalmente morto.
	 A galera vaiava e gritava, ansiosos na espera pela sua vez embora
fosse quase meia noite. Um cara que era o próximo na vez avançou com o
pau duro pra fora dizendo: "se você não vai comer nem sair da frente
vou ter que meter em você."
	 Agilmente me desviei e guardei minha pobre lebre enquanto contemplava
o estranho desfrutar do prêmio que deveria ter sido meu.
	 Foi um dia triste e as pedras dos mares choraram sangue por mim. Acho
que era minha sina, afinal nada resta a literatura burguesa senão a
história de um herói degradado, num mundo degradado, em uma busca por
valores autênticos fadada ao fracasso. É Lukács, mas nem tudo foi tão
ruim assim. Que os lábios eram pequenos isso eram, mas pelo menos não
fui comido. Por pouco.

#1 De: "anacreontefonjic" <a9819628@...>
Data: Dom, 8 de Jun de 2003 1:54 pm
Assunto: Novolan - Laputa, Cancro e a roda da fortuna
anacreontefo...
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Fonjic quebra seu silêncio de um mês e finalmente inaugura a porra da
lista com mais um conto de esperança e de resgate do cinema nacional

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Laputa, Cancro e a roda da fortuna
		 Fonjic


	 Eu andava obcecado com algo incomum: ficar rico. Não simplesmente
rico, mas rico o suficiente pra nunca ter que voltar a trabalhar. Pode
parecer estranho ao leitor comum esse desejo, mas sou obrigado a
assumi-lo. Trabalhar não era algo agradável ou desejoso para mim,
ainda mais depois que o governo decidira mudar a idade mínima de
aposentadoria para os 98 anos.
	 Vamos falar a verdade, eu não iria chegar sequer aos 49, quanto mais
passar adiante. Eu precisava armar rápido um plano. E não pude deixar
de me lembrar de Laputa Perone, a grande musa do cinema nacional, cuja
interpretação no clássico filme A Volta do Homem do Cancro Mole, onde
fazia o papel de verdureira que vendia repolhos na feira, era
responsável por pelo menos metade das vezes em que eu me masturbara. A
cena central do filme é aquela em que ela desmancha com as mãos uma
cabeça de repolho, e nunca conheci homem que conseguisse assisti-la
sem ter uma imediata ereção. Eu mesmo me lembro de ter saído do cinema
com a calça melada após a sessão de estréia do filme.
	 Mas justamente por causa da falta de grana que lembrei da Perone. Ela
estava velha e esquecida, mas se eu fizesse um filme com ela, poderia
conseguir muito dinheiro. Está certo, era brasil onde eu vivia e isso
dificultava um pouco, mas eu já estava fudido mesmo, não custava nada
arriscar.
	 Marquei um encontro com ela no bar do Pamp, que ganhou esse nome
porque o dono adorava tocar poperô nas festas anos 80 que organizava.
	 Marquei o encontro para as nove, mas cheguei as oito. Era uma
superstição... precisava me acostumar com o local antes que ela
chegasse. Dessa forma eu garantiria a vantagem estratégica de conhecer
o terreno melhor que ela, e isso só podia ser bom. Tomei umas três
garrafas gentis e generosas de cerveja e Perone não havia chegado
ainda. Notei uma senhora de idade entrar e sentar-se com dignidade
numa mesa. Só podia ser ela, ninguém mais naquele bar aparentava
dignidade.
	 Pedi mais uma cerveja e endireitei a roupa como ritual de preparação
para o grande encontro que me tiraria da miséria. Fechei o fecho da
calça, sequei a cerveja que estava grudada no cabelo por causa de um
truque que eu fizera para impressionar os jovens adolescentes que iam
ao bar, assoei o nariz e fui.
	 Sentei confiante na mesa e disse:
	 --- Olá!
	 --- Cai fora!
	 --- Calma, acho que você não entendeu direito. Sou o cara que vai
fazer um filme com você.
	 --- Certo, e essa é a cantada mais velha da história da humanidade.
Se manda antes que meu Igor lhe ensine o que é bom.
	 Olhei pra trás e vi o Igor dela, com pelo menos dois metros, se
aproximando.
	 --- Mas você não é Laputa Perone?
	 Senti a mão pesada do Igor no meu ombro e aquela voz perguntado qual
era o problema. Já sentia o beijo da morte quando consegui pegar uma
garrafa vazia e, virando, acertar em cheio no crânio de Igor. Ele deus
dois passo pra trás e quando voltou a me olhar achou apenas um vazio
na cadeira, enquanto eu engatinhava pelo meio do pessoal que dançava
tentando ficar o mais longe possível dele. Fiquei o resto da noite
escondido num canto e escuro e bebendo, cuidando para achar a
verdadeira Perone e não ser visto por Igor, que ainda olhava em volta
de vez em quando em minha busca, embora a mulher o tivesse demovido de
continuar zanzando pelo salão me procurando.
	 Eram seis horas da manhã e tive que pendurar as dez garrafas de
cerveja que tinha tomado. O dono era meu amigo mas relutava em fazer
fiado pois minha fama de mal pagador estava se espalhando. Peguei o
primeiro ônibus da manhã e estava ainda levemente alcolizado quando
cheguei em casa e liguei para Perone.
	 --- Alô?
	 --- Alô, quem fala?
	 --- Perone, eu sei que é você. Eu conheço sua voz. Eu conheço.
	 --- Ahn... quem está falando?
	 --- Aqui é o Anacreonte. Eu te esperei a noite inteira no bar do Pamp
e você não apareceu Perone. EU QUASE MORRI, PERONE, QUASE MORRI LÁ POR
VOCÊ. Perone, você tem que estar no meu filme, Perone. Eu posso
parecer meio bêbado mas tô completamente são. Vamos ficar ricos com
esse filme. POR QUE VOCÊ NÃO APARECEU? POR QUE?
	 Um silêncio no outro lado da linha. Eu sabia que tinha pego ela em
cheio. Certamente ela estava pensando em desistir e minha argumentação
lhe fizera ver que o filme estava fadado ao sucesso. Parecia uma
eternidade de silêncio quando ela voltou a falar:
	 --- Bem, senhor Anacreonte, estive me informando e descobri que você
é um pau d`água sem talento e sem dinheiro fadado ao fracasso. É por
isso que não fui, senhor. E por favor tenha a bondade de nunca mais me
ligar de novo. Ou eu chamo a polícia.
	 Desligou o telefone na minha cara e fiquei ali, ouvindo o sinal
intermitente da linha telefônica até que este silenciou. Tive raiva de
todas as vezes em que me masturbara por aquela mulher. Tomei um trago
e fui dormir.

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