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Clipping FNDC - Comunicação e convergência e debate   Lista de mensagens  
Responder Mensagem #593 de 730 |

CLIPPING DO DIA
8 de Junho de 2005

Seleção de textos coletada da pesquisa diária do Epcom - Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação

 
Legislação de Comunicação
Comunicação e convergência e debate
Regulação e o jogo pesado do poder
Fórum de produção debate forças reguladoras
 
DTH
Band vai à Justiça contra parceria entre Net e Telmex
 
MMDS
MMDS recebe grande número de contribuições a favor da manutenção do espectro
 
Televisão
A crítica pela crítica
A contra-hegemonia chega à TV
Justiça nega à Globo veto a Padrão no SBT
Estratégia
MARCENARIA
No bom caminho
Exibição de "Carandiru" dá 57% de share à Globo
111
 
Comunicação Comunitária
Projeto propõe estágio em rádios e TVs comunitárias
 
Sociedade da Comunicação
Governo amplia acesso do Rede Rio
Para Cepal, novas tecnologias de informação podem ser principal via de integração latino-americana
Ipait deixa clara disparidade tecnológica entre países
 
Audiovisual
Cine Ceará homenageia Emiliano Queiroz
Bollywood entrega o seu "Oscar" em Amsterdã
 
Cultura
Gil abre Fórum de Cooperação em Vitória
 
Política
Hora de soltar as gargantas
A explosão do homem-bomba
O "mensalão" revisitado
Ética depende de política?
Pressionada, toda a diretoria dos Correios decide pedir demissão
Inimigo íntimo
Lula age e promete "cortar na própria carne"
Governo da Transparência
Demissões no IRB e nos Correios
Cúpula dos Correios cai, sob bombardeio
Planalto pressiona Delúbio a deixar direção do PT
Diretoria dos Correios coloca cargos à disposição das Comunicações
Governo reage, põe Lisboa no IRB e vai ampliar gastos
A lerdeza como método de decisão
Agenda de choque
Lula manda demitir toda diretoria dos Correios e do IRB
Pires: auditoria na ECT termina em 60 dias
Diretoria dos Correios coloca cargos à disposição do ministro das Comunicações
Crise política provoca pedido de demissão de toda a diretoria dos Correios
Fora de Contexto
Em parceria, governo lança campanha publicitária
A notícia e a paranóia
 
Imprensa & Jornalismo
O jornalismo entre quadros e janelas
Símbolo da desinformação ideológica
Essa tal liberdade de imprensa
 
Informática
Grande imprensa ignorou 6º Fórum
EUA já contam com software mais avançado
Mini PC imita computador barato da Apple
Com modelo de PC Conectado, HP quer conquistar usuário inexperiente
HP atualiza e barateia desktop para pequena e média empresa
País buscará apoio da América Latina para software livre
 
Internet
A internet e o declínio dos jornais
"A tecnologia não é inimiga"
Portal de internet não é empresa de mídia
Deputado pede aprovação de projetos contra crime digital
 
Mercado de Comunicação
Sistema leva troca de músicas a automóveis
BenQ manterá fábrica em Manaus
 
Telecom
Telemar testa vídeo sobre ADSL no Rio e em BH
Juiz de NY proibe nova proposta da Telecom Italia
Citibank e fundos farão AGE de Zain no dia 15
Cisco e UTStarcom fazem parceria para triple play
 
Regulação
Anatel apresenta regulação brasileira de telecomunicações a delegação da China
 
Literatura e Mercado Editorial
Saramago terá lançamento simultâneo
 
Indústria Fonográfica
A voz do Radamés
 
Mídia Global
Farc destroem transmissores de rádio
Britânico recomenda criação de "al-Jazira africana"
Estatal controlará maior diário econômico russo
Watergate e os papéis esquecidos do Pentágono
M.F. é melhor que Deep Throat
Fim do mistério, início da história
"Garganta Profunda" e gogós engasgados
Treze anos de mistério
 

 
Legislação de Comunicação
Comunicação e convergência e debate
6/6/2005
O governo federal deve instalar, ainda nesta semana, um conselho interministerial para discutir e elaborar a proposta da Lei de Comunicação Social, a ser apresentada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva até março do próximo ano. Esse conselho (que será formado por representantes dos ministérios da Fazenda, Justiça, Cultura, Comunicações, Desenvolvimento, Educação e Relações Exteriores, mais Secretaria de Comunicação e Advocacia Geral da União) pretende chamar todos os segmentos e entidades interessadas no assunto para ouvir suas críticas e sugestões, garante o assessor especial da Casa Civil para políticas públicas de comunicação, André Barbosa.
"Com as novas cadeias de valor e os modelos de negócio que estão surgindo, a legislação tem de ser revista", afirmou Barbosa durante o painel sobre a regulamentação do setor no 6º Fórum Brasil de Programação e Produção, realizado na semana passada em São Paulo. Apesar do nome, o que mais se discutiu no encontro - que teve o mérito de colocar lado a lado, no mesmo palco, os principais dirigentes das quatro maiores emissoras de TV aberta do País - foram políticas regulatórias e os impasses decorrentes do avanço da convergência tecnológica.
Preocupadas com a entrada das empresas de telefonia no território da distribuição de conteúdo, principalmente via telefone celular, as emissoras de TV brasileiras cobram do governo um posicionamento sobre a questão, em torno da qual existe um vácuo legislativo. "A separação das leis de telecomunicação e radiodifusão foi uma ação logística que causou a ausência total do Estado na regulação de alguns aspectos", reconheceu Barbosa.
Segundo ele, essa lógica acabou sendo cruel para as próprias empresas, na medida em que o desenvolvimento tecnológico coloca agora na mesa questões que não existiam na época da formulação das leis que regem a comunicação (datadas dos anos 60) ou mesmo da Lei Geral de Telecomunicações, que é de 1997.
A nova legislação deverá estabelecer diretrizes para a transição rumo à convergência de tecnologias e mídias, além de assegurar a concorrência entre os players e preservar a diversidade cultural e o acesso à informação.
CADA UM NA SUA
As emissoras de TV, por seu lado, querem que o governo estabeleça os limites de atuação de cada segmento, levando em conta as características dos respectivos modelos de negócios. "TVs e rádios exercem papel fundamental no entretenimento dos brasileiros e vivem exclusivamente de publicidade. Já a receita das empresas de telefonia vem de seus clientes. O governo não pode se esquecer disso. É importante que essa diferença seja notada no momento de estabelecer um marco regulatório", destacou o diretor geral da Rede Globo, Octávio Florisbal. Ele participou do painel de abertura do fórum ao lado do superintendente do SBT, Guilherme Stoliar, e dos presidentes da Record, Alexandre Raposo, e da Bandeirantes, João Carlos Saad.
Mais polêmico, Johnny Saad destacou a importância da TV aberta como única fonte de lazer e entretenimento para a população de baixa renda e criticou o avanço das teles na distribuição de imagens. "Essas empresas estão preocupadas em quebrar o marco regulatório do setor. Mas não se pode esquecer que, quando elas se estabeleceram no País, aceitaram este mesmo marco regulatório e até agora ganharam muito dinheiro com isso", afirmou Saad, que na terça-feira passada, dia 31, participou em Brasília do lançamento oficial da Associação Brasileira de Radiodifusores (ver matéria na pág. 32).
Para o sócio-diretor da Accenture, Henrique Washington, o motivo maior pelo qual as companhias de telecomunicação estão entrando em área até hoje exclusiva da radiodifusão não é o leque de possibilidades oferecidas pela tecnologia, e sim a necessidade de arranjar novas fontes de receita.
Em outro painel, o diretor de desenvolvimento de negócios da Telemar, André Bianchi, disse que não é intenção da empresa produzir conteúdo, mas distribuí-lo, e adiantou que "adoraria" ter a Globo como parceira. Eliane Pereira e Valerya Borges - Meio & Mensagem
 
Regulação e o jogo pesado do poder
7/6/2005
Vivemos um momento de singular importância no que se refere à legislação das comunicações. Propostas e projetos de lei de regulação encontram-se em discussão, tanto no âmbito do governo federal quanto no Congresso Nacional.
No governo federal, anuncia-se para os próximos dias a indicação dos membros que vão integrar o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), criado em abril, com a incumbência de preparar o anteprojeto de regulamentação dos artigos 221 e 222 da Constituição.
Excluiu-se deliberadamente da competência deste GTI a regulamentação dos artigos 220 e 223, exatamente aqueles que rezam "os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio", e que tratam das outorgas de rádio e televisão, além de definir o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.
Não creio que, ao excluir a regulamentação de questões decisivas para a configuração do setor, se possa chamar o resultado do trabalho desse GTI de projeto para uma Lei Geral de Comunicação Eletrônica de Massa.
Por outro lado, a adoção de um modelo para a TV digital está sendo discutida por GT no Ministério das Comunicações e uma nova proposta para a radiodifusão comunitária vem sendo debatida por outro grupo interministerial. Ao mesmo tempo, existem dezenas de projetos de lei sobre o setor que tramitam nas duas casas do Congresso Nacional.
Construção simbólica
A constatação de que os grupos dominantes da grande mídia comercial sempre se recusaram a admitir qualquer avanço, por menor que seja, no sentido da democratização das comunicações e sempre conseguiram que seus interesses prevalecessem na regulação do setor, provoca, em momentos como o que atravessamos, um inevitável desalento.
Qual seria uma perspectiva realista para orientar a ação dos vários grupos organizados da sociedade civil que reivindicam pelo menos ser ouvidos na formulação das propostas em discussão?
A primeira e óbvia resposta a essa pergunta é que não se pode ingenuamente acreditar que a grande mídia, privada e comercial, um belo dia, passe a apoiar projetos de democratização da comunicação, isto é, abra espaço para a pluralidade e a diversidade de vozes de nossa sociedade. Isso não acontecerá.
Recentemente o jornalista francês Bernard Cassen considerou essa "crença" uma ilusão fundamental daqueles que trabalham na perspectiva de que "um outro mundo é possível" nas comunicações. Esta ilusão, aliás, é parte importante do problema. Na verdade, ainda é extremamente restrito o segmento da população que percebe, com a necessária clareza, o que está em jogo.
Tendo em vista a centralidade que ocupa nas sociedades contemporâneas, a mídia constitui-se hoje em locus privilegiado das disputas de poder. Seu papel mais importante decorre da capacidade que tem de "construir a realidade" através da representação dos diferentes aspectos da vida humana, sobretudo da representação da própria política e dos políticos. É através da mídia que a política é construída simbolicamente - e que adquire significado.
Trata-se, portanto, de uma questão de poder e nenhum ator político cede poder voluntariamente.
Percepção necessária
O Poder Executivo brasileiro - neste e em outros governos - não teve/tem forças para confrontar os grupos dominantes de mídia privados, eles próprios poderosos atores econômicos e políticos. Ao contrário, deles depende e se vê na contingência de com eles negociar não só as propostas de políticas públicas de comunicações, mas, inclusive, propostas em outras áreas (economia, educação, esportes, cultura etc. etc.).
Ademais, não se pode esquecer que os atores que exercem o controle do poder político somente são sensíveis a demandas que se expressem de forma organizada e representem potencialmente uma ameaça à sua permanência no poder. Por exemplo: ocorreram recentemente duas marchas a Brasília de setores organizados da sociedade civil interessados na reforma agrária: MST e Contag. O Executivo, diante da demanda organizada, viu-se obrigado a negociar e atender a várias reivindicações desses movimentos.
Há alguma possibilidade de termos uma marcha a Brasília de movimentos sociais organizados da sociedade civil brasileira reivindicando a democratização das comunicações?
Ao contrário de setores como saúde, habitação e educação, por exemplo, as comunicações não são percebidas pela imensa maioria da população como um direito humano básico. E mais: não se percebe como o controle da mídia pode determinar o próprio controle do poder político.
Desta forma, uma das tarefas claras dos segmentos interessados na democratização da comunicação é trabalhar no sentido de ampliar a consciência coletiva da importância crítica do setor para a democracia. E uma estratégia prioritária de curto prazo seria o fortalecimento dos sistemas público e estatal de comunicações e de projetos de mídia alternativa.
Um dia ainda teremos as políticas públicas de comunicações percebidas pela maioria da população como as políticas públicas de setores como saúde, habitação e educação. Até lá, os interesses dos grandes grupos privados de mídia continuarão a prevalecer na regulação das comunicações. Venício A. de Lima - Observatório da Imprensa
 
Fórum de produção debate forças reguladoras
8/6/2005
Sucessivos escândalos enfraquecem o governo e o Congresso, desgastam a política e o poder "regulador" do Estado em um momento em que grandes decisões estratégicas precisam ser tomadas.
A ampla legislação de comunicações, há muito prometida e sucessivamente adiada, não é apenas uma delas, é talvez uma das questões mais importante no Brasil de hoje.
O 6º Fórum de Programação e Produção, realizado na semana que passou em São Paulo, reuniu os principais executivos das emissoras de televisão aberta, profissionais de televisão, produtores independentes, responsáveis governamentais, para avaliar o futuro da televisão e do audiovisual, uma indústria em mutação, que teoricamente teria o potencial de transformar diversas áreas da cultura, da economia à educação.
O terreno é minado, envolvendo a disputa entre gigantes multinacionais, como as empresas de telefonia, e conglomerados multimídia, emissoras nacionais de TV aberta e produtores independentes de cinema e televisão.
Os pontos de atrito se avolumam. Empresas de telefonia invadem a seara televisiva transmitindo conteúdos audiovisuais, pelos quais podem cobrar. Por outro lado, a transmissão de voz e imagem gratuitamente, pela internet, ameaça o serviço prestado por essas mesmas operadoras.
A dificuldade de escolha do padrão para a TV digital, a suposta ação monopolista na área da TV a cabo (talvez por isso, o único ramo estagnado de um setor que cresce vertiginosamente) e a concentração de produção são outros pontos de tensão.
O fórum não poderia ser mais oportuno. A complexidade das questões envolvidas pede a atenção de forças reguladoras capazes de se sobrepor a interesses particulares poderosos. Finalmente o dissenso atingiu os empresários do setor. Pena que as forças políticas não apresentem proposições à altura do desafio. ESTHER HAMBURGER - Folha de São Paulo
 

 
DTH
Band vai à Justiça contra parceria entre Net e Telmex
8/6/2005
O Grupo Bandeirantes de Comunicação entrou anteontem com um recurso jurídico na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) exigindo a quebra de sigilo na documentação que autoriza previamente a parceria das empresas Net, da Globo, e da empresa telefônica Telmex. Caso o recurso não seja aceito, o processo, até então administrativo, será analisado na Justiça comum.
A legislação brasileira determina que empresas de telefonia não podem ser sócias em operadoras de TV a cabo. A participação monetária estrangeira também se restringe a 49%. O negócio, segundo o presidente da Bandeirantes, João Carlos Saad, supera esse valor. "É só fazer a conta para saber que o monopólio está formado", disse ao Estado. "Isso não é um interesse só da emissora, é um interesse nacional."
A Bandeirantes produz dois canais para TV paga. Um deles é o BandNews, no ar na TV A e na Direct TV. Por causa da fusão entre DirecTV e Sky, anunciada no ano passado, houve uma concentração de 95% do serviço de TV via satélite no País. Com isso, a Band News deve ceder lugar na Direct TV para outro canal, diz Saad.
O canal agropecuário Terra Viva é uma espécie de pivô do processo envolvendo Net e Band. O canal foi oferecido de graça à operadora, que o recusou. Nenhum dos outros canais da Band, inclusive os abertos, estão sendo exibidos por meio dos serviços de TV paga controlados pela Globo. "Nunca recebi proposta nenhuma para distribuir meus canais", afirmou Saad. A saída está sendo exibir o canal na chamada banda C, um sinal captado gratuitamente pelas antenas parabólicas, abrangendo cerca de 12 milhões de domicílios brasileiros, que contém canais regionais, religiosos e de vendas. "É o espaço mais democrático da TV hoje", diz Saad.
Há cerca de 15 dias o Estado vem procurando a Net para questionar o processo de escolha dos canais para preencher seu line up (lista de canais). Além da Bandeirantes, a MTV também teria sido vetada pelo grupo, em detrimento de canais oferecidos pela Globosat. Procurada novamente, a Net não se pronunciou até o fechamento dessa edição. Taíssa Stivanin - O Estado de São Paulo
 

 
MMDS
MMDS recebe grande número de contribuições a favor da manutenção do espectro
7/6/2005
Em resposta à Consulta Pública que propôs a redefinição da utilização do espectro do MMDS, a ANATEL recebeu um número muito significativo de contribuições que se mostraram a favor da manutenção do espaço hoje utilizado pelos operadores da tecnologia. O regulamento sugerido pela ANATEL prevê, na consulta, a divisão do espectro em duas partes, assegurando às operadoras a utilização de apenas metade do espaço disponível e a oferta de novos e mais avançados serviços.
A ANATEL, mediante a grande quantidade de contribuições, provenientes até mesmo de empresas internacionais, declarou que está em processo de reavaliação da proposta.
O mercado e organizações relacionadas ao setor mostraram-se alinhados ao pleito da ABTA, no sentido de reiterar à ANATEL a importância de se fortalecer o espectro do MMDS, para a manutenção da competitividade dos operadores do setor e da dinamicidade do mercado. Recentemente, a ETSI, organização européia que define a padronização das teles no continente, publicou um relatório que vai ao encontro das opiniões da ABTA e da maioria das contribuições enviadas à consulta. ABTA em Ação - Assessoria de Imprensa ABTA
 

 
Televisão
A crítica pela crítica
7/6/2005
A qualidade da programação da televisão aberta brasileira é sofrível, na opinião de boa parte da sociedade. É uma estrutura que rebaixa o nível cultural do país, ponderam outros. São atrações que não agregam valor nenhum à formação das pessoas, reclamam muitos.
Tudo isso é verdade. É questão fechada. Porém, há um complicador nesse ponto de vista. Na maioria das vezes, os telespectadores/cidadãos que criticam são os mesmos que não cobram, que não participam, que não exercem seu papel de cidadão ativo.
Existe um movimento chamado "Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania", projeto da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e organizações da sociedade civil, que discute questões relacionadas à ética na TV.
Transferindo a outros
Recentemente, o debate chegou e, infelizmente, passou por Ribeirão Preto (SP). Evento pouco divulgado na grande mídia, pois autocrítica não faz parte da pauta, encontro sem discussão fora de seu próprio ambiente e com, apenas, 30 participantes.
Os pensadores frankfurtianos Horkheimer e Adorno detectam o defeito de uma sociedade cujos indivíduos encontram-se dessensibilizados frente à repetição da barbárie. Isto é, a sociedade não se indigna mais diante da gritante decadência. Atualmente, mais do que em todas as épocas, há um ambiente na mídia favorável à estetização da violência. A massificação da mensagem tem correspondência direta com a facilitação do conteúdo.
É uma sociedade cínica, egocêntrica e descompromissada. Dentro desse contexto, o telespectador/cidadão não é rei, mas objeto das emissoras de televisão.
A sociedade ocidental é dominada pela mídia, pelo entretenimento e o consumismo, na qual o ser humano está acrítico e, pior que acrítico, perigoso. Pois seu papel consciente é transferir a outros, Estado, por exemplo. É a crítica pela crítica. Mauricio Guindani Romanini - Observatório da Imprensa
 
A contra-hegemonia chega à TV
7/6/2005
Reproduzido do boletim eletrônico do Núcleo Piratininga de Comunicação
Imagine um canal de televisão que se proponha a combater o "discurso único" das grandes redes globais de comunicação, todas com sede nos países ricos. Uma tevê que mostre o sul com os olhos do sul, revelando tudo o que vem sendo sonegado ao público sobre as verdadeiras lutas sociais e de libertação travadas pelos povos latino-americanos. Uma emissora para romper com o bloqueio informativo imposto pelas emissoras dos países do norte hegemônico, construindo uma alternativa concreta e de grande alcance para a democratização da informação em escala internacional. Um canal que sirva, enfim, como instrumento de integração dos povos de toda a América, estimulando a participação de comunicadores populares e dos movimentos sociais latino-americanos. Difícil imaginar?
Pois é exatamente esta a proposta da Telesur, que entrou no ar às 13 horas do dia 24 de maio, com duas horas de programação e em caráter experimental, e foi transmitido pela TV Comunitária de Brasília, que acumulará também a função de sucursal brasileira da emissora. Seu sinal de satélite - NSS 806 - pode ser captado da Patagônia até o Canadá. Em Caracas (Venezuela), sede da multiestatal, as transmissões se iniciaram com uma entrevista coletiva que contou com a participação de representantes de Venezuela, Uruguai, Argentina e Cuba - países que investiram o capital inicial para a fundação da emissora.
"Nosso Norte é o Sul", diz a mensagem da Telesur.
Ampla estrutura
O lançamento oficial da programação da emissora está previsto para o dia 24 de julho, data em que é comemorado o nascimento de Simon Bolívar, com transmissão de três segmentos diários de oito horas. As reproduções se darão, em um primeiro momento, a partir da solidariedade de diversas emissoras públicas, educativas, universitárias e comunitárias. O sinal é capitado via satélite e o equipamento é relativamente barato para as tevês que quiserem reproduzir o material - menos de R$ 1.500, preço irrisório perto dos orçamentos usuais de tevê. O dinheiro diz respeito a um receptor digital de 400BX, uma antena para sintonizar os canais e um técnico para manusear o equipamento.
Já existem sucursais estruturadas em nove países, inclusive em Washington, nos Estados Unidos, profissionais em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, além de correspondentes em Buenos Aires, La Paz, Havana, Cidade do México, Montevidéu, Nova Iorque e Bogotá. O Brasil, formalmente, não se associou à nova empresa, mas o país é uma peça fundamental do ponto de vista operativo e logístico para a Telesur, porque vai colaborar com os países associados através de dezenas de convênios.
Com uma programação bilingüe - em espanhol e português -, a Telesur transmitirá em 40% do tempo programas jornalísticos, entre noticiários, entrevistas e reportagens. Seus organizadores prometem um jornalismo comprometido com a missão de integrar os povos latino-americanos, resgatando sua verdadeira história de lutas libertárias e defendendo suas tradições, sua cultura, sua arte e seu direito à autodeterminação.
Memória e luta dos povos
O jornalista brasileiro Beto Almeida, diretor multinacional da emissora, explica a proposta. "Nós faremos um jornalismo não panfletário, mas que não será imparcial. O que queremos é revelar a nobreza dos povos em luta e não permitir o esquecimento", disse à Agência Brasil na última quarta (25/5). Já Jorge Enrique Botero, diretor de informação, descartou qualquer comparação que se faça com a CNN ou Al Jazeera. "Telesur é um canal para que nos conheçamos, para vermos-nos com nossos próprios olhos."
Os outros 60% exibirão material de produtores independentes, produções do cinema latino-americano, emissoras de televisão regionais comunitárias e universitárias e de organizações sociais de toda a região. A linguagem visual, como não poderia deixar de ser, remete à história da América Latina. "As bases serão feitas pela informação, retomando a crônica, a reportagem, a entrevista, a investigação, sem se prender ao imediatismo", afirmou o uruguaio Aram Aharonian, vice-presidente e diretor-geral da Telesur.
Promessa de independência
Aram Aharonian explicou que o financiamento para a construção da emissora provém dos estados que compõem a empresa multinacional. "Agora estamos estudando um novo modelo de financiamento." A Telesur foi fundada com um capital inicial de US$ 10 milhões, bancados por Venezuela (51%), Argentina (20%), Cuba (19%) e Uruguai (10%).
De acordo com Gabriel Moriotto, secretário de mídia da Argentina, a Telesur será uma emissora "horizontal, pluralista, ampla e democrática". Moriotto disse não se preocupar com possíveis interferências de governantes na programação da Telesur. "Esse paradigma não funciona mais. As nossas sociedades estão maduras e não há espaço para confundir Estados e governos", disse.
"Não é uma arma para estimular modelos políticos, não é uma ferramenta de difusão de ideologias sobre outros países. A diversidade é a filosofia de programação da Telesur", disse Andrés Izarra, ministro venezuelano de Informação e Comunicação, numa coletiva de imprensa no Teatro Teresa Carreño, em Caracas. [Com agências nacionais e internacionais. Mais informações no site da emissora]. Gustavo Barreto - Observatório da Imprensa
 
Justiça nega à Globo veto a Padrão no SBT
8/6/2005
A Globo tentou na Justiça impedir a estréia de Ana Paula Padrão no SBT. A emissora entrou com ação judicial no último dia 30 exigindo a volta imediata da jornalista ao trabalho e o cumprimento de seu contrato até 31 de outubro de 2006, bem como a proibição de sua "participação em qualquer programa de televisão produzido por outra emissora", sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
Mas a juíza Fernanda Xavier de Brito, da 44ª Vara Cível do Rio de Janeiro, negou a liminar pedida pela Globo. Ou seja, por enquanto, nada impede que a ex-apresentadora do "Jornal da Globo" ancore telejornal no SBT. A Globo ainda estuda se vai recorrer.
Padrão rompeu com a Globo no último dia 11. Assinou contrato com o SBT por quatro anos. A jornalista, por meio de advogados, tentou entregar à Globo cheque pagando multa de rescisão contratual no valor de R$ 3,729 milhões, bancada pelo SBT. A Globo se recusou a receber o cheque, e Padrão fez depósito consignado em agência bancária. O valor da multa inclui tudo o que Padrão recebeu da Globo desde que assinou contrato, em 2002, e o que ganharia até seu término, em 2006.
A Globo argumentou na Justiça que o contrato não poderia ser rompido unilateralmente. Mas a juíza Brito entendeu que não há veto à ruptura de contrato, mesmo porque Padrão demonstrou interesse em não mais mantê-lo e se dispôs a pagar multa. DANIEL CASTRO - Folha de São Paulo
 
Estratégia
8/6/2005
A Record vai lançar um novo telejornal no mesmo dia e horário em que Ana Paula Padrão estrear no SBT, o que deve ocorrer em agosto. O jornalístico será apresentado por Marcelo Rezende (ex-"Cidade Alerta"). Será popular, mas não popularesco.Daniel Castro - Folha de São Paulo
 
MARCENARIA
8/6/2005
O jornal que Ana Paula Padrão estréia nos próximos meses no SBT não será apresentado na redação, como era o "Jornal da Globo". A emissora trabalha no projeto de um estúdio. Folha de São Paulo
 
No bom caminho
8/6/2005
Não faz tanto tempo assim, todos reclamavam a falta de novos e melhores jornalísticos no nosso vídeo. Os poucos que existiam apenas cumpriam tabela ou eram levados ao ar para atender às exigências da lei. Hoje, o panorama é completamente outro. Felizmente. Toda emissora de televisão que se preze tem como prioridade montar uma boa programação jornalística. A única exceção era o SBT, que só mantinha seus informativos no ar graças a um pequeno grupo de abnegados profissionais.
Agora, em função desse acerto com Ana Paula Padrão e à montagem de uma grande equipe (fala-se em mais de 70 profissionais), existe a expectativa da realização de um trabalho sério, que poderá, inclusive, gerar outros títulos na casa. Além do telejornal de Ana Paula, ainda sem horário definido, mas que será na faixa nobre, a emissora planeja lançar um outro, à tarde.
Finalmente parece ter caído a ficha na Anhangüera. Silvio Santos percebeu que o respeito do mercado só viria através de uma contratação de peso, no caso, a de Ana Paula Padrão, e isso foi feito. Também chamou um diretor de jornalismo respeitado no meio - Luiz Gonzaga Mineiro. Um passo importante.
Nessa altura do campeonato, com a concorrência investindo forte, não dava mais para trabalhar com amadorismo. O "Jornal de saias", como era conhecido o informativo de Cinthia Benini e Analice Nicolau, levou a emissora a lugar nenhum. Na verdade, era constantemente alvo de chacotas. Com Ana Paula e cia., espera-se um novo tempo no jornalismo do SBT. Tempo? Sim. Os resultados não irão aparecer na primeira semana ou no primeiro mês. Mas irão. Basta apenas ao dono do SBT dar tempo à equipe e não se render ao imediatismo, fator que, em inúmeros casos, deixou muita gente pelo caminho. Tribuna da Imprensa
 
Exibição de "Carandiru" dá 57% de share à Globo
07/06/2005, 17h02
A exibição do longa nacional "Carandiru", na "Tela Quente" da noite de segunda-feira (dia 6) na Rede Globo, foi a melhor em audiência na sessão das últimas semanas. A prévia da audiência média aferida pelo Ibope para a Grande São Paulo deu 42 pontos (cada ponto corresponde a 80 mil domicílios), e uma participação de 57% entre todos os televisores ligados no horário. A título de comparação, na semana passada, o enlatado americano "Tudo Para Ficar com Ela", exibido no mesmo horário, rendeu 35 pontos de média, também na prévia do Ibope. Na semana anterior, com o também enlatado "Não é Mais um Besteirol Americano", o índice fora de 38 pontos.
Minissérie
A exibição de "Carandiru" precede a estréia da minisséire derivada do filme, uma produção de Hector Babenco que estréia em julho na emissora. Também, o anúncio da projeção foi anunciada no encerramento do "Jornal Nacional". Edianez Parente - TELA VIVA News
 
111
8/6/2005
O longa "Carandiru", exibido pela Globo até o início da madrugada de ontem (terminou por volta de 1h20), massacrou a concorrência. O filme deu 43 pontos (só perde neste ano para "Homem-Aranha", que rendeu 47). No horário, o segundo colocado, o SBT, marcou só quatro pontos (o "Hebe", com Ana Paula Padrão, ficou nos cinco pontos). Até o "Eu Vi na TV" (Rede TV!), que marca até dez, não passou dos três pontos. Daniel Castro - Folha de São Paulo
 

 
Comunicação Comunitária
Projeto propõe estágio em rádios e TVs comunitárias
7/6/2005, 23h33
A Comissão de Ciência e Tecnologia aprecia vários projetos hoje, às 10h, no plenário 13. Entre eles o PL nº 6.441/02, do Walter Pinheiro (PT-BA) em parceira com a ex-deputada Ana Corso (PT-RS), que estabelece a obrigatoriedade de estágios para os alunos do curso de Comunicação Social das universidades públicas em rádios e televisões comunitárias.
Poderá ser aprovado ainda o PL nº 1 417/99, do deputado Fernando Ferro (PT-PE), que dispõe sobre a participação do usuário na administração de entidades de pesquisa científica e tecnológica da administração federal. Agência Informes
 

 
Sociedade da Comunicação
Governo amplia acesso do Rede Rio
8/6/2005
Investimentos chegam a R$ 57 milhões
O governo do Rio de Janeiro pretende, até o fim de 2006, levar a Rede Rio até todas as comunidades carentes do estado. A Rede Rio é uma rede gratuita de acesso à internet de banda larga patrocinada pelo governo fluminense. Para o assessor do governo de Rosinha Garotinho e ex-coordenador da Rede Rio, Emmanuel Passos, outra meta do projeto é adotar em 2006 tecnologia que permitirá passar quatro canais no mesmo cabo de fibra ótica da rede.
Criada em 1992, ela integra computadores de universidades, centros de pesquisas e projetos de inclusão digital, mas garante o acesso à internet de alta velocidade a somente quatro comunidades carentes. Dos R$ 57 milhões que serão investidos na Rede Rio, o governo já destinou R$ 15 milhões ao projeto.
Passos é também o coordenador do evento que ocorre paralelamente à reunião preparatória da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, que acontece nesta semana no Hotel Glória, no Rio de Janeiro. No evento, serão apresentados projetos de inclusão digital realizados no Rio e em outros países da América Latina e Caribe. Os participantes discutirão também o problema da gestão dos recursos recolhidos pelo governo federal que deveriam ser aplicados em informática.
Os participantes da reunião preparatória da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, que reunirá representantes de países da América Latina e Caribe, aproveitarão o encontro para discutir os problemas locais relacionados à propriedade intelectual, desenvolvimento de softwares em código aberto e inclusão digital. Ele comentou ainda que a ausência dos Estados Unidos na reunião será positiva, pois assim os participantes poderão discutir com maior liberdade a administração da internet, hoje realizada nos EUA.
No encontro, Passos lançará um livro sobre o panorama da Sociedade da Informação no Rio nos últimos três anos e, como ela, se insere no cenário global. Com distribuição gratuita, a publicação detalha os projetos de inclusão digital localizados no Rio de Janeiro. Fernando Exman - Jornal do Brasil
 
Para Cepal, novas tecnologias de informação podem ser principal via de integração latino-americana
7/6/2008, 18h28
Rio - As iniciativas públicas para o desenvolvimento e a difusão de tecnologias de informação e de comunicação podem tornar-se a principal via para a integração dos países da América Latina e do Caribe. "Isso fortaleceria a ligação entre os países da região de uma maneira que a gente nunca viu antes", avalia o diretor de Desenvolvimento Produtivo e Empresarial da Comissão Econômica das Nações Unidas para América Latina e Caribe (Cepal), João Carlos Ferraz.
Ele está no Rio esta semana para participar da Conferência Regional Ministerial da América Latina e Caribe, que começa amanhã. O evento faz parte dos preparativos para a 2ª etapa da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação. Como todos os países da região têm iniciativas a oferecer nesse campo, Ferraz afirma que os governos latino-americanos e caribenhos terão uma oportunidade única no evento: "A conferência será uma oportunidade para que os países promovam projetos de cooperação para o fortalecimento da Sociedade da Informação".
Para Ferraz, todos os países da região têm iniciativas avançadas e importantes de emprego coletivo das novas tecnologias de informação e comunicação. Como exemplos, ele cita métodos de ensino para minorias étnicas que estão sendo desenvolvidos em várias comunidades e também o sistema de Imposto de Renda do Brasil, único no mundo, que, segundo ele, nem os países mais desenvolvidos possuem. "Desenvolver essas iniciativas públicas contribui diretamente para a eficiência e a transparência, dando maior poder ao cidadão para que exija mais democracia do Estado".
Participarão da abertura da Conferência, nesta quarta-feira (8), os ministros das Relações Exteriores, Celso Amorim; do Planejamento, Paulo Bernardo, e da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, junto com mais 10 ministros e vice-ministros dos 34 países da região, além de representantes de organismos internacionais e multilaterais, do setor privado e da sociedade civil.
A 2ª etapa da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação ocorrerá em novembro próximo, em Túnis, na Tunísia. Alana Gandra - Portal da Cidadania Radiobrás
 
Ipait deixa clara disparidade tecnológica entre países
7/6/2005, 16h16
Ficou clara a disparidade tecnológica entre países desenvolvidos e em desenvolvimento durante a apresentação dos participantes para a 3ª Assembléia Geral da Associação Internacional de Parlamentares para a Tecnologia da Informação (Ipait) sobre o estado da inclusão digital em seus países. Sete delegações apresentaram na manhã de hoje (7) as experiências de seus países e o papel dos legislativos nacionais no processo de regulamentação do setor.
Enquanto Finlândia e Coréia do Sul têm computadores conectados à internet em todas as escolas, Angola e Argélia lutam para implementar acessos em todas as suas províncias. Apenas 3% dos 12 milhões de habitantes de Angola têm acesso à internet. Por outro lado, a Finlândia preocupa-se com o fato de "apenas" 40% de seus habitantes (5 milhões) terem acesso de banda larga.
O deputado Luiz Piauhylino (PDT-PE), que presidiu os trabalhos, explicou que um dos papéis da Ipait é exatamente trocar experiências para tentar superar essas disparidades. "O grande desafio dos parlamentos é buscar rapidamente incrementar o uso das ferramentas de tecnologia da informação para que esses países se nivelem no ingresso na era do conhecimento", defendeu.
Como os participantes da Ipait precisam continuar o diálogo após o encerramento do encontro, Piauhylino anunciou que o site da 3ª assembléia, feito no Brasil, vai continuar disponível até a próxima edição do evento, que ocorrerá em 2006, no Marrocos. Nesse meio tempo, os parlamentares poderão trocar mensagens e experiências pela internet.
Responsável pela redação da carta final do encontro, o deputado Philemon Rodrigues (PTB-PB) destacou a necessidade de as informações governamentais estarem acessíveis para que a população possa controlar os gastos públicos. O Brasil tem grande experiência nessa área e pode ajudar outros países, como Honduras, que está interligando seus municípios em uma rede para esse tipo de informações.
Desigualdades econômicas
As desigualdades econômicas do mundo real repetem-se no mundo virtual. A deputada da Assembléia Nacional de Angola, Cândida Narciso, explica que, além dos 30 anos de guerra civil, encerrada há apenas três anos, outros fatores levam ao quadro que se apresenta em seu país. "Infelizmente, ainda não temos energia em todo o país. Outro problema é a falta de ligação telefônica, e ainda temos muitas dificuldades de infra-estrutura", lamentou. As respostas a esses problemas são díspares. Angola tem contado com ajudas externas, da ONU e de empresas como a Microsoft.
O encontro reúne delegações de 21 países e prossegue até amanhã. Marcello Larcher e Mônica Montenegro - Agência Câmara de Notícias
 

 
Audiovisual
Cine Ceará homenageia Emiliano Queiroz
8/6/2005
Ator cearense que está no longa O Amigo Invisível recebeu troféu por sua carreira
Uma singela homenagem ao ator Emiliano Queiroz foi o momento de maior emoção até agora desta 15.ª edição do Cine Ceará. Nascido em Aracati, e conhecido do grande público pelo personagem Dirceu Borboleta, da novela O Bem-Amado, Emiliano é daqueles atores que transformam pequenos papéis em grandes personagens. Por exemplo, por uma participação de apenas 5 minutos em Stelinha, de Miguel Faria Jr., recebeu em Gramado o Kikito de melhor coadjuvante. Ele participa do elenco de Casa de Areia, de Andrucha Waddington, ainda em cartaz, e estará na novela da Globo Alma Gêmea, que estréia em breve.
No cinema, Emiliano teve mais de 45 participações, entre curtas e longas. Mas possivelmente seu papel mais significativo seja o do homossexual Veludo, na versão de Braz Chediak para a peça Navalha na Carne, de Plínio Marcos, contracenando com Glauce Rocha e Jece Valadão. Ao receber o troféu Eusélio Oliveira por sua carreira, Emiliano, muito emocionado, só pôde dizer que era uma honra ter sido lembrado em sua terra natal. Ele está também no elenco do longa O Amigo Invisível, de Maria Letícia, que participa do Cine Ceará fora de concurso.
No terceiro dia de competição, um público pequeno assistiu no Cine São Luiz a Bens Confiscados, longa concorrente de Carlos Reichenbach. Fiel ao estilo adotado nos últimos tempos, Carlão faz um "cinema de sentimentos", inspirado em Valerio Zurlini. Consegue obter momentos tocantes com a história de Serena (Betty Faria) a antiga amante de um político corrupto, que se encarrega de cuidar do filho deste, seqüestrado a mando do próprio pai. A trama de fundo, um tanto rocambolesca, é compensada pela intensidade do desfecho, um momento de luz de estrela de Betty Faria. Mas esses pontos de grandeza são insuficientes para equilibrar um projeto complicado.
Num balanço provisório, pode-se dizer que, até agora, os documentários têm levado a melhor sobre a ficção na disputa cearense. Os melhores longas apresentados até ontem foram, em primeiro lugar, o belo e profundo Moacir - Arte Bruta, de Walter Carvalho e, em seguida, o corajoso, porém problemático, A Pessoa É para o Que Nasce, de Roberto Berliner.
Os curtas têm apresentado bom nível, mas ainda não há nenhum que se destaque sobre os demais. E, como acontece com freqüência nos festivais, é garimpando fora da mostra competitiva que se encontram as pepitas. Ontem foi o caso do belo documentário em vídeo As Vilas Volantes, de Alexandre Veras, do Ceará, que registra em planos longos, de tons tarkovskianos, o cotidiano da gente que vive do mar e da pesca no litoral cearense. Registro sem populismo, apenas com grande sentido de beleza e respeito pelos personagens. O vídeo faz parte do projeto Doc-TV, do Ministério da Cultura. Luiz Zanin Oricchio - O Estado de São Paulo
 
Bollywood entrega o seu "Oscar" em Amsterdã
8/6/2005
BOMBAIM - O Festival da Academia Internacional de Cinema da índia, que Bollywood realiza anualmente no exterior, desde 2000, para promover a indústria cinematográfica indiana no mercado internacional, começa amanhã, em Amsterdã.
O Robert de Niro indiano, Amitabh Bachchan, o galã Shah Rukh Khan e as ex-Miss Mundo Aishwarya Rai e Priyanka Chopra irão a Amsterdã para ajudar o cinema saído dos estúdios "bollywoodianos" de Bombaim (atual Mumbai) a obter o reconhecimento do cinema internacional. A índia é a maior produtora de filmes do mundo, com mil longas-metragens anuais e um orçamento de aproximadamente 57 bilhões de rúpias (US$ 1,3 bilhão) em 2004.
Segundo os organizadores do evento, o interesse por seu cinema, considerado kitch, cresceu no cenário internacional, mas a índia continua lutando para atrair o público ocidental e destacar-se em grandes festivais como o de Cannes, onde jamais foi representado.
Favoritos
A nova edição do festival terminará no sábado, com uma cerimônia de entrega de prêmios, depois da votação do júri e do público. Na categoria melhor filme, as três produções estreladas por Shahrukh Khan são consideradas as favoritas, como Kal Ho Naa Ho ("O amanhã pode nunca chegar"), que conquistou 14 prêmios em 2004.
Na categoria melhor ator, os favoritos são Shahrukh Khan e Abhishek Bachchan. Na de melhor atriz, destacam-se Preity Zinta, Sushmita Sen e Mallika Sherawat. Os candidatos mais fortes para melhor direção são Yash Chopra, pelo filme "Veer-Zaara", Farah Khan, por "Main Hoon Na", e Ashutosh Gowarikar, por "Swadesh". Tribuna da Imprensa
 

 
Cultura
Gil abre Fórum de Cooperação em Vitória
8/6/2005
O ministro da Cultura, Gilberto Gil, abre hoje, em Vitória, no Espírito Santo, o 2.º Fórum de Cooperação Cultural Internacional. Como músico e político, é um dos defensores dos temas a serem discutidos: diversidade, patrimônio histórico, tradições populares, economia criativa e políticas públicas do setor. "Num mundo globalizado a cooperação cultural é mais fácil, mas é preciso buscar meios para que ela ocorra", diz o assessor da Secretaria de Cultura do Espírito Santo, Erlon Paschoal, que organiza o encontro.
Para ele, a cooperação se dá com a circulação de produtos (espetáculos, livros, filmes ou disco) e a troca de tecnologias. "O embaixador de Porto Rico, por exemplo, vem contar como uma penitenciária foi transformada num museu da criança. Brasil, África e América Latina têm monumentos semelhantes que podem ter uso parecido", afirma Paschoal. "O sucesso desse encontro não é imediato, mede-se pelos acordos de intercâmbio que ocorrem no decorrer do tempo. Mas a presença de representantes de tantos países é bom termômetro."
O fórum anterior foi em Fortaleza, em 2004. "Desta vez, vamos aprofundar as propostas feitas ali, mas o número de participantes cresceu", avisa Paschoal. Ele acredita que o intercâmbio cultural é tão importante quanto o comercial e pode ser incentivado da mesma forma, fugindo assim à hegemonia americana no setor. "Esse não é o tema nem o objetivo principal do fórum , mas certamente esse assunto vai permear todas as conversas." Beatriz Coelho Silva - O Estado de São Paulo
 

 
Política
Hora de soltar as gargantas
7/6/2005
"No mundo real o deep throat está saindo de cena." Quem escreveu isso na última edição da ex-independente IstoÉ (8/6, pág. 97) não foi um crítico de mídia ou politólogo. Foi o charmoso Dr. Mauro Marcelo de Lima e Silva, diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) ao deixar as sombras funcionais e encarar as luzes da ribalta política.
Nosso araponga-mor foi desmentido numa questão de horas pelo deputado Roberto Jefferson. Depois de um gargarejo ardido e depurador, o presidente do PTB desengasgou o gogó e fez de um jato o que Mark Felt, "o cara chamado de Garganta Profunda", fez aos poucos naquela garagem subterrânea de Washington, 33 anos atrás.
Na longa entrevista que Jefferson concedeu à repórter Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo (6/6, págs A1, 4 e 5), o deputado revela a história do "mensalão" que o PT teria pago aos deputados da base aliada no ano passado.
Por que abriu o bico? O que levou este profissional do poder a enfrentar o poder? No texto do nosso araponga-mor está dito com todas as letras que "o deep-throat é uma pessoa metida até a garganta em ilegalidades ou motivada por sentimentos pessoais de vingança".
Jefferson, o nosso gargantinha, fez para a Folha o que havia prometido uma semana antes na matéria de capa da Veja (edição 1907, 1/6/05): se for levado ao banco dos réus três petistas sentarão junto com ele. Cumpriu o prometido com a precisão de um expert da Cosa Nostra.
Risco de ruína
Não há diferença entre o homem-bomba do PTB e os produtores do vídeo-bomba dos Correios. Mamaram nas tetas do erário e quando secaram ou foram oferecidas a outros, chiaram. Sob o ponto de vista dos procedimentos, a façanha da Folha é mais qualificada do que a da Veja, já que a denúncia do deputado - embora antecipada com estardalhaço - foi manifestada a uma jornalista e por ela elaborada. O feito do semanário deve-se aos empresários-realizadores do impecável vídeo.
Ambos prestam um enorme serviço à sociedade ao denunciar os respectivos escândalos com as estentóreas gargantas que o Todo Poderoso lhes concedeu. Mas nunca é demais lembrar, relembrar e repisar que a imprensa como defensora do interesse público não deve ser caudatária de interesses privados contrariados. Pode ficar respingada.
O que interessa nesta surpreendente e benéfica justaposição do Caso Watergate com o Caso Correios/PTB é o esforço visivelmente concatenado para desmoralizar Mark Felt e, ao mesmo tempo, desestimular um tsunami-denuncista na esfera pública brasileira.
O cândido texto do diretor-geral da Abin não deixa dúvidas; nele estão as impressões digitais de quem não está minimamente interessado na multiplicação de Gargantas Profundas ou Gargantas Rasas, Gargantas Roucas ou sequer Gargantas Sussurrantes.
No momento em que servidores públicos revoltados começarem a gargantear ou reportar - direta ou indiretamente - o que vêem ou sabem, a Esplanada dos Ministérios desmorona. Nem a Abin estaria a salvo do garganteio sufocado, diga-se, há pelo menos duas décadas.
Papel fiscalizador
É por isso que o Dr. Lima e Silva desqualifica Mark Felt ao considerá-lo "rotten apple" (maçã podre) enquanto canta loas ao sistema de "delação premiada". Fica evidente que detesta o cidadão-servidor que, por fidelidade à sua consciência, passa por cima dos compromissos profissionais com o Estado. O chefão da Inteligência prefere pagar ao delator-mercenário porque deste modo limita e controla o processo saneador.
Na ânsia de qualificar Felt como vilão e desqualificar as razões que o levaram a vazar as dicas para a dupla Woodward-Berenstein, o diretor da Abin esquece que um delator autônomo, "terceirizado", chamado Pedro Collor desvendou para a imprensa o mar de lama do Esquema Collor.
Foi vingança? Foi. Pedro Collor era um delirante? Era. Se tivesse sido premiado com alguma boca livre teria ficado calado? Certamente. Mas graças a ele, às suas mágoas e ao seu gorgeio, o país livrou-se de uma perigosa gangue.
Na verdade, a Abin não quer que a imprensa desempenhe o papel fiscalizador que lhe cabe no sistema democrático. Não quer parceiros, quer filtrar e monitorar o que convém vir à tona. Em outras palavras: quer o monopólio das gargantas. Gargântua quer o silêncio.
Avaliações furadas
A imprensa brasileira não resiste à vocação caipira. Indispensável a picada venenosa e piadinha perversa. Na revelação da identidade do "Garganta Profunda", grandes e pequenos tolos insistiram na bobagem a respeito do furo que a Vanity Fair teria dado no Washington Post.
Nem o jornal nem a dupla de repórteres (agora reunida depois de longa separação) estavam interessados em quebrar o pacto que mantinham há mais de três décadas.
Os engraçadinhos queriam que o sigilo da fonte fosse quebrado justamente por aqueles que juraram respeitá-lo? Este tipo de furo reclamado pela galera tupiniquim poria a perder um comportamento impecável.
Pior foram as piadinhas a respeito das motivações de Mark Felt para converter-se no "Garganta Profunda". Se fosse uma vingança pessoal contra a Casa Branca o ex-nº 2 do FBI não esperaria tanto tempo para colher os louros. Se estivesse atrás de grana não conseguiria um tostão, porque justamente no auge do caso Watergate a imprensa americana começou a discutir abertamente o check-book journalism (o jornalismo do talão de cheques) que começava a proliferar e logo abortado.
Da onda de picuinhas contra Felt não escapou o seu idolatrado mentor, J. Edgar Hoover, descrito maliciosamente pelo craque Elio Gaspari (Globo & Folha, 5/6) como celibatário, agarrado às saias da "mamy" e que ao longo dos anos passava os fins de semana com o mesmo amiguinho. E daí? Alberto Dines - Observatório da Imprensa
 
A explosão do homem-bomba
7/6/2005
Assim como jogou a crise política a um novo patamar, a entrevista do deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, a Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, acusando o PT de pagar mesada aos deputados do PL e do PP, representa um ponto de inflexão na cobertura da imprensa dos escândalos flagrados ou denunciados no governo Lula.
Até sexta-feira passada (3/6), o ponto mais avançado dessa cobertura tinha sido a informação da Veja de que o ex-presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), Lídio Duarte, se demitira por não agüentar as pressões para contribuir com R$ 400 mil mensais para a caixinha do PTB.
Como Duarte teve a má idéia de desmentir a Veja ao depor na Polícia Federal, naquele dia a revista colocou no seu site a gravação da fala do doutor Lídio ao repórter Policarpo Júnior e informou à Folha de S.Paulo no dia seguinte que ele sabia estar sendo gravado.
O que a Veja não explicou foi por que ela já não contou a história direito, com nomes e sobrenomes, na primeira matéria que falava do aperto que levou o presidente do IRB a se demitir. Acabou que o público ficou sabendo do vexame, também pela Veja, mas por vias tortas.
Com as atenções voltadas para as manobras do governo no Congresso, a fim de impedir a instalação da CPI dos Correios, o fato é que foi ficando cada vez mais em segundo plano o ponto de partida do escândalo todo - o vídeo em que o funcionário Maurício Marinho aparece embolsando R$ 3 mil e o áudio em que ele compromete nominalmente o deputado Jefferson.
Neste Observatório, o jornalista Alberto Dines criticou com razão o aparente desinteresse da mídia em escaranfuchar a história da gravação propriamente dita e o jogo rasteiro de interesses nada rasteiros que levou a ela.
À falta disso, esparramaram-se pelas páginas políticas os números das pesquisas, primeiro da Sensus, depois do Datafolha, sobre o declínio da avaliação positiva do governo. Neste último caso, a propósito, o jornal destacou o irrelevante e deu as costas ao essencial no título de primeira página, "Datafolha mostra que Lula enfrenta 2º turno".
Até o mais novo dos estagiários do Datafolha deve saber que pesquisa de intenção de voto a 19 meses de uma eleição e nada são a mesma coisa, porque, no caso, ao escolher o nome que levaria o presidente à segunda rodada, o entrevistado tende a citar aquele que está, como dizem os pesquiseiros, no topo da sua mente. É o conhecidíssimo efeito recall.
De mais a mais, faz tempo que os políticos diziam duas coisas: 1) a reeleição de Lula é o cenário mais provável; 2) mas é improvável que ele se reeleja no primeiro turno. (O que ele não conseguiu nem em 2002).
Então, por que não dar na primeira o que ficou para títulos internos? "Aprovação a Lula cai 10 pontos em 5 meses", "Para 59%, Lula não defende mais as idéias que o elegeram" e, principalmente, dado o ar que o país vem respirando, "65% acham que governo Lula é corrupto" (embora o certo mesmo seria dizer "65% acham que há corrupção no governo Lula").
Lula, visto por Dirceu
Antes da explosão do "homem bomba" Roberto Jefferson (como o chamara, numa capa, a Veja), reportagem política de peso só tinha saído uma: a dos robustos 19 parágrafos em que o repórter Kennedy Alencar, também da Folha, assegura que "nunca estiveram tão ruins e distantes as relações entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do PT...".
A matéria, publicada na última quinta-feira, é uma viagem pelo problema, começando no sábado, 7 de maio, e terminando na quarta, 1º de junho. A data inicial é a da viagem do presidente do PT, José Genoíno, ao Japão: ele teria embarcado certo de que, na volta, o intratável assunto do comando da coordenação política do governo estaria resolvido. A data final é a dos mais recentes pensamentos petistas sobre como "convencer Lula a agir para dar sinais de que não é refém da crise".
O texto está encharcado do que o repórter apresenta como fatos indiscutíveis, embora em nenhum momento alguém assuma a paternidade por um único deles que seja. Nada de perder espaço com "a Folha apurou", "segundo uma testemunha", "fontes do governo" ou coisas do gênero.
Alencar conta a sua história - acredite quem quiser. Pensando bem, por que não? Se o repórter não pode ser mais específico em relação às fontes a que recorreu, que diferença fará para o leitor topar com chavões como aqueles ou não?
Mas que a matéria poderia ter sido assinada pelo ministro José Dirceu, lá isso poderia. Não que esteja presumivelmente a seu serviço, mas o ângulo de visão das coisas é sem dúvida o do titular da Casa Civil.
Por exemplo, leia-se o seguinte:
"Lula, então, convidou Dirceu para uma conversa a sós na Granja do Torto no domingo [30/5] à noite. O presidente, que em conversas com auxiliares sinalizara que achava inútil e desgastante insistir no sepultamento regimental da CPI dos Correios, não tomou as grandes decisões que os petistas e Dirceu aguardavam. O ministro da Casa Civil deixou a Granja do Torto contrariado. Julgou a conversa improdutiva."
Para meio entendedor, já é o suficiente. Mas tem mais. Só Dirceu é citado entre aspas - duas vezes.
Em 6 de maio, num café da manhã com dirigentes do partido: "O PT tem 25 anos de história. Levamos dez anos construindo a vitória do Lula. Foi uma obra coletiva. Não dá para ele decidir tudo sozinho. Não dá mais".
Em 24 de maio, em outra reunião, quando, segundo Alencar, "deu a entender que Lula era o principal responsável pela crise política, Dirceu disse que estava 'no seu limite'".
Ele disse algo parecido no ano passado, debaixo da tempestade do Waldogate. Logo se recuperou e anunciou que daria a volta por cima. Mas daquela vez, não era por causa de Lula que Dirceu estava no seu limite. Agora, a crer na reportagem, diz que é. Valeu o dinheiro do jornal.
"Eu quero contar um episódio"
Eis, enfim, que Jefferson dá uma de "Pedro Collor", na inquietante analogia do colunista Fernando Rodrigues, da Folha. Duas coisas chamaram a atenção deste leitor na entrevista.
A primeira é que o assunto "mensalão", como o entrevistado se refere à mesada supostamente distribuída pelo tesoureiro petista Delúbio Soares, só entrou na conversa quando ela já corria solta - na sétima das 24 perguntas do pingue-pongue.
E entrou por escrachada iniciativa do deputado. A repórter lhe perguntara se ele rejeitava a afirmação de que o corretor Henrique Brandão, a ele ligado, pedia contribuições em seu nome no IRB. Depois de gastar 38 palavras para dizer que rejeitava, Jefferson parou e disse: "Eu quero contar um episódio." E aí mandou ver.
Os leitores ainda não cobram dos jornais o making of de suas matérias. Mas, nesse caso, a Folha daria uma demonstração de transparência se respondesse a uma única pergunta: de quem foi a iniciativa da entrevista? A resposta poderia esclarecer de vez a história da vendeta do deputado contra o PT.
O segundo aspecto intrigante foi a repórter não ter pedido ao deputado que citasse nomes de políticos aquinhoados pelo tesoureiro do PT. Ou, se ele se recusasse, poderia ter provocado: "O senhor sabe de algum integrante da bancada do PL e do PP que tenha recusado o pagamento?"
Não é preciso lembrar que entre os 54 pepistas estão o deputado Severino Cavalcanti, o ex-ministro Delfim Netto. E dos 53 membros da bancada liberal fazem parte o presidente da legenda, Waldemar Costa Neto, e o indicado pela base governista para relatar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a argüição de inconstitucionalidade da CPI dos Correios, Inaldo Leitão.
Eis aí, portanto, o ponto de inflexão da cobertura da crise mencionado no abre deste texto: a pauta, doravante, é a da busca da verdade na escabrosa denúncia jeffersoniana que o PT diz não ter "o mínimo fundamento". Luiz Weis - Observatório da Imprensa
 
O "mensalão" revisitado
7/6/2005
A denúncia feita pelo deputado Roberto Jefferson na Folha de S. Paulo sobre o "mensalão" desencadeou uma crise com todos os efes e erres.
Na tarde de segunda-feira (6/6) , o jornalista Jorge Bastos Moreno interrompeu no site da Globo a blognovela "O Lula me disse - A história de um sobrevivente contada por ele mesmo" e passou a colocar seu textos a partir de uma Central de Crise. Deu chamada no Globo Online.
O blog de Ricardo Noblat bateu recordes de audiência.
As pessoas não precisam mais esperar o noticiário noturno da televisão, ou os jornais do dia seguinte, em busca de respostas para perguntas que ficam no ar após a leitura da entrevista.
A Bolsa caiu, o dólar subiu.
E ainda não dá para saber, no momento em que este tópico é redigido, o que vai sair no Jornal Nacional, o trombone da mídia.
Tudo isso em função de uma notícia que já tinha saído no jornal. Como lembrou Roberto Jefferson, o esquema havia sido denunciado pelo ex-ministro das Comunicações, Miro Teixeira, ao Jornal do Brasil, em 24 de setembro do ano passado.
Investigação entorpecida
A trajetória dessa denúncia é sintomática do torpor da mídia. Mais de um mês depois, o JB foi obrigado a publicar um direito de resposta exigido pelo presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha.
Nem o próprio JB se preocupou em reexaminar o assunto desde o início da crise dos Correios, em meados de maio.
E, no entanto, eram citados na reportagem vários personagens importantes que tinham ouvido falar do assunto: além do próprio Jefferson, a senadora Heloísa Helena e o deputado José Carlos Aleluia. Também aparecia o notório Waldomiro Diniz.
A reação do PT na época foi desmentir. Miro Teixeira recuou no mesmo dia. No dia seguinte, o JB citou o ministro Aldo Rebelo, a quem o presidente Lula teria dito que "do ponto de vista do governo, o assunto está superado".
O então presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, disse que a denúncia seria investigada. Não deu em nada. A mídia não cobrou. Talvez sob pressão da decisão judicial a favor do presidente da Câmara.
E o "mensalão" ficou esquecido. Ou hibernando.
Rever planos para cobertura de 2006
Os meios de comunicação precisam ter uma concepção clara de seu papel de prestadores de serviço público. São um dos poderes da República. Fazem boa política ao cumprir seu papel de esclarecer fatos, trazer à luz elementos necessários às tomadas de posição dos cidadãos. Para realizar sua tarefa, devem dedicar tempo e meios.
Hoje estamos distantes disso.
Mas a mesma pressão que se dirige contra autoridades, servidores públicos e parlamentares envolvidos em irregularidades questiona o desempenho da mídia.
A imprensa pode aproveitar a oportunidade para rever agora muita coisa que anda mal parada. E precisa trabalhar rápido, porque um novo protagonismo na vida social chega aos meios de comunicação sem pedir licença, em plena virada tecnológica que abala o monopólio da transmissão de informações.
Não é coisa de anos, mas de meses.
Editores: podem começar a rever seu planejamento da cobertura da campanha eleitoral de 2006. Nos grandes centros urbanos, onde está a cabeça da vida política, o processo de informação mudou. E essa mudança vai se acelerar cada vez mais. Mauro Malin - Observatório da Imprensa
 
Ética depende de política?
7/6/2005
As matérias da Veja e do Fantástico, analisadas na primeira matéria "Reportagens que mexem com a história", de Mauro Malin, e o comentário dos médicos de Harvard em relação ao caso Tancredo Neves - "Médicos de Harvard criticam divulgação" merecem análise adicional.
Evidentemente que não pretendo falar na tão propalada "ética na política", que me parece algo como misturar água com óleo, discorrer sobre sexo dos anjos ou adivinhar a taxa de juros na próxima reunião do Copom. A questão é essencialmente de ética médica, assim como de moral e ética em sentido mais amplo, filosófico e político.
Uma prolongada e complexa ditadura militar encobriu o Brasil por 20 anos, com idas e vindas nos quartéis de modo totalmente apartado da sociedade, castigada sem saber a razão por uma pesada censura. De adivinhações e fontes secretíssimas vinha alguma coisa a lume, além de alguns dribles que conseguiam informar algo, e outros completamente incompreensíveis (como bem disse Chico Buarque recentemente em Nova York, ao lembrar que por causa da censura suas letras às vezes davam tantos volteios que mesmo hoje há coisas que nem ele mesmo consegue saber o que pretendia dizer). Fustigar a liberdade de expressão dá nisso,no mínimo. As demais conseqüências do regime militar são muito mais bem comentadas por outros, de Elio Gaspari às recentes publicações sobre a Operação Condor.
Seja como for, inegavelmente Tancredo Neves era um político em tempo integral. Gostando-se ou não dele, poucos duvidam da sua competência nesse arenoso terreno, tanto assim que conseguiu o impensável: eleger-se presidente civil de oposição ainda em pleno regime militar, no Colégio Eleitoral, sob as regras impostas pelos militares, concorrendo contra Paulo Maluf. Mas, não só ele sabia muito bem, a caserna e seus acólitos civis não devem ter ficado nada contentes com esse resultado, e ações militares de última hora bem poderiam ocorrer. Tancredo e seus mais próximos colaboradores, civis e militares, conseguiram contornar uma previsível crise.
Diferença cultural
Mas eis que chega a véspera da posse, e numa dessas tragédias inacreditáveis, o presidente eleito é internado, operado e, bem, o resto já se sabe - morreu e foi dada a posse a seu vice, José Sarney, sem direito a faixa presidencial de João Figueiredo, que saía.
À época dos fatos muito se falou a respeito: da tal diverticulite ao leiomioma, tumor benigno; às condições do Hospital de Base de Brasília; a competência técnica e ética dos médicos do Distrito Federal; após a transferência do paciente para o Incor, o afluxo dos mais importantes médicos do complexo hospitalar do Hospital das Clínicas-Faculdade de Medicina da USP para atender o ilustre paciente; as coletivas otimistas concedidas por médicos da equipe, contrastando com o desfecho do caso; até a vinda de Warren Zapol, de Harvard, para atestar que foi feito todo o possível quanto à saúde de Tancredo.
Em relação aos médicos brasilienses, sabe-se que o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal sindicou o acontecido por lá, e aplicou penas públicas a dois médicos que atenderam Tancredo. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo também investigou a fundo o caso,e concluiu que não houve nenhuma infração ética por parte dos profissionais que atenderam ao paciente no INCOR.
Agora, com a revolta da família de Tancredo ante a revelações feitas, anos depois, pelos médicos que o haviam atendido, consultou-se novamente o Dr. Zapol sobre a questão ética que envolve a divulgação de fatos relativos a pacientes com vida pública.
Um primeiro comentário é o da diferença cultural entre nações, que naturalmente atinge questões éticas profissionais. Os códigos de ética médica internacionais baseiam-se nos princípios hipocráticos de 2.300 anos atrás? Correto. Mas sua aplicação como texto disciplinador pode mudar de um lugar para outro. Um exemplo básico: no Brasil, um médico só poderá ser processado por infração ético-profissional, ou seja, pelo CRM, caso a suposta infração tenha ocorrido no exercício da profissão. Caso ocorram atos imorais ou criminosos que um médico tenha perpetrado sem estar investido da função de médico, caberá apenas à Justiça ordinária a análise do caso; mesmo que o CRM decida processar e punir um médico nessas circunstâncias, isso gera nulidade processual. Dessa maneira, um médico que cometa assassinato agressão sexual em ato médico, para se ter uma idéia, enfrentará, além da Justiça, o processo no CRM. Por outro lado, um médico fora de qualquer atividade relacionada à profissão não poderá ser sindicado e punido pelo CRM (exemplo célebre é o de Hosmany Ramos). Já nos Estados Unidos, embora as normas éticas gerais sejam parecidas, admite-se a punição ético-profissional pelo Board, o CRM de lá, mesmo que o médico tenha tido atitude considerada antiética sem estar exercendo seu papel na profissão. É uma tremenda diferença na prática, não é mesmo?
A situação é a mesma
O mesmo se aplica à discussão entre o médico Zapol e seus colegas da Harvard Medical School, detalhada na matéria de Mauro Malin. Mostram que, mesmo considerando que um segredo médico nunca deva ser divulgado, chegam a admitir exceções para pessoas com cargos públicos, como o do político com câncer que concorreria à indicação à presidência com Bill Clinton. Essa relativização ética é muito diferente da cultura legal brasileira, facilmente constatada nos geralmente espetaculares julgamentos midiáticos americanos, quando em quase todas as situações entram em ação o "juiz leigo" e os "12 homens raivosos" que formam o júri, ao passo que no Brasil apenas vão a júri os casos de homicídio doloso.
O sigilo profissional visa resguardar a privacidade do paciente, seja ele quem for: no próprio Código de Processo Penal há a descrição do "segredo de confessionário", ao qual estão presos médicos, sacerdotes, advogados etc. Numa situação típica, um notório criminoso pode estar sob processo judicial e, caso tenha sido atendido por um médico, o promotor ou mesmo o juiz pode solicitar sua presença para esclarecimentos. A lei penal é clara, assim como o código de ética médica: convocado pela Justiça, o médico tem o dever de se apresentar ao magistrado, mas não poderá divulgar nenhuma informação, mesmo sob coação. As únicas exceções permitidas são as mais óbvias: se o próprio paciente autorizar a divulgação da informação, ou no caso da impossibilidade deste, seus parentes ou responsáveis legais.
Dessa forma, boletins médicos ou entrevistas concedidas por médicos que tratavam à época de Tancredo Neves, tudo deveria ser autorizado pelo paciente, se consciente estivesse, ou por seu responsável legal. Décadas depois, ainda que com a intenção de esclarecer para fins históricos uma situação marcante para o país, a situação é a mesma: o responsável legal pelo presidente eleito deveria ser consultado para dar autorização ou não à divulgação de fato relativo àqueles eventos. Dessa maneira, embora nossa curiosidade nos mova a querer saber detalhes daqueles tensos dias, segundo os princípios éticos brasileiros não se pode abrir o segredo sem autorização da família. Daí pode-se bem imaginar o porquê da indignação dos parentes de Tancredo.
"Não" indiscutível
Mas havia uma circunstância atípica: o risco de não se dar posse a um presidente civil de oposição e ser mantido o regime militar. Ante um quadro político altamente complexo e grave no cenário nacional, uma mentirinha aqui e outra ali não seriam tão sérias, certo? Não é bem assim. Também ocorreram "mentirinhas" em atestados de óbitos de presos pela ditadura, que ocultavam a tortura. Aos médicos que passaram sobre a ética em tais casos deve-se lançar o peso da condenação ética, e aos que mentiram para o "bem" não? Pode-se chegar ao extremo de comparar as "experiências" genéticas dos nazistas com o que se faz hoje em dia... Absurdo!
Ética envolve princípios fundamentais, que dificilmente mudam. Mas a evolução da sociedade, da cultura de cada momento histórico e do avanço técnico e científico podem e devem ajustar tais normas, com o máximo cuidado possível, à realidade vigente. Afinal, no juramento hipocrático os médicos devem prometer jamais interromper a gestação. O aborto não é largamente utilizado de modo legal em inúmeros países? Por outro lado, os impedimentos legais e éticos da proteção da privacidade de pacientes dificilmente poderão encontrar respaldo para a abertura de exceções.
Mesmo assim, cada caso deve ser analisado individual e pacientemente, antes de se lançar os envolvidos na fogueira. Na matéria citada ficou evidente a diferença entre nossos princípios e de nossos irmãos do Norte: eles ficaram em dúvida, consultaram-se uns aos outros, até darem sua posição ao Observatório. Um médico brasileiro,caso consultado, ciente das bases da ética profissional, com certeza não demoraria segundos em dizer "não" à divulgação de segredo profissional sem o consentimento do paciente ou de seu responsável, esteja vivo ou não, seja ou não pessoa de grande importância pública. Celio Levyman - Observatório da Impensa
 
Pressionada, toda a diretoria dos Correios decide pedir demissão
8/6/2005
A crise iniciada com a divulgação das fitas revelando um esquema de corrupção nos Correios derrubou o presidente e toda a diretoria da estatal, que pediu demissão ontem. A decisão foi tomada após reunião à tarde entre o presidente Lula e os ministros Eunício Oliveira (Comunicações) e Antônio Palocci Filho (Fazenda).
De acordo com a assessoria de Oliveira, o presidente teria pedido aos ministros uma solução definitiva para os problemas nos Correios e no IRB. A solução apresentada pelo ministro das Comunicações foi a demissão coletiva de todo o comando dos Correios.
Quem mais perde com a mudança é o PMDB que, em abril de 2004, havia emplacado cargos na estatal em troca de apoio ao governo para evitar uma CPI no caso Waldomiro Diniz. Das seis demissões de ontem, quatro eram de cargos indicados pelo PMDB, incluindo o presidente da estatal, João Henrique de Almeida Sousa.
Além do presidente, pediram demissão três diretores indicados pelo PMDB: Ricardo Henrique Suner Caddah (Econômico-Financeiro), indicado pelo líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR), Carlos Eduardo Fioravanti da Costa (Comercial), indicado pelo senador Hélio Costa (PMDB-MG), e Robinson Koury Viana da Silva (Recursos Humanos), indicado pelo senador Ney Suassuna (PMDB-PB).
Dois diretores ligados ao PT também pediram demissão: Maurício Coelho Madureira (Operações) e Eduardo Medeiros de Morais (Tecnologia).
O diretor de Administração dos Correios, Antonio Osório Menezes Batista, indicado pelo PTB, já estava afastado e, segundo a estatal, pedira demissão na segunda. HUMBERTO MEDINA - Folha de São Paulo
 
Inimigo íntimo
8/6/2005
No entender dos dirigentes partidários, o também petista Luiz Gushiken "emprenhou" a entrevista do ministro da Coordenação Política. O titular da Secom seria o pai da idéia de que Lula estará em melhor situação se mantiver distância do PT. Painel - Folha de São Paulo
 
Lula age e promete "cortar na própria carne"
8/6/2005
Demitidos o presidente e todos membros da diretoria dos Correios e do IRB. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva resolveu agir depois da divulgação de mais um suposto esquema de corrupção no governo federal. A pedido dos ministros da Fazenda, Antonio Palocci Filho, e das Comunicações, Eunício de Oliveira, todos os diretores dos Correios e do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) entregaram ontem pedidos de demissão. Para chefiar o IRB, foi nomeado ontem mesmo o economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.
Ontem, ao abrir o 4 Fórum Global de Combate à Corrupção, em Brasília, o presidente garantiu que levará "até as últimas conseqüências" as investigações de corrupção em seu governo. "Tenho uma biografia a zelar e, por isso, não vamos acobertar ninguém, seja lá quem estiver envolvido. Cortaremos na própria carne, se necessário, sem prejulgar ninguém", enfatizou Lula. "Não farei nenhuma medida populista só porque estamos a um ano e meio das eleições", afirmou.
A decisão de dispensar elementos ligados às denúncias têm claramente o objetivo de facilitar a apuração de irregularidades nas duas estatais. Contudo, ao contrário do que se comentou ao longo do dia, o presidente Lula não anunciou um pacote de medidas de combate à corrupção, frustrando parlamentares aliados.
"O governo ainda está arrogante, ainda acha que está dominando a situação. Todo mundo esperava um discurso forte do presidente", afirmou um líder do Senado.
Procurando sair de uma posição defensiva, o governo limitou seus movimentos ao Congresso. Grande parte das bancadas do PT na Câmara e no Senado, que antes de opunha à instalação de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI), ainda que destinada apenas à apuração da corrupção nos Correios, declarou-se favorável à investigação. O presidente do PT, deputado José Genoino, prometeu que Delúbio Soares, tesoureiro do partido, falará à imprensa hoje.
Espera-se para também outro desdobramento, desta vez por iniciativa do PTB. As bancadas do partido na Câmara e no Senado decidirão se colocam à disposição os cargos que têm no primeiro escalão, como o Ministério do Turismo, a liderança do governo no Congresso e uma vice-presidência da Caixa Econômica Federal. O motivo é simples: o deputado Roberto Jefferson (RJ), que está no centro da crise política, ainda é presidente do partido. Daniel Pereira, Karla Correia e Sérgio Pardellas - Gazeta Mercantil
 
Governo da Transparência
8/7/2005
Esconder a sujeira sob o tapete sempre foi praxe na política brasileira. Foi assim no governo Collor de Mello, foi assim no governo FHC e querem que seja assim no governo Lula. Mas, para desespero de quem chafurdou na lama das administrações anteriores, o presidente Lula demonstra desde o início do seu mandato que não é complacente com a roubalheira. Inconformada, a oposição tenta macular o que sempre foi premissa para o PT: o combate à corrupção.
Como estratégia, os opositores achincalham Lula com o argumento de que o governo está abafando escândalos - o que não é verdade. Esquecem que a estirpe da qual fazem parte sempre foi o sustentáculo da impunidade. Também fingem desconhecer que a corrupção é algo visceral entre eles. Vide o mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi o artífice-mor de estratégias para engavetar escândalos.
FHC acumula em seu currículo uma extensa lista de irregularidades que não foram apuradas. São casos que ficaram famosos: Sivam; Proer/Pasta Rosa; Marka e FonteCindam; Opportunity - entre muitos outros. De acordo com levantamento feito pela Liderança do PT na Câmara dos Deputados, os escândalos camuflados por FHC representaram, em prejuízo ao país, um montante de R$ 40 bilhões.
O caso Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia) foi um dos primeiros a ganhar repercussão no governo tucano. As irregularidades no contrato de criação do sistema derrubaram em 1995 um ministro e dois assessores do presidente. Mas a CPI criada para apurar o caso foi esvaziada e se limitou a repetir informações do Ministério Público Federal.
No mesmo ano, o Banco Econômico recebeu R$ 9,6 bilhões do Proer (Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Sistema Financeiro Nacional). A CPI instalada em 2001 para apurar o caso concluiu não haver irregularidade na ajuda. A investigação sobre os 25 políticos supostamente beneficiados com esse dinheiro foi encerrada meses depois de o caso se tornar público. Mais uma vez, reinou a impunidade.
No caso dos bancos Marka e FonteCindan, o Banco Central (BC) socorreu as duas instituições financeiras durante a desvalorização do Real, no início de 1999. O episódio envolveu o presidente do próprio BC, Chico Lopes, que, à época, chegou a ser preso. Na sua casa, foi encontrada uma elevada quantia em dólares. O pedido de CPI sobre o caso tramitou dois anos na Câmara e depois foi arquivado.
No episódio do banco Opportunity, um grampo telefônico feito no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) revelou acertos do ministro das Comunicações e do presidente do BNDES para beneficiar um amigo em comum (um dos donos do consórcio do banco Opportunity), durante a privatização do sistema Telebrás. O pedido de CPI sequer foi apresentado, pois não obteve o número mínimo de assinaturas.
Todos esses escândalos esbarraram na falta de investigação, ao contrário do que acontece no governo Lula, que se revela implacável com a corrupção. Basta verificar o resultado dos trabalhos da Polícia Federal (PF) e da Controladoria-Geral da União (CGU). Nos últimos 29 meses, a PF fez um combate ostensivo ao crime organizado: 1.424 pessoas foram presas em 77 operações especiais. Entre os criminosos, estavam 819 políticos, empresários, juízes, servidores públicos e policiais. A CGU mostrou o mesmo empenho: fiscalizou 681 áreas municipais, realizou seis mil auditorias em órgãos federais e já encaminhou 2.461 denúncias ao TCU.
Esse é o novo Brasil que os corruptos contumazes não aceitam e, por isso, querem desestabilizá-lo propondo uma CPI que não tem outros motivos senão gerar uma crise e deixar o país ingovernável. A Polícia Federal, assim como fez em outros casos, já investiga a corrupção nos Correios e já indiciou o personagem fonte do escândalo - Maurício Marinho.
Como se vê, o Brasil toma novo rumo. O que o presidente Lula precisa fazer agora é dar continuidade ao seu projeto de governo e desconsiderar os ataques gratuitos de um Congresso que utiliza o legislativo em causa própria. Nada mais acertado que centrar forças e investimentos no trabalho da Polícia Federal para que este Brasil se transforme, de fato, num ''país de todos'' e não se perpetue como um país que sempre pertenceu a poucos. Chico Vigilante Deputado distrital - PT-DF - Jornal do Brasil
 
Demissões no IRB e nos Correios
8/6/2005
BRASÍLIA - A crise iniciada com a divulgação das fitas revelando um esquema de corrupção nos Correios derrubou o presidente e a diretoria da estatal, que pediu demissão ontem. A decisão foi tomada após reunião à tarde entre o presidente Lula e os ministros Eunício Oliveira (Comunicações) e Antônio Palocci (Fazenda). Segundo a assessoria de Eunício, Lula pediu aos ministros uma solução definitiva para os problemas nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). A solução apresentada pelo ministro das Comunicações foi a demissão coletiva de todo o comando dos Correios.
Quem mais perde com a mudança é o PMDB que, em abril de 2004, havia emplacado cargos na estatal em troca de apoio ao governo para evitar uma CPI no caso Waldomiro Diniz. Das seis demissões de hoje, quatro eram de cargos indicados pelo PMDB, incluindo o presidente da estatal, João Henrique de Almeida Sousa.
Além do presidente, pediram demissão três diretores indicados pelo PMDB: Ricardo Henrique Suner Caddah (Econômico-Financeiro), indicado pelo líder do PMDB na Câmara, José Borba (PR), Carlos Eduardo Fioravanti da Costa (Comercial), indicado pelo senador Hélio Costa (PMDB-MG), e Robinson Koury Viana da Silva (Recursos Humanos), indicado pelo senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Dois diretores ligados ao PT também se demitiram: Maurício Coelho Madureira (Operações) e Eduardo Medeiros de Morais (Tecnologia).
No IRB, toda a cúpula da instituição foi demitida. O Ministério da Fazenda, em nota, divulgou que ''aceitou'' o pedido de afastamento do presidente do instituto, Luiz Appolonio Neto, e dos integrantes da diretoria, seguindo orientação de Lula. Para o lugar de Appolonio - sobrinho de deputado Delfim Netto (PP-SP) -, o ministro Antonio Palocci indicou o ex-secretário de Política Econômica Marcos Lisboa e determinou que ele comande o processo de privatização do instituto. Em abril, Lisboa deixou o cargo no Ministério da Fazenda por motivos pessoais, segundo a versão oficial.
As denúncias de irregularidades no IRB ganharam fôlego semana passada, quando a revista Veja noticiou que o deputado Roberto Jefferson, exigia mesada de R$ 400 mil por mês do ex-presidente do instituto Lídio Duarte, indicado pelo partido para ocupar a posição.
Há dois meses, Duarte pediu demissão do cargo por não agüentar a pressão. Appolonio foi escalado por Palocci para preencher a vaga, atendendo a indicação de Delfim Netto.
- A aceitação do afastamento da diretoria do IRB não implica qualquer prejulgamento em relação às denúncias veiculadas na imprensa - afirma a nota da assessoria de Palocci. Segundo o comunicado, isso permitirá uma ''apuração rápida, isenta e de maior transparência junto à opinião pública''. Jornal do Brasil
 
Cúpula dos Correios cai, sob bombardeio
8/6/2005
PMDB, PT e PTB perdem cargos, após três semanas de denúncias de corrupção
Depois de três semanas sob o bombardeio de denúncias de corrupção, toda a diretoria dos Correios foi demitida ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente da estatal, João Henrique de Almeida Sousa, e mais três diretores pertenciam à cota do PMDB, partido do ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, ao qual a empresa de correios é subordinada. Das outras três diretorias, duas eram ocupadas por indicados do PT e uma por indicação do PTB, do deputado Roberto Jefferson (RJ).
A demissão foi decidida no início da tarde, em reunião do presidente Lula com Eunício e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. De acordo com assessores, Lula teria determinado uma solução definitiva, o que levou à opção pela demissão de todos os diretores, inclusive do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
A decisão foi comunicada à diretoria dos Correios e, em seguida, o seu presidente e cinco diretores encaminharam ao ministério a carta de demissão coletiva.
Até o início da noite, o governo ainda não tinha decidido os nomes dos substitutos. De acordo com assessores de Eunício, ele quer uma solução mais técnica que política. Apesar disso, circulava ontem pelo Ministério a informação de que a presidência da estatal pode ser ocupada pelo secretário-executivo das Comunicações, Paulo Lustosa, ligado ao senador José Sarney (PMDB-AP).
COTAS
João Henrique João Henrique evitou comentar a decisão. Disse, por meio de assessores, que se trata de um ato político e não administrativo. Ele estava na presidência dos Correios desde março do ano passado, tendo chegado lá por sugestão do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP).
Também estavam na cota do PMDB o diretor da área comercial, Carlos Eduardo Fioravanti da Costa, segundo suplente do senador Hélio Costa (PMDB-MG); o diretor de recursos humanos, Robinson Koury Viana da Silva, suplente do senador Ney Suassuna (PMDB-PR), e o diretor Econômico-Financeiro, Ricardo Henrique Suner Caddah, funcionário de carreira da Caixa Econômica Federal (CEF), indicado por Eunício.
O diretor de Administração, Antônio Osório Menezes Batista, indicado pelo PTB, já havia pedido o afastamento, logo após a divulgação das denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson. Gerusa Marques - O Estado de São Paulo
 
Planalto pressiona Delúbio a deixar direção do PT
8/6/2005
É intensa a pressão de integrantes do primeiro escalão do governo federal e de parte da cúpula do PT para que Delúbio Soares - suposto fiador do "mensalão" para deputados da base aliada - peça licença da secretaria de Finanças do partido. Aconselhado principalmente pelo ministro da Secretaria de Comunicação de Governo, Luiz Gushiken, caberia ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva pedir a Delúbio que deixe o posto. Indeciso, Lula poderia fazer o apelo ainda ontem, antes do primeiro pronunciamento do tesoureiro petista, previsto para hoje.
A cúpula do partido, porém, está dividida sobre o destino de Delúbio. De qualquer forma, a direção da sigla não determinará seu afastamento, nem o do secretário-geral petista, Sílvio Pereira, que participou da negociação com os partidos aliados para a distribuição de cargos no governo. "O Delúbio é de confiança, mas é forte a pressão de Brasília para que ele saia", confirmou um integrante da comissão executiva do partido. "A decisão depende dele." A idéia é que Delúbio seja mantido longe até que a denúncia do deputado Roberto Jefferson seja esclarecida.
O tesoureiro já teria até um substituto, o secretário de relações internacionais da Central Única dos Trabalhadores, João Vaccari Neto.
Em resposta à pressão do Planalto, a direção do PT em São Paulo, que ontem esteve reunida ao longo do dia, argumenta que a saída de Delúbio seria pior. "Não há hipótese de o Delúbio e o Sílvio Pereira se licenciarem de seus cargos. Seria uma espécie de declaração de culpa que não temos. Se alguém quiser propor isso, que vá na reunião da executiva (hoje) e proponha de peito aberto", disse o secretário de Relações Internacionais do PT, Paulo Ferreira. "Se o Delúbio pedir afastamento, voto contra", declarou o secretário sindical do PT, João Felício.
A saída de Delúbio vem sendo cogitada desde abril. Seu nome foi associado a outras irregularidades e denúncias de tráfico de influência, como a organização de um show da dupla Zezé Di Camargo e Luciano para financiar uma nova sede para o PT - a apresentação foi paga pelo Banco do Brasil. Ele ainda foi citado por um empresário como beneficiário do esquema da Máfia do Sangue, esquema de desvio de verbas no Ministério da Saúde.
Com três dias de atraso, Delúbio Soares deve se defender, em entrevista coletiva, logo após a reunião da executiva nacional convocada para hoje. "O que aconteceu com ele foi uma denúncia falsa e mentirosa. Delúbio estará na reunião e falará com vocês (jornalistas). Queremos expressar aqui a nossa confiança nos dirigentes do PT", disse o presidente do PT, José Genoino.
Delúbio permaneceu recluso ontem. Deixou a sede do partido às 16h29, abaixado no banco de trás de um Ômega preto com vidros escuros. Outro carro saiu pouco antes para despistar a imprensa.
Ao contrário de Delúbio, Sílvio Pereira quebrou o silêncio. "O País todo está indignado e o fundamental é que não paire nenhuma dúvida", disse ele, garantindo ser favorável a uma ampla investigação. "Temos agora um ingrediente político e a opinião pública merece uma satisfação, merece saber a verdade e nós estamos dispostos a buscar essa verdade." Ele não vê a necessidade de instalar uma comissão de ética interna para avaliar o caso. Mariana Caetano e Ana Paula Scinocca - O Estado de São Paulo
 
Diretoria dos Correios coloca cargos à disposição das Comunicações
8/6/2005
A diretoria da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), em carta enviada ao ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, colocou à disposição todos os cargos diretivos da empresa.
A medida foi tomada após os últimos acontecimentos políticos. As denúncias de irregularidades nos Correios vieram a público no dia 15 de maio, com a divulgação de uma fita de vídeo dando conta de um suposto esquema de corrupção envolvendo membros do alto escalão da empresa. As denúncias passaram a ser investigadas pela Controladoria Geral da União, pela Polícia Federal e por uma auditoria interna da ECT.
As denúncias também resultaram no pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), destinada a investigar as denúncias de corrupção na estatal. O ex-diretor de Administração dos Correios, Antônio Osório Batista, já estava afastado do cargo. Valor Econômico
 
Governo reage, põe Lisboa no IRB e vai ampliar gastos
8/6/2005
O novo presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), Marcos Lisboa, assumirá o cargo com uma missão definida: abrir o mercado de resseguros e privatizar parcialmente a carteira do IRB, a partir da cisão da estatal em duas companhias. Lisboa foi escolhido pelo ministro da Fazenda, Antonio Palocci, para substituir Luiz Appolonio Neto, que pediu demissão ontem junto com toda a diretoria da empresa. O governo deve manter apenas uma resseguradora para atuar nos programas e atividades típicas de Estado, como o seguro de crédito a exportação, aeronáutico, habitacional e contra terrorismo. O IRB perde, também, a regulação e fiscalização do mercado, a ser entregue a um novo órgão.
Esta mudança e a demissão de toda a diretoria dos Correios representam a primeira reação do presidente Lula às denúncias de corrupção nas duas empresas e foram decididas em reunião, ontem pela manhã, com os ministros da Fazenda e das Comunicações, Eunício de Oliveira. Os novos diretores dos Correios ainda não foram escolhidos.
Sem "pirotecnia", como afirmou em pronunciamento durante o IV Fórum Global de Combate à Corrupção, Lula prepara um pacote de ações para sair da defensiva. Amanhã, deve divulgar a "MP do Bem", com desoneração de impostos para exportações e investimentos. O governo pretende ainda acelerar investimentos públicos mais emblemáticos, com redução do excesso de superávit acumulado, e retomou a reforma ministerial. No discurso, Lula disse que "não acobertaremos ninguém e cortaremos na própria carne, se necessário". Hoje o Congresso define a instalação da CPI dos Correios. Claudia Safatle e Raymundo Costa - Valor Econômico
 
A lerdeza como método de decisão
8/6/2005
Com relação à rede de corrupção instalada nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil, duas importantes estatais dos Ministérios das Comunicações e da Fazenda, respectivamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com 36 horas de atraso se a referência tomada for a estocada que levou do deputado Roberto Jefferson. Ou três semanas de atraso se o fato a considerar for ele próprio ter tido a oportunidade de assistir, pela televisão, um diretor de estatal em seu governo embolsar propina frente às câmeras.
As reações das bancadas do PT, tanto na Câmara como no Senado, foram ainda mais lentas, talvez até por esperar orientação partidária e política sobre o que fazer. Acabaram invertendo o processo: a decisão de deputados e senadores orientou seu partido, o último a decidir apoiar a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar denúncias de corrupção no governo petista.
Esta crise teve um efeito paralisante no esquema de decisões políticas do governo, mais até que outras.
Com relação à necessidade de dar forma, objetivos e eficiência ao governo, que se apresenta urgente, em qualquer perspectiva que se olhe, o presidente Lula começou a agir. Embora apenas, por enquanto, nos focos de desmandos em questão, algumas mudanças no governo foram anunciadas ontem, com dois anos e 158 dias de atraso. Não se sabe ainda se o presidente vai limitar-se às mudanças nos Correios e no IRB, ou se vai aproveitar para fazer a esperada reforma ministerial destinada a sacudir a administração federal. Ou se vai o presidente, a partir de agora, alterar radicalmente o processo de nomeações, abandonando o loteamento partidário e corrigindo o aparelhamento da administração federal pelo PT.
Foi um começo. Pois, além de lerda, a tríplice reação foi comedida e desproporcional à gravidade dos fatos expostos e suas conseqüências imediatas para o governo e para o país.
O presidente move-se vagarosamente, tangido por reuniões intermináveis e inócuos debates e sessões de aconselhamento. Parece ser o ministro Antonio Palocci o seu único interlocutor confiável, em quem depositaria a responsabilidade por ajudá-lo a conduzir o governo e tomar as principais decisões.
No entanto, em um sinal de difícil compreensão, não hesitou a queimá-lo, provocando conseqüências concretas no desempenho da economia, ao atiçá-lo no fogo alto da estratégia política de abafar investigação de corrupção pelo Congresso, estratégia de cuja eficácia ninguém do governo tinha a menor segurança.
Gosta o presidente de ir levando os problemas a um ponto de autodissolução que, às vezes, não chega nunca. Agravam-se as crises pelo excesso de tempo em combustão. Quando vêm as providências, elas parecem sempre insuficientes para o desequilíbrio já construído com empenho e insistência.
 Lula tem uma noção inconsistente de governo 
Pode-se tomar a reação de ontem como um sinal de vida. Lula da Silva deveria, no embalo desse despertar, montar o seu governo para funcionar de fato e dar-lhe, em pouco mais de um ano que tem pela frente antes da campanha formal da reeleição, condições de pleitear um segundo mandato, pois agora não as tem.
É imperioso, também, que o presidente que não aceita palpites mude radicalmente seu estilo. A começar por colocar um ponto final nesta campanha eleitoral diuturna e incessante que protagoniza, desde que ganhou a missão de governar o país.
Lula e o PT ficaram tantos dias repetindo que a Polícia Federal basta para apurar corrupção no governo, que a CPI dos Correios era inconstitucional e que deveria ser arquivada, que não conseguiram mudar de posição no momento certo, perceber que a investigação se tornara incontornável. Como, de resto, o Palácio do Planalto só percebeu, se é que já percebeu, que sem medidas cirúrgicas na organização do governo não coloca nos eixos uma administração que ainda não aconteceu.
Em conversas informais, assessores de Lula voltaram a falar da proximidade de uma mexida para valer no governo. A ver. O presidente tem dificuldades pessoais para demitir, tem constrangimentos evidentes em lidar com amigos de fraco desempenho, tem vícios marcantes, bem cultivados na vida de oposição, que não cedem lugar aos dois anos de experiência no outro lado. Para Lula, é mérito proteger amigo. O presidente valoriza mais as relações pessoais que institucionais. A noção de governo que tem o presidente é absolutamente inconsistente.
A CPI dos Correios, se funcionar com seriedade, esclarecerá a fisiologia dominante na relação do Executivo com o Legislativo; assim, chegará ao sistema do mensalão do PT; e, mais que óbvio, chegará a Waldomiro Diniz, o subchefe da Casa Civil da Presidência da República flagrado na cobrança de propina, que até fevereiro de 2004 era o encarregado de fazer a ponte entre o governo petista e o Congresso. Se já houvesse à época o mensalão, ele não seria pago sem o conhecimento deste alto funcionário da Presidência da República. O presidente deve comemorar a oportunidade de eliminar esses esqueletos políticos que vêm sendo criados desde que assumiu, como aqui mesmo já se demonstrou, além de reiniciar adequadamente o governo com um choque de gestão. Como sempre, está com Lula a saída da crise.
Assim se passaram 10 anos...
Sonho de consumo do PT: se a CPI dos Correios chegar às franquias, aos terceirizados, lá deverá encontrar encasteladas estruturas montadas pelo falecido ministro das Comunicações do governo tucano, Sérgio Motta. Todas elas ainda dirigidas pelo PMDB, o único partido governista poupado na atual crise, e o PSDB, um das duas principais legendas da oposição. Rosângela Bittar - Valor Econômico
 
Agenda de choque
8/6/2005
As crises têm uma dinâmica própria, desdobram-se e se tornam mais ameaçadoras, ou menos, a depender de como as pessoas atingidas reajam. Quando são crises políticas que surgem no núcleo de poder, e de alguma maneira afetam o presidente da República, deste dependerá a evolução dos fatos. No caso da carga de dinamite detonada pelo deputado petebista Roberto Jefferson nas cercanias do Planalto, só Luiz Inácio Lula da Silva pode começar a minimizar os efeitos nocivos da explosão deflagrada pela confirmação da existência de um propinoduto ligando o PT ao Congresso. Efeitos não apenas sobre a sua carreira política e o futuro da estrela petista, mas também sobre as instituições. Lula precisa agir na direção correta, e rapidamente. Ao silenciar e manter-se imóvel no primeiro dia da crise, segunda-feira, o presidente perdeu tempo precioso, provavelmente embalado pela ingênua idéia de que as denúncias de Jefferson eram apenas um problema entre partidos, o PTB e o PT.
O mesmo equívoco, à beira do autismo, acometeu a nota petista emitida pelo presidente da legenda, José Genoino, ainda pela manhã. Por meio dela, o partido desmentiu o que seria confirmado horas depois pelo próprio Planalto - que Lula fora informado do "mensalão" por Jefferson - e fez uma protocolar e fora de hora profissão de fé em alianças partidárias baseadas "em pressupostos políticos e programáticos (...)". Não demorou para a nota virar pó e passar a ser encarada como uma peça de genuína hipocrisia.
O governo deu ontem os primeiros passos corretos, quando, depois de uma reunião entre o presidente e os ministros das Comunicações, Eunício de Oliveira, e da Fazenda, Antonio Palocci, diretores dos Correios e do Instituto de Resseguros do Brasil, IRB, entregaram suas cartas de demissão. Mesmo com um dia de atraso, o ato simbolizou que o presidente não compactuava com os esquemas ilícitos de arrecadação de dinheiro montados pelo PTB nas estatais. À noite, num fórum mundial de combate à corrupção, Lula arrematou com o compromisso de apoiar as investigações e punir não importa quem for.
Mas Lula precisa ir além, pois as dimensões da crise são amplas. Ela expõe as graves distorções do sistema político brasileiro e as deficiências da representatividade parlamentar na nossa democracia. Também desnuda as doenças de um Estado obeso e que mantém indecentes e incestuosas relações com esse mundo político, cujo funcionamento tem sido regido por usos e costumes à margem de qualquer padrão ético aceitável.
Luiz Inácio Lula da Silva e a classe política têm o desafio estratégico de assumir agora uma agenda que retome a reforma do Estado - abandonada nesse governo - e inclua a modernização das instituições políticas e de representatividade do cidadão, pela revisão das normas que regem a vida parlamentar e dos partidos. A crise é ética, põe em risco a credibilidade nas instituições democráticas, e se baseia em deformações concretas da nossa realidade, e que precisam e podem ser combatidas. Daí a necessidade de uma reação vigorosa do governo e do Congresso, que vá além da imprescindível CPI e de outras investigações.
É intolerável que o uso espúrio de estatais para a arrecadação de dinheiro obscuro e a manipulação do recurso ilegal de laranjas para esconder patrimônios tenham se tornado tão comuns entre políticos a ponto de o deputado fluminense Roberto Jefferson ter assumido publicamente, na entrevista à "Folha de S. Paulo", que executou esses atentados contra o erário, o contribuinte e a seriedade pública.
Diante do gravador da repórter, Jefferson não teve qualquer pudor em confirmar que pedira ao indicado por ele para presidir o IRB que arrecadasse recursos para o PTB com segurados e corretores. E que, como revelou à revista "Época", distribuiu concessões de rádios em Três Rios e numa delas colocou como dono um sorveteiro.
Inevitável concluir que a impunidade extravasou qualquer limite no mundo parlamentar. Portanto, dessa agenda de mudanças é necessário constar a reforma política - hoje engavetada no Congresso - para fortalecer os partidos. A curto prazo, pelo menos deve ser se mantida a cláusula de barreira já definida para 2006, antídoto contra a proliferação de legendas, distorção que dificulta a formação de maiorias no Congresso e abre margem para barganhas nada edificantes.
É imperioso, também, retomar-se o projeto de enxugamento do Estado, para acabar com os milhares de cargos à disposição do balcão de nomeações políticas e permitir o corte de impostos. O IRB, por exemplo, já deveria ter sido extinto, por desnecessário. Um Estado menor estreitará os espaços para a corrupção e tapará os desvãos por onde escoa o dinheiro público. Não é uma agenda fácil, mas crucial. E está à disposição do presidente Lula, a pessoa no momento mais indicada para dar o primeiro passo nessa tarefa histórica. E com isso recomeçar o governo em bases saudáveis. O Globo
 
Lula manda demitir toda diretoria dos Correios e do IRB
8/6/2005
BRASíLIA - Depois de três semanas sob um bombardeio de denúncias de corrupção, toda a diretoria dos Correios foi demitida ontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O presidente da estatal, João Henrique de Almeida Sousa, e mais três diretores pertenciam à cota do PMDB, partido do ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, ao qual os Correios são subordinados. Das outras três diretorias, duas eram ocupadas por indicados do PT e uma por indicação do PTB, do deputado Roberto Jefferson (RJ).
A decisão de demitir esses servidores foi tomada no início da tarde, em reunião do presidente Lula com Eunício Oliveira e o ministro da Fazenda, Antôio Palocci. De acordo com a assessoria do Ministério, o presidente Lula determinou aos ministros que se encontrasse uma solução definitiva e eles optaram pela demissão de todos os diretores, inclusive do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).
Eunício Oliveira relatou, segundo sua assessoria, que Lula aparentava estar bem e não demonstrava irritação. A decisão foi comunicada em seguida à diretoria dos Correios e o presidente da estatal e cinco diretores da empresa encaminharam ao Ministério das Comunicações uma carta de demissão coletiva.
Até a noite de ontem, o governo ainda não tinha decidido os nomes dos substitutos dos diretores. Mas, de acordo com a assessoria de Eunício, o ministro quer uma solução mais técnica que política para o comando da estatal. Apesar disso, circulou entre pessoas ligadas ao Ministério que a presidência dos Correios poderia ser ocupada pelo secretário-Executivo das Comunicações, Paulo Lustosa, que é ligado ao senador José Sarney (PMDB-AP).
João Henrique assumiu a presidência dos Correios em março do ano passado, indicado pelo ministro Eunício Oliveira por sugestão do presidente do PMDB, deputado Michel Temer (SP). Ele já foi três vezes deputado federal e, em 2002, foi ministro dos Transportes, no fim do governo Fernando Henrique Cardoso. João Henrique evitou comentar a decisão de Lula, dizendo apenas, por meio de sua assessoria, que se trata de um ato de natureza política e não administrativa.
Também estavam na cota do PMDB o diretor Comercial, Carlos Eduardo Fioravanti da Costa, que é segundo suplente do senador Hélio Costa (PMDB-MG), o diretor de Recursos Humanos, Robinson Koury Viana da Silva, suplente do senador Ney Suassuna (PMDB-PR), e o diretor Econômico-Financeiro, Ricardo Henrique Suner Caddah, funcionário de carreira da Caixa Econômica Federal (CEF), indicado por Eunício.
O PT tinha dois diretores, de Tecnologia e Infra-Estrutura, Eduardo Medeiros de Morais, e de Operações, Maurício Coelho Madureira, que pertencem aos quadros dos Correios, na função de administrador postal. O diretor de Administração, Antônio Osório Menezes Batista, indicado pelo PTB, já havia pedido na segunda-feira seu afastamento, depois da divulgação das denúncias feitas pelo deputado Roberto Jefferson. Tribuna da Imprensa
 
Pires: auditoria na ECT termina em 60 dias
8/6/2005
O ministro da Controladoria Geral da União (CGU), Waldir Pires, disse ontem que, em 60 dias, deverá ser concluída a auditoria especial sobre as denúncias na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). "Nós estamos procedendo a uma auditoria muito séria. Estamos investigando a rigor todas as coisas, como nunca se fez", afirmou, em entrevista ao telejornal "Bom Dia Brasil", da Rede Globo de Televisão.
Segundo Pires, são analisados cerca de 600 contratos, atingindo cerca de 400 programas licitatórios, numa ordem de valor de, aproximadamente, R$ 2 bilhões.
Mas, para ele, isso não impede que o Congresso instale a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). "Eu creio que a CPI é um grande instrumento do Congresso Nacional. é um instrumento da minoria. Não precisa nem que haja maioria ou minoria aprovar. Basta que um determinado quórum se faça.
No caso dos Correios, iniciamos um trabalho de auditoria, de modo que esperamos de daqui 60 dias tenhamos todos esses contratos devidamente lavrados. O Congresso Nacional que faça dentro de suas atribuições o que deseja fazer. Nós vamos cumprir e assegurar o que temos assegurado. Nunca se fez neste país o que nós temos realizado", disse.
Com relação às novas denúncias de pagamento de um "mensalão" para parlamentares aliados votarem a favor do governo, Pires disse que a investigação não é de competência dele porque envolve a suposta propina de um partido (PT) para outros (PP e PL).
"Essa investigação tem de ser feita, mas eu não tenho competência de examinar essas coisas no Parlamento. Eu posso dizer que tem de ir às ultimas conseqüências. Não tenha dúvida. é necessário e é o que o presidente quer." Tribuna da Imprensa
 
Diretoria dos Correios coloca cargos à disposição do ministro das Comunicações
07/06/2005, 15h55
Brasília - A diretoria da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), em carta enviada ao ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, colocou à disposição hoje (07) todos os cargos de direção da empresa.
De acordo com a carta enviada a Eunício, "a medida foi tomada após os últimos acontecimentos políticos". A informação foi repassada à Agência Brasil pelo assessor de imprensa da ECT, Fausto Weiller.
Seis diretores assinam a carta enviada ao ministro. São eles, o presidente João Henrique de Almeida Sousa, o diretor comercial Carlos Eduardo Fioravanti da Costa, o diretor de tecnologia e infra-estrutura, Eduardo Medeiros de Morais, o diretor de operações, Mauricio Coelho Madureira, o diretor econômico-financeiro, Ricardo Henrique Suñer Caddah e o diretor de recursos humanos Robinson Koury Viana da Silva.
O primeiro a deixar o cargo foi o diretor de Administração, Antonio Osório Menezes Batista, que pediu ontem seu afastamento.
As denúncias de irregularidades nos Correios vieram a público no dia 15 de maio, com a divulgação de uma fita de vídeo dando conta de um suposto esquema de corrupção envolvendo membros do alto escalão da empresa. As denúncias passaram a ser investigadas pela Controladoria Geral da União, pela Polícia Federal e por uma auditoria interna da ECT.
As denúncias também resultaram no pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI), destinada a investigar as denúncias de corrupção na estatal. Carolina Pimentel - Portal da Cidadania - Radiobrás
 
Crise política provoca pedido de demissão de toda a diretoria dos Correios
7/6/2005
A crise política agravada pelas recentes declarações do deputado federal Roberto Jefferson, presidente do PTB, que denunciou o pagamento de propina, por parte do governo, a deputados do PP e do PL, provocou a demissão de toda a diretoria dos Correios. Segundo informou há pouco a assessoria de imprensa do Ministério das Comunicações, em reunião realizada no início da tarde com os ministros das Comunicações, Eunício Oliveira, e da Fazenda, Antonio Palocci, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, pediu a colaboração dos dois ministros para encontrar uma solução que acabasse com a suspeitas de corrupção nos Correios e no Instituto de Resseguros do Brasil (IRB). Eunício e Palocci concordaram que a melhor saída seria a destituição dos diretores dos dois órgãos. De acordo com o Minicom, o presidente dos Correios, João Henrique, e cinco diretores irão entregar uma carta de demissão a Eunício e o mesmo farão os diretores do IRB a Palocci. As cartas de demissão serão encaminhadas ao Palácio do Planalto, que publicará as exonerações no Diário Oficial. Segundo a assessoria do Minicom, para ocupar os cargos vagos nos Correios serão indicados técnicos da instituição até que o governo decida sobre novas nomeações. Cristiana Nepomuceno - Telecom Online
 
Fora de Contexto
8/6/2005
No dia em que o governo federal foi obrigado a recuar na decisão de impedir a CPI dos Correios, a secretaria de Comunicação Social do governo, chefiada pelo ministro Luiz Gushiken, lançou em solenidade a campanha: "Bom exemplo: esta moda pega".
É a terceira fase de peças institucionais promovida por entidades do meio de propaganda e marketing, com apoio do governo, visando melhorar a auto-estima do brasileiro. A primeira fase teve como lema "o melhor do Brasil é o brasileiro". A segunda, "sou brasileiro e não desisto nunca". O lançamento foi no auditório da Fiesp, mas Gushiken não compareceu: enviou para representá-lo o subsecretário de Publicidade, Caio Barsotti.
Nas primeiras campanhas, jogava-se foco em pessoas com excelente imagem pública que superaram situações difíceis, como o músico Herbert Vianna e o jogador de futebol Ronaldo. Desta vez, a campanha quer incutir hábitos saudáveis, como a coleta seletiva do lixo, o combate ao desperdício da água, "pequenas coisas que fazem a vida da gente ficar muito mais leve e mais feliz", segundo o texto do primeiro comercial, que menciona "tratar os chefes com carinho" como um exemplo "de coisa boa que custa tão pouco". Valor Econômico
 
Em parceria, governo lança campanha publicitária
8/6/2005
Em meio à pior crise de imagem do governo, foram ao ar ontem as primeiras inserções publicitárias da segunda fase da campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro". Dessa vez o tema é "Bom exemplo: essa moda pega", com peças centradas em saúde, educação, meio ambiente e segurança no trânsito.
Trata-se da primeira parceria público privada (PPP) em comunicação, capitaneada pelo Palácio do Planalto e conduzida pela Associação Brasileira de Publicidade (ABP), Associação Brasileira de Agências de Publicidade (Abap) e Federação Nacional das Agências de Publicidade (Fenapro). O titular da Secretaria de Comunicação de Governo (Secom), Luiz Gushiken, não foi ao lançamento, no auditório da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
O subsecretário de publicidade da Secom, Caio Barsotti, negou que o governo pretenda usar a campanha para desviar o foco das denúncias de corrupção, mas admitiu que poderá haver um benefício indireto. "A campanha é positiva para a população, o cidadão e o Brasil, e quem está na gestão do Estado, de certa forma, acaba sendo beneficiado por conta da atitude das pessoas", afirmou.
"Talvez precisemos mais de bons exemplos agora", afirmou o presidente da Abap, Dalton Pastore, referindo-se à crise que coincide com o lançamento da campanha. Na primeira etapa, 300 empresas aderiram e bancaram cerca de R$ 100 milhões em mídia gratuita. Agora, os organizadores preferem não estimar o total de parceiros. "Não sei se a adesão vai cair", declarou Pastore.
A atriz mirim Bruna Marquezine, que faz uma menina cega na novela América, da Rede Globo, estrelará a campanha. Mariana Caetano - O Estado de São Paulo
 
A notícia e a paranóia
7/6/2005
Num intervalo de meu plantão de fim de semana no jornal, leio, pela internet, matéria da Agência Estado segundo a qual "militares reformados e da reserva e parentes de militares fizeram neste domingo (5) manifestação pela valorização das Forças Armadas", na orla de Copacabana, Rio de Janeiro. Entremeadas no texto, declarações sobre o "desmonte" de Exército, Marinha e Aeronáutica, acusações de que "o MST não passa do braço armado do PT" e supostos indícios de "um processo nazista-comunista no governo". Todas saídas de oficiais da reserva, segundo os quais o clima político é semelhante ao dos três anos anteriores ao golpe ("revolução", preferem acreditar eles) de 1964.
Sou de 1978. Nasci 12 dias antes da revogação do Ato Institucional (AI) 5 e iniciei o primário em 1985, dois meses antes de o general-presidente Figueiredo encerrar seu mandato e pedir que o esquecessem. Portanto, na faixa dos que ainda não chegaram aos 30. Na escola, nada me disseram sobre o regime militar. Na faculdade, pouco ouvi de esclarecedor a respeito desse período. Um bom livro que li, intitulado Sombras sobre Santos, de 1988, relata o que entendi como reação de militares ao suposto avanço de "sovietes" no governo do então presidente João Goulart, do qual escutei falar que pretendia promover, por exemplo, algo jamais realizado no Brasil: a reforma agrária.
Além de declarações
O ponto ao qual quero chegar é que a mídia não tem sabido relacionar fatos históricos, personagens e conseqüências de ações que transformaram (no mau sentido, num balanço de tudo o que me contaram) o país no que foi durante 21 anos de governos militares. Ou que a mídia não tem conseguido mostrar que, eventualmente, o passado não tem a ver com o agora. Pois, se militares tomaram o poder sob a alegação de que era vital combater pensamentos que classificavam como comunistas (e que talvez reduzissem a já elevada desigualdade social), não dá para compreender, sob essa ótica, do que têm medo no governo Lula - no qual bancos lucram indecentemente, não se fala em cortar impostos e a reforma agrária segue distante.
Ao menos para mim, que vivo a milhares de quilômetros de Brasília, esse tal clima de golpe surgiu de repente. Direitistas que hoje se dizem de oposição apregoam a existência de uma crise institucional, e os que estão no poder e ainda se intitulam esquerdistas confirmam que há quem queira, mesmo, derrubar o presidente Lula e seu governo. Algo (para mim, repito) extemporâneo, à vista das permanentes crises social, econômica e moral, e fica-me a impressão de que alguém tenta desviar o assunto do que realmente interessa à sociedade - e parcela de jornalistas seria levada a crer no que talvez inexista, mas tem de investigar.
Se há bruxas, a apuração precisa ir além de declarações. Como cidadão, preciso saber de quem tem condições de procurar fontes próximas o que pode estar havendo. Até para que, especialmente ao usar de minha profissão, contribua para que a democracia torta até aqui conquistada se endireite, em vez de descarrilar. E me convença de que ou estamos na iminência de um novo golpe ou o que surge é paranóia. Rafael Motta - Observatório da Imprensa
 

 
Imprensa & Jornalismo
O jornalismo entre quadros e janelas
7/6/2005
Como embalar sanduíches de hambúrguer sem agredir o ambiente? O pessoal da rede McDonald's quebrou a cabeça durante bom tempo, nos Estados Unidos, para escapar da pressão de ambientalistas e consumidores ecologicamente corretos.
Esse drama rendeu, há alguns anos, uma longa e divertida reportagem traduzida e publicada pela Gazeta Mercantil. Com humor, o autor da reportagem realizou uma rara façanha: transformou numa história relevante e gostosa de ler os problemas particulares de uma empresa em face de um assunto geralmente chato. As páginas de negócios seriam muito mais legíveis, se editores, pauteiros e repórteres do setor houvessem lido e recortado aquele texto.
Macroeconomia pode ser difícil e nem sempre atraente, mas não é preciso explicar ao leitor mediano a importância de matérias sobre inflação, emprego, balanço de pagamentos e nível de atividade. Não sendo um alienado completo, ele sabe que reportagens sobre esses temas tratam direta ou indiretamente de sua vida. É muito menos evidente a relevância de certas matérias sobre negócios.
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Há uns vinte anos, alguns editores decidiram que os jornais deveriam atribuir mais espaço aos assuntos da "sociedade civil" e menos atenção às atividades "de governo". Deveriam dar mais ênfase à vida empresarial e a temas de interesse pessoal dos leitores, considerados como consumidores, poupadores, trabalhadores e, em alguns casos, empresários.
Havia um engano evidente nessa avaliação. Quem faz política econômica é a autoridade, mas macroeconomia não é assunto apenas "de governo", especialmente quando se vive, como se vivia na época, a um passo da hiperinflação e do desastre econômico.
Pelo menos em relação a esse ponto os fatos forçaram os editores a recobrar o juízo. A cobertura macro continua a ser o foco principal das páginas de economia, com alguns altos e muitos baixos, mas no lugar que lhe cabe. Quanto à cobertura de negócios, ainda não foi calibrada de forma satisfatória na maior parte dos jornais.
Parte do material é autopautável. Trata de grupos grandes e muito visíveis. É indispensável acompanhar os problemas da Varig e da Vasp e as tentativas de solução. Não há como desconhecer a movimentação de empresas como a Vale do Rio Doce e a Companhia Siderúrgica Nacional ou a competição entre o Pão de Açúcar, o Carrefour e o Wal-Mart. O colunista de música pop seria capaz de pensar nesses temas, se tivesse de substituir por um dia ou dois o pauteiro da seção econômica.
Outro grupo de matérias inclui reportagens e notícias de relevância muito menos evidente. São histórias que podem atrair quem acompanha o mercado de ações ou quem se interessa profissionalmente pelo dia-a-dia dos negócios. Algumas importam apenas à empresa de que trata a matéria e, com certeza, à assessoria que distribuiu o press release.
Não há nada de errado em dirigir parte da informação aos compradores de ações ou a pessoas com interesse profissional. Mas convém levar em conta que esse material é destinado a um público restrito e tem pouco ou nenhum atrativo para o leitor, mesmo aquele competente em assuntos econômicos e empresariais que apenas deseja ser bem informado. Esse leitor não deve ter muito interesse no lançamento de debêntures desta ou daquela empresa, ou na mudança de linha de produção desta ou daquela indústria, se o foco da história for muito reduzido.
Além do mais, parte das notícias e reportagens de foco restrito é mera excrescência. Por que diabo, deve perguntar o leitor, devo ser informado em detalhe sobre o novo anúncio deste ou daquele sabonete antes de sua exibição na TV? Muitas matérias sob a rubrica "propaganda e marketing" são apenas publicidade gratuita. Por que transformar em notícia aquilo que a empresa divulga como propaganda paga, a menos que se trate, realmente, de uma novidade muito excitante?
Debate enriquecido
O dia-a-dia da vida empresarial pode render boas matérias, no entanto, quando há uma ligação entre o caso particular e um tema de interesse amplo. Mesmo um assunto especializado, como a gestão de estoques, pode render uma boa reportagem, se a história contada for exemplar. Melhor, ainda, se houver uma ligação com um tema de interesse público.
A matéria sobre a embalagem de hambúrguer foi divertida e atraente não só por tratar de um grupo conhecido mundialmente, o McDonald's. A reportagem descrevia o esforço de uma empresa diante de uma questão objetivamente importante - a preservação ambiental - e de grande apelo para a opinião pública.
O tema de apelo social pode ser, também, de grande relevância econômica. Bom exemplo é a história de um financiamento de bancos europeus à Imcopa, uma empresa paranaense esmagadora de soja. Um consórcio bancário liderado pelo Hypo Vereins Group, da Alemanha, adiantou 50 milhões de dólares para a empresa com a condição de que trabalhe apenas soja tradicional, isto é, não transgênica. A Imcopa, que não é uma das maiores esmagadoras, conseguiu diferenciar-se no mercado, segundo a Gazeta Mercantil, vendendo à Europa e ao Japão exclusivamente produtos não-transgênicos.
A matéria, publicada na primeira página da Gazeta (2/6), é uma história empresarial de interesse amplo. É importante para o leitor especializado, porque mostra um exemplo de estratégia bem-sucedida. É atraente para quem se interessa pela política agrícola, porque exibe as vantagens de uma das opções de produção. Ao mesmo tempo, enriquece o debate a respeito do valor comercial de produtos transgênicos e produtos tradicionais. Não resolve a discussão, mas amplia o arsenal de argumentos. Um gol para a autora da matéria, Lucia Kassai, e para seu editor.
É sempre arriscado formular critérios para o trabalho jornalístico. Reportagens como essa, no entanto, podem fornecer padrões interessantes para a avaliação de pautas e de matérias. Um desses padrões é muito simples: as melhores histórias, mesmo de negócios, não são quadros fechados numa moldura; são janelas. Rolf Kuntz - Observatório da Imprensa
 
Símbolo da desinformação ideológica
7/6/2005
Miriam Leitão, a repórter da TV Globo e do jornal O Globo que maior influência exerce no noticiário econômico nacional, oráculo do capital especulativo global que domina a cena mundial, resolveu jogar pesado contra as intenções geopolíticas dos governos dos países da América do Sul em sua intenção de agirem favoravelmente à criação do oligopólio do petróleo no continente sul-americano. Analista econômica que vê o movimento da realidade capitalista do ponto de vista do consumidor, parcial, mecanicista, cindido, e não do ponto de vista das forças produtivas e das relações sociais da produção, dual, dialético, interativo, considerou exótica a idéia de criação da Petrosul, união dos países produtores de petróleo da região, Venezuela, Brasil e Argentina, que poderiam, ainda, atrair outro grande produtor na América Latina, México. Tal oligopólio se transformaria, sem dúvida, em braço cooperativo da Opep, que determina, atualmente, o volume de produção da matéria-prima que movimenta o capitalismo. Washington irritou-se. Miriam, também.
Como destacou Schumpeter, a falta de informação histórica e sociológica é a maior praga dos economistas e dos jornalistas que escrevem as suas verdades. Os monopólios e os oligopólios são as expressões mais genuínas do desenvolvimento capitalista a partir da grande crise de 1873-1893. Ela decretou o fim do movimento liberal, clássico, que deu cor fulgurante ao sistema capitalista no século 19, cuja expansão sempre sinalizou deflação, no rastro da construção dos excedentes, caminho natural do capital em sua eterna caminhada à sobreacumulação, detonadora, por sua vez, de crônica insuficiência relativa de demanda global, como comprovou Marx, em O capital. A expansão dos monopólios e dos oligopólios, assim como o processo de acumulação, representa a busca do capital pela maximização do lucro ao fugir da concorrência, que reduz a taxa de lucro em relação à taxa de juro. Na medida em que, graças à crônica insuficiência de consumo, decorrente da sobreacumulação de capital, a taxa de lucro cai, o sistema deixou de acreditar na ideologia utilitarista, inglesa, do século 19, apoiada no ponto de vista do consumid


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Qua, 8 de Jun de 2005 2:28 pm

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