AULA X
"Deixa nascer o amor
Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor
Deixa viver o amor"
O AMOR DIALÉTICO
"EDUCAÇÃO" SENTIMENTAL DIALÉTICA
O QUE É AMOR?
É preciso investigar o amor em movimento para sabermos se
efetivamente amamos uma pessoa da qual nos relacionamos. Não existe
amor sem movimento, o legitimo conceito de amor resiste à prova do
movimento. Puro devir. Iremos investigar o Amor "romântico" ou seja,
uma relação amorosa entre humanos.
MAS O QUE É O AMOR?
Num primeiro momento, o amor pode ser considerado um sentimento
(sensibilidade) e um estado de espírito (consciência) em movimento,
ao mesmo tempo, (matéria<=>espírito, em movimento dialético). O
legitimo amor é democrático, atende aos desejos do corpo e da mente
(matéria e espírito) em movimento dialético.
O MOVIMENTO DO AMOR
Uma pessoa que deseja amar precisa estar em condições propícias para
isso. Essa pessoa precisa estar bem resolvida consigo mesmo, seu
amor próprio deve estar em dia (não confundir amor próprio com
individualismo, egoísmo e/ou individualidade).
Tal pessoa precisa estar "zerada", ou seja, livre de caso(s) antigo
(s) mal resolvido(s), um "desamor" recente, "alguém na cabeça", ou
qualquer tipo de mágoa passada ou trauma, pois, isso interfere
diretamente em seu próprio estado de espírito (consciência) e
embaralha os sentidos influenciando bastante a nova tentativa de
movimentar um relacionamento amoroso, podendo, em alguns casos, até
mesmo inviabilizar um novo relacionamento, uma nova tentativa de
movimentar o amor em direção a alguém.
Sendo assim, uma pessoa que deseja movimentar seu amor em direção à
outra pessoa precisa, primeiramente, agir com Ética Dialética.
Movimentar o amor em si de maneira que seja encerrado um movimento
que se esgotou (antigo relacionamento) e que, geralmente, deixa
feridas em nossa auto-estima. Para tal, basta simplesmente amar seus
próprios movimentos.
A rigor, muitos movimentos amorosos não dão certo porque a pessoa
que não ama seus próprios movimentos transfere para o outro(a) a
esperança de realizar, no amor romântico, essa carência de amor-
próprio. Evidentemente que isso não pode funcionar por muito tempo.
Uma pessoa que atravessa essa situação deve ser justa consigo mesma.
Curar-se a si mesma antes de mergulhar numa nova história, antes de
entrar num novo movimento envolvendo uma nova pessoa.
Essa primeira condição já indica onde, verdadeiramente,
está "guardado" o tão sonhado amor: "dentro de nós mesmos". Em nossa
interpretação o devir amoroso não é um amor metafísico. A rigor não
está "guardado dentro de nós" como estamos acostumados a entender.
Apenas devém, sempre em movimento. Somos esse amor em movimento
constante e, quando estamos bem, acabamos movimentando amor junto
com outra pessoa numa espécie de combinação de movimentos materiais
e espirituais. Quando esse "caminho", em movimento conjunto com
outra pessoa, entra em desalinho, ou seja, se esgota e não há mais
como recuperar seu movimento harmonioso, é preciso recuperar o
movimento do amor, só que agora sozinho. É preciso ter consciência
(espírito) de que todo caminho tem um "fim", que é a morte. Que é
também recomeço. Que é o novo. Seja por qualquer motivo, a morte é
certa e encerrará esse caminho conjunto, mais cedo ou mais tarde.
Como já vimos em nossos estudos anteriores as considerações sobre o
problema dos descaminhos derivados pelo medo da morte, podemos muito
bem interpretar que também agora o medo da morte pode ser um
problema na questão do devir do amor, seja no devir amor próprio,
seja no devir amor romântico.
Para amar uma pessoa é preciso movimentar esse amor que, por algum
motivo estagnou seu movimento. Devemos movimentar o amor que se
encontra estagnado, sufocado. Cultivar nosso amor próprio (auto-
amor), nosso estado de espírito (consciência), de preferência em
abundância. Uma grande alternativa para movimentar o amor próprio é
dedicar-se a projetos pessoais e/ou retornar aos estudos.
Observe que em ambas as alternativas (realizar projetos e/ou
estudar) o agente dialético está envolvido intelectualmente, ou
seja, sua capacidade cognitiva está sendo utilizada de alguma forma
e isso é extremamente saudável no movimento do amor próprio, pois
essa atitude nos dá uma sensação potência sempre crescente.
Quando amamos outra pessoa, na verdade, estamos misturando parcela
desse amor próprio com uma parcela do amor próprio de outra pessoa.
Ou deveríamos. Essa troca é dialética, motivada pela contradição que
existe em tudo; pela necessidade que temos de carinho, afeto, calor
humano, realização sexual, realização emocional, parceria,
cumplicidade, força de espírito<=>matéria, companhia, etc.
Não fossem essas necessidades, essa grande contradição, nosso amor
próprio em movimento (auto-amor) seria suficiente para nos "auto-
resolver", nos "auto-bastar".
Para amar é preciso "criar/construir" esse amor, e depois de estar
amando é preciso "criar/construir" algo maior com a pessoa amada, o
legitimo amor segue o sentido "criativo/construtivo", em movimento.
A criatividade garante o movimento, porque, o que foi construído,
deve ser mantido e defendido.
Tomemos como exemplo uma casa, mesmo que você construa uma linda
casa em um mês, seu trabalho não acabou ai, você deverá manter essa
casa para sempre, e defendê-la para sempre também. Você irá morar
nessa casa e morando nessa casa irá construir outras coisas, terá
outros projetos, realizará outros sonhos ou pelo menos viverá
tentando, movimentando esse projeto.
A criatividade enriquece o movimento, porque o tempo não para. E o
tempo, a tudo consome, como faz o fogo. O fogo é tempo materializado.
Apenas morar nessa casa mesmo que construída, mantida e defendida,
não será suficiente para garantir a sua felicidade enquanto você
viver.
Com o amor dialético não é diferente. Uma vez despertado o amor (o
movimento), esse deve ser mantido e defendido, como também, será
necessário mover novos projetos, sendo que, agora, em parceria com a
pessoa amada.
MAS COMO FAZER ISSO NA PRÁTICA?
Uma alternativa dialética é movimentar, incondicionalmente, o amor
que existe em mim em direção da pessoa amada, uma atitude corajosa
digna das pessoas que possuem alto-estima saudável.
Porém, movimentar amor incondicionalmente não é apenas dar carinho a
todo o momento, fazer muito sexo, comprar todos os presentes do
mundo para a pessoa amada, nem, tão pouco, ligar todos os dias para
essa pessoa para dizer: eu te amo!
Esses exemplos podem até ser manifestações práticas de que se está
enamorado, importante para o relacionamento, para o movimento
romântico do amor, porém, não é suficiente para legitimá-lo.
O que complementa criativamente o movimento do legitimo amor, é a
cumplicidade.
O quanto você é cúmplice, ou pretende ser cúmplice da pessoa amada?
Eis a questão!
É a cumplicidade que irá complementar o movimento democrático do
amor e garantir que a pessoa amada confie em você num nível mais
elevado, sinta-se segura o suficiente, e assim, possa "abrir seu
coração". Efetivar a troca, a dialética. Entrar no movimento com
você.
Não podemos revelar nossos segredos mais íntimos, mostrar nossa
fraqueza em busca de força espiritual (consciência e paixão),
definir projetos de vida, compartilhar amor próprio, partilhar e
compartilhar o bem material doar-se, ser criativo, entregar-se,
suprimir contradições, muito menos amar dialeticamente, uma pessoa
da qual não nos transmita segurança para isso.
Para que essa cumplicidade seja efetiva, na prática, é necessário o
comportamento ético<=>político em movimento dialético.
A atitude ética<=>política democrática irá manterá a cumplicidade
necessária para que o relacionamento seja legitimo, produtivo e
feliz.
A democracia ética<=>política, no relacionamento, é extremamente
importante ao devir amoroso, para a "manutenção" do legitimo
movimento do amor.
Diante do exposto, fica claro que: traição, interesse escuso,
individualismo, fraqueza, má intenção, falta de compromisso,
egoísmo, falta de cumplicidade, mau comportamento e outros
movimentos destrutivos não cabem entre duas pessoas que
verdadeiramente se amam, ou que querem movimentar amor, juntos.
Essas más intenções agem contra qualquer tentativa de se estabelecer
um relacionamento sadio, criativo, democrático e legitimo. A pessoa
que age assim está sabotando a si mesma, está negando a si,
possibilidade de ser feliz, está se traindo, corrompendo-se
(faltando com ética dialética) e esses movimentos acabam atingindo a
pessoa que estamos nos relacionando (faltando com política
dialética).
Como o movimento do amor "nasce" dentro de nós, um possível
movimento de traição também!
A TRAIÇÃO
Quando uma pessoa age dessa maneira está de fato tirando proveito da
situação, usando a pessoa que está enamorada. Isso geralmente
acontece por fraqueza, por estar mal resolvida, por não saber o que
quer, por confusão emocional, por falta de filosofia, por
ignorância, por desprezo pelo espírito ou por desprezo pela matéria
(na unidade), por necessidade desequilibrada de só atender ao lado
matéria (dos interesses materiais imediatistas formais) ou por
caprichos do espírito. Por doenças da alma: de traumas não
superados, pelo medo de ser feliz, pelo medo da liberdade, pelo medo
de perder algo que é ou pode vir a ser muito bom, até mesmo maior
que nós, pelo medo da vida e do medo da morte, e de muitos outros
motivos que poderíamos aventar aqui. Da covardia propriamente dita.
Uma vez estabelecido um relacionamento sem estarmos legitimamente
amando ou sem estarmos legitimamente em condições de amar não
estamos vivendo esse relacionamento na sua plenitude.
Estamos então falando de uma forma de alienação. O "amor" alienado.
Criatividade (imaginação), cumplicidade (paixão), respeito a si
próprio (ética) e pela pessoa amada (política), democracia
(política) e desejo (paixão) formam o movimento do amor (estética).
Um comportamento não resiste muito tempo sem o outro e a
consistência está situada no conjunto dessas unidades de
comportamento que devem fluir naturalmente no movimento do amor.
Acreditar no amor isoladamente desse contexto nos remete a uma
ilusão, e, por conseqüência desse movimento, acabamos por mergulhar
numa desilusão amorosa.
O "AMOR" ALIENADO
Quando pensamos estar amando uma pessoa sem as premissas descritas a
pouco, ou seja, fora do movimento legitimo do amor, na verdade,
estamos tentando efetivar a troca dialética do nosso amor próprio
com uma pessoa que "não possui" amor próprio ou não está pronto para
assim fazer. Existem pessoas que por carência (justamente
necessidade de movimentar amor, de devir amor na companhia de
alguém, atitude completamente normal) e/ou por estar carente de amor
próprio (ou em excesso), acabam "amando" outra pessoa, entrando num
movimento perigoso, pois, na verdade, não está amando o parceiro
está amando parcela do seu próprio amor próprio, alienado a outra
pessoa (no caso de excesso) ou está amando o amor próprio do
parceiro, desequilibradamente, uma vez que lhe falta amor próprio.
Em ambos os casos se constrói um mito. Acabamos admirando uma ilusão
que não corresponde à realidade.
Isso acontece porque a pessoa que está carente e deseja muito viver
um amor romântico, iniciar um movimento de cumplicidade, desejo, e
imaginação, com alguém, acaba projetando esse amor próprio encima do
parceiro, para "compensar" a falta de cumplicidade do próprio
parceiro que está de metade na relação e, por algum motivo, está
negando seu lado espírito (consciência), negando cumplicidade. Isso
não dura por muito tempo e leva ao sofrimento, pois, esse movimento
cria uma ilusão, que, cedo ou tarde, levará a uma desilusão amorosa.
É preciso dosar a "entrega" desse amor próprio, ou seja, é preciso
entrar no movimento com passos, nem rápidos nem lentos, simplesmente
no ritmo (ética dialética), senão nos enfraquecemos. É
preciso "cobrar" a cumplicidade da pessoa que nos relacionamos
(política dialética), se ela não corresponder, será necessário tomar
outro rumo na vida. Tentar dialogar com o parceiro para "corrigir" o
movimento do relacionamento é uma atitude democrática, porém, é
preciso avaliar o resultado. Caso não haja criatividade no
relacionamento, e cumplicidade, é preciso tentar um novo
relacionamento amoroso com outra pessoa mais bem resolvida.
É verdade que agir assim, em certas situações, é muito difícil,
pois, geralmente, nosso "desejo" material está sendo resolvido,
atendido, ficando a metade espírito em segundo plano ou em
desalinho. Também pode acontecer o inverso, quando o casal está
criativamente cúmplice espiritualmente, porém materialmente uma das
partes deixa a desejar. Isso acaba ocorrendo principalmente pelo
fato de nossa sociedade estar em desequilíbrio total entre a
contradição SER e TER.
E, como já vimos, é a falta de filosofia e, por conseqüência, de
democracia que cria a desarmonia entre os desejos do modo ser e do
modo ter, na unidade do comportamento.
ONDE ESTÁ O AMOR?
Muitas pessoas devem estar fazendo essa pergunta diariamente. Querem
saber onde está o amor.
Diante de uma sociedade desencontrada é fácil perceber que o amor
sumiu! Isso não ocorre isoladamente. Quando investigamos o movimento
do amor entre duas pessoas não podemos esquecer que, no movimento
dialético, é extremamente difícil separar o que seria o amor
romântico, do amor pela vida, do amor pela família, do amor pelo
trabalho, do amor pela nação, do amor pela humanidade, do amor pelos
filhos, do amor pela natureza e pelas coisas mais simples e mais
complexas da vida. Isso é devir.
O sujeito, alienado dos movimentos, acredita que seja possível amar
fora deste contexto. Eis a figura do "amor" alienado.
No "amor" alienado, o máximo que se consegue, é trocar as carências
de cada um e, geralmente, de forma possessiva. Poucos são os casais
que conseguem devir legitimo amor.
Para que o amor reapareça em nossas vidas, e seja maior, pensamos
ser necessário atender aos desejos da matéria, assim como os do
espírito, numa atitude dialética democrática; ética e política. Eis
a Estética Dialética.
A Filosofia te ajuda a "reencontrar o Amor", ou seja, movimentar o
amor, devir amor. O Filosofar é estrada para o Amor Maior, ou seja,
movimentar amor em companhia de alguém, feliz, sereno.
Sabemos que o filosofar também é um "exercício" de autoconhecimento.
Quem se conhece melhor saberá o que deseja pra si. Quem sabe o que
quer, faz melhores escolhas. Nas melhores escolhas moram as melhores
probabilidades de ser feliz!
É por isso que o artista diz que: "Teu amor, pode estar, do teu
lado!"
NÂO TE AMO MAIS *
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis.
Tenho certeza de que
Nada foi em vão.
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada.
Não poderia dizer jamais que
Alimento um grande amor.
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
EU TE AMO!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais..."
Clarice Lispector
(Agora leia o texto de baixo para cima)