AULA V
Breve Introdução
"Matéria não pode ser escrava do espírito, espírito não pode ser
escravo da matéria. Formam uma mesma unidade!" (Nota do autor)
O MOVIMENTO
Dialética da Dialética
Grosso modo e de caráter introdutório, durante as quatro aulas
desenvolvidas até aqui, investigamos o conceito sobre o que vem a ser
o movimento dialético através de três filósofos: Hegel com sua
dialética idealista (da idéia, do espírito, do conceito) e
Marx/Engels com uma dialética materialista (da matéria).
Poderíamos investigar o conceito sobre o que vem a ser dialética na
interpretação de outros pensadores. Porém, aceitamos ser coerente a
afirmação de que encontraremos marxistas e hegelianos nesta
investigação, o que para nós, nesse momento do Curso, não seria
produtivo.
Apesar disto, aconselhamos aos(as) colegas, sempre que for possível e
de vontade própria, aprofundarem-se na investigação do movimento
dialético utilizando-se do maior número de pensadores e filósofos.
Certamente investigações como esta sempre serão importantes para a
formação do livre conceito.
Voltando a questão central da dialética apresentada podemos afirmar
que Hegel era idealista e, por ser assim, deu importância primeira ao
espírito. Por conseqüência disto, acredita que as mudanças do
espírito que provocam as da matéria. Para Hegel o universo é a idéia
materializada, e, antes dele, existe primeiramente o espírito".
Tese, Antítese e Síntese.
Marx/Engels, discípulos de Hegel, mas discípulos materialistas, e
dando, por conseqüência, importância primeira na matéria, pensam que
a sua dialética dá afirmações exatas, porém contrárias quando a
matéria entra no lugar do espírito.
Afirmação, Negação e Negação da Negação.
Aparentemente ambos podem estar com razão. Ou seja, dentro de um
determinado intervalo de tempo (onde o movimento fica claramente
incompleto uma vez que o movimento não para) tanto um quanto outro
podem estar certos.
Ora, se Hegel descreve sua dialética brilhantemente e se Marx e
Engels também fazem dessa maneira, quem está com a razão?
Ao estudar o movimento completo, sem intervalos e em busca do ritmo,
surge uma constatação: matéria e espírito formam uma mesma unidade!
NÃO HÁ IMPORTÂNCIA PRIMEIRA PORQUE, EM MOVIMENTO CONSTANTE, NÃO
EXISTE A FIGURA DO PRIMEIRO.
Ao distinguir a dialética de Hegel da dialética de Marx e Engels,
deparamos com uma contradição na própria interpretação do movimento
dialético.
Esse é o ponto crucial da nossa investigação. Acreditamos que ambos
estão corretos, porém quando Hegel declara o "espírito" como tendo
importância primeira contraria a própria dialética porque o que é
primeiro hoje (ou seja, a tese) foi o último no movimento anterior
(ou seja, a síntese) e, como sabemos, entre um e outro passamos pela
antítese.
E quando Marx/Engels declaram a "matéria" como tendo importância
primeira contraria a própria dialética porque o primeiro hoje (ou
seja, a afirmação) foi o último no movimento anterior (ou seja, a
negação da negação) e, como sabemos, entre um e outro passamos pela
negação.
No movimento dialético incessante, não há o primeiro. O primeiro é
uma figura formal. Na Filosofia Dialética matéria<=>espírito formam
uma unidade em movimento, em constante movimento.
Ao desprezar a parte matéria na unidade criamos a alienação da
matéria, assim como, desprezar a parte espírito na unidade criamos a
alienação do espírito. Nunca devemos desprezar nem à parte matéria,
nem à parte espírito na unidade.
MATÉRIA<=>ESPÍRITO = UNIDADE
Na dialética não há importância primeira. No processo dialético
matéria<=>espírito formam uma unidade da qual chamaremos, num
primeiro momento, de existência/conceito. (seria preciso encontrar
uma palavra ou até mesmo inventar um novo termo que agregue
existência e conceito numa mesma unidade. Talvez devenir seja essa
palavra desejada).
Tudo que existe, todo conceito, justamente existe e tem seu conceito
na forma matéria<=>espírito ao mesmo tempo, e em contradição.
O que pode haver, em momentos alternados, é a ilusão de que estão
separados. Uma espécie de ilusão de ótica. Uma ilusão de lógica que
nos leva a crer que, num determinado momento, ou a matéria ou o
espírito estão "aparecendo" para nossa percepção de forma totalmente
predominante na unidade contraditória da existência/conceito (do
devir). Será através da investigação dialética, a única ferramenta
capaz de por a unidade em movimento, que conseguiremos evitar a
ilusão de lógica.
Na verdade, isso se dá pelo fato de estarmos "cegos" á parte (matéria
ou espírito) que aparentemente não está presente na unidade.
Por exemplo: quando sentimos uma intuição somos levados à ilusão de
lógica de que essa sensação é apenas do espírito, do pensamento, da
consciência, da idéia; como queira. Agindo assim, desprezamos sua
parte matéria, que nesse momento é, aparentemente, inexistente.
Porém, quando vemos um objeto inanimado, um copo por exemplo, somos
levados a ilusão de lógica de que esse objeto é apenas matéria.
Agindo assim, desprezamos sua parte espírito, que nesse momento é,
aparentemente inexistente. Assim, sucessivamente, alienamos o
espírito da matéria e a matéria do espírito, todos os dias na nossa
rotina prática.
Investigando o que nos leva a ter ilusão de lógica chegamos a
constatação de que a ausência da dialética do movimento no pensamento
nos leva a ilusão de lógica. Assim como, a ilusão de lógica nos leva
a faltar com a dialética do movimento. Um ciclo vicioso que teremos a
pretensão de eliminar com os estudos de Filosofia Dialética.
Interpretando o conceito do que vem a ser Filosofia Dialética como
sendo uma ferramenta a serviço do livre conceito, através do
reconhecimento da unidade espírito<=>matéria, eliminaremos as
possibilidades de alienação, abrindo caminho à Estética Dialética.
O TEMPO EM MOVIMENTO
Agora que estamos mais familiarizados com a dialética do movimento,
investiguemos os conceitos de realidade, possibilidade e
probabilidade no devir.
Tudo que está em movimento segue por um caminho. Precisamos
investigar esse caminho.
Afinal: todo caminho é um caminho definido (destino) ou não (acaso)?
Na dialética do movimento acreditamos que o futuro pode coexistir no
movimento do presente, porém, o futuro não existe de fato, não é
real, ou seja, no futuro algo pode acontecer como também pode não
acontecer. Grosso modo, nada está definido.
Levando em consideração que todos nós estamos inseridos num
gigantesco e universal complexo de contradições e movimentos, não é
possível termos respostas absolutas sobre o que vai acontecer ou o
que não vai acontecer, mas podemos avaliar o que pode acontecer e o
que não pode acontecer. Diante de tal situação, somos levados a
considerar como realidade o conjunto das possibilidades, ficando de
fora o que, pelas leis naturais, é impossível (pelo menos é
impossível até o presente momento da investigação, é claro).
Imaginemos um grupo de pessoas dentro de uma sala que possui uma
porta e nenhuma janela. Essas pessoas estão assistindo uma palestra
sobre Estética. No exato momento que a palestra está sendo
desenvolvida, o futuro, nesse instante, está presente na idéia de
todos uma vez que os presentes precisarão ir embora para suas casas
ao término da palestra, e já planejaram isso.
Logo, quando os participantes efetivamente saírem da sala estarão
vivendo no presente a confirmação do que fora planejado (agora) no
passado. Assim, o futuro também coexiste no passado, porém, quando
este era presente. Parece confuso não? Mas é real! Nós, que não
estamos habituados a pensar em movimento, acabamos escravos do tempo
formal: passado, presente e futuro. O movimento dialético não
respeita essa ordem, o movimento dialético respeita a ordem: futuro,
passado e presente.
Porém, para sair da sala em direção de casa, os presentes possuem
apenas uma alternativa possível, a passagem pela porta. Sendo assim,
o futuro que agora coexiste no passado está dentro das possibilidades
existentes, uma vez que os participantes não podem atravessar a
parede para ir embora, nem, simplesmente, sumirão instantaneamente.
Diante dessa possibilidade, podemos calcular que a probabilidade de
que os participantes, daqui a duas horas, horário que a palestra
chegará ao seu fim, ou seja, no futuro, saiam felizes pela porta é
enorme, quase 100%, porém, pode acontecer algo que impossibilite esse
movimento quase certo, mas não de todo garantido.
Sendo assim, o futuro pode coexistir no presente, pois está dentro
das possibilidades e das probabilidades. Porém, o futuro não pode
contrariar as possibilidades (pelo menos as possibilidades
imagináveis ou conhecidas, contidas no presente da investigação), mas
pode contrariar as probabilidades maiores.
Por não pensarmos em movimento, sempre que a realidade presente
apresenta-se contrária às probabilidades maiores, ficamos assustados
e acabamos alienando o pensamento. "Tinha que ser assim", "chegou a
hora dele", "o destino quis assim", "não era hora dele", "foi
abençoado", "não foi abençoado", "a vida é um jogo de xadrez", etc..
O presente é superfície pura, a única superfície real. O futuro e o
passado não existem, apenas podem coexistir no presente, e só. Sendo
assim, nada está definitivamente definido.
O futuro pode coexistir no presente através do movimento da
probabilidade maior. Exemplo: Se estudei durante um ano estou muito
bem preparado para um prova, mas o resultado satisfatório não está
100% garantido. Sendo assim, o futuro só existe de fato no presente.
Quanto ao passado, fica claro que este só existe de fato no presente,
através da nossa memória e através do próprio movimento que, por um
motivo qualquer, pode "trazer de volta" o passado.
O conceito de destino só pode ser válido quando entendemos que o
movimento pré destinou o resultado, ou seja, as maiores
probabilidades que apontavam para determinado resultado estavam
predestinadas no próprio movimento, porém, nem mesmo assim, um
resultado predestinado é 100% garantido. Nada escapa ao movimento e
todo movimento é obra do acaso.
Na dialética do movimento cada segundo é obra do acaso, ficando sob
nosso controle as leis da probabilidade, podemos aumentar ou diminuir
as chances, mas, não podemos garantir nada. De posse desse conceito,
fica claro o grau de responsabilidade do indivíduo racional diante de
sua conduta e de seu comportamento prático para com sigo mesmo e para
com a sociedade. Iremos debater sobre essa responsabilidade mais a
frente, em ética dialética e política dialética.
"O tempo não para" (Cazuza)
O Movimento também não!
---------------
Dúvidas ou perguntas para o endereço: filosofiadialetica@...