AULA III
Breve Introdução
"... para construir a vida nova, vamos precisar de muito AMOR. A
felicidade mora ao lado e quem não é tolo pode ver..." (Beto Guedes e
Ronaldo Bastos).
O PROCESSO DIALÉTICO *
Se examinarmos um pouco mais de perto o processo (processo: palavra
que vem do latim, e quer dizer: marchar em frente, ou o ato de
avançar, de progredir) que começamos a conhecer, vemos que a maçã é o
resultado de um encadeamento de processos:
De onde vem a maçã? Vem da árvore.
De onde vem a árvore? Da maçã?
Podemos pensar que existe um círculo vicioso, no qual acabamos por
voltar sempre ao mesmo ponto.
Porém, observem a sutileza da diferença:
1. Uma maçã;
2. Esta, decompondo-se, dá origem a uma ou mais árvores;
3. Cada árvore não dá uma maçã, mas várias. Não voltamos, portanto,
ao mesmo ponto de partida; voltamos para a maçã, mas num outro plano.
Do mesmo modo teremos uma árvore, que dará maçãs, que darão árvores,
aqui voltamos à árvore, mas num outro plano. O ponto de vista ampliou-
se. Não estamos diante de um círculo como a aparência poderia fazer
pensar, mas um processo de desenvolvimento que os dialéticos
materialistas chamam de desenvolvimento histórico. A história mostra
que o tempo não passa sem deixar marca. Passa, mas os
desenvolvimentos que ocorrem não são os mesmos. O mundo, a natureza,
a sociedade constituem um desenvolvimento que é histórico, e em
linguagem filosófica, se chama "em espiral".
A Contradição Dialética
Vimos que a dialética considera as coisas como estando em perpétua
mudança, evoluindo continuamente. Vimos, também, que esta mudança é o
resultado de um encadeamento de processos, isto é fases que saem umas
das outras. E vimos que esse encadeamento se desenvolve
necessariamente no tempo, num movimento progressivo, "apesar de
retrocessos momentâneos". Chamamos esse desenvolvimento
um "desenvolvimento histórico ou em espiral" e sabemos que gera a si
mesmo por autodinamismo. Mas, qual o "motor" desse dinamismo? O que
faz com que a maçã, não fique maçã para sempre e siga o movimento?
A Vida e a Morte
No ponto de vista da formalidade, considerando as coisas isoladas, vê
a vida, por si e em si, de uma maneira unilateral. Vê-a de um só
lado. Se examinar a morte, fará a mesma coisa; aplicará o seu ponto
de vista unilateral absoluto e concluirá dizendo: vida é vida e morte
é morte. Entre ambas não há nada em comum; não se pode estar ao mesmo
tempo vivo e morto, porque são duas coisas opostas, inteiramente
contrárias uma à outra totalmente separada. Se examinarmos um pouco
mais de perto, veremos, primeiro, que não as podemos opor uma a
outra, não podemos separá-las tão brutalmente, uma vez que a morte
continua a vida, que a morte vem do vivo.
Se houvesse apenas vida, a vida cem por cento, ela nunca poderia ser
a morte, e se a morte fosse totalmente ela própria, a morte cem por
cento, seria impossível que houvesse vida. Mas, já existe morte na
vida e, por conseguinte, vida na morte. Assim, no interior de cada
coisa, coexistem forças opostas, antagonismos. O que acontece com
essas forças? Lutam. Por conseguinte, uma determinada coisa não é
apenas movida por uma força agindo num só sentido, mas toda a coisa
é, realmente, movida por duas forças de direções opostas. Para a
afirmação e para a negação das coisas, para a vida e para a morte.
Existem, na vida, forças que a mantêm, que tendem para a sua
afirmação. Além dessas, também existem nos organismos outras que
tendem para a negação. Em todas as coisas, há forças que tendem para
a afirmação e para a negação, e, entre a afirmação e a negação, há a
contradição. Portanto, a dialética acredita na mudança, mas por que
mudam? Porque há luta entre as forças, entre antagonismos internos,
porque há contradição. "As coisas mudam, porque contêm em si mesmas,
a contradição." (Engels)
Uma maçã num determinado intervalo de tempo, e, segundo a lógica
formal, é uma maçã. Porém essa mesma fruta que formalmente
classificamos como maçã tem uma história. Sem intervalo de tempo
definido segue em movimento, em processo e está em movimento
dialético. Não é só uma maçã, devém maçã.
O Processo Contraditório
Tomemos como exemplo do ovo que é posto e chocado pela galinha:
constatamos que, nele, se encontra o gene que, a uma certa
temperatura e em certas condições, se desenvolve. Desenvolvendo-se,
dará num pintainho: deste modo, o gene é já a negação do ovo. Veremos
que, sem dúvida, no ovo há duas forças: a que tende para que
permaneça um ovo e a que tende a que se torne pintainho. O ovo está,
portanto, em desacordo consigo mesmo. E todas as coisas o estão
consigo próprias. Isso pode ser difícil de compreender, porque
estamos acostumados a raciocinar usando apenas a lógica formal.
Mas a galinha será, por sua vez, a transformação do pintainho,
havendo, no centro desta transformação uma contradição entre as
forças que lutam para que o pintainho se torne galinha e as que lutam
para que permaneça pintainho. A galinha será, pois a negação do
pintainho, que vinha por sua vez da negação do ovo.
* POLITZER, Georges, Princípios Elementares de Filosofia, Lisboa,
Prelo Editora, 1979.
Investigaremos de perto esse recorte da contradição que gera o
movimento da vida. Podemos interpretar que a vida está em pleno
movimento. Ou seja, a vida não é uma forma absoluta, 100% vida, como
estamos acostumados a pensar. O conceito sobre o que vem a ser vida é
um processo contraditório entre a vida e a morte em eterno devir.
Sempre bom lembrar! Esse primeiro recorte sobre o tema é uma imagem
do conceito dialético encontrado em Marx e Engels. Marx localiza o
movimento dialético no seio da própria coisa, de todas as coisas, e
em íntima interação com elas, ou seja, para Marx e Engel a dialética
não é uma lógica. Apesar de acreditarem na contradição não é a
consciência (lógica do espírito) do homem que determina o seu ser,
mas pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua
consciência.
Lógica Formal e Lógica Dialética em contradição, mas também se
complementando.
Vamos nos imaginar dentro de uma sala de aula olhando uma cadeira de
madeira colocada encima da mesa do professor.
Segundo a lógica formal, estamos diante de uma cadeira, e esta está
parada encima da mesa.
Porém, será que ela, a cadeira, está realmente sem movimento?
Vamos relacionar alguns dos movimentos de uma cadeira parada.
1. Ela se move junto ao movimento de rotação da terra.
Nosso reflexo não percebe esse movimento porque também estamos
inseridos nele.
2. Ela se move junto ao movimento de translação da terra.
Nosso reflexo não percebe esse movimento porque também estamos
inseridos nele.
3. Ela se move através do balanço da placa tectônica do nosso
continente.
Nosso reflexo não percebe esse movimento porque também estamos
inseridos nele.
4. Ela se move através dos quarks que vibram na unidade quântica.
Os quarks são formados por partícula e antipartícula (em
contradição). A maior parte da matéria que esta a nossa volta é feita
de prótons e nêutrons, os quais são compostos de QUARKs.
No modelo atômico moderno, os elétrons estão em constante movimento
em volta do núcleo, os prótons e os nêutrons vibram dentro do núcleo
e os QUARKs vibram dentro dos prótons e nêutrons. Esse movimento não
pode ser visto dentro das limitações da visão ocular, mas pode ser
visto pelos cientistas da física quântica. Sem esse movimento não
teríamos uma cadeira.
5. Ela se move através das forças de degeneração que agem na sua
estrutura envelhecendo o material, ação do ambiente.
O ambiente investe todo o tempo contra a cadeira, essa ação em tempo
real é imperceptível para nossas limitações humanas, porém, a cada
segundo a cadeira não é mais a mesma do segundo anterior. Num
intervalo de tempo longo, percebemos essa diferença através do
desgaste do objeto. Como Heráclito poderia dizer, não sentamos duas
vezes na mesma cadeira, porque a cadeira não é mais a mesma nem nós
somos mais os mesmos.
6. Ela se move através do conceito, pois, com o passar do tempo,
sairá de moda e será considerada "velha";
Outro movimento importantíssimo é o do conceito cultural arbitrário.
A cadeira move-se também através do conceito cultural arbitrário. Sem
o conceito cadeira o objeto passa a ser um aglomerado de madeira (sua
matéria-prima). O conceito cultural arbitrário de cadeira está em
movimento através da nossa convenção, do nosso entendimento quanto à
utilidade prática do objeto. O conceito também classifica o estado da
cadeira que não poderia deixar de estar em movimento.
7. Ela se move através do movimento do trabalho agregado na sua
confecção, senão a madeira não teria se transformado numa cadeira. O
movimento da produção através do trabalho;
Observe bem a cadeira e verás que essa cadeira só existe no movimento
do trabalho. O movimento do trabalho está imanente na imagem da
cadeira. Está "impresso" na matéria prima através do movimento do
carpinteiro.
8. Ela se move através da economia, pois está tendo o seu valor
comercial alterado a cada minuto. Seja para mais ou para menos, para
muito mais ou para muito menos, para um valor incalculável ou para a
ausência de valor algum;
Fatores econômicos definirão o valor desta cadeira. Podemos citar,
como exemplo, um deles: a lei da procura e da oferta como sendo um
dos muitos movimentos econômico que não permitirão a fixação do valor
da cadeira num modo absoluto.
9. Ela se move através do ponto de vista de cada pessoa presente na
sala, pois, cada um vê a cadeira de um ângulo diferente.
Podemos considerar também que cada aluno presente na sala terá uma
opinião sobre o que vê na cadeira, assim, a interpretação está em
movimento social, e leva a cadeira consigo.
10. Ela se move através da ausência total de luz, pois, sem luz, a
cadeira desaparece no escuro.
Poderíamos enumerar uma série de outros movimentos, porém,
consideramos estes suficientes para mostrar que tudo está inserido
num complexo cruzamento de movimentos muitas vezes contraditórios
e/ou complementares.
Porém, é claro que não podemos desprezar por completo o que a lógica
formal nos mostra, afinal, a cadeira que está em pleno movimento,
também está parada.
Assim, podemos concluir que vemos muito mais quando, também,
utilizamos "os olhos" da lógica dialética, do pensamento em
movimento, do que se utilizarmos apenas "os olhos" da lógica formal.
Exercício de reflexão!
Agora vamos substituir a cadeira por nós mesmos e veremos que estamos
inseridos nos mesmos movimentos.
Compare você com cada movimento descrito no exercício onde estava a
cadeira.
Não ter consciência destes movimentos é ser alienado. E como diz
Hegel: alienação é processo pelo qual ao observador ingênuo o mundo
parece constituído de coisas independentes umas das outras, e
indiferentes à consciência - independência e indiferença serão
negadas pelo conhecimento filosófico.
Para descontrair, oferecemos uma poesia de Amor em movimento.
O SAL DA TERRA
Beto Guedes e Ronaldo Bastos
Anda, quero te dizer nenhum segredo
Falo nesse chão da nossa casa
Vem que tá na hora de arrumar
Tempo, quero viver mais duzentos anos
Quero não ferir meu semelhante
Nem por isso quero me ferir
Vamos precisar de todo mundo
Pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
Vamos precisar de muito amor
A felicidade mora ao lado
E quem não é tolo pode ver
A paz na Terra, amor
O pé na Terra
A paz na Terra, amor
O sal da Terra
És o mais bonito dos planetas
Tão te maltratando por dinheiro
Tu que é a nave nossa irmã
Canta, leva tua vida em harmonia
E nos alimenta com seus frutos
Tu que é do homem a maçã
Vamos precisar de todo mundo
Um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
É só repartir melhor o pão
Recriar o paraíso agora
Para merecer quem vem depois
Deixa nascer o amor
Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor
Deixa viver o amor