AULA II
Breve Introdução
"O homem produz-se a si mesmo, determina-se, ao se colocar como um
ser em transformação, como ser da práxis". (Karl Marx)
LÓGICA DIALÉTICA
Etimologicamente, lógica vem do grego logos, que
significa "palavra", "expressão", "pensamento", "conceito", "discurso"
, "razão". (Maria Lúcia Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins.
Filosofando - Introdução à Filosofia. p. 109)
Etimologicamente, dialética vem do grego dia, que expressa a idéia de
dualidade, troca, lektikós, "apto à palavra", "capaz de falar". É a
mesma raiz de logos (palavra, razão) e, portanto, se assemelha ao
conceito de diálogo. No diálogo há mais de uma opinião, há dualidade
de razões. (Maria Lúcia Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins.
Filosofando - Introdução à Filosofia. p. 109)
Diante da etimologia das duas palavras percebemos uma interação no
conceito de lógica e de dialética.
O que é Contradição?
Contradição é uma palavra que já contém em si significado forte.
Porém, não podemos deixar de constatar que essa palavra é, de certa
maneira, marginalizada pelas pessoas de modo geral. Num primeiro
momento a palavra contradição faz nossa imaginação criar situações de
conflito, dificuldade, problemas, disputa com perdas ou ganhos,
incerteza, entre outros sentimentos.
Um motivo que colabora muito para a pobre interpretação do conceito
da palavra contradição, nada mais sutil, está impresso nos
dicionários que divulgam o significado da palavra como: "incoerência
entre o que se diz e o que se disse, entre palavras e ações".
Essa pobre definição, sobre o conceito do que vem a ser a
contradição, esconde uma riqueza de conteúdo incalculável contida
nessa simples palavra.
Não saber o pleno significado da palavra contradição ou, no mínimo,
não saber o significado mais importante da palavra contradição, seu
conceito filosófico e, por conseqüência, não saber identificar a
contradição que "existe em tudo", como não saber suprimir tais
contradições de maneira criativa, é uma forma extremamente perigosa
de alienação.
A interpretação do que vem a ser contradição dialética pode ser
considerada, num primeiro momento, uma poderosa ferramenta capaz de
evitar que sejamos aprisionados por algum tipo de dogma, ou
dogmatismo, em estado de alienação.
"Etimologicamente, dogma vem do grego dógma, pelo latim dogma, ponto
fundamental e indiscutível de uma doutrina ou sistema - dogmatismo
Filos. doutrina que afirma a existência de verdades certas e que se
podem provar indiscutíveis." (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 2ª edição, p. 606).
Iremos iniciar a investigação sobre o que vem a ser contradição
dialética, mergulhando no conceito filosófico da palavra.
Utilizando a própria contradição dialética como método de exposição,
iniciaremos esta investigação com uma breve passagem pela lógica
clássica aristotélica.
"A lógica clássica (ou formal) foi desenvolvida por Aristóteles. A
amplitude dos estudos sobre a lógica e o rigor desse trabalho
desenvolvido por Aristóteles fez com que a lógica aristotélica
permanecesse através dos séculos até os dias de hoje. Para
Aristóteles a lógica estuda a razão como instrumento da "ciência",
como meio de adquirir a verdade. O ato de raciocinar". (Maria Lúcia
Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins. Filosofando - Introdução
à Filosofia. p. 96)
O que é raciocínio?
"É um tipo de operação discursiva do pensamento, consistente em
encadear, logicamente, juízos e deles tirar uma conclusão. Exemplo de
raciocínio da lógica formal: Toda baleia é mamífera. Ora, nenhum
mamífero é peixe. Logo, a baleia não é peixe". (Maria Lúcia Arruda
Aranha e Maria Helena Pires Martins. Filosofando - Introdução à
Filosofia. p. 97)
Para que possamos erigir raciocínios (formalmente) válidos devemos,
segundo os lógicos, atentar para três princípios ou leis evidentes:
1. Princípio da Identidade - Aquele que afirma a identidade de
determinada coisa com ela mesma. Pode ser assim enunciado: Toda coisa
é. Ex.: A é igual a A.
2. Princípio da (não-) contradição - Determina que: Uma coisa -
considerada sob o mesmo aspecto - não pode ser e não-ser ao mesmo
tempo; por conseguinte, coisa alguma pode ter e não ter, ao mesmo
tempo, determinada propriedade. Ex.: A não pode ser não-A.
3. Princípio do Terceiro Excluído - Afirma que: Dada uma noção
qualquer ou ela é verdadeira ou é falsa, isto é, não há um possível
meio-termo entre afirmação e negação. O princípio do terço excluído
sustenta, assim, que só existem dois modos de ser, e, por
conseguinte, de dois juízos contraditórios, um é necessariamente
verdadeiro e o outro falso. Ex.: A não é A e não-A ao mesmo tempo.
O "Vício Formal"
Utilizando apenas a lógica formal como única forma de raciocinar,
acabamos adquirindo "vícios de pensamento" que nos levam, muitas
vezes, a decisões erradas e sem consciência disto. Durante o nosso
Curso veremos como evitar o "vício formal".
Defendemos, nos nossos estudos dialéticos, a "necessidade de
aprender" a raciocinar formalmente e dialeticamente ao mesmo tempo,
ou seja, o problema central presente no corpo do nosso conteúdo
introdutório sobre Filosofia Dialética remete o aluno a uma nova
realidade, a de se tornar um interpretador ativo e não apenas um mero
receptor passivo de informações, discursos, verdades ou outras formas
de captação de poder.
Acreditamos, também, que assim estaremos ampliando o poder de
interpretação cognitiva do cérebro, uma espécie de exercício
cognitivo, extremamente saudável à imaginação.
A lógica dialética não vem para substituir a lógica formal,
complementam-se, mesmo que em contradição na unidade lógica.
Lógica Dialética e Lógica Formal em Harmonia: Democracia Dialética!
"A lógica dialética não faz desaparecer a lógica formal. Esta
continua existindo num âmbito restrito das correlações imediatas que
partem da observação direta dos fatos ou quando atingimos as leis
pelo método experimental. Mas a lógica formal se torna insuficiente
quando é preciso passar para o grau superior da generalidade, onde
existem as categorias de totalidade, em movimento, em processos".
(Maria Lúcia Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins. Filosofando -
Introdução à Filosofia, p. 204 - COM PEQUENA ADAPTAÇÃO).
Entretanto, "o que é pensado dialeticamente tem que ser dito
formalmente, pois se acha subordinado às categorias da linguagem, que
são formadas por força de sua constituição social, de sua função como
instrumento criado pelo homem para a comunicação com os semelhantes".
(Vieira Pinto. Ciência e Existência, p. 185).
"Se aprofundada, a lógica formal não proíbe o pensamento dialético.
Ao contrário: mostra a possibilidade dele, abre-se para a sua
exigência, sua espera, seu trajeto: "funda" a necessidade desse
pensamento. A lógica formal remete à dialética, pela meditação da
lógica dialética. Depois, esse movimento se inverte, e a lógica
formal aparece apenas como redução do conteúdo, abstração elaborada,
elemento neutro (vazio, transparente) de toda investigação". (Henri
Lefèbvre. Lógica Formal, Lógica Dialética, p.24).
"A lógica formal revela-se, portanto, capaz de classificar, de
distinguir os objetos, mas é insuficiente para entender esse mesmo
objeto em seu movimento real e incessante. Por isso a dialética não
recusa a lógica formal, ela a incluiu como parte fundamental da
lógica". (Moacir Gadotti. Concepção Dialética da Educação - Um Estudo
Introdutório, 12ª edição, p. 29).
"A contradição dialética é uma inclusão (plena, concreta) dos
contraditórios um no outro e, ao mesmo tempo, uma exclusão ativa. E o
método dialético não se contenta em dizer que existem contradições,
pois a sofística, o ecletismo ou o ceticismo são capazes de dizer o
mesmo. O método dialético busca captar a ligação, a unidade, o
movimento que engendra os contraditórios, que os opõe, que faz com
que se choquem, que os quebra ou os supera". (Moacir Gadotti.
Concepção Dialética da Educação - Um Estudo Introdutório, 12ª edição,
p. 29).
O Movimento Dialético *
"Nada fica onde está, nada permanece o que é".
Quem diz dialética diz movimento, mudança. Isso quer dizer colocar-se
no ponto de vista do movimento, da mudança: estudando as coisas
segundo a dialética, estudaremos seus movimentos, suas mudanças.
Usando o exemplo da maçã, temos duas maneiras de estudá-la,
formalmente e dialeticamente. No primeiro caso, daremos uma descrição
desse fruto, a sua forma, a sua cor. Enumeraremos as suas
propriedades, falaremos do seu gosto, etc. Depois compararemos a maçã
a uma pêra, ver as semelhanças e as diferenças, por fim, concluir:
uma maçã é uma maçã, e uma pêra é uma pêra, logo maçã não é pêra.
Se quisermos estudar a maçã do ponto de vista dialético, colocaremos
a maçã em movimento, não no movimento mecânico quando esta cai no
chão e rola pela cozinha, mas no movimento da sua evolução. Então
constataremos que a maçã madura não foi sempre o que é. Pouco antes
era uma maçã verde. Antes de ser uma flor era um botão; e, assim,
chegaremos até o estado da macieira na primavera. A maçã não foi
sempre maçã, tem uma história, e de fato não permanecerá maçã para
sempre. Se cai apodrecerá, decompor-se-á, libertará as sementes que
darão, se tudo correr bem, um rebento, depois uma árvore. Assim,
estudamos as coisas do ponto de vista do movimento. É o estudo da
história da maçã, passado presente e futuro, ao estudar assim, a maçã
presente também é uma transição entre o que era, o passado, e o que
se tornará, o futuro.
"Para a dialética, não há nada de definitivo".
Isto quer dizer que, para a dialética, tudo tem passado e terá
futuro; que, por conseqüência disto, nada é de uma vez para sempre, e
o que é hoje, não é definitivo. Para a dialética não existe nenhum
conceito que possa fixar as coisas num estado definitivo, modo
absoluto. (Absoluto significa: que não está submetido a qualquer
condição; por conseguinte, universal, eterno, perfeito).
"Nada é sagrado".
Isto não quer dizer que a dialética despreze tudo. Não! Uma coisa
sagrada é aquela que considera como imutável, que não se deve nem
tocar, nem discutir, mas só venerar. Minha opinião é "sagrada", por
exemplo. Pois bem, A dialética diz que nada escapa ao movimento, à
mudança, às transformações da história.
"Caducidade".
Vem de "caduco", que cai; uma coisa caduca é a que envelhece e deve
desaparecer. A dialética mostra-nos que o que está caduco já não tem
razão de ser, que tudo está destinado a desaparecer, seja em
definitivo ou por transformação.
* POLITZER, Georges, Princípios Elementares de Filosofia, Lisboa,
Prelo Editora, 1979.
Esse primeiro recorte sobre o tema é uma interpretação do conceito
dialético de Marx e Engels encontrado na obra de Politzer. Marx e
Engels localizam o movimento dialético no seio da própria coisa, de
todas as coisas, e em íntima interação com elas, ou seja, para Marx e
Engels a dialética não é uma lógica (no sentido hegeliano da
interpretação do que é dialética). Apesar de acreditarem na
contradição não é a consciência (lógica do espírito) do homem que
determina o seu ser, mas pelo contrário, o seu ser social é que
determina a sua consciência.
Sugestão Dialética
Sugerimos aos participantes do Grupo o programa Comentário Geral da
TVE BRASIL. O programa é transmitido no sábado (22h - inédito) e no
domingo (12h - reprise). A produção escolhe uma palavra e esta é
posta em movimento através do comentário de vários convidados em
torno do conceito da palavra, isso permite com que o
telespectador "treine" sua noção de conjunto. Isso é filosofia, isso
é dialética. A naturalidade e a criatividade dos apresentadores do
programa nos faz participar como se estivéssemos todos sentados
juntos no sofá da sala.
Para ilustrar esta mensagem/aula, humildemente ofereço aos colegas
que acompanham nosso Curso Digital de Introdução à Filosofia
Dialética, uma poesia de minha autoria.
DIÁRIO DE UM PRISIONEIRO
MINHAS MEMÓRIAS DE CELULOSE
NÃO POSSUEM NOVIDADES.
PORÉM, É MEU DESEJO DE ESCREVER,
QUE ME LIBERTA DESSAS GRADES.
ESSAS GRADES SÃO DE CARNE
DE OSSOS E CORAÇÃO,
CERCAM-ME A TODO O MOMENTO,
VIGIANDO MINHA AÇÃO.
QUE FALAR DA SOLIDÃO
QUANDO TODA GRANDEZA DO MUNDO
MOSTRA-SE, AINDA MENOR,
QUE O PÁTIO DESSA PRISÃO?
E SEUS MUROS SÃO CONCRETOS
DE PURA SUGESTÃO,
IDEOLOGIAS BEM MONTADAS:
PROPAGANDA, CIÊNCIA, MITO E RELIGIÃO.
O COVARDE? O COMPLEXO PENITENCIÁRIO.
O CORAJOSO? AQUELE QUE SE DESAFIA.
E, SEM MENSAGENS, ARMAS, HERÓIS OU DOGMAS,
INTERPRETA LIBERDADE, NO MUNDO DE SOFIA!
MARCELLO ANELHI