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Artigo 5

O que é Epistemologia

O termo significa "estudo da ciência" (do grego episthme =
conhecimento, ciência, e logo = estudo, discurso). É usada em dois
sentidos: para indicar o estudo da origem e do valor do conhecimento
humano em geral (e neste sentido é sinônimo de gnosiologia ou
crítica); ou para significar o estudo as ciências (físicas e
humanas), dos princípios sobre o qual se fundam, dos critérios de
verificação e de verdade, do valor dos sistemas científicos.

Pode-se dividi-la em dois sentidos básicos:

a) a crítica do conhecimento científico: exame dos princípios, das
hipóteses e das conclusões das diferentes ciências, tendo em vista
determinar seu alcance e seu valor objetivo.

b) a filosofia da ciência (empirismo, racionalismo, etc), e a
história do desenvolvimento científico.


Breve Prospecto Histórico

Desde que Comte negou à filosofia um domínio próprio de objetos e
confiou-lhe como tarefa específica o estudo das ciências, a
determinação de seus objetos e de suas tarefas, a sua divisão e
coordenação, a atenção dos filósofos dirigiu-se sempre mais para a
ciência, a qual se tornou, para muitos, o argumento principal e
central de sua análise.

Além disso, a indagação atenta e aprofundada das características e
das funções do saber científico era exigida quer pela orientação
positiva da filosofia, quer pelos enormes desenvolvimentos e pela
extraordinária importância que a ciência havia adquirido durante os
últimos dois séculos, período no qual ela demonstrou ser um saber
extremamente fecundo e prático.

Essa instâncias foram o ponto de partida de uma parte da filosofia,
chamada filosofia da ciência, ou epistemologia . Esta se identifica
com a crítica metodológica da ciência, na medida em que essa crítica
tende à explicitação consciente e sistemática do método e das
condições de validade dos juízos – particulares, singulares ou
universais – tornados próprios pelos cientistas, perseguindo assim
uma reconstrução racional, convencionalmente designada por senso
empírico-pragmático, do conceito de conhecimento científico.

A epistemologia propõe-se a responder às seguintes questões: o que é
conhecimento científico? Em outras palavras, em que consiste
propriamente o trabalho do cientista? Que faz ele quando faz ciência?
Interpreta, descreve, explica, prevê? Faz apenas conjecturas ou
verdadeiras asserções (gerais e singulares) que espelham fielmente os
aspectos dos fatos? E quando o cientista explica, o que é que ele
explica dos fatos: sua função, origem, gênese, essência, fim? Qual é
o status lógico das leis na ciência? São elas resultados de
procedimentos indutivos (e o que quer dizer indução para a ciência?),
ou antes, conjecturas da imaginação científica que deverão sujeitar-
se a provas empíricas? Em que sentido se fala em causalidade nas
ciências empíricas? Quando, então podemos dizer que uma teoria
é "melhor" do que outra? O que queremos dizer quando afirmamos que as
ciências empíricas são objetivas? Qual é o papel da experiência na
pesquisa científica? Podemos observar que na epistemologia existem
mais perguntas que respostas. Tais perguntas brotam da pergunta
inicial sobre o que seja o conhecimento científico.

Essas questões começaram a impor-se à atenção dos filósofos pelo fim
do século XVIII, no momento em que a atitude de confiança otimista e
exaltação cega das ciências foi substituída por um ceticismo e uma
crítica aguda nos confrontos do conhecimento científico. O nascimento
e desenvolvimento da filosofia da ciência deve-se diretamente à
tomada de consciência da problematicidade desse conhecimento. Tal
consciência era ainda ausente em Descartes, Newton, Kant, Comte, e
Spencer.

Os primeiros resultados significativos dessa nova disciplina dizem
respeito à matemática e à geometria. Estas não são mais concebidas
como ciências reais, como representações de situações objetivas, mas
sim como construções formais: como sistemas fundados em postulados
escolhidos arbitrariamente e construídos com técnica da dedução
lógica das conseqüências que comportam tais postulados. Assim, por
ação dos epistemólogos e outros estudiosos, a matemática e a
geometria tomaram consciência de sua especificidade como ciência do
possível, diferente da física, que ao contrário, é a ciência do real.

No concernente à física e às ciências experimentais em geral, passa-
se de uma visão estática e mecanicista a uma visão dinâmica,
probabilista e relativista das leis da natureza. Essa mudança foi
motivada pelas descobertas da entropia, da radiatividade, dos
quanta , etc. Conseqüentemente, os conceitos de um espaço, e de um
tempo absolutos, como também os de simultaneidade, perderam todo o
valor.
A idéia de espaço curvo toma o lugar da idéia euclidiana de espaço
retilíneo. A idéia de relações necessárias de causalidade é
substituída pela idéia de indeterminação.

Nas ciências da natureza, no início do século XIX, ressalta-se uma
série de questões filosóficas relativas ao caráter e à função do
conhecimento experimental. As ciências naturais não aparecem mais no
campo do saber como conhecimento absoluto com pretensões
imperialistas e limites próprios. Seu âmbito é a quantidade. De tal
sorte a física ganha um perfil matemático, relegando a segundo plano
as intenções ontológicas e os elementos sensíveis. Daí a tendência a
reduzir o conhecimento experimental a puros dados métricos e ao
esquema relacional desses dados. Tal esforço de quantificação e
matematização da física acentua os traços que a distinguem tanto do
conhecimento comum, quanto do filosófico.

A filosofia da ciência propriamente dita teve um considerável
desenvolvimento em nosso século, dando origem a três movimentos
principais: o neopositivismo, a interpretação metafísica, e o
racionalismo científico.

Os defensores mais qualificados dos neopositivistas são Wittgenstein,
Carnap, e Russel. Os neopositivistas dividem as ciências em dois
grandes ramos: as lógico-matemáticas, e as experimentais. As
primeiras são constituídas por proposições analíticas, ou seja,
tautológicas; as segundas são compostas por proposições factuais. As
proposições lógicas e matemáticas, destituídas de conteúdo, não são
mais do que regras para a utilização dos símbolos e a ordenação das
proposições. As experimentais ou factuais são as empiricamente
verificáveis: isto acontece se elas são traduzíveis em proposições de
caráter empírico.

Em contraste radical com o neopositivismo coloca-se a concepção
metafísica da ciência. Esta afirma que a ciência envolve uma
metafísica e somente nela encontra seu fundamento último. Conforme
esta concepção, o trabalho científico apresenta-se como descoberta
progressiva da realidade, ou como a auto-manifestação do espírito
humano através da pesquisa científica. No primeiro caso, refere-se a
uma concepção metafísica realista; no segundo, a uma concepção
metafísica idealista.

Um dos maiores expoentes do realismo metafísico é Émile Meyerson
(1859-1933), o qual afirma que a ciência "não é positiva e não contém
mesmo dados positivos, no sentido rigoroso que foi dado a este termo
por Comte e seus seguidores, ou seja, dados desprovidos de qualquer
ontologia. A ontologia faz parte da própria ciência e dela não pode
ser separada". É o realismo do senso comum, segundo Meyerson, que se
prolonga na ciência sem solução de continuidade. A ciência,
progredindo na direção do senso comum, cria essências, cujo caráter
real não somente não é eliminado, mas é intensificado.

Já na interpretação metafísica idealista da ciência, sustenta-se que
a subjetividade é um fator importante na pesquisa cientifica. Nesta
interpretação destacam-se as "leis epistemológicas". Sua
característica peculiar é serem dedutíveis unicamente através do
estudo de nossos métodos de observação. Essas leis necessárias,
universais, e exatas constituem o elemento a priori da física, e das
outras ciências experimentais.

Segundo outro grande grupo de autores, a ciência é obra da razão
humana, uma espécie de máquina gerada por ela, cujas estruturas e
leis internas é preciso descobrir. Enquanto o interesse da
interpretação metafísica dirigia-se à infra-estrutura ontológica da
ciência, e o do neopositivismo a seus conteúdos como tais, tomados em
seu grau máximo de cristalização objetiva, o esforço do racionalismo
científico, por sua vez, tende a clarificar o sentido do opus
rationale que constitui a ciência.

O principal expoente desta interpretação epistemológica é Gaston
Bachelard (1844-1962), para quem a filosofia da ciência contemporânea
não pode aceitar nem a solução realista, nem a idealista. Segundo
ele, deve colocar-se num meio termo entre ambos, no qual sejam
retomados e superados: "Um realismo que se deparou com a dúvida
científica não pode mais ser do mesmo teor que o realismo imediato...
um racionalismo que retificou os juízos a priori, como sucedeu nos
novos ramos da geometria, não pode mais ser um racionalismo
fechado" .
Bachelard em sua gnosiologia, põe o binômio experiência-razão na base
de todo o conhecimento humano. Entretanto, não se trata de um
condomínio de potências iguais, pois o elemento teórico é que
desempenha o papel normativo: "O sentido de setor epistemológico
parece-nos bastante claro. Ele vai certamente do racional para o
real, e não na ordem inversa, do real do geral, como professaram
todos os filósofos, de Aristóteles a Bacon".

Posição análoga à de Bachelard é a sustentada por Karl Popper (1902 -
) que também rejeita decididamente o empirismo em nome de uma certa
espécie de racionalismo . O controle das teorias, a corroboração das
proposições científicas, segundo Popper, não é obtida diretamente,
como querem os neopositivistas, recorrendo à verificação
experimental, mas sim indiretamente, através do processo de
falsicabilidade. Este critério estabelece que uma teoria pode ser
considerada científica unicamente se satisfaz a duas condições:

– ser falsificável, ou seja, poder vir a ser desmentida e contradita
em linha de princípio;

– não ter sido ainda provada como falsa de fato.

O critério do estágio científico de uma teoria é a
sua "falsicabilidade", ou "refutabilidade", ou seja a sua
controlabilidade. O critério de demarcação entre teorias empíricas e
não empíricas, não é a verificabilidade, mas sim sua falsicabilidade.
Com efeito, uma lei científica jamais poderá ser inteiramente
confirmada, ao passo que pode ser totalmente falsificada.

O lógico na construção da ciência são os problemas, e com eles, as
hipóteses, as conjecturas, e não as observações. Observamos através
de um ponto de vista, sempre sob o estímulo de um problema. Todos os
conhecimentos são respostas a problemas prévios. Adquirimos os
conhecimentos que se prestam para solucionar nossas interrogações,
nossos problemas. Por isso, as teorias científicas não são cúmulos de
observações, mas sistemas de conjecturas arriscadas e temerárias.

Antes de tudo, ciência é invenção de hipóteses ; a experiência
desempenha um papel de controle das teorias.

Percebe-se assim que na epistemologia, a razão humana ainda não
conseguiu chegar a uma solução satisfatória e definitiva, com a qual
todos possam concordar. Mesmo na filosofia da ciência, recolocam-se
as alternativas clássicas: idealismo ou realismo? Racionalismo ou
positivismo?

Nessa situação poderíamos ser tentados a abandonar o ambiente de
pesquisa filosófica. Esta, entretanto, não é a melhor decisão, pois o
homem é dotado de razão para procurar a razão das coisas, ou seja,
para encontrar uma explicação profunda, geral, exaustiva, uma
explicação filosófica.

Assim, sobre todos os aspectos da realidade, e sobre todos os setores
do conhecer e do agir, será preciso continuar a filosofar. E mesmo no
futuro serão obtidos resultados alternativos, como no passado.


Bibliografia

JOLIVET, R. Curso de Filosofia. Agir, S.Paulo: 1986.
KANT, I. Crítica da Razão Pura. Coleção "Os Pensadores". Nova
Cultural, S.Paulo: 1996.
MONDIN, B. Introdução à Filosofia. Paulinas, S.Paulo: 1987.
MORA, J.F. Dicionário de Filosofia. Martins Fontes, S.Paulo: 1994.
REALE, G. História da Filosofia. Vol. I, II, III. Paulus, S.Paulo:
1991.
TOBIAS, J.A. Iniciação à Filosofia. Unoeste, Pres.Prudente: 1986.










Ter, 26 de Abr de 2005 12:26 pm

manelhi
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Marcello Anelhi
manelhi
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26 de Abr de 2005
12:28 pm
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