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Coruja e filosofia - o que fazem juntas?
por Paulo Ghiraldelli Jr

A coruja da filosofia é a Coruja de Minerva. Esta, é uma deusa
romana. Seu equivalente grego é Athena.

A deusa Athena é filha predileta do deus dos deuses, Zeus, e da deusa
Metis, cujo nome significa "conselheira", e que indica a posse de uma
sabedoria prática. Não nasceu de parto normal. Zeus engoliu a esposa,
Metis, para se safar do filho que, pensava ele, poderia destroná-lo
como ele próprio fez com seu pai, Cronos. Após uma grande dor de
cabeça, Zeus teve sua fronte aberta por um filho seu, e daí espirrou
Athena, já forte e grande.

Athena seria a protetora natural de Athenas – uma vez que estava
ligada à idéia de cuidado com as habilidades manuais, com as artes em
geral, com a guerra enquanto capacidade de proteção e, enfim, com a
sabedoria - tudo que deveria comandar uma cidade. Todavia, foi
desafiada por Poseidon, que também desejava ser o protetor da cidade
de Athenas. Os deuses em reunião, decretaram que ficaria com a cidade
aquele que produzisse algo de mais útil aos mortais. Poseidon fez o
cavalo, Athena fez a oliva. A vitória foi concedida a Athena.

A disputa clássica na vida de Athena, no entanto, foi contra uma
mortal – Arachne, talvez uma princesa, mas que aparece como um tipo
de doméstica. Esta, tecia muito bem, maravilhosamente, a ponto de
dizerem que a própria deusa das habilidades, Athena, a havia
ensinado. Mas Arachne negava tal fato e retrucava que poderia
produzir uma rede muito superior a qualquer coisa que Athena fizesse.
E assim desafiou a deusa.

Athena se transformou em uma velha e foi procurar Arachne, para
aconselhá-la a não desafiar um deus. Mas Arachne ficou furiosa, e
manteve seu desafio. Ambas teceram rapidamente, mostrando uma
habilidade incrível, e a própria disputa se fez de modo tão
fantástico que parecia uma homenagem ao trabalho. No produto de
Athena, as figuras tecidas mostravam os deuses, imponentes, mas
desgostosos com a presunção dos mortais. No produto de Arachne, as
figuras eram de erros dos deuses – tudo em forma de deboche. O
resultado foi que Athena não suportou o insulto, e foi para colocar
fim na vida de Arachne, mas a poupou por piedade, deixando-a viver
como um estranho animal – uma aranha.

O mito mostra Athena como compreensiva aos erros humanos: um deus que
não fosse Athena não se daria ao luxo de se transformar em mortal
para, sutilmente, persuadir um mortal de não insultá-lo. Assim, com
tal característica, Athena era de fato a condutora da cidade de
Athenas, que recebeu seu nome por causa dela. Inspirados em Athena,
os cidadãos gregos daquela cidade aprenderiam a se comportar diante
das leis urbanas, tomar as melhores decisões, evitar conflitos e se
proteger, ordenadamente – inclusive através da guerra – contra
inimigos externos.

A imagem de Athena povoou a mente de alguns filósofos. Platão, ao
falar de Athena, a tomou como protetora dos artesãos, ressaltando o
caráter da deusa enquanto não somente uma guerreira e conselheira,
mas efetivamente como aquela que, desde o momento que deu a oliveira
aos mortais, estava preocupada em honrar a sabedoria prática, a
habilidade do manuseio com as mãos em articulação com o cérebro.
Talvez Marx, ao falar que o pior engenheiro é ainda melhor que a
melhor das aranhas, estivesse pensando, de fato, em Arachne. Mas
certamente é com Hegel que Athena se imortalizou para nós modernos,
finalmente, na sua ligação com a filosofia. É claro que predominou
seu nome romano, Minerva. E mais do que a própria deusa, a coruja
ficou no centro da história. A frase de Hegel, que diz que a Coruja
de Minerva levanta vôo somente ao entardecer, alude ao papel da
filosofia, que só pode dizer algo sobre o mundo, através da linguagem
da razão, após os acontecimentos que haviam de acontecer. Antes
que "prever para prover", que é um lema de Comte e, portanto, do
espírito cientificista, Hegel preferia dar crédito a uma postura
filosófica que se via distinta da postura da ciência: a voz da razão
explica – racionaliza – a história.

Se dizemos, com William James, que cada filosofia é o temperamento do
filósofo que a criou, Marx e Hegel são os que melhor encarnaram, em
temperamento, a própria psicologia de Athena para tecerem suas
filosofias. Marx e Hegel captaram, cada um espelhando sua própria
psicologia, o espírito de Athena, que detinha com duas facetas o
espírito de suas filosofias: de um lado, Athena era a protetora de
uma democracia de artesãos, de outro, a racionalizadora das decisões
urbanas.

Poderia ser outro animal, e não a coruja, aquele de Athena? A coruja
é a ave de rapina por excelência. Possui os olhos na mesma disposição
da dos humanos, podendo assim centrar o foco, com ambos, sob a presa,
aumentado sua capacidade de caça. Todavia, para além da capacidade
humana, ela gira o pescoço em 180 graus. Na noite, é imbatível no
vôo – veloz e ao mesmo tempo ágil. Nada mal para ser uma mascote de
uma deusa guardiã de uma cidade, uma deusa que é, ao mesmo tempo,
guerreira e sábia, capaz de ter de focalizar problemas, concentrar
atenções naquilo que, aos deuses, nem sempre é prazeroso, que são
atividades dos mortais. A filosofia, para os gregos após Sócrates,
deveria mesmo ser esse tipo de saber: concentrado na vida humana,
certeiro. Ao mesmo tempo, como método, a filosofia deveria ser como a
coruja: visão ampla de quem pode girar todo o pescoço.

© Paulo Ghiraldelli Jr

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Olá Colegas do Grupo,

Esse texto, de um colega filósofo, é muito pitoresco para quem gosta
de filosofia e ainda mais gostoso para quem, particularmente, gosta
da dialética de Hegel e Marx.

Não vou tecer nenhum comentário sobre minha interpretação do texto,
apenas gostaria que os Colegas do Grupo apreciassem e investigassem
esse texto, na busca da melhor interpretação do que Hegel quis dizer
com: “a Coruja de Minerva levanta vôo somente ao entardecer”.

Forte abraços a todos,

Marcello Anelhi
Academia de Filosofia Dialética















Seg, 20 de Dez de 2004 11:04 am

manelhi
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Coruja e filosofia - o que fazem juntas? por Paulo Ghiraldelli Jr A coruja da filosofia é a Coruja de Minerva. Esta, é uma deusa romana. Seu equivalente...
Marcello Anelhi
manelhi
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20 de Dez de 2004
11:12 am
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