--- Em seg, 30/11/09, Eduardo R. Ribeiro <kariri@...> escreveu:
De: Eduardo R. Ribeiro <kariri@...> Assunto: Re: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras... Para: etnolinguistica@... Data: Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009, 13:47
Prezados,
Sobre "mané", eu sempre pensei que tivesse a ver com a irreverência do brasileiro para com os portugueses. "Manuel" (comumente abreviado para "Mané" no português brasileiro) é visto como nome lusitano por excelência; em piadas de português, há sempre um Manuel (às vezes, acompanhado por um Joaquim), retratado como um sujeito pouco esperto -- ou seja, um mané.
No mais, sobre a interjeição de negação e xará, concordo integralmente com o Sebastian.
Subject: Re: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras...
Oi Jefferson,
creio que a palavra "não" ( _ã?ã_ e semelhantes) não é apropriada para tirar quaisquer conclusões sobre relações lingüísticas. Já a forma (em particular, a reduplicação) mostra que a palavra se assemelha mais a uma onomatopeia ou é pelo menos um simbolsimo sonoro.
Em muitas línguas claramente não relacionadas você pode indicar "não" desta forma, inclusive em Alemão, minha língua materna (lá são dois Schwas com oclusivas glotais, e sem ser nasal). Importante é a intonação -- a primeira sílaba tem que ser mais alta do que a segunda.
Se você inverte esta intonação, você obtem uma forma que diversas línguas pode sinhalar um "sim". Inclusive em Awetí a única palavra isolada para "sim" é _eh~e_ (com nasalidade no segundo e, e por harmonia nasal também no primeiro), com tonalidade alta na segunda sílaba, e apesar de agora já lexicalizada (ela aparece
até em lexicalizações, como _eh~e 'etu_ "concordar", literalmente "dizer sim"), ela não me parece apropriada para estudos diacrônicos exatamente pela forma de onomatopeia. Mas é interessante que em várias línguas do Alto Xingú se diz "sim" assim, pode ser um indício para empréstimos (fraco, já que fora da área esta simbologia também existe).
Oi seja, estou convicto que estas formas para "sim" e "não" podem muito melhor servir para um estudo para possíveis universais (se a intonação é confirmada em muitas línguas, inclusive em outros continentes, e se o material segmental para carregar esta intonação muda conforme os padrões fonológicos de cada língua) do que para relações genéticas entre línguas.
Quanto à palavra "xará", a explicação da origem desta que ouvi era que seria corruptela de _xe-réra_, "meu nome", do Guaraní. Mas sempre me perguntei porque ou a vogal tônica mudou sua
qualidade de _e_ para _a_, ou porque então o acento lexcical mudou para a última sílaba (o _a_ do famoso caso genérico do Tupí-Guaraní) e porque a sílaba _re_ depois teria caido. Há muitos outros empréstimos do Tupí (ou Guaraní) em que nenhuma das duas mudanças ocorreu. Mas as explicações apresentadas até agora também não me convencem muito (apixara também teria que mudar seu acento lexical), então talvez valha contribuir com esta...
Essa eu posso responder :D, vem do tupi, e´e, com nasal é sim. Vide guarani he´e. O detalhe é que couto magalhães atribui essa a origem a um hábito 'das senhoras paulistas, que confirmam com e´e'...
No Maranhão, um confirmação se dá com "em-em" ou "en-em". Não sei
reproduzir os sons com as letras, mas tenho a confirmação de Alto
Alegre do Pindaré, o Cleomar Ferro Silva, um nativo da região. Eu
apenas morei alguns anos na região.
atenciosamente, Rick Miller
>
> Se você inverte esta intonação, você obtem uma forma que diversas línguas
> pode sinhalar um "sim". Inclusive em Awetí a única palavra isolada para
> "sim" é *_eh~e_* (com nasalidade no segundo e, e por harmonia nasal também
> no primeiro), com tonalidade alta na segunda sílaba, e apesar de agora já
> lexicalizada (ela aparece até em lexicalizações, como *_eh~e
> 'etu_*"concordar", literalmente "dizer sim"), ela não me parece
> apropriada para
> estudos diacrônicos exatamente pela forma de onomatopeia. Mas é
> interessante que em várias línguas do Alto Xingú se diz "sim" assim, pode
> ser um indício para empréstimos (fraco, já que fora da área esta simbologia
> também existe).
>
> Oi seja, estou convicto que estas formas para "sim" e "não" podem muito
> melhor servir para um estudo para possíveis universais (se a intonação é
> confirmada em muitas línguas, inclusive em outros continentes, e se o
> material segmental para carregar esta intonação muda conforme os padrões
> fonológicos de cada língua) do que para relações genéticas entre línguas.
>
> Quanto à palavra "xará", a explicação da origem desta que ouvi era que seria
> corruptela de *_xe-réra_*, "meu nome", do Guaraní. Mas sempre me perguntei
> porque ou a vogal tônica mudou sua qualidade de *_e_* para *_a_*, ou porque
> então o acento lexcical mudou para a última sílaba (o *_a_ *do famoso caso
> genérico do Tupí-Guaraní) e porque a sílaba *_re_* depois teria caido. Há
> muitos outros empréstimos do Tupí (ou Guaraní) em que nenhuma das duas
> mudanças ocorreu. Mas as explicações apresentadas até agora também não me
> convencem muito (*apixara* também teria que mudar seu acento lexical), então
> talvez valha contribuir com esta...
>
> Não sei nada a dizer sobre *_mané_* ou *_maném_*.
>
> Cordialmente,
>
> Sebastian
> --
> | Sebastian Drude (Linguist)
> | Sebastian.Drude@... & Sebastian.Drude@...
> | http://www.germanistik.fu-berlin.de/il/pers/drude-en.html
>
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Sobre "mané", eu sempre pensei que tivesse a ver com a irreverência do brasileiro para com os portugueses. "Manuel" (comumente abreviado para "Mané" no português brasileiro) é visto como nome lusitano por excelência; em piadas de português, há sempre um Manuel (às vezes, acompanhado por um Joaquim), retratado como um sujeito pouco esperto -- ou seja, um mané.
No mais, sobre a interjeição de negação e xará, concordo integralmente com o Sebastian.
Subject: Re: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras...
Oi Jefferson,
creio que a palavra "não" ( _ã?ã_ e semelhantes) não é apropriada para tirar quaisquer conclusões sobre relações lingüísticas. Já a forma (em particular, a reduplicação) mostra que a palavra se assemelha mais a uma onomatopeia ou é pelo menos um simbolsimo sonoro.
Em muitas línguas claramente não relacionadas você pode indicar "não" desta forma, inclusive em Alemão, minha língua materna (lá são dois Schwas com oclusivas glotais, e sem ser nasal). Importante é a intonação -- a primeira sílaba tem que ser mais alta do que a segunda.
Se você inverte esta intonação, você obtem uma forma que diversas línguas pode sinhalar um "sim". Inclusive em Awetí a única palavra isolada para "sim" é _eh~e_ (com nasalidade no segundo e, e por harmonia nasal também no primeiro), com tonalidade alta na segunda sílaba, e apesar de agora já lexicalizada (ela aparece até em lexicalizações, como _eh~e 'etu_ "concordar", literalmente "dizer sim"), ela não me parece apropriada para estudos diacrônicos exatamente pela forma de onomatopeia. Mas é interessante que em várias línguas do Alto Xingú se diz "sim" assim, pode ser um indício para empréstimos (fraco, já que fora da área esta simbologia também existe).
Oi seja, estou convicto que estas formas para "sim" e "não" podem muito melhor servir para um estudo para possíveis universais (se a intonação é confirmada em muitas línguas, inclusive em outros continentes, e se o material segmental para carregar esta intonação muda conforme os padrões fonológicos de cada língua) do que para relações genéticas entre línguas.
Quanto à palavra "xará", a explicação da origem desta que ouvi era que seria corruptela de _xe-réra_, "meu nome", do Guaraní. Mas sempre me perguntei porque ou a vogal tônica mudou sua qualidade de _e_ para _a_, ou porque então o acento lexcical mudou para a última sílaba (o _a_ do famoso caso genérico do Tupí-Guaraní) e porque a sílaba _re_ depois teria caido. Há muitos outros empréstimos do Tupí (ou Guaraní) em que nenhuma das duas mudanças ocorreu. Mas as explicações apresentadas até agora também não me convencem muito (apixara também teria que mudar seu acento lexical), então talvez valha contribuir com esta...
Por essa palavra "não", "sim" tipo "ahn, ahn", "uhn uhn" não é possível estabelecer parentesco ou origem ela deve ser universal e aparecer em todos os continentes de forma assemelhada.
Um abraço
Victor A. Petrucci
Campinas - Brasil
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530 línguas indígenas / lenguas indígenas / indigenous languages 28.000 palavras / palabras / words
To: etnolinguistica@... From: jeffergar@... Date: Mon, 30 Nov 2009 04:37:25 -0800 Subject: Re: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras...
Victor e Rodrigo,
obrigado pela ajuda!
Interessante saber que o "anh anh" é utilizado também em outras línguas como "não".
Seria um indício de que em algum momento essas línguas tiveram a mesma origem? Acho que podemos cruzar com as informações sobre as migrações indígenas para o continente.
Aquele abraço!
Att.,
Jefferson.
--- Em qua, 25/11/09, Jefferson Garcia <jeffergar@yahoo.com.br> escreveu:
De: Jefferson Garcia <jeffergar@yahoo.com.br> Assunto: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras... Para: etnolinguistica@yahoogrupos.com.br Data: Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009, 14:09
Olá colegas da lista!
Poderiam me ajudar nas dúvidas abaixo, caso tenham algum conhecimento sobre três pontos:
1 - ahn ahn! e aan!
a interjeição utilizada por nós (não sei se em todo o Brasil se usa) com o sentido de negativa pode ser a mesma utilizada no tupi aan?
Exemplo:
Já ouviu falar disso?
ahn ahn! (não)
para aqueles que porventura desconheçam essa interjeição popular, é com um sentido rápido, quase que indiferente a pergunta.
Usa-se também "Hum Hum" em vez de "ahn ahn".
Seria de origem tupi?
2 - mané e maném
o adjetivo tupi maném teria se transformado na gíria mané, muito usada por cariocas?
No tupi sabemos que significa covarde, aquele abáque não consegue ter filhos, se destacar na caça ou na guerra, ou de uma linhagem de homens com estes adjetivos, ou seja, o maném.
O mané do carioca acho que dispensa comentários sobre o significado. Seria, resumindo, o otário, o oposto do esperto, etc...
Teria relação?
3 - Xará e apixara
outro dia de súbito me veio essa pergunta enquanto conversava com um xará de nome, um outro chamado Jefferson.
O apixara (semelhante em tupi) seria o xará?
Apesar de apaixonado pela cultura tupi não sou conhecedor da área de etnolinguística, procurei em vão respostas pois não possuo referências suficientes que pudessem me orientar a uma pesquisa segura para tais indagações e que comprovem minhas hipóteses.
Alguém se habilitaria? Já ouviram falar em alguma relação a respeito?
creio que a palavra "não" ( _ã?ã_ e semelhantes) não é apropriada para tirar quaisquer conclusões sobre relações lingüísticas. Já a forma (em particular, a reduplicação) mostra que a palavra se assemelha mais a uma onomatopeia ou é pelo menos um simbolsimo sonoro.
Em muitas línguas claramente não relacionadas você pode indicar "não" desta forma, inclusive em Alemão, minha língua materna (lá são dois Schwas com oclusivas glotais, e sem ser nasal). Importante é a intonação -- a primeira sílaba tem que ser mais alta do que a segunda.
Se você inverte esta intonação, você obtem uma forma que diversas línguas pode sinhalar um "sim". Inclusive em Awetí a única palavra isolada para "sim" é _eh~e_ (com nasalidade no segundo e, e por harmonia nasal também no primeiro), com tonalidade alta na segunda sílaba, e apesar de agora já lexicalizada (ela aparece até em lexicalizações, como _eh~e 'etu_ "concordar", literalmente "dizer sim"), ela não me parece apropriada para estudos diacrônicos exatamente pela forma de onomatopeia. Mas é interessante que em várias línguas do Alto Xingú se diz "sim" assim, pode ser um indício para empréstimos (fraco, já que fora da área esta simbologia também existe).
Oi seja, estou convicto que estas formas para "sim" e "não" podem muito melhor servir para um estudo para possíveis universais (se a intonação é confirmada em muitas línguas, inclusive em outros continentes, e se o material segmental para carregar esta intonação muda conforme os padrões fonológicos de cada língua) do que para relações genéticas entre línguas.
Quanto à palavra "xará", a explicação da origem desta que ouvi era que seria corruptela de _xe-réra_, "meu nome", do Guaraní. Mas sempre me perguntei porque ou a vogal tônica mudou sua qualidade de _e_ para _a_, ou porque então o acento lexcical mudou para a última sílaba (o _a_ do famoso caso genérico do Tupí-Guaraní) e porque a sílaba _re_ depois teria caido. Há muitos outros empréstimos do Tupí (ou Guaraní) em que nenhuma das duas mudanças ocorreu. Mas as explicações apresentadas até agora também não me convencem muito (apixara também teria que mudar seu acento lexical), então talvez valha contribuir com esta...
Interessante saber que o "anh anh" é utilizado também em outras línguas como "não".
Seria um indício de que em algum momento essas línguas tiveram a mesma origem? Acho que podemos cruzar com as informações sobre as migrações indígenas para o continente.
Aquele abraço!
Att.,
Jefferson.
--- Em qua, 25/11/09, Jefferson Garcia <jeffergar@...> escreveu:
De: Jefferson Garcia <jeffergar@...> Assunto: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras... Para: etnolinguistica@... Data: Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009, 14:09
Olá colegas da lista!
Poderiam me ajudar nas dúvidas abaixo, caso tenham algum conhecimento sobre três pontos:
1 - ahn ahn! e aan!
a interjeição utilizada por nós (não sei se em todo o Brasil se usa) com o sentido de negativa pode ser a mesma utilizada no tupi aan?
Exemplo:
Já ouviu falar disso?
ahn ahn! (não)
para aqueles que porventura desconheçam essa interjeição popular, é com um sentido rápido, quase que indiferente a pergunta.
Usa-se também "Hum Hum" em vez de "ahn ahn".
Seria de origem tupi?
2 - mané e maném
o adjetivo tupi maném teria se transformado na gíria mané, muito usada por cariocas?
No tupi sabemos que significa covarde, aquele abáque não consegue ter filhos, se destacar na caça ou na guerra, ou de uma linhagem de homens com estes adjetivos, ou seja, o maném.
O mané do carioca acho que dispensa comentários sobre o significado. Seria, resumindo, o otário, o oposto do esperto, etc...
Teria relação?
3 - Xará e apixara
outro dia de súbito me veio essa pergunta enquanto conversava com um xará de nome, um outro chamado Jefferson.
O apixara (semelhante em tupi) seria o xará?
Apesar de apaixonado pela cultura tupi não sou conhecedor da área de etnolinguística, procurei em vão respostas pois não possuo referências suficientes que pudessem me orientar a uma pesquisa segura para tais indagações e que comprovem minhas hipóteses.
Alguém se habilitaria? Já ouviram falar em alguma relação a respeito?
En el español de Colombia, al menos en la región andina, existe el
mismo ahn ahn! para decir no, con oclusiva glotal inicial en cada
sílaba y con vocal nasal. Curiosamente, en la lengua embera de la
Costa Pacífica de Colombia, la palabra para 'no' es a'a (con oclusiva
glotal entre ambas vocales).
Así que la duda ahora es más amplia.
Abrazos,
Rodrigo
-- ________________________________ Rodrigo Bernal Editor Catálogo de las Plantas de Colombia
Poderiam me ajudar nas dúvidas abaixo, caso tenham algum conhecimento sobre três pontos:
1 - ahn ahn! e aan!
a interjeição utilizada por nós (não sei se em todo o Brasil se usa) com o sentido de negativa pode ser a mesma utilizada no tupi aan?
Exemplo:
Já ouviu falar disso?
ahn ahn! (não)
para aqueles que porventura desconheçam essa interjeição popular, é com um sentido rápido, quase que indiferente a pergunta.
Usa-se também "Hum Hum" em vez de "ahn ahn".
Seria de origem tupi?
2 - mané e maném
o adjetivo tupi maném teria se transformado na gíria mané, muito usada por cariocas?
No tupi sabemos que significa covarde, aquele abáque não consegue ter filhos, se destacar na caça ou na guerra, ou de uma linhagem de homens com estes adjetivos, ou seja, o maném.
O mané do carioca acho que dispensa comentários sobre o significado. Seria, resumindo, o otário, o oposto do esperto, etc...
Teria relação?
3 - Xará e apixara
outro dia de súbito me veio essa pergunta enquanto conversava com um xará de nome, um outro chamado Jefferson.
O apixara (semelhante em tupi) seria o xará?
Apesar de apaixonado pela cultura tupi não sou conhecedor da área de etnolinguística, procurei em vão respostas pois não possuo referências suficientes que pudessem me orientar a uma pesquisa segura para tais indagações e que comprovem minhas hipóteses.
Alguém se habilitaria? Já ouviram falar em alguma relação a respeito?
Quanto às duas primeiras palavras não tenho nenhuma opinião.
Para a terceira, tenho em minha base de dados as seguintes anotações:
*-iCa (comparativo de igualdade, semelhança) Chiriguano Ava -´icha (morfema de compação, semelhança, igualdade com, como) Chiriguano Isoceño Tapii -´icha (morfema de compação, semelhança, igualdade com, como) Guarani amóicha (daquela maneira) Guarani chéicha (comparativo, como eu, igual a mim; cf. ché- < PTG *Ce 1PS) Guarani cheichagua (um como eu, um igual a mim; cf. che- < PTG *Ce 1PS) Guarani -guéicha (sufixo de passado em frases comparativas; cf. -gué- < PTG *pwer passado) Guarani ha'eicha (como ele, igual a ele; cf. *a'e 3PS) Guarani he'ihaicha (como dizem; cf. he'i dizer) Guarani haguéicha (comparativo; como, igual, semelhante. Usado para ações no passado; cf. ha subordinada e -gué- < PTG *pwer passado) Guarani háicha (como; sufixo de passado em frases comparativas; usado com verbos) Guarani -icha (comparativo de igualdade, semelhança de classe, maneira ou modo) Guarani ichagua (comparativo de igualdade, semelhança de classe, maneira ou modo) Guarani inimboicha (como fio, filiforme; cf. inimbo- < *inimo fio) Guarani jepiveguáicha (como sempre, como de costume; cf. jepi sempre, -ve- < *-be expletivo e -guá- < *-wa o, a) Guarani kóicha (desta maneira; cf. *ko este) Guarani tapiaguáicha (como sempre, como de costume; cf. tapia sempre e -guá- < *-wa o, a) Guarani upéicha (assim) Guarani Boliviano -echa (parece, como, como se) Isoceño Chané -´icha (morfema de compação, semelhança, igualdade com, como)
A comprovação vem com:
*-apiCar (comparativo de igualdade, semelhante) Chiriguano apixá (semelhante, próximo, camarada) Guarani Ava -apichár (h-; t-; semelhante, próximo, companheiro, Guarani Ava cherapichara (semelhante, próximo) Guarani Mbüa apiCa (N: flexão che- + r-; pessoa do mesmo sexo que o do "possuidor") Tembé Tenetehara -apihar (t-; semelhante) Tembé Tenetehara he-rapihár (semelhante) Tupinambá apichara, apixara (semelhante, idêntico, companheiro, amigo) Tupinambá kuñãrapichara (sec. xviii; afeminado; cf. kuñã- < PTG *kuyã mulher)
e sempre achei que xará é tupi mesmo.
Um abraço
Victor A. Petrucci
Campinas - Brasil
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To: etnolinguistica@... From: jeffergar@... Date: Wed, 25 Nov 2009 08:09:04 -0800 Subject: [etnolinguistica] Sobre algumas palavras...
Olá colegas da lista!
Poderiam me ajudar nas dúvidas abaixo, caso tenham algum conhecimento sobre três pontos:
1 - ahn ahn! e aan!
a interjeição utilizada por nós (não sei se em todo o Brasil se usa) com o sentido de negativa pode ser a mesma utilizada no tupi aan?
Exemplo:
Já ouviu falar disso?
ahn ahn! (não)
para aqueles que porventura desconheçam essa interjeição popular, é com um sentido rápido, quase que indiferente a pergunta.
Usa-se também "Hum Hum" em vez de "ahn ahn".
Seria de origem tupi?
2 - mané e maném
o adjetivo tupi maném teria se transformado na gíria mané, muito usada por cariocas?
No tupi sabemos que significa covarde, aquele abáque não consegue ter filhos, se destacar na caça ou na guerra, ou de uma linhagem de homens com estes adjetivos, ou seja, o maném.
O mané do carioca acho que dispensa comentários sobre o significado. Seria, resumindo, o otário, o oposto do esperto, etc...
Teria relação?
3 - Xará e apixara
outro dia de súbito me veio essa pergunta enquanto conversava com um xará de nome, um outro chamado Jefferson.
O apixara (semelhante em tupi) seria o xará?
Apesar de apaixonado pela cultura tupi não sou conhecedor da área de etnolinguística, procurei em vão respostas pois não possuo referências suficientes que pudessem me orientar a uma pesquisa segura para tais indagações e que comprovem minhas hipóteses.
Alguém se habilitaria? Já ouviram falar em alguma relação a respeito?
Poderiam me ajudar nas dúvidas abaixo, caso tenham algum conhecimento sobre três pontos:
1 - ahn ahn! e aan!
a interjeição utilizada por nós (não sei se em todo o Brasil se usa) com o sentido de negativa pode ser a mesma utilizada no tupi aan?
Exemplo:
Já ouviu falar disso?
ahn ahn! (não)
para aqueles que porventura desconheçam essa interjeição popular, é com um sentido rápido, quase que indiferente a pergunta.
Usa-se também "Hum Hum" em vez de "ahn ahn".
Seria de origem tupi?
2 - mané e maném
o adjetivo tupi maném teria se transformado na gíria mané, muito usada por cariocas?
No tupi sabemos que significa covarde, aquele abáque não consegue ter filhos, se destacar na caça ou na guerra, ou de uma linhagem de homens com estes adjetivos, ou seja, o maném.
O mané do carioca acho que dispensa comentários sobre o significado. Seria, resumindo, o otário, o oposto do esperto, etc...
Teria relação?
3 - Xará e apixara
outro dia de súbito me veio essa pergunta enquanto conversava com um xará de nome, um outro chamado Jefferson.
O apixara (semelhante em tupi) seria o xará?
Apesar de apaixonado pela cultura tupi não sou conhecedor da área de etnolinguística, procurei em vão respostas pois não possuo referências suficientes que pudessem me orientar a uma pesquisa segura para tais indagações e que comprovem minhas hipóteses.
Alguém se habilitaria? Já ouviram falar em alguma relação a respeito?
Tengo el agrado de comunicarles que acaba de ser publicado el segundo artículo del primer volumen de la revista on-line Cadernos de Etnolingüística: "Tipología léxica. Una aproximación a dos lenguas chaqueñas: toba (guaycurú) y maká (mataguaya)", de Paola Cúneo, Patricia Dante y Temis Tacconi (Universidad de Buenos Aires y CONICET). La dirección electrónica es
Dois projetos sobre línguas sul-americanas (vide abaixo), das lingüistas Pilar
Valenzuela (Shiwilu) e Carolina Aragon (Akuntsú), estão entre os 10 ganhadores
de bolsas do Endangered Language Fund para 2009.
Projetos para a rodada de 2010 podem ser enviados até o dia 20 de abril de 2010.
Para detalhes, visite
http://www.endangeredlanguagefund.org/request.html
------------
[As descrições abaixo foram extraídas do boletim do ELF, disponível em
http://www.endangeredlanguagefund.org/pdf/ELF_October_2009_newsletter.pdf]
Carolina Coelho Aragon (University of Utah): Documentation of Akuntsú
The Akuntsú tribe is currently located near the Omerê River in Rondônia, Brazil
where its members settled after experiencing a devastating genocide. Only six
members of the tribe survived, all of whom are monolingual speakers of Akuntsú.
The tribe was first contacted in 1996 by the National Indian Foundation. None of
the survivors have or plan to have children, and the tribe will disappear. These
circumstances prompted linguistic documentation of Akuntsú to commence in 2004.
This award will fund additional fieldwork focusing on syntactic analysis while
refining the morphology, improving the phonology description, and recording
ethnographic materials relating to tribal songs, folktales, oral traditions,
religious ceremonies, and other cultural activities. Given that the six
remaining Akuntsú are monolingual, the fieldwork will consist of the researcher
living with the group, participating in daily activities and asking questions in
Akuntsú rather than relying on conventional linguistic elicitation techniques.
The long-term objective of this project is the creation of a complete reference
grammar and a dictionary.
[ISO 639-3 language code: aqz (under review)]
Pilar M. Valenzuela (Chapman University): Awakening Shiwilu Voices
Shiwilu, also known as Jebero, is spoken in the Amazon in northeastern Peru.
Approximately 20 elders speak Shiwilu, the youngest fluent speaker being about
sixty years old. This language revitalization project will take place in
conjunction with a documentation project funded by a National Science Foundation
grant. The goals of "Awakening Shiwilu Voices" are to encourage the use of
Shiwilu among the fluent elders and among speakers with more limited knowledge,
to produce a collection of audio recordings and pedagogical materials for
teaching Shiwilu as a second language, and to teach Shiwilu to a group of thirty
children. Conversation sessions will be led by Mr. Meneleo Careajano, a Shiwilu
cultural leader. Mr. Careajano and other participants will be trained in
recording, transcribing, and translating ethnographic materials. These materials
will be used for language instruction and will be made available, along with
their Spanish translations, on a specially designed Web site for use by
linguists, social scientists, and the general public.
[ISO 639-3 language code: jeb]
Já está disponível on-line a terceira edição especial da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, em www.revel.inf.br . Esta edição foi organizada por Wilson de Lima Silva e tem como tema "Estudos linguísticos de línguas indígenas brasileiras".
Abaixo, segue o índice desta edição da ReVEL:
Apresentação, de Wilson de Lima Silva Algumas ‘jóias’ tipológicas de Kotiria (Wanano), de Kristine Stenzel As posposições em Sateré-Mawé (Tupi), de Dulce do Carmo Franceschini Considerations on the concepts of language and dialect: a look on the case of Asuriní of Tocantins and Parakanã, de Aryon Dall’Igna Rodrigues; Ana Suelly Arruda Câmara Cabral Estratégias de indeterminação do sujeito em Canela, de Flávia de Castro Alves; Ana Gabriela Gomes Aguiar Estrutura métrica em Kubêo, de Thiago Costa Chacon Nasal harmony in Awetí: a declarative account, de Sebastian Drude O nascimento de um sistema de classificação nominal, de Patience Epps Phrase structure, clauses, and word order in Waimiri Atroari (Carib Family), de Ana Carla Bruno Productive compounding and noun classification systems: A case study in Apurinã (Arawak), de Sidi Facundes Stative verbs in Kulina, de Stefan Dienst Tempo Nominal em Kuikuro (Karib Alto-Xinguano), de Bruna Franchetto; Mara Santos Tempo, aspecto e modalidade em Canela, de Flávia de Castro Alves Vowel acoustics in Akuntsú: dispersion and non-modal phonation, de Fernando O. de Carvalho; Carolina Coelho Aragon
Lembramos ainda que a ReVEL está recebendo artigos para a próxima edição (volume 8, número 13) sobre HISTÓRIA E FILOSOFIA DA LINGUÍSTICA. O prazo para recebimento de artigos vai até o dia 05 de dezembro de 2009.
Já está disponível on-line a terceira edição especial da Revista Virtual de Estudos da Linguagem - ReVEL, em www.revel.inf.br . Esta edição foi organizada por Wilson de Lima Silva e tem como tema "Estudos linguísticos de línguas indígenas brasileiras".
Abaixo, segue o índice desta edição da ReVEL:
Apresentação, de Wilson de Lima Silva Algumas ‘jóias’ tipológicas de Kotiria (Wanano), de Kristine Stenzel As posposições em Sateré-Mawé (Tupi), de Dulce do Carmo Franceschini Considerations on the concepts of language and dialect: a look on the case of Asuriní of Tocantins and Parakanã, de Aryon Dall’Igna Rodrigues; Ana Suelly Arruda Câmara Cabral Estratégias de indeterminação do sujeito em Canela, de Flávia de Castro Alves; Ana Gabriela Gomes Aguiar Estrutura métrica em Kubêo, de Thiago Costa Chacon Nasal harmony in Awetí: a declarative account, de Sebastian Drude O nascimento de um sistema de classificação nominal, de Patience Epps Phrase structure, clauses, and word order in Waimiri Atroari (Carib Family), de Ana Carla Bruno Productive compounding and noun classification systems: A case study in Apurinã (Arawak), de Sidi Facundes Stative verbs in Kulina, de Stefan Dienst Tempo Nominal em Kuikuro (Karib Alto-Xinguano), de Bruna Franchetto; Mara Santos Tempo, aspecto e modalidade em Canela, de Flávia de Castro Alves Vowel acoustics in Akuntsú: dispersion and non-modal phonation, de Fernando O. de Carvalho; Carolina Coelho Aragon
Lembramos ainda que a ReVEL está recebendo artigos para a próxima edição (volume 8, número 13) sobre HISTÓRIA E FILOSOFIA DA LINGUÍSTICA. O prazo para recebimento de artigos vai até o dia 05 de dezembro de 2009.
Felicitaciones por su grupo sobre el estudio de las lenguas indigenas de America del Sur, principalmente las del Brasil.Soy un apasionado de la etnolinguistica, me ubico generalmente con estudios referentes a las lenguas indigenas de Venezuela que abarcan unas 38 lenguas, de las cuales hay unas muy bien documentadas mientras que otras carecen de buena informacion ( Uruak, Sape, Bare , Patamona ). Tengo tiempo en dicha investigacion. Me gustaria ser parte activa del grupo y hacer algunos aportes.
Si mas sperando que todo siga al 100 % .
Joaquin Bustos Baptista
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> > Prezados Coleg@s, > > Sou curador da Coleção Etnográfica Carlos Estevão de Oliveira do Museu do > Estado de Pernambuco (saber mais sobre essa coleção clique
> e estou desenvolvendo desde fevereiro desse ano, um projeto de museu virtual > com os objetos dessa coleção. Já temos parte dos objetos on line: > www.ufpe.br/carlosestevao e gostaria de receber alguns comentários para > melhorar o visual da apresentação do museu. Mas o principal motivo que estou > a escrever esse e-mail é para lhes consultar sobre o seguinte: Entre as > anotações de Carlos Estevão ele coloca alguns objetos como pertencentes aos
> sguintes povos: *Chama, Paríkoto, Taquatepe, Yauaper*i. Temos quase nenhuma
> referência a esses povos, o que nos leva a pensar que esses nomes são de > lugares e não de povos. Será que vocês podem me ajudar nessa questão. > Cordialmente > > Renato >
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> Prezados Coleg@s,
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> Sou curador da Coleção Etnográfica Carlos Estevão de Oliveira do Museu do
> Estado de Pernambuco (saber mais sobre essa coleção clique
> e estou desenvolvendo desde fevereiro desse ano, um projeto de museu virtual
> com os objetos dessa coleção. Já temos parte dos objetos on line:
> www.ufpe.br/carlosestevao e gostaria de receber alguns comentários para
> melhorar o visual da apresentação do museu. Mas o principal motivo que estou
> a escrever esse e-mail é para lhes consultar sobre o seguinte: Entre as
> anotações de Carlos Estevão ele coloca alguns objetos como pertencentes aos
> sguintes povos: *Chama, Paríkoto, Taquatepe, Yauaper*i. Temos quase nenhuma
> referência a esses povos, o que nos leva a pensar que esses nomes são de
> lugares e não de povos. Será que vocês podem me ajudar nessa questão.
> Cordialmente
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> Renato
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Alfabetização indígena: a escrita revitaliza línguas?
Por Maria Clara Rabelo
Culturas e línguas próprias expressas sem o uso da grafia: eis a matriz do dilema que envolve a questão da alfabetização indígena no Brasil. Desde as primeiras ações missionárias em território brasileiro, os objetivos de catequização e inserção dos nativos na sociedade que se formava segundo os moldes europeus eram patentes. Uma das justificativas para a necessidade de um processo civilizatório era a ausência da escrita e dos fonemas (sons) /f/, /l/ e /r/ em língua indígena, o que os fazia sem fé, lei ou rei, conforme sugere, na segunda metade do século XVI, o cronista português Pero de Magalhães Gandavo. Na política, o Marquês de Pombal, em meados do século XVIII, põe fim às ações jesuíticas em terras brasileiras, proíbe o uso da disseminada língua geral ou tupinambá e declara o português a língua oficial na colônia do Novo Mundo.
Entre os trabalhos missionários mais recentes, a partir da década de 1960, estão os do Summer Institute of Linguistics (SIL), uma instituição norte-americana que trouxe a algumas comunidades indígenas a invenção de uma escrita própria, vislumbrando o chamado “bilinguismo de transição”, considerando que o aprendizado da língua materna facilita o aprendizado de uma nova língua, nesse caso, a portuguesa. Entre os povos que fizeram parte desSa atividade estão os Kaingang, da região Sul do Brasil. Através da aplicação dessa metodologia, uma geração inteira deixou de falar sua língua materna, esclarece o professor Wilmar da Rocha D’Angelis, do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
A possibilidade de desaparecimento das línguas indígenas tem sido alvo de ações governamentais, de pesquisa e de mobilização das próprias comunidades indígenas, com a intenção de mantê-las vivas, seja através de processos de alfabetização bilíngue, ou da manutenção das ocasiões em que a oralidade é mais utilizada.
Encontro com os professores indígenas no Centro de Ensino e Pesquisa Timbira Pënxwyj Hëmpejxà. Foto: Odair Giraldin
A pesquisadora Maria Elisa Martins Ladeira, do Centro de Trabalhos Indigenistas (CTI), que atua junto aos povos Timbira concentrados nas regiões dos estados do Maranhão e do Tocantins, partilha da ideia de que “o que garante a vitalidade de uma língua não é ela estar sendo escrita, ter uma grafia para ela, o que garante a vitalidade dessa língua é ela estar sendo falada”. Nesse contexto, a realização dos rituais, festas e atividades cotidianas indígenas são as ocasiões de uso dessas línguas: “Não adianta você só usar a língua indígena na sala de aula. É importante que ela seja usada na sala de aula. Mas, não basta somente isso, se aquela sala de aula ocupa todo o cotidiano de uma criança indígena”, alerta Ladeira.
Entre os Kaingangs do Sul, contudo, trabalhos recentes da comunidade em conjunto com pesquisadores – com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários da Unicamp, e do Núcleo de Cultura, Educação, Etnodesenvolvimento e Ação Ambiental Kamuri – revitalizaram a língua nativa, a partir da formação de professores indígenas e de ações como a criação, pelos próprios indígenas, do portal Kanhgág Jógo (ou Teia Kaingang), todo escrito em língua indígena.
Para D’Angelis, que compõe o grupo de pesquisadores envolvidos no projeto Kaingang, a ação é um “estímulo e prestígio à escrita”; um recurso que não deve ser utilizado com a justificativa equivocada de “preservar da oralidade”, mas sim “para fortalecer uma língua”. Por esse motivo, completa o professor da Unicamp, a escrita indígena requer que sejam formados leitores indígenas, que a partir do hábito de pensar com base no que foi escrito em sua própria língua, farão com que essa prática não precise competir com a oral, uma vez que isso só acontece quando não se conhece a utilidade da escrita e as conquistas decorrentes do seu uso.
Uma das oficinas realizadas, nos meses de junho e julho, junto à comunidade Kaingang, no Rio Grande do Sul. Foto: Wilmar D’Angelis
A formação de educadores indígenas e a produção de materiais didáticos nas línguas indígenas é uma necessidade apontada pela maior parte dos pesquisadores e dos trabalhos realizados junto às comunidades. D’Angelis afirma que isso é uma condição primordial para se fazer da língua indígena uma língua de instrução, através da qual a comunidade possa aprender o português, caracterizando uma educação escolar bilíngue.
Porém, esse processo, que pressupõe a criação de uma grafia própria, deve disponibilizar aos profissionais de educação indígena uma assessoria adequada, principalmente, de linguistas e antropólogos, para que essa ação não leve ao risco “de simplificação que a escrita pode impor a conhecimentos e formas de transmissão extremamente complexos no plano da oralidade, mas que tendem a se simplificar quando são registrados pela escrita”, alerta Luis Donisete Benzi Grupioni, secretário executivo do Instituto de Pesquisa e Formação em Educação Indígena (Iepé).
O governo brasileiro, a partir da Constituição de 1988, afirma a igualdade entre os cidadãos brasileiros e a garantia de direitos, entre eles o acesso à educação formal. No caso dos cidadãos indígenas, o documento assegura o aprendizado da língua portuguesa e também de sua língua materna, além de abrir espaço, pelo menos teoricamente, para o desenvolvimento de processos de aprendizagem adequados às suas características socioculturais.
A fim de fazer valer essa garantia constitucional, é possível destacar a ação de órgãos governamentais como a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Ministério da Educação (MEC) e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que têm atuado junto às questões relativas aos povos indígenas brasileiros em diferentes frentes de trabalho.
Em 1991, “a responsabilidade pela educação escolar indígena sai do âmbito federal, das mãos da Funai, e passa a ser uma responsabilidade das secretarias de educação dos estados”, esclarece Ladeira, do CTI. Desde então, o problema reside no despreparo das secretarias estaduais, apesar do MEC emitir uma série de normas e leis a respeito e da parceria fundamental mantida com a Funai “na execução, na produção dos cursos de formação de professores, bem como nos acompanhamentos pedagógicos”, aponta a pesquisadora.
Já as ações do Iphan baseiam-se na questão do reconhecimento, valorização e preservação de bens imateriais, em programas compartilhados com a Unesco, como o “da arte gráfica e dos saberes associados a essa forma de expressão dos Wajãpi”, cujo “plano de salvaguarda contempla a produção de conhecimentos desse povo, em sua língua, para uso de sua comunidade”, exemplifica Grupioni, do Iepé.
As práticas de leitura e escrita entre Yanomamis. Foto: Luis Donisete Grupioni
Entre as providências mais recentes do MEC está o Decreto 6.861, do dia 27 de maio deste ano, que trata da questão da educação escolar indígena e estabelece a sua organização em “territórios etnoeducacionais”, a partir da familiaridade linguística entre os grupos indígenas abrangidos pelo traçado – ainda não determinado – de cada um desses espaços. Esse assunto faz parte da pauta de discussões da I Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena, que acontece entre os dias 16 e 20 de novembro, no Distrito Federal.
A proposta governamental é importante porque reconhece os intercâmbios linguísticos e culturais existentes entre os grupos indígenas e que foram negados por muitas décadas, a exemplo da ação de linguistas que, por muito tempo, se apoiaram no uso grafia enquanto garantia da fala, explica Ladeira. Com essa medida, o governo destaca a importância de se escrever na língua, mas também provoca uma reflexão que pode ultrapassar as fronteiras do Brasil, em casos como os do Guarani-Kaiowa ou dos Wajãpi que também habitam territórios de outros países, como o Paraguai e a Guiana, respectivamente. Assim, conclui a pesquisadora, em conjunto com as comunidades, pode-se criar “uma grafia que ultrapasse fronteiras”, comparada ao que vem ocorrendo com a reforma ortográfica nos países de língua portuguesa.
O fato de reconhecer “que o atendimento educacional aos povos indígenas precisa de um novo arranjo, que supere a fragmentação imposta pela divisão das unidades federativas, dos estados”, torna a proposta interessante, na ótica de Grupioni, do Iepé. Para o pesquisador, porém, ela é “insuficiente, porque na prática mesmo não muda nada. Ou seja, o pacto federativo garante total autonomia para os sistemas de ensino e esse decreto não altera isso”. Grupioni também destaca a repercussão política negativa do lançamento do decreto, “atropelando totalmente a discussão que estava sendo realizada nas bases”, referindo-se à participação de representantes das comunidades indígenas nas Conferências Regionais de Educação Escolar Indígena, que acontecem desde 2008.
A organização dessas conferências regionais e nacional partiu de uma reivindicação do próprio movimento indígena, junto à Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), na intenção de que o MEC assumisse a responsabilidade pela realização das mesmas, assegura Ladeira, do CTI. Para ela, os povos que já vinham atuando de forma articulada na questão da educação escolar indígena compreenderam que “a publicação desse decreto antes do fim das conferências, antes de ter sido discutido na conferência nacional é uma forma do governo de enfraquecer a demanda por uma educação federalizada”, que é reivindicada por algumas representações indígenas, com base nas garantias constitucionais de que têm direito ao atendimento através de órgãos federais.
A professora indígena Andila Nivaghsõn Kaingang, em seu texto intitulado “Conferência regional de educação escolar indígena: territórios etno que?”, divulgado em data anterior à publicação do decreto, demonstra sua reação diante da introdução do conceito “território etnoeducional”: “Nos preocupou, na Conferência Regional de Educação Escolar Indígena, a insistência em inserir conceitos desconhecidos no texto da proposta, a exemplo da expressão “territórios etnoeducacionais”, pois não compreendemos sua abrangência e significado, ou como diria Daniel Munduruku: isso se come com farinha? Não temos necessidade de digerir novos conceitos, bastaria o cumprimento daqueles consagrados na legislação sobre direitos indígenas, pelos quais lutamos ao longo de décadas: autodeterminação, consentimento livre, prévio e informado, direito de consulta, participação ampla, plena e efetiva, respeito à multiculturalidade, às nossas organizações sociais, a implementação de uma educação escolar indígena que seja efetivamente bilíngue, específica, diferenciada e de qualidade: a implementação desses conceitos nos é cara! Nós os elaboramos, propusemos, defendemos e obtivemos sua aprovação!”.
Dessa forma, do ponto vista prático, ao se avaliar os mais de vinte anos subsequentes à redação constitucional, percebe-se que “o Brasil inovou muito no sentido de efetivar dispositivos legais que asseguram o direito a uma educação diferenciada aos povos indígenas. Mas essa inovação jurídica não foi acompanhada de políticas que concretizassem os direitos garantidos no papel. Há muito ainda a conquistar”, conclui Grupioni.
Caro Renato,
Parabéns pelo belo trabalho do museu virtual. No que diz respeito a "Yauaperi",
talvez o seguinte livro contenha informações que lhe sejam úteis:
Rodrigues, João Barbosa. 1885. Rio Jauapery: Pacificação dos Crichanás. Rio de
Janeiro: Imprensa Nacional.
http://biblio.etnolinguistica.org/rodrigues-1885-crichanas
Abraços,
Eduardo
--- Em etnolinguistica@..., Renato Athias <renato.athias@...>
escreveu
>
> Prezados Coleg@s,
>
> Sou curador da Coleção Etnográfica Carlos Estevão de Oliveira do Museu do
> Estado de Pernambuco (saber mais sobre essa coleção clique
> aqui<http://renatoathias.blogspot.com>)
> e estou desenvolvendo desde fevereiro desse ano, um projeto de museu virtual
> com os objetos dessa coleção. Já temos parte dos objetos on line:
> www.ufpe.br/carlosestevao e gostaria de receber alguns comentários para
> melhorar o visual da apresentação do museu. Mas o principal motivo que estou
> a escrever esse e-mail é para lhes consultar sobre o seguinte: Entre as
> anotações de Carlos Estevão ele coloca alguns objetos como pertencentes aos
> sguintes povos: *Chama, Paríkoto, Taquatepe, Yauaper*i. Temos quase nenhuma
> referência a esses povos, o que nos leva a pensar que esses nomes são de
> lugares e não de povos. Será que vocês podem me ajudar nessa questão.
> Cordialmente
>
> Renato
>
Sou curador da Coleção Etnográfica Carlos Estevão de Oliveira do Museu do Estado de Pernambuco (saber mais sobre essa coleção clique aqui) e estou desenvolvendo desde fevereiro desse ano, um projeto de museu virtual com os objetos dessa coleção. Já temos parte dos objetos on line: www.ufpe.br/carlosestevao e gostaria de receber alguns comentários para melhorar o visual da apresentação do museu. Mas o principal motivo que estou a escrever esse e-mail é para lhes consultar sobre o seguinte: Entre as anotações de Carlos Estevão ele coloca alguns objetos como pertencentes aos sguintes povos: Chama, Paríkoto, Taquatepe, Yauaperi. Temos quase nenhuma referência a esses povos, o que nos leva a pensar que esses nomes são de lugares e não de povos. Será que vocês podem me ajudar nessa questão.
Cordialmente
Caros colegas
Sou da área da Música, mas tenho me envolvido nesses últimos anos, no
estudo da arte oral indigena, em especial dos povos Tupi-Mondé como os
Suruí, Gavião etc. Fiz minha dissertação de mestrado na PUC de SP sob
orientação da Profa. Carmen Junqueira e tenho trabalhado com os indios
Suruí na tradução do material deles gravado na década de 80 pela
antropóloga Betty Mindlin. Traduzir o material com os proprios indigenas
para compreender melhor me fez entrar no mundo da linguistica. E claro,
nas minhas pesquisas, tem entrado essa parte interessantissima que é
etnolinguística.E por isso, estou aqui, fazendo parte dessa lista.
Vou ficar na escuta, por enquanto, pois tenho muito o que aprender com
vocês.
Abs a todos
Magda Pucci
Estimad@s colegas:
Tengo el agrado de informarles que la revista on-line Cadernos de
Etnolingüística acaba de inaugurar su Serie Notas, cuyo objetivo es la
publicación, de manera rápida, de trabajos breves y muy breves (de hasta unas
cinco páginas) que contribuyan a llenar lagunas, divulgar fuentes poco
conocidas, postular análisis alternativos, etc. El primer trabajo publicado en
esta serie es el mío propio "Misia Jalaná: una frase charrúa a la luz de los
nuevos datos de la lengua chaná" (http://www.etnolinguistica.org/nota:1).
Agradecemos la divulgación, y, desde ya, quedan todos Uds. invitados
a participar con sus valiosas contribuciones.
Atentamente,
J. Pedro Viegas Barros
Co-editor, Cadernos de Etnolingüística