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Aves, vacas, porcos e tubarões - EDUARDO MACHADO   Lista de mensagens  
Responder Mensagem #1580 de 1710 |
Aves, vacas, porcos e tubarões
-a pandemia do lucro-

Revejo na TV um dos clássicos do cinema, "Tubarão", de Steve Spielberg. No
filme, uma pacata ilha que vive do turismo de veraneio em suas praias é assolada
pelo ataque de um tubarão assassino. Spielberg, em começo de carreira como
diretor, consegue extrair o máximo de suspense das cenas que já fazem parte da
história do cinema.
Logo no começo da trama, chama-me a atenção a figura do prefeito da cidade. Sua
preocupação é com o pânico que pode afastar os turistas. Um verão sem
visitantes, praias vazias, seria uma tragédia para a economia do lugarejo.
O impasse está colocado: ou perdem-se lucros, ou perdem-se vidas. Quem decide é
o tubarão. Seja o que está faminto, no mar, ou o que está, de terno, em seu
gabinete.
A questão continua atual.
No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vitimas da malária e da dengue,
que se podem prevenir com um simples mosquiteiro. Milhões de crianças morrem com
diarréia, o que se poderia evitar com esgoto e água tratada, `luxos' ainda
inacessíveis a grande parte da população. Sarampo, pneumonia, enfermidades
preveníveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a
cada ano.
Pouco se fala nesses números e realidades. Mas há cerca de 10 anos, quando
apareceu a gripe aviária, a mídia mundial inundou-nos com noticias alarmantes.
Uma epidemia, mais que isso, uma pandemia! Só se falava da terrível enfermidade
transmitida pelas aves.
A "pandêmica" gripe das aves causou a morte de cerca de 250 pessoas nos
últimos 10 anos. 25 mortos por ano no mundo inteiro. A gripe comum mata, por
ano, meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25. Veja bem, não se
trata de reduzir o problema a números. Não é esse o rumo do meu questionamento,
até porque sei que, para quem perde um ente querido, a estatística da tragédia é
de 100%. Mas é preciso perguntar: por que certas enfermidades dão mais `ibope'
que outras?
A resposta é simples. Porque há doenças que dão mais lucro que outras.
A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros dos grandes laboratórios,
conglomerados transnacionais que são verdadeiros mercenários da saúde. Quer uma
dica de outro filme que pode ajudar nessa reflexão? "O jardineiro fiel", do
diretor brasileiro Fernando Meirelles.
Hoje pouco se fala, por exemplo, no coquetel de remédios para tratamento da
AIDS. Porque? O Brasil tem um dos mais conceituados programas mundiais anti
AIDS. Para isso, entre outras medidas, quebrou as patentes de diversos remédios
que eram vendidos a preço de ouro pelos laboratórios. A seguir a Índia tomou o
mesmo caminho. Aberta a porteira, a medicação pode ser produzida em escala
mundial. Priorizou-se o tratamento, o paciente, e não a conta bancária dos
laboratórios que já haviam ganho milhões de dólares acima dos custos de pesquisa
e produção.
Os argumentos e números acima levantam muitas polêmicas. Se não houver a
possibilidade de lucro, não haverá pesquisa e, consequentemente, remédios. É
verdade. No mundo em que vivemos, mergulhado até o pescoço no modelo
capitalista, impossível não considerar a questão do lucro. Mas quando o assunto
é saúde pública, é preciso buscar um equilíbrio de forças, e se há que
privilegiar alguém, que seja o lado mais fraco.
Estou sendo ingênuo? Talvez, mas a vida humana não pode ser apenas um item numa
planilha contábil. É inconcebível aceitar que milhões de crianças morram ou
levem para a vida sequelas irreversíveis, a cada ano, pela falta de uma simples
vacina.
O Brasil é um exemplo curioso nessa questão. Em meio a tantas denúncias de
corrupção, em todos os governos e em todos os níveis, desenvolveu ao longo das
últimas décadas um programa de vacinação que é também referência mundial. Em
meio ao caos da saúde pública, as campanhas de vacinação sobrevivem como ilhas
de excelência. Erradicamos diversas doenças graves , como a varíola e a
paralisia infantil, esta com uma simples gotinha. O tétano e a raiva animal
também foram praticamente banidos. A febre amarela e outros males que dizimavam
a população, hoje estão sob controle graças ao empenho idealista de figuras
quase esquecidas, como o sanitarista Oswaldo Cruz, pioneiro no combate a
epidemias, no início do século passado.
Para o planejamento estratégico da indústria farmacêutica, se a AIDS, a gripe
aviária, a doença da vaca louca já não dão ibope como antes, e lucro como
sempre, é preciso `buscar' novas fontes de renda. A bola da vez é a gripe suína,
ou melhor a Influenza A-H1N1, mudança de nomenclatura exigida pela indústria da
suinocultura na tentativa de preservar sua imagem e, claro, seus lucros.
No entanto, seria estupidez negar os riscos, a gravidade da situação e o
potencial trágico da atual epidemia. Não questiono as necessárias medidas de
precaução que estão sendo tomadas pelos países. Mas se a gripe suína é uma
pandemia tão terrível, se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com
esta enfermidade, porque não a declara problema de saúde pública mundial e
autoriza a quebra da patente de medicamentos como o Tamiflú, remédio que já está
sendo vendido por camelôs nas ruas do país, sem nenhum controle?
Porque os governos não investem de verdade em medidas preventivas como
saneamento básico, e na produção e distribuição de medicamentos às populações
que não tem acesso aos mesmos, por razões financeiras? Decidir pela vida ou pela
morte de seres humanos será um índice resultante do cruzamento de dados entre as
colunas de crédito e débito?
Quem decide é o tubarão?...

Eduardo Machado
08/08/09





Qua, 12 de Ago de 2009 12:50 pm

velasco6650
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Marcelo Velasco
velasco6650
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