A LUTA DE HERCULANO
Lá pelos idos de 1970, em uma sossegada rua da Vila Clementino, em São
Paulo, alguém preparou um explosivo e lançou-o corajosamente no meio
espírita, para sacudir o marasmo da maioria diante de um tema vital. Esse
alguém era a cabeça mais lúcida do Espiritismo brasileiro: José Herculano
Pires. O explosivo era EDUCAÇÃO ESPÍRITA, uma revista editada pela EDICEL,
que tratava dos mais simples aspectos da Educação no lar as mais altas
teorias filosófico-pedagógicas. Com aquela objetividade cristalina, aquela
cultura monumental e aquele idealismo avassalador e indomável que só
Herculano possuía, EDUCAÇÃO ESPÍRITA era uma revista destinada a mudar os
rumos do movimento espírita.
O tempo urgia, a História amadurecera e estava a exigir os alicerces de uma
nova Educação. Assim raciocinava o filósofo de Avaré.
“A tarefa da Educação Espírita é a formação de um homem novo. A educação
Clássica greco-romana formou o cidadão, o homem vinculado à cidade e suas
leis, servidor do Império; a Educação Medieval formou o Cristão, o homem
submisso a Cristo e sujeito à Igreja, à autoridade desta e aos regulamentos
eclesiásticos; a Educação Renascentista formou o gentil-homem, sujeito às
etiquetas e normas sociais, apegado à cultura mundana; a Educação Moderna
formou o homem esclarecido, amante das Ciências e das Artes, cético em
matéria religiosa, vagamente deísta em fase de transição para o
materialismo; a Educação Nova formou o homem psicológico do nosso tempo,
ansioso por se libertar das angústias e dos traumas psíquicos do passado,
substituindo o confessionário pelo consultório psiquiátrico e psicanalítico,
reduzindo a religião a mera convenção pragmática. (...) Não é mais possível
educar as gerações novas segundo nenhum dos tipos anteriores de Educação.
Dai a rebeldia que vemos nas escolas, a inquietação da juventude,
insatisfeita com a ordem social e cultural, ambas absoletas, em que se
encontram. A Educação Espírita se impõe com a exigência dos tempos. Só ela
poderá orientar os espíritos para a formação do homem novo, consciente de
sua natureza e de seu destino, bem como de pertencer à Humanidade Cósmica e
não aos exíguos limites da humanidade terrena. Só ela pode nos dar, esse
homem novo, a síntese de todas as fases da evolução anterior, numa
formulação superior. Porque o homem espírita — ou o homem consciente — que
essa nova Educação nos dará, será ao mesmo tempo o cidadão, o cristão, o
gentil-homem, o homem esclarecido e o homem psicológico, mas na conjugação
de todos esses elementos numa dimensão espiritual e cósmica.”
Distinguindo a Educação da Pedagogia, pois a primeira sempre precede a
segunda, que é uma teorização daquela, Herculano Pires afirma que a
Pedagogia Espírita está implícita na codificação de Kardec. A visão da
infância, a reencarnação, a compreensão interexistencial da vida, tudo isso
forma a base dessa Pedagogia. Entretanto, torna-se preciso uma ordenação
teórica nesses dados esparsos, acompanhada de um método prático de
aplicação. Pronta essa sistematização, haverá uma Pedagogia Espírita
possível, baseada nos princípios gerais da Doutrina, mas também fruto de uma
necessidade histórico-cultural do momento. Amanhã poderá haver outra
Pedagogia tão espírita quanto a primeira, mas diferente, porque será produto
de outras circunstâncias.
Ora, era justamente a intenção de Herculano suscitar debates, provocar
reações entre intelectuais, professores ou simplesmente estudiosos
espíritas, para que fosse elaborada uma Pedagogia Espírita. Pois dizia o
saudoso professor que as escolas espíritas haviam surgido como uma
necessidade natural e uma conseqüência óbvia do movimento. Mas essas
escolas, em sua maioria, embora já representassem um passo, não haviam
criado uma Pedagogia Espírita. limitando-se a adotar a leiga, inserindo
aulas de Doutrina no currículo.
O apelo de EDUCAÇÃO ESPÍRITA tinha o ardor idealista e a lógica fulminante
peculiares a Herculano. Apesar disso, o explosivo não atingiu o tímpano nem
ofuscou os olhos dos que não querem nem ouvir nem ver. O professorado
espírita não se interessou. Não apareceram colaboradores. Humberto Mariotti,
o Herculano argentino, estendeu as mãos sobre a fronteira e participou do
apelo. Deolindo Amorim e alguns raros articulistas trouxeram algo. Mas o
segundo número demorou uma ano e meio a sair. O terceiro foi trimestral, o
quarto e quinto foram semestrais e o sexto encerrou a série. No quinto
volume, à guisa de editorial, há um melancólico e vibrante desabafo,
intitulado CARTA ABERTA AOS PROFESSORES ESPÍRITAS, onde o incansável
batalhador comenta não só o desinteresse da maioria, como a oposição de
alguns (espíritas !!!) à Educação Espírita, como se ela não existisse. É
claro como o dia que qualquer sistema filosófico, qualquer cosmovisão se
completa numa Pedagogia. Desde o tempo de Platão é assim. Apenas espíritos
obscurantistas não vêem isso.
Na verdade, a indiferença que a revista encontrou (e diga-se de passagem
que muitos intelectuais não espíritas ficaram entusiasmados) está ligada a
um menosprezo generalizado que os espíritas votam à Cultura. Estão sempre
prontos a apoiar obras criativas — o que é muito louvável — mas quando se
trata de qualquer empreendimento cultural, torcem o nariz e fogem. Herculano
alertava:
“Espiritismo é cultura em marcha, civilização nova em perspectiva. Temos de
criar condições para acordar os preguiçosos, sacudir os sonolentos,
desmascarar os analfabetos ilustres, os demagogos que só sabem pavonear-se
nas tribunas e nas publicações reacionárias. Temos de acabar com a praga da
preguiça mental, hipocritamente disfarçada em modéstia, falta de recursos e
outras desculpas descabidas. Precisamos estudar, queimar as pestanas,
pesquisar, construir a Cultura Espírita em nossa terra. Ou faremos isso ou
nada mais seremos do que beatos de um novo tipo, esperando de joelhos que o
Céu faça por nós o que temos de fazer por nós mesmos.”
Sem encontrar o apoio e a ressonância, com os quais contava para a
elaboração coletiva de uma Pedagogia Espírita, Herculano Pires se atira
então sozinho à tarefa, para a qual possuía mais competência do que muitos
espíritas reunidos. No último número da revista, publica os primeiros
capítulos de um COMPÊNDIO DE PEDAGOGIA ESPÍRITA, lançando os pontos-chaves
para um desenvolvimento posterior. Vejamos como explica ai, de maneira
brilhante as relações do Espiritismo com a Pedagogia:
“Ensino, processo de informação e instrução, e Educação, processo de
formação moral e espiritual, constituem as coordenadas da Doutrina Espírita
e balizam a prática doutrinária em todos os seus aspectos. Bastaria isso
para nos mostrar que o Espiritismo ocupa, no próprio campo do Conhecimento,
uma posição de síntese. Seus aspectos fundamentais de Ciência, Filosofia e
Religião se encontram e se fundem no delta da Pedagogia, para o qual
confluem todas as águas da Cultura. Examinemos melhor esta questão. No campo
do Conhecimento, a Ciência nasce da prática, do fazer do homem no mundo; a
Filosofia brota da razão, do pensar do homem sobre o mundo; a Religião surge
da afetividade, do sentir do homem no seu viver no mundo. Essas três
províncias do Conhecimento formam a unidade do conhecer e por isso não podem
estar em conflito, pois as suas antinomias quebram a unidade do Espírito
confundem a Cultura e tornam conflitiva a Civilização. Conseqüência
inevitável é o conflito no campo educacional. A unidade conceptual e
estrutural do Espiritismo devolve a unidade do conhecer ao homem ao homem e
restabelece a harmonia no campo da Educação.”
Passados 25 anos dessa heróica tentativa, continuamos no mesmo pé. Nada se
modificou em nosso cenário mormacento. José Herculano Pires acendeu as
primeiras luzes em torno do assunto. Revolveu a terra e fincou alguns
andaimes. Partindo de seus pressupostos rigorosamente espíritas, chegaremos
sem muitos percalços a realizar a tarefa que a consciência exige de nós. O
inesquecível filósofo de Avaré fez sua parte. Nem sequer tentaremos cumprir
a nossa?
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383. Qual é, para o Espírito, a utilidade de passar pela infância?
R. — Encarnando-se com o fim de se aperfeiçoar, o Espírito é mais acessível,
durante esse tempo, às impressões que recebe e que podem ajudar o seu
adiantamento, para o qual devem contribuir os que estão encarregados da sua
educação. (1)
Trecho extraído de “O Livro dos Espíritos - q. 383” - obra codificada por
Allan Kardec
ENSINO ESPÍRITA
Um curso regular de Espiritismo seria dado com o fim de desenvolver os
princípios da Ciência espírita e propagar o gosto pelos estudos sérios. Esse
curso terá a vantagem de criar a unidade dos princípios, de obter adeptos
esclarecidos, capazes de difundir as idéias espíritas e de desenvolver
grande números de médiuns. Encaro este curso como capaz de exercer
influência capital no futuro do Espiritismo e em suas conseqüências.(2)
Allan Kardec, no livro “Obras Póstumas”
(1 ) Os pais e os professores espíritas devem ponderar sobre este item e os
que se lhe seguem. O Espiritismo vem abrir um novo capítulo da Psicologia
infantil e da Pedagogia, mostrando a importância da educação da criança não
apenas para esta vida mas para a sua própria evoloção espiritual. (Nota de
J. Herculano Pires)
(2) Veja-se o projeto de criação das Escolas de Espiritismo, organismos de
ensino de tipo universitário, aprovado pelo IV Congresso Brasileiro de
Jornalistas e Escritores Espíritas realizando em Curitiba, Paraná, em 1968,
e publicado pela revista Educação Espírita, n.o 1, de dezembro de 1970.
(Nota de J. Herculano Pires)
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