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''A Economia solidária entra na encíclica do Papa''
Giacomo Galeazzi, La Stampa, 1º/07/2009. Tradução: Moisés Sbardelotto.
"O Papa adequou a encíclica à crise". Quem explica o atraso, as
correções específicas, as reelaborações da "Caritas in veritate" são
duas personalidades (uma vaticana e outra leiga) que em grande parte
contribuíram com o texto. "A escrita já estava quase acabada há nove
meses e, quando estava pronto para ser publicada, os bancos
norte-americanos faliram – destaca o economista Stefano Zamagni. No
dia 15 de setembro, quebrou o Lehman Brothers, e, naquele ponto, o
Papa decidiu que não era possível não levar isso em consideração. Em
termos jurídicos, o Pontífice pediu um 'suplemento de pesquisa' para
levar em consideração adequadamente o colapso financeiro mundial. E
não era possível fazer diferente, porque o conjunto da encíclica é
sobre a globalização, e por isso está estreitamente entrelaçada à
crise atual".
Quanto aos influxos sobre o texto, a "inspiração" de Giulio Tremonti,
sugerida pela imprensa, sai redimensionada. "O termo de Tremonti
'mercatismo' não aparece na encíclica, considerado como sinônimo de
anarco-liberalismo – indica Zamagni. Com relação ao 'pós-crise', as
posições dos especialistas consultados divergiam. Alguns queriam que a
encíclica se centrasse muito sobre a crise. Eu, ao invés, considerava
que não era o caso de calcar muito a mão, porque, três anos depois da
tempestade, ninguém falará mais sbre isso, portanto não se pode
vincular uma encíclica que dura há décadas a um evento contingente
como uma dramática crise dos mercados".
Assim, no texto, "a crise aparece como exemplo notável da avidez
elevada em nível moral, mas não há um capítulo sobre a crise, mesmo
que ela constitua uma exemplificação que volta em vários pontos",
afirma Zamagni. "Em diversas passagens, a crise serve de pano de fundo
e paradigma ao raciocínio, como quando se diz que, se a economia de
mercado perde a orientação ao bem, degenera criando desemprego ou
neocolonialismo. Nesses e em outros cenários, a crise testemunha e
reforça os assuntos da encíclica". Portanto, acrescenta Zamagni, "há
um grande parágrafo sobre o problema mais estrutural da destruição
ambiental, enquanto que as páginas sobre a crise não são mais do que
2% do total".
Mas a parte destinada a despertar mais interesse é a das "propostas
concretas". Evidencia Zamagni: "Pela primeira vez em uma encíclica, as
experiências de Economia solidária fazem a sua aparição. Além disso,
louva-se abertamente a deliberação do dia 19 de fevereiro pela qual a
unanimidade do Parlamento Europeu acolheu e assumiu como própria a
ideia da economia social com pluralismo de formas de empresa, não só
capitalistas".
Por isso, "a encíclica dá razão à escola italiana da economia civil
com relação à escola anglo-saxã da economia política, ao acrescentar
no discurso econômico o princípio da reciprocidade, ao lado dos
princípios clássicos da troca e da redistribuição". Isto é, "a doação,
o dom, tendo valência econômica, deve entrar nas empresas, nas
famílias, nas organizações". E "em vez de ser reduzida à mercadoria, a
pessoa, o trabalhador é colocado no centro e, se não trabalha, é
reprrendido, mas como se faz quando se pune um filho para educálo para
o crescimento".
O ministro do Vaticano competente sobre a matéria circunstancia a
"releitura" da encíclica na ótica da crise. "Algumas passagens mudaram
– afirma o cardeal Renato Raffaele Martino, presidente do Pontifício
Conselho Justiça e Paz. Para levar a crise em consideração, sobretudo
a partir de março, foi preciso fazer alguns ajustes. Por meio de um
trabalho que durou até o final do encontro que tive com Bento XVI no
dia 29 de maio, foram inseridas referências ao cenário econômico que
mudou, com base nos efeitos registrados em escala mundial".
Depois, acrescenta Martino, "foram feitas modificações na parte
especificamente propositiva à tempestade que sobreveio, à luz do
quadro pós-crise, com as soluções a serem adotadas". Permanece firme,
porém, a ideia de que, "mais do que nas soluções práticas, o texto
está centrado no apelo aos princípios da doutrina social". Portanto,
"apelos à realidade concreta, mas atenção particular nas dinâmicas
financeiras, na economia de papel, nos mercados viciados". Segundo um
esquema que inclui "promoção da paz, direitos humanos,
subsidiariedade, humanismo globalizado do trabalho, compromisso
caritativo".
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Qui, 2 de Jul de 2009 3:43 pm
Aline Mendonça <nocams@...>
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