Mais uma vez o atavismo social de turbas ensandecidas montou suas barricadas
para "pedir justiça". A morte de uma menina, perpetrada pelo pai e pela
respectiva madrasta fez eclodir esse excesso de concentração passional em uma só
idéia coletiva: desejo de vingança. São tantos indivíduos desejosos de
extermínio do outro, que se assemelha a uma insanidade moral, daquelas que
outrora produziram mártires cristãos. Ora, esses pluri-maníacos se manifestam
sob a forma de um altruísmo excessivo, acompanhado de de um egoísmo igualmente
excessivo, cuja origem perpassa por uma criminalidade midiática. A mídia assumiu
o pêndulo das ações sociais durante todo o "trial" e, como sempre consegue,
transformou toda a assistência em anarquistas neófitos, sanguinários, dispostos
a arrastar até mesmo um neo-messias que por ali passasse. É uma praticamente uma
epilepsia coletiva, cuja única (des)nutrição mental estava voltada para o ataque
ao mais elementar direito da própria turba: o direito de defesa. Foi um estado
de monstruosidade televisiva tão "lombrosiana", tão insana, que as idéias
positivistas do século XIX desfilaram portentosamente. Evidentemente que não se
trata de perfis físicos, mas de transfiguração coletiva (Dr.Jekill and Mr.Hyde
made in "patuléia"), dos regicidas de rua, de portas de cadeia e de tribunais.
Assim como em "El Puñal" de Como, aqueles ladrões de direito pensam que tem o
direito de se assumirem como vítimas da injustiça, com mais injustiça social.
Enfim, o casal sobreviveu e a acusadoria está na moda. A defesa, na sarjeta.
Prevalece o misticismo e a ignorância, características cardinal dos regicidas
populares. Quiçá, possa alguém perdoá-los, porque, certamente, não sabem o que
fazem.