DIONISIO, deus dos fluidos, governa uma tenebrosa terra de ninguém
de matéria semi transformada em liquido. Neumann observa a ligação
lingüistica em alemão entre Mutter, mãe; Moder, brejo;
Moor, paul; Marsch, pântano: e Meer, mar. Um miasma ctônico
paira sobre a mulher, como a nuvem poluída que despejava pestilência
sobre a Tebas de Edipo. O miasma e o destino procriativo da mulher, ligando-a
ao primevo. Ártemis e a mulher em fuga, escapando de sua nuvem para
a apolinea luz solar. A radiação de Ártemis e um endurecimento
militante de si, uma recusa da menstruação. Dioniso, endossando
a mulher, também a mantém no pântano ctonico. Sartre
fala do mucoso ou viscoso, le visqueux, uma substancia entre dois estados,
um lugar úmido e feminino, um liquido visto num pesadelo. O visgo
de Sartre e o pântano de Dioniso, o lodo carnal da matriz gerativa.
Nao há visão porque nao há olhos. A tocha solar de
Apolo esta apagada; o âmago da criação e cego. No mundo
útero feminino, nao há objetos nem arte. Dioniso e a totalidade
que tudo abarca do culto da mãe. Nada lhe causa nojo, ja que contem
tudo o que existe. 0 nojo e uma reação apolinea, um julgamento
estético. Nojo sempre indica um certo desalinhamento, ou desvio,
em relação ao maternal.
(Camile Paglia - Personas Sexuais)