Olá,
No momento em que me decido a escrever esse texto, por uma certa quantidade de acaso e providência, começa a tocar aqui no WMP uma música que se chama "A Triste História do Rei do Nada". Muito conveniente, a letra diz assim:
(...) quem me dera desaparecer
antes de alcançar o outro lado da estrada
e perceber que eu, se fui rei,
fui rei das chagas
que um dia exibi como troféu
nas cabeças degoladas aos plebeus -
erguidas ao mundo na estaca pra que possa ver
que o rei do nada sequer teve nome
pra gravar na pedra e cobrir de flores.
Mas antes de juntar a música e todo o resto, vamos ao assunto que eu pretendia tratar desde o começo. Em um post sobre Beowful, eu contei sobre uma visita minha ao Masp e perguntei como pudemos passar dos imponenetes deuses gregos, ao sofrido Jesus. A questão agora é que sei a resposta (ou uma resposta) e ela não é exatamente aquela que Nietzche ou um desses ateus feito o Trunkael teriam. O texto em questão diz assim:
"Outro dia desses, quando no Masp, vi um estátua de uma divindade grega: jovem, forte, imponente e com o seu olhar descansado de qualquer preocupação, satisfeito e completo. Em uma exposição de esculturas antigas na Faap, os mesmos exemplos concretos de poder. Atenas me observa, toda ela magnânima, guerreira de escudo e armadura. Afrodite absolutamente erótica, não obstante ser de mármore. A batalha entre titãs e deuses que o painel mostra exala potência: eram deuses que entortavam metais e desígnios com as mãos. Sim: poder concreto. De novo ao Masp, em frente a um Cristo preso à cruz, olhos desalentados ao céu, esquelético e sujo, eu me perguntei, impiedoso: como pudemos chegar a isso? Como passamos do fantástico a esse algo tão pequeno? (texto inteiro)"
Pois então. A questão agora é que observei que, de fato, a troca desse primeiro tipo de deus pelo segundo indica um grau crescente de humanidade, no sentido em que essa palavra abranja os sentimentos de solidariedade, compaixão e empatia. Conforme cresce a dor nas representações, cresce a humildade e a responsabilidade. Estou considerando a possibilidade de que, apesar de termos sim largado um mundo em que a idéia da perfeição, da extrema habilidade, da beleza, da sabedoria grande fossem principais e trocado por um em que a fraqueza é largamente aceita, talvez tenhamos, no fundo, criado um mundo mais realista. E eu pensei nisso tudo a partir de uma experiência pessoal, que foi o AVC do meu avô.
Não sou muito tentado a contar experiências pessoais pros outros, mas acho que essa história deve contada, porque no dia em que vocês se sentirem sós, de mãos atadas, absolutamente impotentes, poderão se lembrar disso e quem sabe terão qualquer alento, pelo menos sabendo que não são os únicos. Funcionou comigo: o fato de que uma menina, no trabalho outro dia, disse que a vó dela tinha quebrado a perna, e que ela estava agoniada, e que o que mais incomodava era a realidade de que parecia que nada podia ser feito, tudo isso - tudo isso me tirou o peso de um mundo das costas, assim como quando conversei com um amigo no ônibus e ele disse da morte da sua mãe, e do Alzheimer do seu avô, e de como ele nem sabe o que faz. Alívio. Bom, o fato é que meu avô foi por toda a vida a imagem do que eu queria deveria ser. Forte, inteligente, com autoridade inexorável. E agora tem metade do corpo paralisado, não consegue falar mais do que umas sílabas, tem um braço atrofiado e precisa que limpem a bunda dele. Assim.
"Se fosse qualquer um", mas não era, era ele mesmo, tinha caído, cadê força, cadê inteligência, cadê autoridade. A Metamorfose. Um dia Antônio de Oliveira acordou e tinha se transformado numa espécie de inseto. Nesse momento, por providência ou acaso, em Cálice, Milton Nascimento canta: "Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta?". Não sei e não acho que a maioria das pessoas daqui saiba, acho que minha mãe teve ou tem tanta dificuldade quanto eu tive, acho que meu tio não consegue aceitar a tal ponto que passou a ignorar o acontecimento completamente. O que os olhos não vêem; bem, e minha avó, minha avó sempre foi mais resistente que todo mundo, e mesmo ela chora às vezes, num espasmo. Agora, isso sempre foi possível, isso sempre esteve à espreita, e era só idealismo, só displicência, só negligência não saber. E esse é o ponto do Jesus esfarrapado: até o filho de deus sofre, até o filho de deus sangra, até o filho de deus morre.
E por esse fato a morte de todos nós pode se tornar menos pesada. É realista porque não passa da verdade, é humano porque nós torna todos iguais, assemelhados pela morte. É o que me faz pensar na música que citei no início: no mundo de Beowulf, o herói se percebe no fim como o Rei do Nada, que é o que todos somos. Nesse mundo cristão, o sacrifício, o ato de se perder em prol de alguma coisa, é semelhante mais está um passo acima da obsessão heróica, que se aproxima cada vez mais não das pessoas, mas de ideais. Sem júízos de valor: não estou aqui dizendo se é bom se aproximar de pessoas ou de ideais, só constatando. Por fim, após todo esse raciocínio, noto que, em verdade, Beowulf pode ter um processo anti-cristão, como eu disse, mas, ao fim, o herói se sacrifica - o que o aproxima dos ideais que antes eu afirmei serem seus antagonistas.
Bom, é isso. Comentem, contestem, contem histórias.
até,
b.m.