Olá Manuel
Maravilha de texto (alias, como sempre, e está nos devendo a continuação do
texto anterior, quando estava com sono..:-).
Mas embora se aplique muito bem as questões humanas, penso que os aspectos de
entendimento e compreensão deste universo, do ponto de vista científico, é outro
caso.
Por exemplo:
Manuel: "algo semelhante ao que os matemáticos hoje chamam de atrator de
ciclo-limite (Aristóteles acreditava no eterno retorno, isto é, num vai-e-vém em
equilíbrio dinâmico por toda a eternidade)."
Aristoteles também acreditava que, uma vez iniciado o movimento pelo motor
primeiro, este não mais se envolvia com a vida humana, e as questões éticas,
decisões e escolhas humanas, deviam ser tomadas a partir da razão e dos motivos
humanos.
Isso é importante ao se analisar o que uma crença em deus ou divindades
sobrenaturais pode valer em um estudo sobre, por exemplo, as forças estelares ou
a gravidade.
Manuel: "Sendo assim, não se poderia, com base no princípio antrópico, elaborar
uma teoria moral universal (moral não do tipo recht, mas moral dos fins últimos)
equiparável à teoria física das supercordas, ou das branas?"
Acho complicado e bastante improvável. A física das cordas, embora no momento
não possa ser demonstrada, só será aceita de forma confiável quando o for. Já
questões morais e éticas estarão sempre "sub judice" de culturas, posturas
sociais, agrupamentos, credos diversos, etc.
Até mesmo a questão do "bem" sofre por ser subjetivo demais, vago demais,
inconstante demais.
Manuel: "Bem, vivemos num mundo em que, em regra, a vida dói: Muitos indivíduos
sofrem: alguns são fortes e suportam o sofrimento comezinho; uma grande fatia,
porém, é tão sensível a dor (física ou psíquica) a ponto de necessitar,
permanentemente, de uma bengala mental. Também há muitos cuja vida é dor sem
esperança."
Certamente. Não se pode negar a capacidade de produzir conforto que lendas,
mitos e crenças tem. Mas, uma coisa é confortar alguém pela perda de um ente
querido, outra tentar entender uma lei universal, ou pesquisar uma força da
natureza. Como aplicar uma bengala mental, se todo esforço do método é
justamente evitar o "viés" mental que atrapalha essa compreensão?
Manuel: "E se fosse, em caso de grande dor, melhor a fantasia que a verdade
agreste."
Para seres humanos em situação difícil, pode ser. Para todo o resto, perigoso.
Fantasias não costumam ajudar a entender as coisas, materialmente falando.
Manuel: "Realmente, não foi por acaso que os grandes teólogos do islão (Avicena
e Averróis) e do cristianismo (Santo Agostino e S. Tomás de Aquino) buscaram o
fundamento *racional* de suas crenças em Platão e Aristóteles. "
Adoro Tomas de Aquino (acho Agostinho patético demais, falso demais, e doido
demais), mas a teologia natural foi abandonada há tempos, justamente porque
tentar ver deus na natureza (mesmo usando a razão) gerava muitas dificuldades.
Como você notou, leões a devorar uma gazela velha, ou seus filhotes, vespas que
colocam seus ovos dentro de aranhas, vivas, para que as larvas devorem a coitada
enquanto crescem, e toda sorte de violência e dor da natureza tornava a teologia
natural bem complicada.
E o que o fundamento racional gerou para a fé em uma religião como a católica,
foi um sem número de elocubrações, cada vez mais complexas, na tentativa de
ajustar um mundo aleatório e sem sentido a uma divindade intencional e amorosa.
O "problema do diabo" é um exemplo. É difícil ser uma religião "monoteísta"
quando uma entidade sobrenatural, superpoderosa, que controla todo um setor do
mundo astral (o inferno) e é capaz de demonstrações de grande poder, existe é é
aceito pela divindade principal. Ao mesmo tempo, se o diabo não existe, então o
próprio deus é responsável por toda dor, sofrimento e crueldade do mundo.
A igreja católica sempre tratou do diabo com ambiguidade, não existe, se quem
pergunta é uma mente sofisticada, existe, claro, se quem pergunta é uma mente
simplória.
O conceito de "bem" ou "bom" parece ser um desdobramento biológico-evolutivo,
como muitos de nossos comportamentos sociais e grupais. Nossa profunda irritação
com a ingratidão, efeito da necessidade de impedir comportamentos egoístas
(daninhos a longo prazo) em grupos solidários (animais gregários são
particularmente propensos a se irritar com a ingratidão).
Como aplicar conceitos subjetivos como "bondade" em um esforço para compreender
o universo?
Um abraço.
Homero
--- Em ciencialist@..., Manuel Bulcão <manuelbulcao@...> escreveu
>
> Oi,
>
> Bem, achei o esquema bastante caricatural no que tange à visão teleológica e
teológica. Trata-se de um espantalho, uma versão *folclórica* de Deus ou da
*causa finalis*, muito fácil de ser contestada.
>
> Lembro aos amigos que a ideia de uma causa final, de um atrator universal (o
Bem), de uma razão-de-ser da existência ou deus único foi objeto de investigação
filosófica antes do surgimento dos monoteísmos judaico-cristãos. Com efeito, na
época em que Aristóteles elucubrava sobre o *motor primeiro*, a religião dos
judeus ainda era o mosaísmo, que não era sequer monoteísta, mas henoteísta (ver
Deuteronômio 10, 17-18). Significa dizer que a ideia de Deus antes fora tratada
em ternos estritamente conceituais, e somente depois, em consequência da
helenização do mundo, terminou sincretizando-se com a mitologia neolítica dos
hebreus e de outros povos, dando origem ao judaísmo propriamente dito, ao
cristianismo e ao islamismo.
>
> Realmente, não foi por acaso que os grandes teólogos do islão (Avicena e
Averróis) e do cristianismo (Santo Agostino e S. Tomás de Aquino) buscaram o
fundamento *racional* de suas crenças em Platão e Aristóteles.
>
> A propósito, a ideia de um deus organizador do mundo material aparece na
filosofia racionalista grega através de Platão e como reles demiurgo
(provavelmente uma concessão à mitologia grega e com o objetivo de garantir a
sobrevivência do filósofo, ou pelo menos seu status). Tal demiurgo é um ser
inferior, um éon situado abaixo do verdadeiro Deus: o Bem - o sol radiante do
mundo hiperurâneo (ou mundo das ideias puras). Séculos depois, essa dicotomia
veio a fundamentar o gnosticismo cristão, que considera o demiurgo - i.é, o
criador desse mar de lágrimas em que vivemos - como um ser malígno, sendo Cristo
o arauto de um deus maior, inefável, plácido e bom.
>
> Na ontologia de Aristóteles, esse agente intermediário (demiurgo, deus
criador) não tem mais lugar. Permanece, no entanto, a ideia do *motor
inamovível*: algo semelhante ao que os matemáticos hoje chamam de atrator de
ciclo-limite (Aristóteles acreditava no eterno retorno, isto é, num vai-e-vém em
equilíbrio dinâmico por toda a eternidade).
>
> Tenho algo a falar a respeito da sentença *imperativa* do Kentaro: *É preciso
evitar os pontos finais semânticos do questionamento*. Aviso que não estou
totalmente seguro do que vou sustentar.
>
> A própria ciência, inclusive a matemática, estabeleceu os seus limites: o
princípio da incerteza de Heisenberg; o que existe nos marcos do tempo e do
espaço de Planck; o que ocorre nas regiões do espaço que se afastam da nossa
galáxia com rapidez maior que a velocidade da luz (lembro que o universo está em
expansão acelerada); o comportamento a médio prazo dos sistemas dinâmicos
complexos não-lineares; a incompletude da Lógica etc.
>
> Penso que, além desses firmes limites estabelecidos pela ciência mesma,
colocar ou não um ponto final semântico é uma questão privada, de fé: crença de
que as causas eficientes recuam *ad infinitum*; crença na existência de uma
causa final...
>
> Atualmente, a física teórica leva seriamente e conta a ideia de que o
universo possui nove ou onze dimensões espaciais, sendo que a maioria delas
encontra-se encurvada a ponto de caber no *incognoscível* espaço de Planck.
Destarte, então pergunto: não seria possível haver um *bem* a reger o mundo,
embora tão difícil - talvez impossível - de se conhecer, tanto como essas
possíveis dimensões espaciais enoveladas? Ora, atualmente fala-se muito sobre
princípio antrópico (forte e fraco). As ideias de Peter Ward e Donald Brownlee,
explanadas no livro *Terra Rara*, dão sólida base científica a esse
neoantropocentrismo.
>
> Sendo assim, não se poderia, com base no princípio antrópico, elaborar uma
teoria moral universal (moral não do tipo recht, mas moral dos fins últimos)
equiparável à teoria física das supercordas, ou das branas?
>
> Bem, vivemos num mundo em que, em regra, a vida dói: Muitos indivíduos sofrem:
alguns são fortes e suportam o sofrimento comezinho; uma grande fatia, porém, é
tão sensível a dor (física ou psíquica) a ponto de necessitar, permanentemente,
de uma bengala mental. Também há muitos cuja vida é dor sem esperança.
>
> Que, então, para mitigar o sofrimento, cultivem o que há de sublime no
mistério e tenham fé num possível bem secreto. Tal atitude não vai de encontro à
ciência.
>
> E se fosse, em caso de grande dor, melhor a fantasia que a verdade agreste.
>
> Abraços,
> Manuel Bulcão
> _____________________
>
>
> --- Em ciencialist@..., Kentaro Mori <kentaro.mori@> escreveu
> >
> > Argumentando com
> > Deus<http://scienceblogs.com.br/100nexos/2009/07/argumentando_com_deus.php>
> >
> > [image: porquedeusquis]
> >
> > Uma adaptação do original de *Michael
> >
Anissimov*<http://www.acceleratingfuture.com/michael/blog/2009/03/reasoning-with\
-god/>,
> > que indica ensaios ótimos de *Eliezer Yudkowsky* como Semantic
> > Stopsigns<http://lesswrong.com/lw/it/semantic_stopsigns/>e "Science"
> > as
Curiosity-Stopper<http://lesswrong.com/lw/j3/science_as_curiositystopper/>para
> > maior reflexão. Antes de criticar a imagem por sua caricaturização ou
> > mesmo por algum tropeço epistemológico fatal, confira os ensaios indicados.
> > "Porque sim" não é resposta. "Porque Deus quis" também não. Se descobrir os
> > infinitos mecanismos e fenômenos interligados que explicam o funcionamento
> > de algo ainda não nos levou à "resposta", e talvez nunca leve, o ponto é que
> > não nos leva a falsas respostas. É preciso evitar os pontos finais
> > semânticos do questionamento.
> >
>