-----Mensagem Original-----
De: "Manuel Bulcao"
Para: <ciencialist@egroups.com>
Enviada em: Sexta-feira, 10 de Novembro de 2000 00:37
Assunto: [ciencialist] Dawkins Antropocentrico? - 2
> Em minha mensagem "Dawkins Antropocêntrico?" citei um trecho do livro
> "O Gene Egoísta", em que o autor afirma categoricamente que, no
> planeta Terra, apenas nós, seres humanos, somos capazes de se rebelar
> contra a tirania dos replicadores egoístas, genes e memes. Alguns
> colegas da lista criticaram essa afirmação de Dawkins. O João Miranda
> afirmou que não existe "eu" - e, portanto, também não existe "nós"
> --, mas apenas genes + memes, e que tal asserção dawkineana não passa
> de mais um meme para a confusão.
Neste caso "eu", que "não existo", diria que não existem genes nem memes mas
apenas agregados de partículas elementares da física. E, prosseguindo nesta
regressão absurda, não é impossível que um dia venhamos a descobrir que nem
as partículas elementares da física existem, mas apenas os genuínos átomos
de Demócrito. (Creio que já falei algo sobre isso num outro contexto.)
> A questão é: o comportamento humano é tão ferreamente determinado
> pelos genes (ou genes + memes) ao ponto de não haver nenhuma margem
> para uma decisão livre? Será mesmo que toda ação humana, sem exceção,
> tem por razão de ser a máxima propagação do complexo gene-meme?
Isto está me cheirando a outro tipo de regressão. Parece-me que estamos
regredindo para a era do materialismo mecanicista, quando alguém teria
afirmado que o Universo comporta-se como um relógio, e nós apenas seríamos
peças desse relógio. Não sei não mas fica-me a impressão de que essa turma
da "teoria da cultura" ou, como queiram, memética, precisaria estudar um
pouquinho a história das ciências. Do contrário irão "reinventar a roda",
ainda que seja uma roda mais sofisticada e aplicável a ciências menos
exatas.
> Bem, se a conduta humana obedece a um rígido determinismo, seja
> genético (sociobiologia), libidinal (psicanálise) ou de qualquer
> outra espécie, não sei ao certo. Mas vamos supor que sim. Neste caso,
> esfumaça-se, penso eu, qualquer esperança de que seja criada uma
> "verdadeira" ciência do homem, "ciência" no sentido forte ou
> popperiano do termo, cujos enunciados podem ser testados, falseados.
Depende. Em primeiro lugar, quando se fala em determinismo está-se
simplificando em demasia um Universo que não conhecemos em sua totalidade. O
determinismo pode ser caótico e incontrolável ou incompreensível em larga
extensão e assim sendo poderíamos brincar de cientista por muitos séculos.
Por outro lado, corre-se o risco de se chegar a um indeterminismo
determinado, o que aconteceu com a física quântica ao "determinar" o
princípio da indeterminação. A meu ver, com este tipo de indeterminismo
esfumaçou-se qualquer esperança de que se chegasse ao conhecimento da
estrutura íntima da matéria, num sentido pré-metafísico (pois no sentido
metafísico é compreensível esta impossibilidade). E se as demais ciências
tentarem se apoiar na física moderna, prevejo conseqüências do mesmo tipo e
a meu ver desastrosas. Não nos restará outra alternativa a não ser nos
conformarmos com os genes (os quanta de vida) e os memes (os quanta de
comportamento). Logo chegaremos ao princípio memético da indeterminação e a
confusão estará instalada de vez e os meméticos, tal e qual os físicos
quânticos, ficarão falando sozinhos por um século ou mais, até descobrirem
que "não existem" (com a vantagem de que alguns meméticos já assumem a sua
não existência).
Não sou um defensor do determinismo próprio dos físicos da antigüidade
clássica (materialismo mecanicista) porém acho que o indeterminismo da
física quântica é um atraso de vida (pensando não na física, mas nas
disciplinas que poderão vir um dia tentar se apoiar na mesma, como por ex. a
biologia). Enfim, essa é uma opinião de quem não entende muito do assunto.
> Com efeito, supondo como correto o princípio fundamental da
> psicologia evolucionista, se o indivíduo X age de uma determinada
> forma, o propósito da sua ação, em última análise, é a perpetuação
> dos genes. E se ele, porventura, age de uma forma contrária, também
> neste caso, em derradeira instância, o propósito é a perpetuação dos
> genes. Não há, portanto, como se testar empiricamente a falsidade do
> enunciado "todo comportamento visa à perpetuação dos genes". Pode até
> ser que tal enunciado seja verdadeiro, mas não se trata de forma
> alguma de uma asserção científica no sentido estrito do termo. Pode
> ser, quando muito, um enunciado metafísico "bastante interessante e
> fecundo".
O Popper iria gostar dessa sua sacada. Certamente ele iria dizer que esta
teoria não é científica. Eu prefiro dizer que talvez estejamos frente a uma
pré-teoria científica. Por outro lado, poderíamos pensar numa dualidade
comportamental no estilo quântico. Após qualquer escolha o Universo se
"racharia em dois" e permaneceríamos naquele em que os genes se perpetuaram.
> Em suma: se o comportamento humano (inclusive o do cientista em seu
> laboratório) for ferreamente determinado - seja pelos genes
> "egoístas", pela libido ou pelo interesse econômico, a natureza do
> determinismo não importa tanto -, então a ciência que trata do
> comportamento humano não pode jamais passar de uma hermenêutica, ou
> seja, sua função não é tanto explicar o fenômeno, mas sobretudo
> interpretá-lo ou torná-lo compreensível pela ótica do que se presume
> ser a finalidade última do pensamento e da ação.
Vamos ver se consigo axiomatizar esta incerteza. Digamos então que exista o
que chamarei Princípio da Indeterminação Comportamental: "É impossível
conhecer simultaneamente e com exatidão o pensamento e a ação de um ser
humano." Quando ele pensa, ele não age; e quando ele age o pensamento já
era". Aceito críticas mas vejo que a "coisa" é mais ou menos por aí. Ao
passarmos do pensamento para a ação haveria um colapso da função pensamento.
Por outro lado, ao passarmos da ação para o pensamento haveria um descolapso
e a ação iria se expandindo até se extinguir totalmente.
> Se o determinismo "teleonômico" (teleonomia, segundo o bioquímico
> Jacques Monod, implica a idéia de uma "atividade orientada, coerente
> e construtiva", o que, segundo este cientista, é uma propriedade
> comum a todos os organismos vivos), retomando o fio: se o
> determinismo teleonômico exclui a possibilidade de uma ciência
> "stricto sensu" do comportamento determinado, não se deve,
> entretanto, "em nome da ciência", considerar como uma "falsidade
> apriorística" o determinismo teleonômico. É possível que nossas
> ações, em última análise, sejam determinadas por "algo" que
> transcende a nossa vontade, nossas intenções imediatas, nossa
> consciência. Pode ser, não é certo mas... sei lá!
Eu diria então que ao passarmos do pensamento para a ação o colapso é tal
que nem sempre a ação sai como foi planejada, mas ocorre uma interferência
que talvez pudesse ser explicada pela filosofia da "práxis". Mas isso apenas
confirma a idéia de um princípio de indeterminação comportamental. Putz, até
que enfim encontrei uma aplicação para as elucubrações dos quânticos. Tô
começando a gostar da brincadeira. :-))
> A propósito, ao ler o livro "Questões Epistemológicas" de Hilton
> Japiassu, tomei conhecimento que Albert Einstein, recusando-se a crer
> na liberdade abstrata pregada pelos filósofos, confessou que, desde a
> infância, sua vida foi profundamente marcada por esta máxima de
> Schopenhauer: "Sem dúvida, o homem pode fazer o que quer, MAS NÃO
> PODE QUERER O QUE QUER."
Sim, pois quando ele faz (ação) ele já não mais quer (pensamento). E quando
ele volta a querer (descolapso --> novo pensar) ele não mais está a fazer.
> Expus aqui meus pensamentos. Aguardo com impaciência a crítica dos
> companheiros. Peço apenas que não se fixem em picuinhas (provocação,
> pirraça). Afinal, não estamos aqui para medir conhecimentos ("eu sou
> o fodão e tu és o fodido"), mas para trocar idéias e compartilhar
> dúvidas. Digo isso porque tenho observado uma degeneração do diálogo
> nesta lista.
Espero que não considere meus comentários como degenerativos, ainda que
exista um certo humor nas entrelinhas, mas não tem nada a ver com o seu
texto. Quanto às idéias apresentadas, ainda que floreadas por algumas
coincidências sob certo aspectos engraçadas, procurei expor com seriedade o
que penso frente a um assunto que não domino. Mas sob esse aspecto procuro
ser popperiano: "Se não tivesse havido uma torre de Babel, teríamos tido de
construir uma."
> Para ser o melhor não basta estar com a razão: é preciso
> respeitar o interlocutor, por mais humilde e insensato que ele seja
> ou pareça ser. Aliás, desconfio muito de quem deseja demonstrar para
> todo mundo que é o melhor.
Assino embaixo.
Em tempo: Conheci hoje o
Journal of Memetics -
Evolutionary Models of Information Transmission
http://www.cpm.mmu.ac.uk/jom-emit/overview.html
e talvez seja de interesse para os que gostam do tema.
[ ]'s
Alberto
http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/indice.htm