Reportagem extraída da Veja de 5 de dezembro de 2007 (edição 2037)
Ciências
Padrão medieval
Estudantes brasileiros dão vexame em novo ranking da OCDE. Eles
ignoram atéo fato de a Terra girar em torno do Sol
Marcos Todeschini
Um novo ranking internacional sobre o ensino de ciências mostra um cenário
nada animador para o Brasil. Mais de 400 000 estudantes, matriculados em
escolas públicas e particulares de 57 países, responderam a uma prova de
conhecimentos científicos básicos – e os brasileiros aparecem em destaque
negativo no grupo dos piores. Mais precisamente na 52ª colocação* (veja
quadro abaixo <http://veja.abril.com.br/051207/p_158.shtml#quadro>).* Esse
fato não chega a surpreender. As avaliações para aferir o nível do ensino no
Brasil reafirmam a péssima qualidade geral. Na comparação com os outros
países as deficiências da educação brasileira parecem ainda mais
constrangedoras. A mais abrangente dessas avaliações internacionais é
justamente feita pela -OCDE (organização que reúne países da Europa e os
Estados Unidos), responsável pelo atual ranking de ciências. Há sete anos a
-OCDE testa os estudantes em leitura, matemática e ciências. O Brasil ocupa
invariavelmente as últimas colocações. No ranking anterior de ciências, de
2003, o país havia ficado em penúltimo lugar. Nada mudou de lá para cá. No
fim do ensino fundamental, os alunos continuam a ignorar a função dos órgãos
do corpo humano, encaram com espanto o fato de a Terra girar em torno do
Sol, desconhecem o que seja a camada de ozônio e são incapazes de definir a
expressão "água potável".
O resultado decepcionante dos estudantes brasileiros em ciências não é
exatamente uma surpresa. Um conjunto objetivo de indicadores ajuda a
explicar a situação. O mais espantoso deles veio à tona em um levantamento
recente do Ministério da Educação (MEC) e diz respeito aos professores. Além
de pouco preparados para o exercício da profissão, como todos os outros, 70%
dos professores de ciências de escolas públicas ainda carecem de uma
especialização na área. Isso mesmo: eles ensinam a matéria sem sequer ter
estudado para isso. Outro problema grave é a escassez de laboratórios de
ciências nas escolas. Apenas 20% delas dispõem de um. Esse é um limitador
para os alunos estabelecerem a necessária relação entre a teoria e a sua
aplicação no mundo real.
Como resultado, os jovens ingressam nas faculdades de ciências com
deficiências típicas dos primeiros anos do ensino fundamental – e costumam
sair for-mados sem ter progredido o suficiente na matéria. A realidade, não
há dúvida, compromete a produção científica do país. O Brasil responde por
apenas 0,2% dos pedidos internacionais de patentes e está em 43º lugar em um
ranking mundial de desenvolvimento tecnológico. Isso numa lista de 72
países. Resume Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp,
o órgão de apoio à pesquisa em São Paulo: "Milhões de pessoas com uma base
científica tão sofrível certamente representam um obstáculo para o avanço
tecnológico no Brasil". O ranking da -OCDE chamou atenção para o desastre em
2003 e nada foi feito para mudar o quadro. O novo alerta da semana passada
vai também passar despercebido?
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]