*A química da história* ** Dupla de cientistas franceses recria saga
da civilização inspirada em moléculas orgânicas
Rafael Garcia escreve para o caderno "Mais!" da "Folha de SP":
Muita gente que se interessa por história, sociologia e ciências humanas não
guarda boas lembranças dos tempos de vestibular, quando tinha de assistir a
aulas de química orgânica.
Os velhos modelos com bolinhas de plástico representando átomos de carbono,
oxigênio e hidrogênio são freqüentemente associados a um conhecimento
descartável.
Regras de nomenclatura que produziam expressões como "acetato de éter
monobutílico de dietilenoglicol" aborreceram muitos estudantes e muitas
vezes foram ensinadas fora de contexto.
Aqueles poucos que tomaram gosto pela matéria, porém, hoje se perguntam como
o vestibular conseguiu tornar tediosa e distante uma ciência exata que, na
verdade, tem uma relação tão direta com a história. Aquilo que a escola não
costuma fazer pela difusão da ciência, contudo, pode à vezes ser compensado
pelos livros.
É o caso de "Os Botões de Napoleão", dos franceses Penny Le Couteur e Jay
Burreson, recém lançado em português.
Os autores, uma professora e um químico industrial, optaram por cumprir essa
missão abrindo mão de escrever uma história da química em favor de uma
"química da história".
O título do livro é uma referência a como o conhecimento sobre coisas
aparentemente insignificantes (ou a falta dele) pode mudar o curso da
história.
Em 1812, o exército de Napoleão sofreu uma derrota acachapante para os
russos, em grande parte por não estar preparado para enfrentar o inverno
eslavo. Uma teoria controversa para explicar seu fracasso culpava os botões
de estanho dos uniformes dos soldados franceses.
Como a estrutura desse metal se decompõe em temperaturas baixas, os botões
acabavam se esfarelando, abrindo os casacos e deixando os soldados
vulneráveis ao frio.
Esse exemplo específico não se encontra no campo da química orgânica –
aquela que os autores se dispõem a apresentar no livro – mas se encaixa na
proposta:
"A idéia de que eventos de extrema importância podem ter dependido de algo
tão pequeno quanto moléculas proporciona uma nova abordagem à compreensão do
avanço da civilização humana".
Le Couteur e Burreson dividem a obra em 17 capítulos, cada um inspirado em
uma classe de moléculas orgânicas.
Ao tratar dos compostos nitrados usados em explosivos, por exemplo, o livro
expõe o pano de fundo químico para a corrida tecnológica que alimentou
guerras durante 700 anos.
Usando a história como contexto, os autores explicam desde a composição
química da pólvora, usada em armas pala primeira vez em 1325, até a
descoberta do trinitrotolueno (TNT), no início do século 20.
Na Primeira Guerra Mundial, os alemães já usavam munição à base de TNT e
levaram grande vantagem sobre franceses e ingleses.
Isso até os americanos criarem métodos para produção em massa da molécula e
poderem suprir seus aliados com a mesma tecnologia.
Ficaram relegadas ao campo da imaginação as especulações sobre o que teria
acontecido se a Alemanha tivesse mantido exclusividade sobre o TNT até o fim
da guerra.
A idéia de causalidade no estilo "efeito borboleta" é explorada pelos
autores até o final do livro, mas as vezes incorre em afirmações um pouco
exageradas, como a de que os holandeses cederam Manhattan aos ingleses "por
causa da química".
Em 1667, a Holanda abdicou da ilha em troca do controle do comércio de
noz-moscada no Sudeste Asiático, mas só no século 20 é que foi isolada a
molécula do isoeugenol, que confere à especiaria a maioria de suas
características cobiçadas.
Em outros relatos no livro, porém, a ciência foi de fato determinante. Não é
um exagero dizer, por exemplo, que a molécula da penicilina revolucionou a
medicina e a história, salvando líderes políticos de infecções e recuperando
feridos de guerra para a batalha.
O mérito mais destacável no trabalho de Le Couteur e Burreson, por fim, é o
de não varrer detalhes estruturais para baixo do tapete na hora de oferecer
explicações.
É comum hoje ver livros de divulgação científica esconderem qualquer coisa
que lembre matemática ou geometria, para não espantar leitores. Muitas
vezes, porém, a ciência em si também acaba ocultada no processo.
Coerentes com sua proposta, os autores incluem no livro ilustrações da
estrutura de todas as moléculas citadas: "Pensamos que a compreensão delas
dá vida à trama de relações que une química e história".
Os Botões de Napoleão
Autores: Penny Le Couteur e Jay Burreson
Tradução: Maria Luiza X. Borges
Editora: Jorge Zahar
Quanto: R$ 46,00 (344 págs.)
(Folha de SP, 2/7)
[As partes desta mensagem que não continham texto foram removidas]