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ciencialist · Ciência

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Re: [ciencialist] Teorias Realistas Atuais   Lista de mensagens  
Responder Mensagem #4563 de 82243 |
-----Mensagem Original-----
De: "Roberto Belisario"
Para: <ciencialist@egroups.com>
Enviada em: Domingo, 16 de Abril de 2000 13:10
Assunto: Re: [ciencialist] Teorias Realistas Atuais

> OK, você está certo. Em nenhum momento você citou aquele par de
> variáveis, desculpe-me pela "calúnia" :).

Bem, também não foi assim :). Sua estranheza faz sentido. Nem sempre, em
meus textos, consigo deixar os receptores em sintonia comigo, o emissor.
Aliás, esta é uma das desvantagens daqueles que procuram colocar a
matemática num segundo plano pois o simbolismo matemático, conquanto limite
o número de receptores, axiomatiza conceitos de maneira a deixar-nos livres
de cometermos erros elementares. Costumo dizer que muitos físicos
(observação pessoal) efetuam uma integração sem saberem o que estão fazendo
e, não obstante, chegam ao resultado correto. Eu, muitas vezes, me vejo indo
à raiz do problema e acabo chegando, não raramente, a um resultado
incorreto. Talvez resida aqui uma das diferenças entre um artigo publicado e
um artigo oferecido como convite a um diálogo. O primeiro é apresentado como
uma idéia acabada, pelo menos num sentido temporo-espacial e a esgotar o que
neste tempo e neste espaço passa pela cabeça do autor; o segundo transmite
quase sempre uma idéia inacabada e sujeita a reformulações, até mesmo, e
quase sempre, pelo próprio autor.

> Mas analisemos de novo: "Assumi como par conjugado posição e momento
> angular clássico." Mas a posição é conjugada ao momento linear, e o
> momento angular é conjugado à posição angular (ângulo de rotação) - vide
> as relações que citei do Schiff. Sobre a posição linear e o momento
> angular, podemos, sim, determinar seus valores simultaneamente com a
> precisão que quisermos, sem ferir o princípio da incerteza, porque essas
> duas variáveis não constituem um par conjugado.

Creio que assumi simplificações conceituais apoiadas no critério analógico,
uma ferramenta útil quando conhecemos bem os objetos a serem comparados mas,
com freqüência, não se justifica por si só. Na realidade, relaciona-se ao
"raciocínio intuitivo", a ser complementado pela "compreensão física" do
fenömeno estudado. Não obstante, e como já me referi, essa intuição, quando
científica, via de regra tras uma lógica intrínseca. O que em hipótese
alguma justifica os erros cometidos por conta da confiança excessiva na
intuição. Mas a ciência é assim e ela também evolui a custa de erros. [Olhe
a seqüência de mudanças de posição a retratarem o diálogo "meu comigo mesmo"
:). Isto é dialética.]

No caso exposto confiei na analogia entre a mecânica translacional (em
particular do corpúsculo puntiforme) com a mecânica das rotações (do corpo
rígido). No primeiro caso temos posição (x, y, z) e momento mv, e foram
estes que assumi como básicos para o construto analógico. No segundo caso
temos o momento angular (a comportar a velocidade angular) e o eixo que
estou considerando como referencial desta medida, a retratar a posição
angular e que, na analogia indicada, pela semelhança de equações, ocuparia o
lugar da posição. Seria então uma analogia com embasamento matemático, porém
com menor conteúdo físico. Fisicamente falando o processo é um pouco mais
complexo pois num caso estou efetuando considerações válidas para um
corpúsculo puntiforme e, no outro, para um corpo rígido.

Começo a entender melhor, a partir de suas críticas, não a sua estranheza
para com minhas idéias, mas "a minha" estranheza para com os fenômenos que
temos discutido e pela forma como são costumeiramente interpretados, ou
então para com a mecânica quântica, ou para com a teoria de Maxwell. E até
mesmo a porquê, por mais que tente, não consigo ser entendido pela maioria
dos físicos num argumento que, conquanto possa estar errado, tem uma lógica
que considero perfeita. E começo a entender como e porquê cometi certos
erros em meu texto original (1986) bem como na atualização que fiz
recentemente (abr/2000) e na msg anterior desta thread.

O fulcro da questão, porém, permanece o mesmo. Diria, ao reformular meus
argumentos, que a experiência EPR supõe a simplificação "partícula
puntiforme". Mas um ponto não tem dimensão, podendo ser pensado como dotado
apenas de momento linear e posição. A versão de Bell assume como similar a
essa "partícula puntiforme", os férmions da mecânica quântica. Mas estes
somente podem ser pensados como "partículas puntiformes" (na física
clássica) se desprezarmos, como teria sido feito pela matemática quântica,
alguma coisa relativa a alguma possível dimensão que eventualmente possam
ter. Assim, se essas partículas forem essencialmente clássicas e dotadas de
giro, e portanto não puntiformes, algum artifício matemático deveria ser
construído para esconder esta característica sem, no entanto,
descaracterizar efeitos observáveis e decorrentes deste giro; e este
artifício nada mais foi do que dotá-la do "spin" quântico.

A coisa seria simples se eu estivesse meramente retratando uma possível
falácia na mecânica quântica. Porém, a idéia de que o elétron pode ser
pensado como uma "partícula puntiforme" está embutida no eletromagnetismo de
Maxwell!!! Com efeito, o elétromagnetismo assume como certa a característica
coulombiana de um elétron, como se o elétron fosse uma carga elétrica. Mas e
se não for? E se o elétron não gerar na realidade um campo coulombiano? E se
ele não se portar como uma carga coulombiana quando colocado num campo
elétrico, o que é assumido implicitamente no postulado 1 de Bohr da mecânica
quântica primitiva? E que certamente foi incorporado, por algum artifício
matemático, na física quântica atual?

Dirá você que as experiências de Thomson e Millikan confirmam o elétron como
uma partícula coulombiana mas eu diria que as experiências a retratarem o
"spin", por ex. Stern e Gerlach, analisadas classicamente, falseiam esta
idéia de elétron puntiforme e coulombiano. Mas aí você irá me dizer que
estas experiência falseiam, sim, a teoria de Maxwell mas não a física
quântica, e ficamos andando em círculo!!! Pois o que justifica a existência
da física quântica é o fato de, em seus primórdios, a teoria de Maxwell ter
se mostrado inconsistente com fenômenos relacionados ao microcosmo, qual
seja, o comportamento do elétron na constituição do átomo. Se a teoria de
Maxwell não tivesse sido falseada, a teoria quântica não teria sua razão de
existir. Porém se a física de Maxwell for colocada em seu devido
lugar (eletrodinãmica de fluidos ou de partículas puntiformes, supostos
elementos de volume sofisticados), a física quântica também perde o seu
caráter de única saída viável, restando-nos apenas o seu caráter ilógico a
apoiar-se no seu desafio ao senso comum e a fazer previsões que qualquer
algoritmo sofisticado poderia fazer com a mesma facilidade.

> Desta forma, continuo com a dúvida:

Sinto ter ampliado o questionamento e multiplicado os possíveis fatores a
gerarem dúvidas. Vou deixar de lado, à luz dos novos fatos apresentados,
algumas considerações sobre se Bell estava ou não assumindo o argumento
válido. Se quiser, poderei rediscutir o problema com a finalidade de
corrigir possíveis falácias que tenha cometido. Creio que no momento
trata-se de um questionamento secundário e que poderá ser revisto a qualquer
tempo sem prejudicar as demais conclusões.

> > Sentido de giro
> > "mais" a direção do eixo "juntos" constituem apenas uma das variáveis.
>
> Mas não é isso que você disse depois: "Assumi como par conjugado
> posição e momento angular clássico." Sentido de giro+direção do eixo não
> constituem nenhuma dessas duas variáveis (ou sim?). Além disso, sentido de
> giro+direção do eixo não define completamente o movimento do elétron,
> mesmo no referencial da partícula, porque falta a velocidade de rotação
> (ou, alternativamente, o momento angular, que, no caso do elétron, é
> expresso pelo número quântico 1/2, o que define um momento angular de spin
> de h/4pi. Porém, no fim do parágrafo você citou o momento angular, do que
> decorre que devo ter cometido algum erro de interpretação).

Realmente, cometi mais um erro que, conforme relatei acima, resultou da
confiança excessiva da intuição na comparação analógica de fenômenos
distintos. Não me dei conta de que estava assumindo um elétron clássico não
puntiforme e aceitando uma analogia com o movimento linear de uma partícula
puntiforme. Também cometi o erro de confiar excessivamente em meus conceitos
relativos a dinâmica dos corpos rígidos, já perdidos no tempo, e não me
preocupei em revisar a literatura básica a respeito (um livro didático seria
o suficiente), com o que facilmente teria me dado conta da situação e
apresentado o tema como estou tentando fazer agora.

> Além disso, devo tecer uma ressalva quanto à escolha do referencial da
> partícula. O estado físico da partícula é descrito, em Física Quântica,
> por uma função de onda. Esta função de onda relaciona-se com as
> probabilidades,,,

Tudo o que você afirma neste parágrafo cortado é verdadeiro do ponto de
vista quântico e faz sentido no sentido de contrapor-se ao que mencionei na
última msg. Creio que critiquei a física quântica sob um ponto de vista um
pouco ingênuo, porém apoiado em argumentos outros que não chegaram a ser
descritos.

> Eu também não li o artigo do Bell na fonte. Nem o do Aspect. Mas eu
> sugiro que leia - toda vez em que eu escrevo algo a ser publicado, procuro
> ler todas os artigos que cito, mesmo que seja trechos do Principia de
> Newton, porque, em geral, o que dizem em segunda mão é assaz diferente da
> idéia original do cara.

Concordo plenamente e, independentemente de publicar ou não o resultado de
minhas "meditações transcendentais", procuro quase sempre ir à fonte. Não
obstante, "na prática do dia-a-dia", um exagero nesta atitude iria contra o
meu popperianismo (aprender pelo diálogo). :), ainda que possa dizer que
estaria "dialogando" com os livros e artigos.

> > Não sei até que ponto essa dicotomização faz sentido para a física
> > quântica se não como algo a embutir em si o princípio da incerteza, mas
> > não teria sentido algum para a física clássica, onde seria de se esperar
> > um leque de possibilidades e não apenas duas (e esse leque é que poderia
> > ser suspeitado pela lei de Malus).

> Presumo que você diga que a dicotomização - que eu chamaria de
> quantização - da polarização do fóton embuta o Princípio da Incerteza por
> uma analogia com o caso do spin. Se assim for, meu contra-argumento é o
> mesmo do caso do spin.

E o meu é, agora, o mesmo do caso da consideração do elétron como uma
partícula puntiforme. Concordo que para o fóton a coisa complica-se mas
consigo enxergar também um caráter corpuscular para a luz e a me ajudar, se
não como fato real, como método mnemônico a ser utilizado na compreensão de
alguns dos aparentes absurdos relativos a sua natureza dual (dualidade esta
também compartilhada pelo elétron). Digo que complica-se pois posso dizer
classicamente que o elétron gera um campo mas o fóton parece fazer parte
deste campo ou, pelo menos, e talvez mais corretamente, de suas modificações
no decorrer do tempo. Enfim, a imagem analógica, relacionada à polarização,
está exposta na figura em anexo.

Perdoem-me se cometi algum pecado ao introduzir uma figura na msg, mas ela é
pequena e creio que se fazia necessária para o entendimento de minha
analogia, ainda que utilizada como método mnemônico.

> (Essa analogia teria, porém, alguns problemas
> conceituais, por exemplo, relativos ao que vem a ser o referencial do
> fóton - já que não há sistemas inerciais em repouso em relação a um fóton
> no vácuo).

Parece-me que aqui teríamos que considerar aspectos relativísticos. Não sei
se vale a pena adentrar por esse terreno agora mas, se o nosso diálogo
continuar, certamente esse momento chegará.

> Só se pode entender a lei de Malus se supusermos que a luz é
> uma onda transversal, e que portanto possui estados de polarização. O que
> a Física Clássica não explica é a interação entre a luz e o polarizador,
> que envolveria a Física do Estado Sólido, só explicável através da Física
> Quântica.

Eu diria a "luz ondulatória". Se pensarmos na luz não ondulatória mas
"alguma outra coisa" passível de ser explicada pela física clássica
(corpuscular "ou não"), talvez pudéssemos deixar a física quântica de lado
na
explicação da lei de Malus.

> Uma vez ignorada esta parte e suposto que um polarizador bloqueia
> totalmente a componente do campo elétrico da luz perpendicular ao seu eixo
> de polarização - e deixa passar inteiramente a outra componente,
> paralela -, a lei de Malus fica explicada: a componente que ele deixa
> passar é proporcional ao cosseno do ângulo (por geometria e aceitando-se o
> princípio da superposição). A intensidade da luz é proporcional ao
> quadrado do campo elétrico, e portanto proporcional ao quadrado do
> cosseno.

A explicação é, sem dúvida, bastante interessante.

> Quanto ao texto para o Fábio Chalub:
> (...) achei curiosa aquela menção dos cientistas te procurarem por
> partirem do princípio que cientistas de países sem tradição científica
> estão menos sujeitos ao dogmatismo...

Realmente é curiosa. Não me pareceu tratar-se de uma conduta preconceituosa
e não me lembro de que estivessem implicitamente se referindo ao nosso
subdesenvolvimento. Lembro-me, sim, de que eles estavam julgando-me um
privilegiado por ser um teorizador vivendo num país de menor tradição
científica do que os seus. Qualquer dia reverei estas msgs que são já
incontáveis.

Por outro lado, com respeito ao dogmatismo, recebi uma vez comentários de um
físico argentino a elogiar nossa postura na aceitação da teoria da
relatividade bem como na visão crítica dos físicos brasileiros. Não sei o
que ele estaria tentando dizer quanto a visão dos físicos argentinos e nem
sobre a aceitação ou não da teoria da relatividade em seu país. Enfim, a
galinha do vizinho sempre bota os maiores ovos.

[ ]'s
Alberto
http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/indice.htm


Seg, 17 de Abr de 2000 12:56 am

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... De: "Roberto Belisario" Para: <ciencialist@egroups.com> Enviada em: Domingo, 16 de Abril de 2000 13:10 Assunto: Re: [ciencialist] Teorias Realistas Atuais ...
Alberto Mesquita Filho
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17 de Abr de 2000
1:04 am
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