> Quando disse que esse negócio de o tempo não existir era muito
> 'newtoniano', quis dizer que, como na física newtoniana, espaco e tempo
> são imutaveis, e como nao temos nenhum controle sobre o tempo, realmente
> podemos passar a imaginar que o tempo apenas é uma abstração nossa para
> compreendermos o mundo.
Olá, Eduardo.
Relendo a minha msg percebo que fui um tanto quanto azedo com você. A
verdade é que eu não aguento mais ouvir absurdos que jamais foram ditos
por Newton. Uma coisa que poucos sabem (e deveriam saber, pois foi
amplamente comentado por ele) é que Newton reconhecia que sua teoria era
incompleta. E quando digo que uma teoria é incompleta, estou me referindo a
seus alicerces e não a suas aplicações.
Nos séculos que se seguiram nada se fez para completar a teoria newtoniana.
O que se fez, então, foi a sua axiomatização, ou seja, deram por consumada
uma teoria incompleta em suas origens. Com o advento do eletromagnetismo,
"não deu outra": A teoria começou a se mostrar inconsistente exatamente onde
Newton, com sua visão de excelente teorizador que era, previu que tal
poderia acontecer. Assim, em sua Óptica III, legou-nos inúmeras perguntas,
afirmando "não dispor de tempo para verificar experimentalmente as
respostas". Mas respondeu quase todas e a evolução da física, "ao dar no que
deu" ao final do século passado (XIX), demonstrou que ele estava certo. Vale
a pena ler na Óptica III (e também nos Principia) coisas que jamais foram
comentadas nas escolas:
1) A ação dos corpos sobre a luz à distância, inclinando os raios (questão 1
original, Óptica III);
2) a curvatura da luz "antes" da refração, algo que jamais seria explicado
por uma teoria ondulatória da luz (questão 4);
3) a existência de "vibrações" propagadas entre a luz e os corpos (na
realidade campos de forças a orientarem os raios de luz) (questão 17) e a
demonstrar que Newton jamais admitiu uma propagação instantânea para a luz,
ou seja, com velocidade infinita e a demonstrar também que Newton jamais
supôs que a duração deste processo pudesse ser desprezada (e
conseqüentemente, para Newton o tempo existia, sim);
4) Nas questões 18 a 24 faz considerações sobre o meio em que se propagam as
"vibrações" descritas anteriormente (para alguns, o éter, para Newton, o
espaço absoluto, ainda que faça considerações a respeito desse suposto
éter);
5) Nas questões 25 a 28 faz considerações sobre propriedades estranhas
apresentadas pelos raios de luz e hoje chamadas polarização, dicroísmo e
dupla refração. Na questão 26 fala sobre os "lados" dos raios de luz, como
que a assumir a existência de algo muito semelhante ao que no século XX foi
incorporado às teorias que falam sobre "spin" (naturalmente estou me
referindo a "spin" de bósons, relacionado à polarização da luz).
6) Na questão 28 propõe possíveis explicações para o que hoje chamamos leis
da difração, assumindo que a curvatura dos raios de luz "não é em direção à
sombra, mas a partir da sombra". As interpretações das leis da difração,
como as concebemos hoje, e que foram fundamentais para a "construção" da
física quântica, não levam em conta esta direção da inflexão. Conclui a
questão 28 rejeitando o éter e reforçando a idéia (já comentada em outros de
seus escritos) de uma causa para a gravidade que não a existência pura e
simples da matéria. Obviamente, está tentando demonstrar a compatibilidade
entre as "vibrações" dos corpos, capazes de "curvar a luz" com os campos de
força conhecidos até então.
7) Na questão 29 não apenas reforça o comentado a respeito às "vibrações"
mas também deixa claro que não está a fazer "conjecturas" a respeito. Apoia
suas conclusões em experiências efetivamente realizadas. E conclui por um
parentesco entre a natureza destas "vibrações" com a "virtude magnética",
novamente referindo-se aos "lados da luz", conceito este intimamente
relacionado ao que chamamos hoje polarização e/ou "spin".
8) Na questão 30 deixa antever que acreditava na natureza material da luz
(luz corpuscular). É importante perceber que aquilo que hoje concebemos como
luz não retrata apenas esta natureza corpuscular mas também as "vibrações"
trocadas entre os corpos e a luz (aí reside, muito provavelmente, o mistério
da dualidade). Obviamente, esta dualidade newtoniana é totalmente diversa da
dualidade da física moderna.
9) Na questão 31 questiona a origem dos campos de força conhecidos na época,
relacionando-os com as propriedades inerentes aos raios de luz e comentadas
nas questões anteriores.
10) Newton conclui a questão 31 deixando claro que sua "mecânica" (notem que
trata-se de uma obra sobre Óptica) está incompleta: "E, portanto, não tenho
escrúpulos em propor os princípios de movimento acima mencionados, sendo
eles de uma extensão muito geral, e deixar suas causas serem descobertas."
Reproduzi acima pequenos detalhes relativos "à lógica suprema, apresentada
por todos aqueles que realmente fizeram contribuições importantes em
ciência; e, desgraçadamente, criticada, ou mesmo ridicularizada, por todos
aqueles que em nome da ciência e, com recursos advindos da ciência, de tudo
fazem para escravizar aqueles que não tiveram a felicidade de conhecer a
autêntica ciência" (esse trecho extraí de um trabalho que escrevi há tempos
atrás).
.
> Só que, com aparecimento de teorias mais complexas, como a da
> relatividade, o tempo deixou de ser absoluto. Passou a ele tambem depender
> do referencial. A unica coisa absoluta passou a ser a velocidade da luz.
Bem lembrado. É importante realçar que Einstein nada mais fez do que
substituir um absolutismo por outro. E tanto ele sabia disso que não gostava
de chamar sua teoria por "teoria da relatividade", posto ser uma teoria tão
absolutista, ou mais, do que aquela que, pretensamente, viria a substituir.
> Quero aproveitar para lembrar que ciencia nada mais é do que um 'mecanismo
> de teste'. Não existem verdades absolutas.
Com efeito. O cientista é aquele que procura pela verdade, mesmo sabendo
que, provavelmente, jamais irá encontrá-la. Alguns julgam-se donos da
verdade mas dificilmente consigo enxergá-los como cientistas.
> Uma teoria só é boa enquanto os
> dados experimentais comprovam esta teoria.
Concordo. E é por acreditar nessa idéia que defendo a física newtoniana e
refuto a física moderna.
> A física newtoniana foi tida como
> perfeita enquanto os cientistas não encontraram fenomenos que ela não
> conseguisse explicar.
Há controvérsias a respeito. No século passado os cientistas não conseguiram
explicar determinados desvios da órbita dos planetas utilizando a física
clássica. Não me consta que houvesse alguém na época disposto a refutar a
física clássica. Os mais ousados começaram a procurar por novos planetas no
sistema solar a explicarem os desvios encontrados. Obviamente, até que os
novos planetas fossem encontrados, os físicos estavam em apuros pois, até
então, tudo se passava como se estivessem aceitando hipóteses "ad hoc".
Hoje em dia a aceitação de hipóteses "ad hoc" não atormenta mais os
físicos, posto que cria-se uma ou mais hipóteses "ad hoc" para cada
experiência que vá contra a física quântica ou a teoria da relatividade, e
ninguém procura verificar se são hipóteses com ou sem fundamento lógico.
Lembro que a física quântica é aceita por seus defensores como uma teoria
completa. Logo, qualquer hipótese a ser acrescentada será, sem dúvida, uma
hipótese "ad hoc". Por outro lado, e como Bohr deixou claro, qualquer
tentativa de se acrescentar novas hipóteses fundamentais à teoria terá como
conseqûência sua despersonalização total. Isto não acontece com a física
newtoniana, o que também foi deixado claro pelo próprio Newton.
> Quando estes fenomenos começaram a ser estudados,
> ficou claro que eram necessários outras teorias, que a englobassem como um
> 'caso especial'.
Isto nem sempre é verdadeiro. Essa história de que uma teoria sempre engloba
a anterior é "papo furado" de físico medíocre. Aqueles que se julgam donos
da verdade não querem admitir que um dia poderão ser suplantados. Criam
então uma fantasia a dizer que as asneiras que hoje aceitam como verdades,
serão casos particulares de uma verdade maior.
Há dez anos existia, em biologia, cinco teorias a explicarem a fosforilação
oxidativa. Apenas uma, ou talvez nenhuma, poderia ser verdadeira, e nenhuma
destas era caso particular de qualquer das demais. Na década de 70, em
medicina, existiam 19 teorias destinadas a explicar a eclâmpsia (doença
hipertensiva relacionada com a gravidez) e sabia-se que pelo menos 18 eram
incorretas.
Ora, como pode uma física que tem por limite a velocidade da luz (absoluta,
no caso) reduzir-se a outra física que, em teoria, admite velocidades
superiores à da luz? Por outro lado, a física clássica "não newtoniana"
somente seria um caso particular da teoria da relatividade de Einstein em
condições de velocidade nula. Até chegarmos na velocidade nula haverá sempre
um fator de erro, por menor que seja; e ao chegarmos na velocidade nula o
que chamamos mecânica reduz-se à estática e o limite deixa de ter
importância teórica.
Poderíamos, quando muito, dizer que na PRÁTICA as duas teorias fazem
previsões e que, ao reduzirmos a velocidade de um hipotético objeto
considerado, estas previsões aproximam-se da identidade, tal e qual no
limite matemático. Mas isso não é o mesmo que dizer que uma TEORIA é um caso
especial da outra, mesmo porque os princípios em que se apoia a teoria da
relatividade são os mesmos independentemente da velocidade do objeto
considerado. Ou seja, os princípios em que se apoia a física clássica não
são casos limites dos princípios em que se apoia a física moderna, ainda que
as mensurações deles decorrentes possam, em alguns casos, se identificar. Em
resumo, uma TEORIA não é um caso limite da outra.
> Sobre a mecanica quantica. ...
> Enquanto ela explicar a verdade, ela vai ser verdade :)
Gostaria muito de saber qual(is) é(são) essa(s) verdade(s). Há dez anos
atrás o "teletransporte" teria sido considerado uma prova evidencial a
derrubar a física quântica; há dois anos começaram a chamá-lo por
"teletransporte quântico" e hoje já há quem diga que representa uma das
maravilhosas previsões da física quântica. Não existe na história das
ciências uma única teoria tão supreprotegida quanto a física quântica. Não
existe na história das ciências uma única teoria a comportar tantas
hipóteses "ad hoc" quanto a física quantica. Se isso é explicar a verdade,
então não sei o que seria essa verdade.
> Posso estar sendo muito 'romantico' ou ingenuo pensando assim.
O romantismo faz bem à ciência, desde que não se confunda alhos com bugalhos
e/ou saiba-se separar o jôio do trigo. Quanto à ingenuidade, todos nós somos
mais ou menos ingênuos e, para tal, o tempo é o melhor remédio.
> Bem, fisicos
> da lista, me mostrem que estou errado. Não é uma bravata... quero aprender
> :)
Como, no sentido estrito do termo, não sou físico, faço minhas as suas
palavras :)
[ ]'s
Alberto
http://www.geocities.com/CapeCanaveral/Lab/9378/indice.htm