Encaminho este texto escrito por Denir.
talvez finalize o assunto.
lindo o texto!
To: Transporte_Ativo@ yahoogrupos. com.br
From: denir_mmiranda@ yahoo.com. br
Date: Fri, 23 Jan 2009 13:10:40 -0200
Subject: [Transporte_ Ativo] Márcia, mulher e morte
Não conhecia a Márcia. Mas em mim fez eco a dor dos meus amigos conhecidos (Thiago, João, André, William) e desconhecidos, com seus desabafos nos blogs.
E fui ler a história da Márcia. Ela faz jus ao nome!! Márcia deriva do latim Martes, deus romano da guerra. Márcia, guerreira.
Enquanto há cheiro de mandrágora no ar, duas coisas aparecem: a morte em si e as circunstâncias da morte.
A morte é a nossa condição de ser no mundo, é o que dá fundamento e sentido à vida.
Já o assassinato é outra coisa. Quero falar pouco da causa da morte da Márcia. Em muitas manifestações eu li o ódio. Sinceramente não acho que motoristas saem de casa com a intenção de matar o próximo ciclista que encontrar. Dividir o mundo entre o mal e o bem apenas facilita NOSSA visão e ação, mas não vai mudar nada. Se mantivermos os punhos fechados, como vamos estender a mão para os motoristas saírem do buraco que eles próprios se colocam (ou que são jogados??) Com punhos fechados, como abriremos a mão para pegar ferramentas para construir um mundo novo?
Tenho raiva sim, e muita, porque em nosso país o crime não terá castigo. Intencional ou não, "doloso ou culposo", o motorista PRECISA pagar pelo que fez. Se não tinha intenção de matar, deveria antes de tudo ter a INTENÇÃO DE PROTEGER. Cuidar do outro. Sobretudo por ser um motorista profissional - como a Márcia, acho que os motoristas de ônibus, de táxi e motoboys são os piores.
Mas clamar por vingança, ou acirrar o ódio contra os "motorizados" somente joga enxofre na fogueira, que levanta um fumaceiro e cega os olhos.
Também jogar a culpa no Estado é perda de tempo. O Estado é burro e inepto. Ele só existe para se retro-alimentar. E os servidores/funcioná rios públicos são, no geral, a mais pura expressão do "trabalho alienado" descrito por Marx. Esperar mudanças vindas do Estado e prefeituras é plantar um campo de sepulturas.
talvez finalize o assunto.
lindo o texto!
Felippe César Santana
Associação CICLO URBANO
http://blogciclourbano.blogspot.com
(79) 9199-2992
To: Transporte_Ativo@ yahoogrupos. com.br
From: denir_mmiranda@ yahoo.com. br
Date: Fri, 23 Jan 2009 13:10:40 -0200
Subject: [Transporte_ Ativo] Márcia, mulher e morte
Nunca gostei das mandrágoras porque elas têm o poder de materializar os nossos medos mais profundos. E um grande medo que tenho é receber notícia de algum cicloativista morto atropelado. Pois somos muitos, em muitas cidades, e por enquanto jogamos no time dos perdedores (mas este jogo vai mudar!).
Voltei das férias e vi blogs e listas um enorme jardim de mandrágoras.. .
Não conhecia a Márcia. Mas em mim fez eco a dor dos meus amigos conhecidos (Thiago, João, André, William) e desconhecidos, com seus desabafos nos blogs.
E fui ler a história da Márcia. Ela faz jus ao nome!! Márcia deriva do latim Martes, deus romano da guerra. Márcia, guerreira.
Enquanto há cheiro de mandrágora no ar, duas coisas aparecem: a morte em si e as circunstâncias da morte.
A morte é a nossa condição de ser no mundo, é o que dá fundamento e sentido à vida.
Já o assassinato é outra coisa. Quero falar pouco da causa da morte da Márcia. Em muitas manifestações eu li o ódio. Sinceramente não acho que motoristas saem de casa com a intenção de matar o próximo ciclista que encontrar. Dividir o mundo entre o mal e o bem apenas facilita NOSSA visão e ação, mas não vai mudar nada. Se mantivermos os punhos fechados, como vamos estender a mão para os motoristas saírem do buraco que eles próprios se colocam (ou que são jogados??) Com punhos fechados, como abriremos a mão para pegar ferramentas para construir um mundo novo?
Tenho raiva sim, e muita, porque em nosso país o crime não terá castigo. Intencional ou não, "doloso ou culposo", o motorista PRECISA pagar pelo que fez. Se não tinha intenção de matar, deveria antes de tudo ter a INTENÇÃO DE PROTEGER. Cuidar do outro. Sobretudo por ser um motorista profissional - como a Márcia, acho que os motoristas de ônibus, de táxi e motoboys são os piores.
Mas clamar por vingança, ou acirrar o ódio contra os "motorizados" somente joga enxofre na fogueira, que levanta um fumaceiro e cega os olhos.
Também jogar a culpa no Estado é perda de tempo. O Estado é burro e inepto. Ele só existe para se retro-alimentar. E os servidores/funcioná rios públicos são, no geral, a mais pura expressão do "trabalho alienado" descrito por Marx. Esperar mudanças vindas do Estado e prefeituras é plantar um campo de sepulturas.
Para sublimar meu medo e minha raiva, quero ver a Márcia como guerreira que tomba no campo de batalha.
Saber que foi uma MULHER a primeira cicloativista morta atropelada também mexe lá no fundo da alma. Porque a mulher é quem traz a vida ao mundo. Elas são cíclicas, nutrizes, como a natureza. Mãe natureza - e não pai natureza!!
Lembrei agora dos rituais de sacrifício, maias, incas e pré-cristãs, onde moças eram mortas como símbolo de devolução da fecundidade à Terra, para que as próximas colheitas fossem boas. Aos nossos olhos ocidentais isto é uma barbárie sem fim, mas aquelas culturas giravam em torno do Sagrado Feminino. A vida (mulher) e a morte tecendo o futuro. As sociedades se uniam e se fortificavam em torno destes rituais.
Lembrei agora dos rituais de sacrifício, maias, incas e pré-cristãs, onde moças eram mortas como símbolo de devolução da fecundidade à Terra, para que as próximas colheitas fossem boas. Aos nossos olhos ocidentais isto é uma barbárie sem fim, mas aquelas culturas giravam em torno do Sagrado Feminino. A vida (mulher) e a morte tecendo o futuro. As sociedades se uniam e se fortificavam em torno destes rituais.
Claro que não quero a cada outono presenciar uma morte para nos unir e fortificar.. . As mortes no trânsito são uma das mais crueis manifestações do quanto nossa sociedade é fraca, desunida e fragmentada.
Não conheci a Márcia, mas com certeza ela não ia querer que o medo e o ódio tomassem conta de nós. Que a morte dela seja um marco, que o sangue dela caia de nossos olhos sempre e, em vez de abalados, saiamos fortes, para que mortes como a dela um dia não mais aconteçam, nunca!
Denir
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