Boletim do Ceao
Eventos
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Troféu Zeferina
IIº Seminário: Mulheres de Ontem, Hoje e Sempre
Embora existam poucos dados e estudos a respeito da presença da mulher
na história do Brasil, sabe-se que, em várias circunstâncias, mulheres
negras e indígenas se rebelaram contra a violência do regime
escravocrata. Zeferina foi uma dessas mulheres negras pouco conhecidas
e não devidamente lembradas. Ela foi uma negra que lutou no ano de
1826, à frente do Quilombo do Urubu, área abrangendo extensas matas,
mangues e rios, estendendo-se da região hoje denominada Parque de São
Bartolomeu até o atual bairro do Cabula. A exemplo de tantas outras
mulheres negras, seu nome tem sido mantido no anonimato.
A partir do século XX, as mulheres têm reivindicado, cada vez mais, a
sua participação na sociedade. Todavia, reconhecemos que é ainda
tímida a sua inclusão em espaços de decisões políticas. Isto porque,
no âmbito geral, não se conseguiu reverter a situação de desigualdade
entre homens e mulheres. Muitas das ações políticas femininas são
anônimas ou permanecem restritas às suas comunidades de origem. São
algumas dessas ações que o troféu Zeferina visa contemplar.
Assim sendo, o Centro de Estudos Afro Indígenas Americanas (CEPAIA) e
o Centro de Estudos Euclydes da Cunha (CEEC), levando em consideração
o compromisso assumido pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) de
promover a aproximação entre a Universidade e a comunidade em geral,
propõem a 2ª edição do Seminário: Mulheres de Ontem, Hoje e Sempre.
Programação
A partir de 05.03 até 31.03 de 2007: Exposição de telas
Temática: Beleza, Força e Religiosidade de Mulheres Negras e Indígenas.
Expositor : Gigante Negro.
Coquetel de abertura: às 18 horas do dia 05 de março de 2007.
Dia 28.03.2007.
De 18h às 20h - Painel: A mulher e suas conquistas históricas.
Profª. Me Vilma Reis e Profª. Drª Leliana de Sousa
Às 20h15 – Lançamento do Livro: Mulher Negra na Bahia do século XIX
Autora: Profª. Me. Cecília Soares/UEFS
Coquetel
Dia 29.03.2007.
Das 18h até 20h - Depoimentos de mulheres negras e indígenas.
Às 20h - Entrega do Troféu Zeferina.
Às 21h - Encerramento do Seminário/ Apresentação do Grupo Cultural:
Samba Chula e Ritual Indígena – Fulni-ô – Karirixocó.
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Sobre o Troféu Zeferina:
O Troféu Zeferina foi instituído pelo Centro de Estudos das Populações
Afro e Indígenas Americanas (CEPAIA) no ano de 2006 com o objetivo de
dar visibilidade e homenagear mulheres negras ou indígenas que se
destacam ou se destacaram pelos serviços prestados em sua comunidade
no Estado da Bahia.
As inscrições estarão abertas a partir do dia 01 de Fevereiro, e vão
até o dia 15 de Março 2007. Dia 16 de Março será publicado o nome das
Mulheres Escolhidas. As fichas de inscrição deverão ser encaminhadas
ao CEPAIA – Troféu Zeferina, Largo do Carmo, nº. 04, Centro Histórico.
CEP 40301-400, Salvador – BA.
Veja o regulamento no site.
http://bmcpm.vilabol.uol.com.br/Index.html
Obs:. Antes das inscrições, favor consulte o regulamento.
E-MAIL: cepaiauneb@...
Boletim do Ceao
Destaques
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China faz nova investida na África
Segunda visita do presidente em menos de um ano reforça interesse
estratégico do país no continente
Viagem por oito países terá sua parada mais polêmica no Sudão, onde a
China é acusada de omissão sobre crimes de parceiro comercial
DA REDAÇÃO
Menos de um ano após sua última visita ao continente, o presidente da
China, Hu Jintao, começou ontem por Camarões uma nova viagem pela
África. É a mais nova investida na estratégia de Pequim de reforçar o
elo econômico com a região mais pobre do mundo, em busca de recursos
naturais e parcerias comerciais.
Hu passará por oito países africanos, mas a parada mais polêmica será
a que fará no Sudão, cujo governo é acusado de responsabilidade em
crimes contra a humanidade cometidos na região de Darfur, e de onde
Pequim extrai grande parte do petróleo que consome.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Liu
Jianchao, disse que a nova turnê de Hu é "mais um grande movimento
diplomático" em direção ao continente, pouco mais de dois meses após a
realização, em Pequim, de uma cúpula de países africanos.
Na ocasião, o governo chinês concedeu US$ 5 bilhões em empréstimos ao
continente, numa tentativa de mostrar que seu crescente envolvimento
na África vai além do interesse nos recursos energéticos necessários
para sustentar a expansão de sua economia, que em 2006 registrou o
impressionante índice de 10,7% de crescimento.
Ao que parece, a visita iniciada ontem por Hu tem o mesmo objetivo: o
embarque do presidente foi antecedido pelo anúncio de que Pequim
concederá US$ 3 bilhões em créditos preferenciais ao continente nos
próximos três anos, e dobrará o volume de ajuda e dos empréstimos sem
cobrança de juros no mesmo período.
Parceria incondicional
O anúncio chama a atenção para outro ponto polêmico das aquecidas
relações entre a China e a África: a assinatura de parcerias e a
concessão de empréstimos sem levar em conta certas condições políticas
impostas por países do Ocidente.
Em sua atual aproximação com a África, iniciada em 2004, a China tem
sido alvo freqüente de críticas de governos e grupos humanitários,
principalmente dos EUA e da Europa, de que encoraja a corrupção e
abusos de regimes do continente ao firmar parcerias sem exigir o
respeito a direitos humanos.
Em 2006 o comércio entre a China e a África atingiu US$ 55,5 bilhões,
um salto de 40% em relação ao ano anterior. No mesmo período, seu
investimento direto no continente somou US$ 6,6 bilhões.
Ao anunciar os números, a agência de notícias oficial chinesa, Xinhua,
destacou que tal investimento "impulsionou o desenvolvimento econômico
nos países africanos e aumentou as oportunidades de emprego no
continente", observando que a China terminou 2006 com um déficit
comercial de US$ 2,1 bilhões com a África.
O roteiro de Hu inclui Camarões, Sudão, Namíbia, África do Sul,
Seychelles, Libéria, Zâmbia e Moçambique.
O momento mais politicamente tenso da missão se dará no sábado, quando
Hu chegar ao Sudão. Grupos humanitários acusam o governo de Pequim de
omissão em relação à crise de Darfur, no sul do país. O governo de
Cartum é acusado de conivência em massacres, nos quais mais de 200 mil
pessoas já foram mortas em quatro anos de conflito.
Em comunicado oficial, a Chancelaria chinesa manifestou esperança de
que a crise de Darfur possa ser resolvida "por meio de negociações
políticas". Uma das principais críticas à posição chinesa é de que seu
veto no Conselho de Segurança da ONU tem impedido uma ação concreta
para pressionar o governo sudanês.
Com agências internacionais
Ação chinesa no continente tem efeitos ambíguos, afirma especialista
americano
MARCELO NINIO
DA REDAÇÃO
Os africanos têm motivos para festa ou preocupação com a agressiva
investida chinesa em seu continente? Os dois, afirma Kenneth
Lieberthal, da Universidade de Michigan (EUA). Para o especialista em
comércio internacional, que foi diretor do departamento de Ásia do
Conselho de Segurança Nacional no governo Bill Clinton (1993-2001), há
grande risco de que o capital injetado por Pequim só beneficie os
regimes corruptos da região. Leia trechos da entrevista concedida à
Folha, por telefone.
FOLHA - Os africanos devem ficar preocupados ou festejar a investida
chinesa no continente?
KENETH LIEBERTHAL - Os dois. A questão é de quais africanos estamos
falando. Para os líderes africanos, o crescente envolvimento da China
no continente é um desdobramento bem-vindo. Os chineses adquirem
recursos naturais e concedem empréstimos sem impor condições,
introduzem capacidades para o desenvolvimento de infra-estrutura e
puxam para cima os preços dos produtos que os africanos têm para
vender. Mas as elites desses países são bastante corruptas e acabam se
beneficiando desse fluxo de liquidez. Para os cidadãos desses países,
o panorama é mais ambíguo. Também há o receio de que os fabricantes
chineses de produtos manufaturados básicos sejam simplesmente
competitivos demais para seus parceiros africanos. E na extração de
recursos naturais as normas trabalhistas e ambientais chinesas deixam
muito a desejar.
FOLHA - O investimento chinês não pode ser a solução para o desemprego?
LIEBERTHAL - Quando os chineses fazem obras de infra-estrutura eles
trazem trabalhadores chineses para fazer o serviço. Portanto, o
envolvimento da China com esses países em geral não gera emprego. E,
se não gerar empregos, a presença chinesa jamais será considerada
benéfica.
FOLHA - E o resto do mundo, como deveria ver essa investida?
LIEBERTHAL - O principal tema é relacionado ao Banco Mundial. Os
empréstimos chineses são competitivos com os concedidos pelo banco,
mas chegam sem condições. Isso diminui a influência e a eficácia do
banco na África. As condições impostas pelo banco tentam garantir, nem
sempre com sucesso, que sejam respeitados o meio ambiente e os
direitos humanos.
FOLHA - Em que medida a relação da China com o Sudão pode colocar a
China em rota de colisão com os EUA e outras potências?
LIEBERTHAL - Nesta viagem será dada muita atenção à forma com que o
presidente Hu se comporta no Sudão. Os chineses sempre repetem o
princípio de que não interferem nos assuntos domésticos de outros
países. Minha previsão é de que Hu pedirá, de forma discreta uma
colaboração maior do Sudão com a ONU. Se a pergunta é se os Estados
Unidos imporão sanções ou algo parecido, a resposta é não. O assunto
não é tão central para os EUA.
Folha de São Paulo, quarta-feira, 31 de janeiro de 2007
Boletim do Ceao
Empregos
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Oportunidade!
Você é funcionário da UFBA e quer integrar uma equipe
nova e dinâmica, em ambiente internacional e recheado
de desafios intelectuais? Pois venha trabalhar
conosco!
É nossa política envolver os funcionários nas
atividades acadêmicas e culturais que realizamos.
Assim seu local de trabalho será também um ambiente de
formação e crescimento intelectual! Junte-se a nós do
Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e
Africanos. Procuramos uma pessoa que seja do quadro
técnico-administrativo da UFBA, dinâmica, atuante e de
preferência que tenha experiência em secretarias de
Pós para integrar nossa equipe.
O local de trabalho não poderia ser melhor: CEAO,
Largo Dois de Julho.
Maiores informações:
Prof. Livio Sansone
Coordenador.
sansone@... / 33226813 e 91259569
Boletim do Ceao
Destaques
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Análise/Carnaval e história
A Beija-Flor mente sobre a África
LEANDRO NARLOCH
ESPECIAL PARA A FOLHA
Homenagear a África está na moda. Louvar reis africanos, como provou a
Beija-Flor neste Carnaval, rende graves notas 10 na Quarta-Feira de
Cinzas. Mesmo que, para isso, seja preciso mudar a história, calar os
historiadores e contar velhas mentiras politicamente corretas sobre a
escravidão.
A África foi tema de três escolas do Grupo Especial do Rio neste ano.
Todas -Porto da Pedra, Beija-Flor e Salgueiro- ocultaram verdades que
doem.
Nos enredos, os africanos são sempre os heróis libertadores que
contrariam uma ordem opressora. Os brancos fazem o papel de Odete
Roitman do caso -os vilões que pela força oprimiram o continente.
Uma escola menor, a Unidos de Cosmos, chegou ao preconceito às avessas
com o samba-enredo "Sou Cosmos 100% Negro, da Abolição aos Dias
Atuais". E o samba-enredo campeão, "África: do Berço Real à Corte
Brasiliana", canta assim: "Oh! Majestade negra, Oh! Mãe da liberdade,
África: o baobá da vida Ilê Ifé, Áfricas: realidade e realeza, axé".
Será que entendi direito? Estariam os autores do samba chamando a
África de "mãe da liberdade"? Será que eles não sabem que o tráfico de
escravos começou muito antes de os europeus chegarem lá, que a
escravidão foi extremamente lucrativa para reis africanos e que foram
eles os que mais se debateram contra a abolição?
Eram negros africanos os homens que atacavam povos no interior da
África, capturavam escravos, matavam fugitivos, construíam forquilhas
para prender vários negros pelo pescoço, organizavam caravanas em fila
indiana que duravam meses, marcavam a ferro incandescente as iniciais
do comprador ("acima do umbigo ou sob o seio esquerdo", como descreveu
Pierre Verger) e negociavam preços para os escravos.
Também eram africanos vários colegas de europeus nos navios tumbeiros,
traficantes riquíssimos e até compradores, já que escravos eram
essenciais nas fazendas africanas. Fazendas que, como observa o
historiador Alberto da Costa e Silva, "pertenciam ao rei e aos grandes
do Daomé e se baseavam num tipo de trabalho escravo que pouco diferia
do americano em dureza e crueldade".
Seria essa a "luz que vem do Daomé" que o samba da Beija-Flor
homenageia? Não se trata de preconceito com africanos.
Ao contrário. Preconceito é crer que nações africanas eram tribos
coitadinhas e que não estavam sujeitas, como europeus, aos costumes do
seu tempo.
É bom saber que a Beija-Flor não caiu na vitimologia barata, comum em
letras de rap, e preferiu enaltecer a riqueza da África. Só faltou
dizer a origem dessa riqueza: a escravidão. Por que as escolas de
samba contam apenas metade da história da África? Por que nenhuma
delas homenageia a luz que veio da Inglaterra, sem a qual até hoje os
africanos achariam OK comprar gente?
Em vez disso, a Beija-Flor preferiu louvar reis que traficavam
escravos e que, quando depostos, foram escravizados e mandados ao
Brasil. Aqui, esses reis geraram descendentes. É provável que amanhã,
no desfile da campeã Beija-Flor, eles estejam na Sapucaí louvando
antigos traficantes de escravos e reclamando das maldades cometidas só
pelos... europeus.
O jornalista LEANDRO NARLOCH é editor da revista "Superinteressante"
Folha de São Paulo, sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007
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Réplica
Não é apenas a Beija-Flor: todos mentem sobre a real África
NEI LOPES
ESPECIAL PARA A FOLHA
PEÇO LICENÇA aos leitores para concordar com o artigo do sr. Leandro
Narloch "A Beija-Flor mente sobre a África", publicado na edição da
última sexta-feira da Folha.
Concordo com ele, pois as escolas de samba cariocas, sacrificando a
verdade histórica em benefício do espetáculo, têm fantasiado bastante
a respeito do continente africano, ainda visto como "distante",
"misterioso", "impenetrável" etc., e quase sempre mostrado como um
corpo homogêneo e não como um todo multiétnico e multicultural.
E digo mais: não foi só a Beija-Flor que mentiu. Mentiu a Salgueiro,
quando juntou às candaces de Méroe, cuja experiência se desenvolveu
entre o século 4 a.C. e o primeiro da Era Cristã, figuras femininas
como as de Nefertite e Makeda, a rainha de Sabá, que viveram em épocas
mais remotas, bem como a de Cleópatra, mais grega que negra.
Mentiu a Porto da Pedra quando, cantando a África do Sul, disse que "o
anjo invasor" deu a cor ao país. Mas, com todo o respeito, o sr.
Narloch também mentiu um bocadinho em seu artigo.
Falseou ele a verdade histórica -inclusive sobre a cidade hauçá e
muçulmana de Kano, no norte da atual Nigéria, por ele localizada na
antiga Costa do Ouro- não distinguindo o tráfico de escravos praticado
na África antes da chegada dos europeus, exercido principalmente por
árabes e direcionado para o Oriente e a Europa, com aquele que se
desenvolveu através do Atlântico. E tudo isso usando a velha tática de
colocar na conta dos negro-africanos toda a responsabilidade por esses
tristes eventos.
É certo que tanto o tráfico europeu, pelo vulto econômico que
adquiriu, quanto o tráfico árabe contaram, a partir de um certo
momento, com a efetiva colaboração de africanos de vários segmentos
sociais, desde monarcas a simples transportadores.
Havia, sim, mercados de aldeias que dispensavam os traficantes
estrangeiros das perigosas incursões continente adentro. Mas a
participação africana no tráfico de escravos não diminui a
responsabilidade dos europeus. Foram eles que corromperam soberanos e
súditos, inclusive fornecendo armamentos, para tornar esse tipo de
comércio altamente rentável e tentador.
Entre 1580 e 1680, período em que duraram as chamadas guerras
angolanas, envolvendo, principalmente, Portugal, Holanda e os ambundos
da rainha Nzinga Mbandi, estima-se que cerca de um milhão de cativos
foram vendidos de Angola para as Américas.
Da mesma forma, nas guerras entre axantis e fantis, na atual Gana, no
início do século 19, com participação inglesa; e também nas refregas
entre iorubanos e daomeanos, a partir do século anterior. Todos esses
acontecimentos foram motivadores de migrações forçadas de grandes
contingentes de africanos para as Américas.
Mas a aceitação passiva do tráfico de escravos e a participação nele
não foi, como quis o sr. Narloch mostrar, regra geral entre os
governantes africanos. Na década de 1730, por exemplo, o rei daomeano
Agajá Trudô, entendendo que o tráfico era um obstáculo ao
desenvolvimento de seu país, saqueou e queimou os fortes e armazéns de
escravos e bloqueou o acesso às fontes do interior.
Esse fato deu ensejo a uma retaliação por parte dos europeus,
concretizada por uma espécie de bloqueio econômico, o que fez com que
a atividade se restabelecesse.
Mas, felizmente, está aí, em vigor a lei nº 10.639, instituindo o
ensino obrigatório de história da África e das populações
afro-brasileiras nos currículos de base no Brasil. Com ela,
certamente, teremos, daqui a alguns carnavais, enredos mais
verdadeiros. E comentários também.
NEI LOPES é autor da "Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana" e
do "Dicionário Escolar Afro-Brasileiro"
Folha de São Paulo, quinta-feira, 01 de março de 2007
Boletim do Ceao
Informa
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Estamos cadastrando famílias afro-brasileiras que
tenham interesse em hospedar alunos americanos
provenientes da UVA - Universidade da Virginia,
entre os meses de junho e julho deste ano. As famílias
precisam residir em bairros próximos ao centro da cidade.
Para maiores informações
angelafigueiredo@...
9136-0107
Ângela Figueiredo
Boletim do Ceao
Eventos
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FUNDAÇÃO PALMARES PROMOVE NOS DIAS 5 E 6/2, EM SALVADOR,
MOSTRA DE CINEMA EM HOMENAGEM A LUIZ ORLANDO E ZÓZIMO BULBUL
Para prestar uma homenagear póstuma ao cineclubista baiano Luiz
Orlando da Silva e divulgar os filmes relançados pela Fundação
Cultural Palmares/Minc, a Ong Omi Dùdú realiza em Salvador, nos dias
5 e 6 de fevereiro, a 1a Mostra de Audiovisual Luiz Orlando, com
mesas de debate e exibição de curtas e longas que revelam a
importante contribuição da cultura negra para o cinema nacional.
Entre as obras relançadas pela Fundação está o acervo completo do
cineasta brasileiro Zózimo Bulbul e obras-primas do Cinema Negro da
década de 70, como as produções Compasso de Esfera, de Antunes Filho
(1973) e Na Boca do Mundo, de Antonio Pitanga (1976). Toda a
programação é gratuita e acontecerá na Sala Walter da Silveira, na
Biblioteca Pública do Estado da Bahia (Rua General Labatut, n.º 27 -
Barris).
Participam da 1a Mostra de Audiovisual Luiz Orlando os cineastas
Zózimo Bulbul e Joelzito Araújo, diretor de Negação do Brasil (2001)
e Filhas do Vento (2003); a atriz Léa Garcia( à confirmar), presença
marcante em importantes produções cinematográficas como o Orfeu
Negro, de Marcel Camus (1959), e Orfeu, de Cacá Diegues (1999). Nos
últimos anos Léa Garcia atuou em vários filmes como Filhas do Vento,
Remissão, Mulheres do Brasil e O Maior Amor do Mundo. Também
participam do evento o ex-presidente da Fundação Cultural Palmares,
prof. Ubiratan de Castro Araújo e os/as vencedores/as do Prêmio
Palmares de Comunicação, que selecionou e financiou a produção de
vídeos de jovens realizadores/as. Os vídeos vencedores serão
exibidos na seleção intitulada Novos Destaques do Cinema Negro.
A programação da 1a Mostra de Audiovisual Luiz Orlando também
inclui a colocação de uma placa em homenagem a Luiz Orlando na sala
de projeção de audiovisual da Biblioteca Pública do Estado (Barris)
que recebe, diariamente, centenas de estudantes e pesquisadores para
exibição de filmes.
Em 2006, a Sétima Arte perdeu um dos seus maiores amantes e
defensores. O cineclubista baiano Luiz Orlando da Silva faleceu aos
61 anos, deixando um enorme acervo de produções cinematográficas e o
reconhecimento de todos pelo trabalho de divulgação e valorização do
cinema, em especial, da participação negra na arte cinematográfica.
No mesmo ano, a Fundação Cultural Palmares, órgão vinculado ao
Ministério da Cultura, resgatou dois importantes trechos da presença
negra no cinema: relançou o acervo completo do cineasta Zózimo
Bulbul e obras-primas do Cinema Negro da década de 70.
PROGRAMAÇÃO DA 1ª MOSTRA DE AUDIOVISUAL LUIZ ORLANDO
05 de fevereiro 2007
14 horas – Abertura
14h15 – Inicio das exibições
Obras de Zózimo em Debate
1.ALMA NO OLHO (1973)
Um estudo sobre a transposição do africano para as Américas.
Duração – 11 min
2.ANICETO DO IMPÉRIO – EM DIA DE ALFORRIA (1981)
A história de um fundador de uma escola de samba e militante do cais
do porto: Ancineto do Império Serrano.
Duração: 11 min
3.PEQUENA ÁFRICA (2002)
Pequena África apresenta a Praça XI, a Central do Brasil, Gamboa,
Saúde e bairro de Santo Cristo de hoje, em que eram conhecidos nos
idos de 1850 até 1920 como "Pequena África", por terem sido locais
habitados por escravos alforriados no período imperial e depois
deste.
Duração: 14 min
4.SAMBA NO TREM (2005)
Documentário sobre a celebração do Dia Nacional do Samba.
Duração: 18 min
Tempo Total: 54 min
15h20 – PROJETO "OBRAS RARAS" - AUTOR E OBRA com Zózimo Bulbul
Exibição do filme "Referências" (38 min) com participação de Zózimo
Bulbul
16 horas – Bate papo sobre os filmes de Zózimo
17 horas – Sessão Obras Raras
VIDA NOVA POR ACASO – episódio do Filme Um é pouco, Dois é bom.
Direção de Odilon Lopes, 1970
Duração: 48 min
19 horas – Mesa Oficial da Mostra Luiz Orlando
Tema: "O Cinema Negro – Referências e Trajetórias"
CONVIDADOS
Zózimo Bulbul (cineasta);
Joel Zito Araújo (cineasta e diretor de Filhas do vento);
Lea Garcia (Atriz) – a confirmar
Lílian Santiago – SP (Vencedora do prêmio Palmares de Comunicação);
Paulo Rogério Nunes – BA (Vencedor do prêmio Palmares de
Comunicação);
Ubiratan de Castro Araújo - (ex-presidente da Fundação Cultural
Palmares/ Minc) e atual presidente da Fundação Pedro Calmon/BA))
Mediadora: Ruth Pinheiro (CAD - RJ)
20h30 – Homenagem a Luiz Orlando
20h45 – Encerramento do 1º dia da mostra
21 horas – Coquetel
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06 de fevereiro de 2007
9 horas - Homenagem a Luiz Orlando Biblioteca Pública dos Barris
10 horas - Exibições das obras do Prêmio Palmares de Comunicação –
Novos destaques do Cinema Negro
1.Kamba Racê
Sionei Ricardo Leão
Duração - 20 min
2.Sob o Signo da Justiça
Carlos Henrique Romão de Siqueira e Ernesto Ignácio de Carvalho
Duração - 20min
3.Rosário do Seridó
Edson Soares do Nascimento
Duração - 16 min
4.Makota Valdina
Ana Verena Carvalho, Jociléia Rodrigues Ribeiro e Paulo Rogério
Nunes
Duração - 20 minutos.
5.Yalode: Damas da Sociedade
José Pedro da Silva Neto e Maria Emília Coelho
Duração - 16 minutos
6.Balé de pé no Chão
Lílian Sola Santiago e Marianna Monteiro
Duração - 52 minutos
Tempo Total: 144 min
13h30 - Sessão Obras Raras
1.Compasso de Esfera – 1973
direção de Antunes Filho
Duração - 94 min
15h15min - Sessão Obras Raras
2.Na Boca do Mundo – 1976
direção de Antonio Pitanga
Duração - 106 min
17h15min - Sessão Obras Raras
3.A Deusa Negra – 1978
direção de Ola Bologun
Duração - 96 min
19h15min – Filhas do Vento
Direção: Joel Zito Araújo
Duração: 90 min
Contatos
Assessoria de Comunicação
André Santana (71) 8873.7047
Ceres Santos- Reg. 6156 DRT/RS (71) 9989.7243
Produção
Ilka Danusa (71) 9121.4902 / 9119.5804
Omi Dudu Artes (71) 3334.2948
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Cursos
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CURSO DE EXTENSÃO
Iniciativas Negras - Trocando Experiências
Juazeiro do Norte, Ceará
26 de junho a 5 de julho de 2007
OBJETIVO GERAL::
- Formar e capacitar teórica, tecnicamente e de forma interdisciplinar
estudiosos e ativistas dos movimentos sociais que atuam na área do
combate ao racismo, buscando contribuir para a instrumentalização de
agentes sociais que atuem ou venham a atuar em projetos de intervenção
ou a desenvolver pesquisas nesta área.
FORMATO
Mini-cursos, painéis, oficinas, grupos de estudos, mesas redondas,
vídeos e turismo cultural.
ALGUNS TEMAS QUE SERÃO ABORDADOS:
Direitos humanos - Gênero – Saúde - Redação de projetos - Captação de
recursos –
Ação Afirmativa – História e cultura Afro-Brasileira – Arquivo
documental – Sexualidade.
BOLSISTAS:
Serão selecionados – por uma banca - até 21 participantes no
território nacional e residentes fora das cidades de Juazeiro do
Norte, Crato e Barbalha incluídos nas seguintes categorias:
6 Bolsistas integrais :
Apenas para residentes no Norte e Nordeste
- Passagem paga pelo curso
- Hospedagem paga pelo curso
- Alimentação paga pelo curso
- Bolsa de R$ 100,00.
5 Bolsistas parciais :
Para residentes em qualquer ponto do país
- Passagem por conta própria
- Hospedagem paga pelo curso
- Alimentação paga pelo curso
- Bolsa de R$ 100,00.
10 Bolsistas semi- parciais :
Para residentes em qualquer ponto do país.
- Passagem por conta própria
- Hospedagem paga pelo curso
- Alimentação paga pelo curso
- Não inclui bolsa
Cada candidato optará por uma das categorias e não poderá mudá-la, uma
vez enviada a documentação.
DOCUMENTAÇÃO A SER ENVIADA:
Curriculum vitae (com telefones residencial e comercial, fax, e-mail,
etc.). / Uma carta de recomendação. / Uma lauda expressando suas
expectativas quanto ao curso de extensão Iniciativas Negras - Trocando
Experiências definindo a categoria à qual está concorrendo (bolsista
integral, parcial ou semi parcial) / Uma síntese (duas laudas) de
algum trabalho que tenha desenvolvido ou esteja desenvolvendo na área
das relações raciais.
RECOMENDAÇÕES:
Os (as) candidatos (as) deverão ser integrantes de entidades que
desenvolvam programas na área das relações raciais; comprovar atuação
como ativistas dos movimentos sociais negros / (e / ou) ser estudante
e demonstrar interesse em desenvolver pesquisas na área das relações
raciais./ Uma comissão fará a seleção com base na documentação
apresentada e suas decisões serão definitivas. / Será considerada a
data de postagem no correio./ Não aceitaremos nenhum documento por fax
ou e-mail / Enviar a documentação para o endereço abaixo./ As pessoas
que não forem selecionadas poderão participar do curso desde que se
responsabilizem por suas próprias despesas e hospedagem. / A UFC não
se obriga a disponibilizar (venda ou doação), para o público, as
publicações e outros materiais distribuídos aos bolsistas / As pessoas
selecionadas deverão participar integralmente de todas as atividades
constantes do programa do curso de extensão.
Coordenação Geral: Prof. Dra. Joselina da Silva
Coordenação Executiva: Prof. Pós Dr. Modesto Leite Rolim Neto e Prof.
Esp. Ariluce Góes Elliott
Coordenação Cultural: Prof. Ms. Francisca Pereira dos santos e Prof.
Esp. Maria Cleide Rodrigues Bernardino.
Organização:
- Núcleo Brasileiro, Latino Americano e Caribenho de estudos em
Relações Raciais, Gênero e Movimentos Sociais.
- Núcleo Transdisciplinar de pesquisa e estudos em narratividade,
memória e identidades plurais. Curso de biblioteconomia.
Universidade Federal do Ceará. Campus Cariri .
Av. Castelo Branco 150. Pirajá. Cep. 63030 – 200
Juazeiro do Norte, Ceará.
Tel. (88) 3571-1755
E-mail: joselinajo@...
Aberto a tod@s.
Entrada franca.
Boletim do Ceao
Dica cultural
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Overmix BraSA
Crie, remixe, compartilhe e concorra de quebra a uma viagem para se
apresentar em um festival da África do Sul.
O Overmix BraSA é o primeiro concurso musical de remixes no Brasil
totalmente baseado em obras licenciadas em Creative Commons. Isso
significa que você pode usar todos os sons disponíveis no site,
misturá-los entre si ou com outras criações suas e disponibilizar ao
público. Sem precisar pedir autorização ao autor: a autorização já
está dada!
Além disso, o Overmix BraSA busca uma integração cultural entre as
culturas brasileira e sul-africana.
O objetivo do concurso é duplo. Por um lado, ele utiliza a idéia da
web colaborativa para promover o uso, a multiplicação e a divulgação
de obras livres, licenciadas em Creative Commons. Participando do
concurso, você terá a oportunidade de compor com pessoas de todo
Brasil e da África do Sul, sem nem mesmo ter encontrado com elas.
Como funciona?
É simples! Primeiro, você navega pelos nossos samples e vocais, ouve o
que tem disponível, se inspira, e compõe um remix a partir deles. Além
de ter de utilizar alguns samples do Overmixter, que são obrigatórios
(veja mais detalhes no regulamento), você pode opcionalmente
mesclá-los com obras de sua autoria ou outras obras licenciadas em
Creative Commons.
Para inscrever o remix você precisa criar um perfil no Overmundo (se
ainda não tiver criado) e fazer o upload do arquivo na área indicada
através deste link. Você deve utilizar ao menos um sample do banco de
samples do concurso BraSA, e inscrever seu remix até 31 de janeiro de 07.
Tendo seguido as instruções para envio do arquivo, o próximo passo é
aguardar o resultado.
Quem escolhe os vencedores?
Ninguém melhor do que o próprio público para dizer se gosta ou não do
seu remix. Assim, a primeira seleção é feita através dos votos e da
avaliação do público no Overmixter. Os dez remixes mais bem avaliados
passarão para a segunda fase. Em seguida, o Overmixter convida gente
do mundo da música para escolher o vencedor.
Legal, mas o que eu ganho com isso?
Cada categoria tem um prêmio específico.
Na categoria BraSA, o prêmio consistirá em:
a) Uma passagem de ida e volta Rio de Janeiro-Joanesburgo-Rio de
Janeiro para se apresentar em um festival de música na África do Sul;
b) Acomodação, transporte terrestre e alimentação por cinco dias, além
de despesas com visto;
c) Oportunidade de conhecer músicos, produtores e demais membros da
cena musical sul-africana;
d) Apresentação em festival no Brasil, em conjunto com vencedor do
concurso sul-africano.
Na categoria livre, o prêmio consistirá em:
a) Apresentação em festival no Brasil;
b) Ampla divulgação do vencedor nos sites Overmundo, Overmixter,
Cultura Livre e em outros canais de divulgação a que a organização
tiver acesso;
c) Acomodação, transporte e alimentação pelo tempo necessário à
apresentação no evento.
Se tiver qualquer dúvida, dê uma olhada no nosso FAQ ou entre em
contato com a organização do evento através do email
overmixbrasa@...
mais info: http://www.overmundo.com.br/overmixter/brazilza/
Boletim do Ceao
Bolsas
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Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos (Pós-Afro)
(CEAO, FFCH, UFBA)
Bolsas de Pós-Doutorado - Prodoc
O Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos, do Centro
de Estudos Afro-Orientais (CEAO) da Universidade Federal da Bahia,
recebe até 30 de abril de 2007 inscrições para a pré-seleção de três
bolsas de pós-doutoramento, segundo os termos do Programa Prodoc da
Capes (ver em http://www.capes.gov.br/bolsas/nopais/prodoc.html ).
Sendo o Pós-Afro um programa multidisciplinar, as/os candidatas/os
podem ser oriundos/as de qualquer das áreas das Ciências Sociais ou
Humanas (i.e. História, Antropologia, Sociologia, Letras, Estudos
Culturais etc.) e devem ter experiência comprovada de pesquisa
(experiência docente, desejável) que se insira, preferencialmente, nas
áreas de Estudos Africanos em geral, de Literatura Africana e
Etnomusicologia. As/os selecionados deverão poder contribuir para o
Programa com atividades docentes que incluem aulas, orientação de
estudantes, organização de seminários de pesquisa, publicações e
outras atividades acadêmicas afins. Exige-se que os candidatos
não-brasileiros tenham visto permanente.
O Pós-Afro vem trabalhando para criar em Salvador um clima
intelectual de reflexão e debate, solidificando e amplificando a
vocação do CEAO como um centro de produção acadêmica e de encontros
com abrangência internacional: América Latina, o mundo Afro-Latino e o
Atlântico Negro. O fortalecimento dos intercâmbios Sul-Sul
(intercâmbios de docentes e conferencistas) em andamento, e que esta
convocatória de Prodoc visa reforçar, tem oferecido sérias ocasiões
tanto em termos de atmosfera intelectual como de infra-estrutura para
o crescimento mais equilibrado dos tradicionais intercâmbios Sul-Norte.
Os projetos de pesquisa a serem apresentados pelas/os candidatas/os
devem enfocar o estudo da história, literatura e culturas em sentido
mais amplo, do continente africano, com ênfase preferencial nas áreas
geográficas envolvidas na história da escravidão atlântica. Isso não
implica num recorte lusófono da África, nem numa abordagem
exclusivamente histórica. Ao contrário, a multidisciplinaridade do
Pós-Afro está pensada para promover a pesquisa comparativa que dê
conta de problemáticas pré-coloniais, coloniais e pós-coloniais
(religiosas, políticas, identitárias, culturais etc.) que amiúde
cruzam fronteiras nacionais e lingüísticas. O Programa privilegiará
nesta pré-seleção projetos que estimulem a interface e o diálogo
interdisciplinar e que destaquem a importância da África – tantas
vezes silenciada – no processo de construção do conhecimento ocidental.
O Pós-Afro partilha da política de inclusão e incentiva membros de
minorias a participarem ativamente desta pré-seleção.
Requisitos
É exigido da/o candidata/o à bolsa do PRODOC atender os seguintes
requisitos:
a) ter obtido o título de doutor/a há, no máximo, 05 (cinco) anos;
b) não ter, preferencialmente, realizado o doutorado na UFBA;
c) não ter vínculo empregatício ou estatutário;
d) não ser aposentado;
e) estar apto a iniciar as atividades tão logo seja aprovado pela Capes;
f) dedicar-se integralmente às atividades do projeto;
g) não ser beneficiário de outra bolsa de qualquer natureza;
h) ter seu currículo atualizado disponível no sistema Lattes
(www.cnpq.br).
- As candidaturas pré-selecionadas serão recomendadas à Capes, a quem
caberá a decisão final.
- Duração: Dois anos, sendo admitida uma renovação por igual período.
- Valor: A bolsa de pós-doutoramento, no valor mensal de R$3.000,00
(três mil reais), será paga pela Capes diretamente ao bolsista.
- O bolsista disporá, ademais, de uma ajuda de custo para ajudar a se
instalar em Salvador, a compra de livros e o custeio da própria pesquisa.
Documentos:
- Copia dos documentos pessoais;
- Carta de apresentação;
- Projeto de pesquisa detalhado (maximo dez paginas);
- Proposta de uma disciplina para alunos de Pós-Graduação (68 h/aula);
- Três cartas de recomendação.
- Os dois artigos/trabalhos publicados que o/a candidato/a considera
mais relevantes dentre a sua produção.
- Cópia em CD-Rom ou impressa da tese de doutorado
Prazo de envio de material: até 30/04/2007 (data da postagem)
Endereço e informações:
Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos
Centro de Estudos Afro Orientais (CEAO)
Largo Dois de Julho, 42 - Salvador - CEP 40060-055
Bahia- Brasil - Fone: 55+71+ 3321-2564
Email: posafro@...
www.posafro.ufba.br
Boletim do Ceao
Dica cultural
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Acompanhe a Polêmica sobre a exposição de fotos Negroamor
e participe do debate no site do projeto:
http://www.salvadornegroamor.org/
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A Tarde, 06/01/2007
Retratos do povo de Salvador
LUCIANO AGUIAR
laguiar@...
Maior capital negra fora da África, Salvador recebe, do dia 8 deste
mês até 16 de fevereiro, uma megaexposição com 1.501 painéis do
fotógrafo Sérgio Guerra, que retrata a beleza da população da cidade.
Além da mostra - com imagens espalhadas por ruas, avenidas, monumentos
e praças -, o projeto intitulado Salvador Negroamor engloba o
lançamento de um CD, um catálogo com as fotos de Guerra e um portal na
internet da Ong homônima. Todos com o objetivo de gerar um movimento
de valorização da cultura afrodescendente.
O lançamento do projeto está marcado para acontecer na próxima
segunda-feira, às 19 horas, no Museu de Arte Moderna da Bahia
(MAM-BA). O mentor do projeto, o fotógrafo, publicitário e produtor
cultural Sérgio Guerra, diz que a idéia é aproximar as diferentes
cidades existentes dentro de Salvador, apartadas pelas diferenças
econômicas e sociais.
"Quem somos? Somos 74% de negros e mestiços. Pergunto à elite: quantos
amigos negros você tem? Quantos estão em casas como a sua? Quantos
trabalham na sua empresa e ocupam funções hierárquicas iguais à sua?
Se você pensar nisso, nessa cidade, verá que ela está muito dividida.
Há que se fazer uma reflexão. É a necessidade do encontro para se
evitar o confronto", diz Guerra.
Segundo o publicitário - que é dono da Maianga Produções, realizadora
do projeto, assim como é presidente da Marketing Link de Angola,
responsável pelo programa de comunicação do governo daquele país -
tudo começou quando ele realizou, no verão do ano passado, a exposição
Lá e Cá, com 400 fotografias que retratavam e relacionavam o Mercado
de São Paulo, em Luanda, Angola, à Feira de São Joaquim, em Salvador.
A mostra aconteceu dentro da própria feira e Guerra teve um contato
intenso com o pessoal de lá. "Ai você sente o quanto a cidade está
dividida. Havia adultos com mais de 40 anos que não conheciam o Farol
da Barra. Existe uma comunidade, na periferia, que faz parte da
sociedade, mas que é quase invisível para a elite.
A idéia da Salvador Negroamor é dar protagonismo a essas pessoas e
mostrar para a cidade que elas estão lá", argumenta Sérgio Guerra.
O projeto Salvador Negroamor compreende diversas ações alinhadas com o
conteúdo do manifesto sobre democracia e valorização da identidade e
representatividade do povo negro, lançado na abertura da mostra Lá e
Cá. A meta é que, a partir de 2009, o movimento culmine na criação de
um fórum mundial africanista permanente, com sedenacapital baiana.
Percepção, negritude e identidade As imagens da exposição Salvador
Negro amor foram selecionadas durante dois meses pelo curador da
mostra, Sérgio Pitta, artista plástico e presidente do Cortejo Afro.
Pitta se debruçou sobre mais de 60 mil fotos feitas por Sérgio Guerra
para fazer a triagem.
Se, por um lado, a exposição busca uma reflexão das elites sobre a
cidade que esta classe desconhece, quer, também, estimular o senso
estético nas pessoas que não têm a oportunidade de ir a galerias de
arte. Dessa forma, em bairros tidos como nobres a mostra deve
apresentar painéis com imagens de moradores afrodescendentes das zonas
menos favorecidas, financeiramente, da cidade. Pessoas no cotidiano,
nas janelas de casa, mostrando que há alegria e atividade em toda a
capital.
"A elite não consegue enxergar, de fato, as pessoas que estão
trabalhando, hoje, em funções de limpeza pública, de segurança,
trabalhando como garçons, zeladores, empregadas domésticas. Elas podem
ser desconhecidas nas áreas nobres da cidade, mas, nas comunidades,
muitas são referência, exemplos de perseverança, atitude, liderança e
honestidade", afirma o fotógrafo.
Em contraposição, na Avenida Suburbana, em Periperi, Paripe, Coutos e
outros bairros da cidade, as imagens devem conduzir à autoestima da
população. Nos terminais de ônibus, como Mussurunga e Lapa, as imagens
serão mais de crianças e famílias: "A estação é um local onde as
pessoas voltam para casa e desejam rever os filhos, a casa e o lar. Já
no bambuzal do Aeroporto, haverá imagens de pais e mães-de-santo, que
expressam a cultura afro".
Pelas dimensões, o evento deve entrar para o Guinness Book como a
maior exposição ao ar livre do mundo. Serão mais de 9.073 m² de arte
em painéis distribuídos por toda a cidade. Os formatos e locais são
variados: outdoors, frontlights e backlights, muros, praças e fachadas
(Luciano Aguiar).
LANÇAMENTO DO PROJETO SALVADOR NEGROAMOR | Seg, 19h | Museu de Arte
Moderna MAM (3117-6130) | Av.
Contorno, s/n, Solar do Unhão
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Entre ijexás e outros toques da Roma Negra Salvador Negro amor Vários
artistas Maianga R$ 25 www.maianga.com.br A festa de lançamento do
projeto Salvador Negroamor conta com a presença de vários artistas,
que participaram do CD homônimo.
Ninha, Virgínia Rodrigues, Jauperi, Claudete Macedo e a banda do
bloco Cortejo Afro são algumas das atrações confirmadas.
O CD, que tem a direção musical de Reinaldo Maia e Alê Siqueira, é
uma coletânea de 12 canções que versam sobre a cultura negra. A
maioria delas compiladas de outros discos.
Participam do álbum artistas como Gilberto Gil, em Luandê (Ederaldo
Gentil e Capinan) e em Life Gods (Mônica Millet, Tavinho Paes e
Arnaldo Brandão).
Nessa última, ele canta ao lado de Marisa Monte. Roberto Mendes e
Maria Bethânia cantam Massemba (R. Mendes e Capinan). A gravação de
Milagres do Povo por seu autor, Caetano Veloso, registrada na trilha
sonora de Tenda dos Milagres, da Globo, também está no disco, assim
como Alegria da Cidade (Lazzo Matumbi e Jorge Portugal), nas vozes de
Lazzo e Virgínia Rodrigues.
O disco passeia por vários ritmos africanos e conta ainda com
artistas como Margareth Menezes, Arnaldo Antunes, Aloísio Menezes e
outros. Dentre asa canções, a música-tema Salvador Negroamor, parceria
de Sérgio Guerra e Péri, na voz do ex-Tincoã Mateus Aleluia.
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A Tarde, 20/01/2007
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Privatização do espaço público
CLÍMACO DIAS
A cidade é um palco de disputas entre classes e grupos sociais. A
apropriação do espaço urbano, seja físico ou simbólico, é uma luta
diuturna entre os grupos, pois as cidades atualmente cumprem o papel
de centro da gestão capitalista de uma forma jamais presenciada na
história, e todas as ações que se pratica na cidade, geralmente, fazem
parte desta disputa, como é o caso da exposição Negroamor.
Li em várias mídias que a exposição tem uma missão importante de
resgatar a auto-estima dos afrodescendentes, porém, em nenhum momento
as fotos fazem referência, por exemplo, ao papel do Ilê Ayê que, desde
1974, mostra orgulhosamente a estética negra nas ruas da cidade.
Não fazem referência ao papel das centenas de candomblés na
valorização desta auto-estima, nem de nenhuma outra manifestação negra
que tivesse contribuído para tal, fazendo parecer que o resgate da
auto-estima do negro começa com a exposição, e, com isso, priva a
auto-estima do negro de Salvador de sua história, dando ao fotógrafo o
bônus de algo que é uma conquista histórica, fruto de lutas
territorializadas e contextualizadas.
Os produtores da exposição, no afã de justificar a ocupação de espaços
públicos por mais de um mês, talvez para que ninguém perguntasse sobre
os custos, exageraram no impacto que esta teria sobre a população
negra. Ora, não creio que espalhar fotos de negros e negras anônimos e
descontextualizados em uma cidade que tem sistema de cotas nas suas
duas Universidades Públicas, que faz concurso de beleza negra, que tem
vários artistas negros de expressão nacional , vá fazer grande
diferença nas conquistas étnicas. O que os afrodescendentes vão ganhar
é muito pouco para a violência da ocupação de tantos espaços por um
único artista.
Na verdade o grande ganhador é o fotógrafo, que, em uma cidade de
centenas de artistas paupérrimos, consegue fazer uma exposição
milionária com tanto dinheiro público.
A exposição é a maior já realizada em espaço aberto no mundo. É assim
que é saudada a mostra pela imprensa, desenvolvendo na população da
cidade um orgulho citadino. A leitura que se pode fazer disto, no
entanto, é o fato inédito de um artista fazer de grande parte do
espaço público de uma metrópole uma galeria para sua exposição individual.
Os ecos desta apropriação não vão se encerrar com o fim da exposição,
eles vão certamente nos incomodar no futuro, pois outros artistas
poderosos vão tentar usar das mesmas prerrogativas da Negroamor.
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Áfricanegroamor
NELSON PRETTO
Dias atrás, Salvador acordou repleta de imagens de nossa gente. Gente
que vemos todos os dias e que passou também a se ver nos postes,
outdoors, feiras, fachadas cegas dos edifícios e pontos de ônibus.
Gentes africanas, daqui e de lá, que circulam pela nossa cidade como
anônimos e que são os invisíveis protagonistas do cotidiano de
Salvador e das cidades da África, hoje e ontem.
Mas essa invasão de imagens, que como um espelho refletem os nossos
rostos e os daqueles que nem mesmo conhecemos, são acompanhadas de
outras, que não ficam no silêncio contemplativo dos baianos e
africanos de nossa salvadornegroamor.
São as imagens da publicidade, que vendem telefones, refrigerantes e a
folia privada do carnaval para uns, justamente os que estarão
protegidos pelas mãos e corpos dos rostos expostos com respeito em
nossas avenidas, nas fotografias de Sérgio Guerra.
Estamos atolados das imagens publicitárias que pipocam por todos os
lados. São Paulo, num ato corajoso do parlamento, proibiu outdoor na
cidade. Uma cidade enorme, com publicidade por todos os lados, não
agüentava mais essa poluição.
Os espaços públicos tornam-se privados e nós privados de ver com mais
sutileza cada esquina, cada avenida, cada canto de nosso horizonte já
tão limitado.
Tudo gira em torno da publicidade que precisa vender seus produtos.
Produtos, aliás, que não param de surgir, inventados pela indústria
que, freneticamente, cria novas necessidades para o cotidiano das pessoas.
No início deste milênio, só nos Estados Unidos foram lançados no
mercado 31.432 novos produ-tos, segundo o professor da Universidade de
Genebra, Christian Marazzi.
A indústria exige que a publicidade fale mais alto. Uma de suas
estratégias é exatamente anunciar mais, cada vez mais, inundando as
cidades e nosso imaginário com as imagens dos produtos que "precisam"
ser consumidos. Imagens que contrastam com as fotos agora espalhadas
por Salvador, as quais "vendem" um mundo de solidariedade,
generosidade, de respeito pelas diferenças e com forte ligação
histórica com as nossas origens.
Origens africanas, de uma cultura que construiu a sua sabedoria longe
da atual lógica do mercado. Fica patente o contraste entre a agressiva
publicidade de produtos comerciais nas ruas de Salvador e a singeleza
dos belos rostos negros expostos.
O escritor moçambicano Mia Couto, no seu belo "O último vôo do
flamingo", resgata a sabedoria dos negros africanos ao construir o
diálogo da prostituta Ana Deusqueira com o italiano que fora enviado
pela ONU à cidade de Tizangara, por ele criada, com o objetivo de
investigar uma série de mortes que por lá ocorriam.
Na conversa dos dois, Ana pergunta ao italiano se ele conhece a
diferença entre o sábio branco e o sábio negro. Antes mesmo de
qualquer fala do estrangeiro, ela mesma afirma: "A sabedoria do sábio
branco mede-se pela rapidez com que responde.
Entre nós, o mais sábio é aquele que mais demora a responder. Alguns
são tão sábios que nunca respondem." Em nossa nossa cidade, inundada
com estardalhaço por tantos discursos, tantas imagens e tantos sons,
talvez, o melhor mesmo seja admirar as imagens de salvadornegroamor em
silêncio e com absoluto respeito!
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A Tarde - Caderno DEZ!
23/01/2007
Modelos de segunda linha
Juliana Cunha
Uma cidade onde artistas morrem de fome amanhece com 1.501 painéis.
São mais de 9.073 m² de fotos impressas em cores que nem o pobre
Criador teve verba para imprimir no arco-íris.
Os suportes, então, um desbunde de outdoors, frontlights, fachadas de
shoppings, praças... Fazem inveja até à Coca-Cola, que teve de
suportar ao lado de seu superbanner na Barra um desses tais banners
de... arte.
É, senhores, estão chamando a parafernália de outdoors de Sérgio
Guerra de arte. Para mim, cada uma dessas fotos é apenas uma
propaganda pessoal de Sérgio Guerra e cospe em néon o seguinte
subtexto: abram alas que eu sou poderoso e vim salvar os pobres negros.
Salvador Negroamor é uma sucessão de absurdos: 1) Chega a ser
desrespeitoso que uma exposição individual tenha tanto dinheiro numa
cidade onde a cultura vive de migalhas. A maior parte, claro, dinheiro
público.
2) Cadê as legendas das fotos? Se até Ivetão tem seu nome em
propaganda de tinta, por que as lideranças negras não mereceram ser
identificadas? Talvez Sérgio Guerra ache que elas são apenas modelos
de segunda linha e só modelos de primeira têm nome na propaganda da
marca.
3) De que século foi transportado alguém que acha que uma exposição
destas serve para "proporcionar deleite às pessoas que não têm a
oportunidade de ir à galerias de arte"? É um raciocínio bem perigoso
esse de "já que o povo não vai à galeria, a gente impõe nossas obras".
Não precisa ter um senso estético muito apurado para saber que outdoor
é uma mídia extremamente violenta. A arte em Salvador [tanto a
permissão para intervenção quanto a maldita grana] não é democrática.
Com os amantes e os amigos certos, você enfia seus cacarecos onde quiser.
Boletim do Ceao
Cursos
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Eletrocooperativa - Processo Seletivo 2007
O Instituto Eletrocooperativa informa que estão abertas as inscrições
para os Cursos de Teoria Musical e de Produção Musical com ênfase em softwares
de edição. Os cursos são gratuitos e destinam-se preferencialmente a jovens
carentes que atendam aos seguintes pré-requisitos:
- faixa etária de 16 a 25 anos
- noções básicas de Informática
- estar desempregado
- 2º grau completo (ou em conclusão)
- disponibilidade para as aulas (2 vezes por semana)
No processo de seleção os candidatos serão avaliados através de
entrevistas, também serão realizados testes práticos e teóricos de
aptidão musical e noções de informática em caráter eliminatório e
classificatório. Este ano são apenas 20 vagas.
Os interessados devem se inscrever através do telefone 3321-7051 até o
dia 22 de janeiro, 17hrs. A seleção será realizada no dia 23 de
janeiro (terça-feira) na sede da instituição, Rua João de Deus, nº34 –
Pelourinho (enfrente ao Ipac)
Mais informações no site: http://www.eletrocooperativa.art.br/
Ou através do e-mail: jaqueline@...
Boletim do Ceao
Eventos
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Diretor do IPAC lança livro sobre temas afro-brasileiros
O antropólogo Julio Braga, Diretor Geral do IPAC, lança no próximo dia
20, às 18h, na Galeria Solar Ferrão, o livro Candomblé, Tradição e
Mudança, pela Editora P55. O livro tem 144 páginas e se divide em sete
capítulos que abordam temas afro-brasileiros, com ênfase na dinâmica
dos candomblés da Bahia. A Galeria tem endereço na rua Gregório de
Mattos, 45, Pelourinho.
Conforme destaca no prefácio Ana Lucia Valente, o autor retoma a
reflexão dos meandros da pesquisa antropológica sobre essa religião e
sua história, levantando várias questões e mostrando que o candomblé
tem muitas lições a nos dar: Para Braga a pretensão do livro é tentar
uma reflexão inicial sobre Candomblé "apoiada essencialmente na minha
experiência vivida no cotidiano dos terreiros de candomblé da Bahia.
Procuro me situar como gente-de-santo que ausculta seus companheiros e
tenta a inserção da sua fala no discurso interpretativo", explica.
Júlio Braga é mestre em Ciências Humanas, com ênfase em Antropologia
Cultural, pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), doutor em
Antropologia pela Université Nationale de Zaire (Zaire) e tem
pós-doutorado em Antropologia da Religião pela Université des Sciences
de Strasbourg (França).
11/12/2006
Ascom/IPAC
Tel: 3117-6490
Boletim do Ceao
Curso
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CURSO À DISTÂNCIA DE HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRAS
O Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), abriu inscrições para o
Curso à Distância de Formação para o Ensino de História e Cultura
Afro-brasileiras, que podem ser feitas através do site
www.cursoensinoafro.ufba.br O curso, voltado a 600(seiscentos)
professores da rede pública do Estado da Bahia, visa contribuir para
a implementação da Lei 10.639/03, que obriga a inclusão da temática
História e Cultura Afro-brasileiras no currículo escolar. Os
professores terão aulas durante 4(quatro) meses, quando trabalharão
conteúdos relacionados à História da África, História do Negro no
Brasil, Literatura Afro-brasileira e Educação e relações Étnico-
raciais. As inscrições serão encerradas no dia 27 de dezembro e o
início do curso está previsto para o dia 02 de janeiro.
Boletim do Ceao
Eventos
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IXº Alaiandê Xirê: O FOGO QUE FICA
01 a 03 de Dezembro
O Terreiro Bate Folha importante centro da cultura Congo/Angola,
fundado por Tata Manoel Bernardino da Paixão, sob a liderança de
Tateto Eduarlindo e Mãe Guanguacessy completa nove décadas de
existência neste ano.
Realizado há nove anos pela equipe ALAIANDÊ do Ilê Axé Opô Afonjá -
uma das mais tradicionais Casas de Culto aos Orixás do Brasil, o
ALAIANDÊ XIRÊ - Festival Internacional de Alabês, Xicarangomas e
Runtós reúne os melhores músicos sacerdotes: cantores e tocadores de
atabaques da Bahia, do Brasil e, também, de diferentes regiões do
exterior.
Terreiro Mansu Banduquenqué - Bate Folha
Rua São Jorge, 65
Mata Escura
Salvador/BA
Fone: 0 xx 71 3376-2163
+ Informações:
http://www.overmundo.com.br/agenda/ix-alaiande-xire-o-fogo-que-fica-
bate-folha-1
Boletim do Ceao
Eventos
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MOSTRA DE CINEMA AFRICANO E DA DIÁSPORA
LOCAL: CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS
DIA: Terça-feira
HORÁRIO: 18 horas
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21/11
"A negação do Brasil", de Joelzito Araújo
CONVIDADO(A)
Fátima Fróes (Festival Panafricano)
Wlamyra Albuquerque(UEFS)
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28/11
"Você já foi à Bahia, nega?", de Paulo Alcoforado
CONVIDADO(A)
Mahomed Bamba (FTC)
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05/12
"Preto e branco", de Carlos Nader
CONVIDADO(A)
Cláudio Pereira (CEAO/UFBA)
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12/12
"Narciso Rap", de Jeferson De
"Retrato Favela", de Marco Manso Cerqueira Silva
"Bahia de todos os santos", de Gelson Moura
CONVIDADO(A)
Francisco Serafim (UFBA/Jorge Amado)
PARCERIA: Festival de Cinema Pan Africano
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE AÇÕES AFIRMATIVAS PARA A POPULAÇÃO NEGRA NO ENSINO
SUPERIOR / UNIAFRO
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS
POLÍTICAS DE INCLUSÃO SOCIAL NA UFBA: PROGRAMA DE AÇÕES AFIRMATIVAS
Boletim do Ceao
Eventos
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SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO CEPAIA/UNEB
21 a 30 de Novembro 2006
SEMINÁRIO: VOZES NEGRAS NA CONTEMPORANEIDADE DAS AMÉRICAS
22/11 - VOZES NEGRAS NA LITERATURA
16 h – Abertura
Prof. Dr. Vilson Caetano – UNEB - CEPAIA
Mediador: José Carlos Limeira – escritor - UNEB
Profa. Dra. Florentina Silva - UFBA
Prof. Dr. Silvio Roberto de Oliveira – UNEB
Prof. Mestre Jônatas Conceição - UNEB
Mestre Eduardo Henrique de Oliveira – sociólogo, escritor
20 h – Convidado especial – Recital de poetas negros
Coordenação Lande Onawale
23/11 – NEGRITUDE E EDUCAÇÃO NAS AMÉRICAS – DIÁLOGOS E EXPERIÊNCIAS
16 h – Mediador: Prof. Dr. Wilson Mattos - UNEB
Prof. Dr. James Anderson - EUA
Prof. Nelson Maca Gonçalves – UCSAL / BLACKITUDE
Profa. Dra. Rosangela Araújo – Instituto Nzinga
Profa. Dra. Terezinha Gonçalves – UFBA
20 h - Convidado especial: RAP & REPENTE –
Paraíba da Viola, Fúria Consciente
24/11 – HERANÇAS E PRESENÇAS AFRICANAS NA BAHIA
16 h – Mediador: Prof. Dr. Vilson Caetano – UNEB - Cepaia
Profa. Dra. Lourdinha Siqueira - UFBA
Prof. Mestre Valdélio Silva - UNEB
Prof. Dr. Ari Lima – UNEB
Profa. Mestra Cecília Soares - UEFS
20 h – Convidado especial - Samba de Roda de São Braz
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EXPOSIÇÃO COLETIVA: "ARTE NEGRA NA BAHIA" - 21 a 30 /11
Luis Marcelo
Manoelito Damasceno
Gleide Almeida
Djalma Soares
Gene
Mazo
Sérgio Soares
Junior
Gilmar Tavares
21/11 – 17 h
ABERTURA DE EXPOSIÇÃO
Convidado especial: Mateus Aleluia – voz e violão
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OFICINA DE BONECAS NEGRAS DE PANO: 22 a 24/11
14 h a 16 h - Sala de Leitura
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MOSTRA DE FILMES AFRICANOS: 22 a 24/11
às 14 h30 – Auditório do Cepaia
Coordenação: Prof. Dra. Leliana de Sousa
22/11– "La petite vendeuse de soleil" (a pequena vendedora do sol)
Djibril Diop-Mambety
23/11– "Lê Franc" (o franco)
Djibril Diop-Mambety
24/11 – "Pó de Sangui"
Flora Gomes
Boletim do Ceao
Eventos
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Convidamos todos/as para o LANÇAMENTO
da mais nova edição da revista AFRO-ÁSIA.
Dia - 10/11/06 - 18 hs
Local: CEAO - Lgo Dois de Julho
Veja abaixo o conteúdo desta edição!
Visite nosso site: www.afroasia.ufba.br e consulte gratuitamente, e
na íntegra, as edições anteriores.
ARTIGOS
Feitiçaria e modernidade nos Camarões: alguns pensamentos sobre uma
estranha cumplicidade
Peter Geschiere
A controvérsia sobre a Aids na África do Sul: marcas da política de
vida e morte no pós-apartheid
Deborah Posel
A diáspora exorcizada, a etnicidade (re)inventada: historiografia
pós-colonial e políticas da memória sobre o Daomé
Mario Rufer
Pensamento crítico desde a subalteridade: os Estudos Étnicos como
ciências descoloniais ou para a transformação das humanidades e das
ciências sociais no século XXI
Nelson Maldonado-Torres
Os missionários combonianos e a criação de identidades negras no
Equador
Carlos de la Torre
Raça, gênero e relações sexual-afetivas na produção bibliográfica
das Ciências Sociais brasileiras - um diálogo com o tema
Ana Cláudia Lemos Pacheco
Foi conta para todo canto: as religiões afro-brasileiras nas letras
do repertório musical popular brasileiro
Rita Amaral e Vagner Gonçalves da Silva
Domingos Pereira Sodré: um sacerdote africano na Bahia oitocentista
João José Reis
RESENHAS
Uma nova Idade Média saeliana a partir das inscrições árabes da
República do Mali
Jean-Louis Triaud
Sonhando com os Dogon: as origens da etnografia francesa
Maristela Oliveira de Andrade
O Candomblé e o Atlântico Negro
Brian Brazeal
Agogo Èèwò ou a reinvenção da nação nigeriana e seus dirigente
Félix Ayoh'Omidire
Boletim do Ceao
Vagas
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O Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO/UFBA) seleciona, para
trabalho temporário:
TUTORES para acompanhar turmas do Curso à Distância de Formação para
o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira, do Programa
Preparatório para a Promoção da Igualdade Étnico-racial na Educação,
a realizar-se nos meses de dezembro de 2006 a março de 2007.
PERFIL:
- Conhecimento das temáticas: História, Cultura, Literatura e
Educação Étnico-racial
- Familiaridade com a Internet e possuir computador em casa
- Não ser funcionário(a) público(a) federal, estadual ou municipal
FORMAÇÃO ACADÊMICA:
Graduação em Ciências Sociais, História ou outra afim, com
conhecimento das temáticas
ATRIBUIÇÕES:
• Participar das reuniões mensais com a equipe do projeto
• Acompanhar os alunos do curso
• Participar da avaliação dos alunos
LOCAL DE TRABALHO:
Internet e Centro de Estudos Afro-Orientais(CEAO),
Praça General Inocêncio Galvão, 42, Largo Dois de Julho, Centro, CEP
40.060-055, Salvador/BA
DURAÇÃO DO CONTRATO:
4(quatro) meses
FORMA DE PAGAMENTO:
Mensal
SELEÇÃO:
Análise de currículo e entrevista
Os(As) interessados(as) deverão comparecer ao CEAO, portando o
Curriculum Vitae com comprovação de escolaridade e das experiências
profissionais, até o dia 10/11/2006 (sexta-feira).
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS
PROJETO POLÍTICAS DE INCLUSÃO SOCIAL NA UFBA: PROGRAMA DE AÇÕES
AFIRMATIVAS
Boletim do Ceao
Cursos
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Curso de Introdução aos Estudos da(s) arte(s) da África Tradicional
e na diáspora brasileira.
O Museu Afro-Brasileiro do Centro de Estudos Afro-Orientais, da
Universidade Federal da Bahia, promoverá curso de introdução aos
Estudos das artes da África Tradicional e na diáspora brasileira,
com o prof. Dr. Kabengele Munanga, no período de 20 a 24 de novembro
de 2006, das 14:00 às 18:00h, no auditório Alfredo Brito, da
Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus. O curso compõe as
comemorações pela Semana da Consciência Negra e também pelo Ano
Nacional dos Museus.
O professor Kabengele Munanga, natural da República Democrática do
Congo é Professor Titular do Departamento de Antropologia da
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de
São Paulo e vice-diretor do Centro de Estudos Africanos da USP.
O Programa do Curso incluirá conceitos e características das artes
africanas em sua diversidade e unidade, a relação das artes com as
várias dimensões da sociedade, o conceito de "estética africana", as
contribuições da arte africana para a arte do Ocidente e ainda
perspectivas da arte na África contemporânea.
Informações e inscrições:
Museu Afro-Brasileiro. Tel: 33212013 das 14:00 às 18:00.
email: mafro@...
Valor da inscrição:
R$ 45,00 profissionais
R$ 20,00 estudantes
Boletim do Ceao
Bolsas
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BOLSA NO CENTRO DE ESTUDOS AFRO-ORIENTAIS (CEAO)
O Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia
oferece uma bolsa para a coordenação do seu Resource Centre for
South-South Exchanges, apoiado pelo Programa Sephis.
Sephis é um programa de intercâmbio sobre história do
desenvolvimento. Um dos seus objetivos é o fortalecimento de
intercâmbios acadêmicos do eixo Sul-Sul. Sephis é dirigido por um
comitê internacional que tem sua secretaria em Amsterdam e possui
coordenadores em Calcutá, Dakar, Amsterdam e, desde o ano de 2003,
Salvador, através do CEAO. Para maiores informações sobre o Sephis e
o Ceao acesse www.sephis.org e www.ceao.ufba.br .
Perfil do bolsista:
1.Mestre ou Doutorando em História, Antropologia ou disciplinas
correlatas, na área das Ciências Humanas
2. Fluência em Português, Inglês (escrito e falado) e, se possível,
Espanhol e/ou Francês.
3. Capacidade organizacional.
Atividades
Coordenação de várias atividades no campo da pesquisa comparativa
sobre etnicidade, nacionalismo, racialização e desigualdades, e
planejamento internacional de seminários e palestras.
Assistente no projeto de tradução Ceao-Lusofonia e série de
publicação sobre África e Ásia.
Colaboração com os coordenadores do Sephis-Resource Centre em
Calcutá e Dakar tanto quanto com a secretaria do Sephis em Amsterdam
no planejamento e organização de seminários, palestras e atividades
de publicação.
4. Disponibilidade de 30hs semanais.
Duração da bolsa: 24 meses, renovável.
Valor da bolsa: EU600 (Seiscentos euros)
Data-limite da inscrição: 30 de novembro de 2006.
Documentos requeridos:
Curriculum Vitae
Uma carta apresentando o compromisso e as idéias que o(a) candidato
(a) gostaria de desenvolver com essa bolsa. Esta carta deverá
mencionar o nome e o endereço de dois professores que podem fornecer
informações adicionais sobre o perfil do (a) candidato(a).
Se possível, o(a) candidato(a) deve enviar artigos publicados ou um
texto, em torno de 30 páginas, resultante da dissertação de mestrado
ou o projeto de doutorado.
Os previamente selecionados passarão por uma entrevista no Ceao
O coordenador do Sephis-Resource Centre em Salvador-Ba trabalhará
sob a supervisão do Coordenador do Programa Fábrica de Idéias e do
diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais(Ceao).
Informações e inscrições com:
Programa Fábrica de Idéias
Centro de Estudos Afro-Orientais / Universidade Federal da Bahia
Praça Inocênio Galvão, 42 – Largo 2 de Julho
Salvador - BA - Brasil CEP 40060-055
tel e fax 55-71-3226813 cel. 91259569
fabrica@... e sansone@...
www.ceao.ufba.br/fabrica
Boletim do Ceao
Destaques
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Suíça: Congeladas contas do Presidente de Angola e de outros
A José Eduardo dos Santos terão sido bloqueados 100 milhões de
dólares. Esta "operação de limpeza" dos bancos helvéticos começou há
uma década e visa vários líderes - no poder, fora dele ou já
falecidos.
Com 100 milhões de dólares bloqueados, o Presidente de Angola, José
Eduardo dos Santos, é um dos governantes (actuais e antigos) a quem
as autoridades suíças congelaram contas bancárias num processo já
designado "operação de limpeza" no país mais neutral do mundo. A
revelação foi feita pelo diário espanhol El País na sua edição de
ontem, sem dar mais pormenores sobre o caso do líder de Luanda.
Outro dos visados, com o equivalente a 24 milhões de euros
bloqueados esta semana, foi o ex-chefe dos serviços secretos
peruanos Vladimiro Montesinos. Estará assim a ser acelerado um
processo iniciado há uma década de congelamento de contas bancárias
e devolução de dinheiro a países afectados. Até agora, a
Confederação Helvética já restituiu 1546 milhões de dólares (ou 1230
milhões de euros). Estão ainda bloqueados outros 1600 milhões,
acrescentou o jornal madrileno.
Em 1986, a Suíça aprovou uma lei federal sobre branqueamento de
capitais que obriga os bancos e os intermediários financeiros a
conhecer os "verdadeiros beneficiários" das contas e a comunicar
qualquer actividade suspeita às autoridades.
Em 2003, a Comissão Federal de Bancos exigiu que as instituições
bancárias "estabelecessem regras de modo a determinar que clientes e
operações representam um risco" - uma medida que, salienta El País,
afecta sobretudo políticos ainda no poder.
Só assim foi possível à Nigéria, por exemplo, recuperar no ano
passado o dinheiro depositado pelo ex-ditador Sani Abacha em contas
suíças, classificado de "origem manifestamente criminosa" -2200
milhões de dólares desviados dos cofres nigerianos entre 1993 e
1998,700 milhões depositados na Suíça (dos quais já só falta
restituir sete milhões). Foi estabelecido um acordo com o Banco
Mundial quanto à utilização daquele montante em projectos de
desenvolvimento de infra-estruturas, saúde pública e educação.
A ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto também viu as
suas contas congeladas (entre 50 milhões e 80 milhões de dólares),
tal como Mobutu Sese Seko (7,7 milhões), o antigo líder do Haiti
Jean-Claude Duvalier (5,7 milhões) e alguns chefes de Estado ainda
em exercício: Nursultan Nazarbaiev (200 milhões de dólares), do
Cazaquistão, e José Eduardo dos Santos (100 milhões), de Angola.
O já falecido Ferdinand Marcos, que foi Chefe de Estado das
Filipinas, tinha depósitos em Zurique, Genebra e Friburgo no valor
de 683 milhões de dólares. O dinheiro já foi restituído ao seu país.
Segunda "operação de limpeza"
Trata-se, segundo analistas, da segunda "operação de limpeza",
depois da devolução de 1236 milhões de euros aos herdeiros dos
judeus vítimas do nazismo que possuíam contas em bancos suíços. Uma
soma acordada pela banca para evitar dispendiosos processos
judiciais.
A chefe da diplomacia helvética, Micheline Calmy-Rey, fez da
restituição dos fundos ilícitos um "combate pessoal", como afirmou
um dos seus colaboradores. "A certa altura, as autoridades suíças
aperceberam-se de que esta situação não beneficiava em nada o
prestígio do país e do seu sistema financeiro, e começaram a ajudar
os Estados a recuperar os seus bens", constatou Paul Seger,
conselheiro jurídico do Ministério dos Negócios Estrangeiros em
Berna.
O sigilo bancário suíço pode ser quebrado por qualquer delito
previsto no Código Penal sempre que haja uma ordem judicial e uma
petição das autoridades do país afectado.
(PUBLICO, 20.10.06)
Boletim do Ceao
Eventos
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FEITIÇARIA NO ATLÂNTICO NEGRO
19 E 20 DE OUTUBRO DE 2006 - CEAO / UFBA - SALVADOR, BAHIA
Nos últimos anos, o tema da feitiçaria tem suscitando renovado
interesse no meio acadêmico internacional. Discursos sobre a
feitiçaria, no passado e no presente, normalmente têm sido
explicados pelos estudiosos como sobrevivências de tradições pré-
modernas.
A feitiçaria é descrita como um fenômeno local que confronta
imposições globais (religiões universais, mercantilismo
internacional).
No entanto, um número crescente de intelectuais associa os discursos
sobre feitiçaria à modernidade. Talvez a feitiçaria não seja apenas
uma sobrevivência resistente aos processos de globalização e
modernização, mas uma conseqüência destes.
A questão se coloca mais especificamente no caso do Atlântico. A
formação de um discurso sobre a feitiçaria na Europa, na África e
nas Américas, a partir do século XVI, pode ser descrita como um
único fenômeno atlântico?
Nesse caso, quais seriam as conseqüências do atual ressurgimento de
acusações de feitiçaria em ambos os lados do Atlântico, ligado a
novos processos de globalização?
O objetivo do Colóquio é reunir um seleto grupo de intelectuais
brasileiros e estrangeiros, a fim de promover um debate
transdisciplinar sobre o tema. As inscrições serão realizadas no dia
19 de outubro de 2006, das 9:00h às 10:00h, até o limite de 15
vagas.
Programação
19/10/2006 - QUINTA-feira
09:00h
Inscrição (até o limite de 15 vagas)
10:00 h
Palavras de apresentação:
Jocélio Teles dos Santos
(Centro de Estudos Afro-Orientais)
Palestra inaugural:
"L'école de la Sorcellerie - Os antropólogos
e a `realidade' da bruxaria".
Peter Geschiere
(Universidade de Amsterdã)
14:30h
Feitiçaria, modernidade e religiões
afro-brasileiras.
20/10/2006 - Sexta-feira
09:00 h
Feitiçaria no universo
luso-brasileiro colonial
14:30 h
Feitiçaria, igrejas, família e Estado no Brasil e
na África contemporânea
INSTITUIÇÕES ORGANIZADORAS
Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos/
Centro de Estudos Afro-Orientais/
Departamento de Antropologia/
FFCH - Universidade Federal da Bahia
Projeto "Cultures of the Lusophone Black Atlantic"
- King's College (Londres)
PATROCÍNIO
FAPESB - CAPES - ARTS & HUMAN ITIES RESEARCH COUNCIL
Informações:
Claudia Santos 71-8708-5288
klaudiasantos8@...
Boletim do Ceao
Eventos
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Lançamento no CEAO
Câmara e Cadeia - Franklin Carvalho (Editora Scortecci - São Paulo,
2006, 166 páginas, R$ 20,00). Lançamento no próximo dia 5 de
outubro, 18h30, no Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO), no Largo
2 de Julho, com show do Bando de Uns.
Os poderosos vagabundos da Cidade da Bahia
Em pleno século XXII, um detetive movimenta-se pelo centro de
Salvador, uma das três cidades, em todo o mundo, que sobreviveram às
águas do apocalipse. É uma época difícil, pássaros assustadores
sobrevoam os humanos querendo apanhá-Ios no bico, policiais e
traficantes são coniventes na cobrança de pedágio aos homens comuns
e guerrilheiros buscam em suas aeronaves, entre as três luas que
orbitam a nova Terra, alterar esta ordem. Exceto Nova lorque e Seul,
as duas outras cidades que resistiram ao novo dilúvio, o resto do
mundo está coberto de água. As informações são disputadas por todos
e o nosso detetive, passivamente, vê os militantes de diversos
grupos moverem-se em torno dele numa corrida cibernética por,
literalmente, a chave do céu.
A narrativa acima preenche mais um dos contos do livro Câmara e
Cadeia, do jornalista baiano Franklin Carvalho, que será lançado no
próximo dia 5 de outubro, no Centro de Estudos Afro-Orientais
(CEAO), no Largo 2 de Julho. O nome da obra faz referência às
antigas casas de câmara e cadeia que, no período colonial de nossa
história, reuniam num mesmo sobrado no centro de cada cidade o
plenário de vereadores no andar de cima e a prisão no piso térreo ou
no subterrâneo.
Se a casa de câmara e cadeia era o coração das cidades antigas, a
obra de Franklin Carvalho enfoca as realidades nas ruas, que são as
artérias e o coração da urbanidade, onde pulsam o poder e a dor,
distribuídos desigualmente entre os cidadãos. Nas atuais vias de
concreto e informação, todos são marginais e autoridades, e vivem
por um triz.
Além do conto futurista, faz parte do livro a história de uma
descendente
direta da estrela Aldebarã. Parente do Deus Tupã, o anjo-mulher é
raptada por índios, cresce entre prostitutas de Feira de Santana e
muda-se para Brasília, onde passa a freqüentar a cozinha dos
Collors, acompanhando de perto a derrocada do clã Alagoano. Outro
personagem curioso do livro é João Fritz, um baiano que recebeu o
sobrenome de fantasia porque passou a juventude viajando pela
Amazônia na caravana de um alemão, levando prostitutas para os
soldados da borracha, durante a Segunda Guerra.
Em comum, todos os personagens de Câmara e Cadeia vivem as cidades,
seus problemas, festas e aglomerações, com muita intensidade e muita
inquietude. Eles andam em rodoviárias e tentam fazer alianças e
conhecer o espaço à sua volta. E precisam vencer este espaço.
A política, as ruas sujas e a identidade do povo estão em discussão
em todos os contos, que se utilizam do ritmo das histórias em
quadrinhos, do cinema, das novelas e do rádio para mostrar como são
cruéis as imagens de todos os santos, bons moços e bons selvagens
que vestem os brasileiros.
Contato: Franklin Carvalho
Tels.8164-0411/3319-7009
frankroo@...
Vendas: www.scortecci.com.br
Boletim do Ceao
Dica cultural
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A influência jeje no candomblé
MARLON MARCOS VIEIRA PASSOS
Um livro. A formação do candomblé história e ritual da nação jeje na
Bahia, de autoria do professor do Departamento de Antropologia da
Ufba Luis Nicolau Parés, chegou recentemente às livrarias,
distribuído pela Editora Unicamp.
Um livro nascido de uma pesquisa vastíssima, solidificada por
estudos bibliográficos e mais pesquisa de campo, observação
participante, entrevistas em vários lugares no Brasil e na África,
que já nasce ocupando de modo relevante a lacuna deixada pela etno-
história dos estudos ligados às religiões de matriz africana no
Brasil.
Trata-se de uma obra de fôlego para redimensionar a etnologia do
chamado candomblé baiano (e brasileiro), pois, (re)constrói a
história da formação desta religiosidade observando com afinco a
contribuição do jeje (designado pelo autor como grupo Gbe), em muito
relegada por outros estudiosos, que, de certa forma, ao estudarem o
candomblé baiano a partir da sua estruturação no século XIX,
hipervalorizou o "modelo nagô" representado pelo Terreiro da Casa da
Branca – o Iyá Omi Axé Airá Intile –, que hoje recebe o nome sagrado
de Ilê Axé Iyanassô Oká, em homenagem a uma das suas fundadoras
míticas, a Iyánassô, suprema sacerdotisa do culto de Xangô. Este
terreiro é tido como o primeiro do Brasil nesse formato de "culto
urbano".
NOMENCLATURAS – Muitos etnólogos e historiadores das religiões de
origem africana na Bahia desconsideraram a determinante influência
jeje para a fundação do candomblé nos moldes de uma religião naquilo
que Luis Nicolau chama de "estrutura conventual".
Sobre isso, Parés afirma na página 18: "Uma das teses centrais deste
trabalho, exposta nos capítulos 3 e 4, sustenta que foram as
tradições religiosas da Costa da Mina, e em especial as da área Gbe,
isto é, os cultos de vodum, os que providenciaram no Brasil
setecentista os primeiros referentes para a organização do grupo
religioso numa estrutura eclesial ou conventual.
O tipo de atividade devocional desenvolvido a partir da consagração
de devotos às divindades mediante processos de iniciação, com a
instalação de altares fixos em espaços sagrados estáveis,
contrastava com as práticas terapêuticas e oraculares de caráter
mais individualizado e itinerante, próprias da maioria dos calundus
coloniais." Além de contribuir com suas assertivas asseguradas por
sólida fonte documental para a quebra do chamado "nagocentrismo", o
texto do professor ajuda na compreensão histórica de diversas
nomenclaturas (congo, angola, fula e, mais comumente, mina) que
foram imputadas aos vários povos africanos embarcados como escravos.
Nomenclaturas que em muitos aspectos reduziam a complexidade étnica
dos grupos capturados e os homogeneizavam.
Sendo assim, o autor dialoga com outras pesquisas sobre escravidão,
como as da professora Maria Inês Cortes de Oliveira, que muito
contribuíram para a desmistificação dos termos de "nação" que
designavam estes grupos humanos escravizados.
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Iniciativa acertada de diálogo multidisciplinar
A difícil seara da identificação étnica é construída no livro a
partir de algumas teorias da etnicidade, negando o primordialismo
ou, até mesmo, a chamada identidade de procedência. Luis Nicolau se
vale de Fredrik Barth, sem se prender à exclusividade da idéia de
fronteiras para erguer as consciências étnicas dos africanos.
Analisa com rigor as chamadas "denominações metaétnicas"– aquelas
lançadas externamente aos africanos –, demonstrando que, em vários
momentos, muito dessas identidades imputadas eram assimiladas
estrategicamente por alguns grupos, principalmente com a chegada
desses negros nos locais destinados à prática da escravidão.
Para isso, no caso brasileiro, o autor ilustra: "A formação de
nações africanas no Brasil é aqui entendida especialmente como
resultado de um processo dialógico e de contraste cultural ocorrido
entre os diversos grupos englobados sob as várias denominações
metaétnicas" (p.27).
SEGREDOS – A obra também faz com primazia um desenho histórico da
evolução das práticas religiosas chamadas no período colonial
de "calundu", até o paradigma religioso brasileiro conhecido na
Bahia como candomblé; em Recife como Xangô; no Maranhão como Casa
das Minas (ou Tambor de Minas) e outros, que espelham o que
antropologicamente se chama de religiões afro-brasileiras.
Na apresentação, o historiador e professor da Ufba João José Reis
sentencia: "Este é um livro que sem dúvida inova a história cultural
no Brasil". Dedicado a esmiuçar o culto dos voduns em terras
baianas, Parés consegue dialogar com a história e a antropologia de
modo exemplar.
Logo no prefácio, demonstra um cuidado exacerbado ao discorrer sobre
esta temática, voltando-se para muitas justificativas que, com o
valor etno-histórico do seu trabalho, seriam prescindíveis.
Talvez este incômodo em Luis Nicolau se erga do fato de ser
estrangeiro, branco, viajar por águas tão secretas, até mesmo para
nós estudiosos, curiosos e fiéis nativos, e desvendar não segredos,
mas omissões e equívocos na construção da "história" do candomblé
baiano.
Um livro nascido de relatos colhidos da "alta dinastia" litúrgica do
jeje na Bahia, referindo-se ao terreiro Seja Hundé de Cachoeira e ao
Bogum de Salvador, preciosidades históricas para a memória e prática
à louvação aos nossos voduns. E que tem no seu escopo de obra
etnográfica "falas" de uma das mais importantes sacerdotisas da
história desta religião na Bahia, falecida em junho de 2005, a
saudosa cachoeirana Gaiaku Luíza.
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Contribuição do jeje estava até agora silenciada
Um capítulo interessante sobre a história das religiões de matrizes
africanas, tema no qual é especialista, foi trazido à tona por Luis
Nicolau Parés No livro A formação do candomblé – história e ritual
da nação jeje na Bahia, o espanhol residente em Salvador há oito
anos mostra como os povos jejes contribuíram para o modelo de
organização do candomblé, o que é um desafio ao entendimento mais
corrente das tradições nagôs como principais protagonistas. Além
disso, o estudo de Parés mostra que é possível combinar profundidade
acadêmica com uma estilo capaz de seduzir o leitor não-
especializado. Em entrevista à repórter Cleidiana Ramos, o
pesquisador fala da trajetória dessa sua contribuição ao
reconhecimento da importância dos povos jejes, ainda tão pouca
difundida.
A TARDE | O estudo que originou o livro A formação do Candomblé
história e ritual da nação jeje na Bahia foi desenvolvido em quanto
tempo?
LUIS NICOLAU PARÉS | A minha pesquisa sobre religiões afro-
brasileiras começou no Maranhão, no ano de 1992, mas a pesquisa
sobre a nação jeje na Bahia, embora iniciada em 1993, se desenvolveu
de forma mais sistemática a partir de 1998, quando passei a residir
em Salvador, e se prolongou até 2004.
O livro foi revisado e reescrito várias vezes nesse período.
AT | Na configuração geográfica atual do continente africano, onde
estariam localizados os povos jejes que vieram para a Bahia?
LNP | Jeje era o termo que se utilizava na Bahia, a partir de
inícios do século XVIII e durante todo o período do tráfico, para
classificar os escravos embarcados no antigo reino de Daomé e
regiões por este dominadas. Essa área corresponde hoje à parte
meridional da República do Benim e do Togo, na África ocidental.
AT | No estudo, o Sr. apresenta o povo jeje como personagem
principal para a organização do modelo do candomblé que conhecemos
hoje, inclusive com relação ao culto a múltiplas divindades.
Essa tese vem se contrapor à mais conhecida que coloca os povos de
língua iorubá como autores desse processo. Qual a trajetória para
essa sua avaliação inovadora?
LNP | Essa tese vem desenvolver idéias já sugeridas por
pesquisadores como Vivaldo da Costa Lima e Júlio Braga, que,
analisando a terminologia religiosa do candomblé, notaram a
importância e centralidade das palavras de origem jeje nesta
instituição religiosa. A minha pesquisa histórica constatou a
predominância demográfica dos africanos de nação jeje na Bahia,
entre a população escrava no século XVIII e entre os libertos no
inicio do século XIX, precisamente quando o processo formativo do
candomblé se originou. Cabe lembrar que foram os libertos africanos
que lideraram maiormente a fundação dos terreiros. Por outro lado, a
pesquisa na África mostra como o culto a múltiplas divindades
(voduns) e a organização do grupo religioso em congregações de tipo
eclesial (com complexos processos de iniciação, hierarquia do corpo
sacerdotal, instalação de altares fixos etc.) era uma prática comum
na região dos jejes, sobretudo nos núcleos urbanos, já no século
XVIII.
AT| Então essa herança é uma característica jeje?
LNP | Isso não se constata tão claramente nos reinos iorubás ou
nagôs, onde o culto coletivo de vários orixás num mesmo templo só se
deu, ao que tudo indica, em meados do século XIX. Levando em conta a
experiência dos jejes nesse âmbito institucional e sua antecedência
histórica na Bahia (os nagôs só chegaram em quantidades
demograficamente significativas a partir das primeiras décadas do
século XIX), é possível supor que os especialistas religiosos jejes
forneceram o modelo organizacional para os cultos de múltiplas
divindades e a formação de congregações de tipo conventual que
caracteriza o candomblé atual. Todavia, jornais da segunda metade do
século XIX confirmam que, apesar da supremacia numérica dos nagôs
nesse período, no seio do candomblé ainda prevaleciam os referentes
da nação jeje. Por exemplo, para designar as entidades espirituais
africanas, se utilizava de forma recorrente o termo "vudum", e não
orixá, como atualmente. Essa tese não desdiz a importância na
formação do candomblé de outras matrizes africanas, como a angola ou
nagô, apenas destaca a decisiva contribuição dos jejes até agora
praticamente silenciada.
AT | Religiosamente, o Sr. é iniciado em algumas das tradições do
candomblé?
LNP | Eu não sou iniciado, apenas simpatizante. Quando o finado
humbono Vicente do Matatu, um dos maiores conhecedores do jeje na
Bahia, mandava fazer alguma coisa, eu fazia. Ele foi quem me acolheu
na sua casa e a quem dedico o livro.
AT | Diferente do chamado candomblé ketu, sabe-se muito pouco sobre
outras tradições, como a angola e os próprios jejes. Esses são tidos
como mais reservados em relação a falar de suas tradições.
Como foi para o Sr. conseguir penetrar nesse universo?
LNP | Efetivamente, os jejes têm uma merecida fama de serem muito
reservados. Como já disse, humbono Vicente foi uma personagem
central para me introduzir e abrir os caminhos nesse universo.
Contei com a ajuda de outras pessoas como Everaldo Duarte, do
terreiro Bogum, em Salvador, da finada e saudosa gaiaku Luiza e ogan
Bobosa, em Cachoeira, para citar apenas algumas das mais importantes.
Essas pessoas me regalaram com sua confiança e sabedoria e, aos
poucos, com muita paciência e persistência, escutando e observando
mais do que perguntando, fui me familiarizando com certos aspectos
da história e da liturgia jeje.
Mas quanto mais se aprende, mais consciente se torna de sua
ignorância, não é? Como não podia deixar de ser, também houve
resistência de outras pessoas à presença de um estrangeiro, mas
gosto de pensar que, com o tempo, ganhei algum amigo.
AT | Vendo em seu livro a vasta contribuição do povo jeje para a
formação dessa identidade afro-brasileira religiosa, em sua
avaliação, por que, em Salvador, dos terreiros jejes, apenas o Bogum
é o mais conhecido?
LNP | O Bogum tem uma maior visibilidade social em Salvador porque,
além de sua antigüidade secular e do merecido prestígio religioso
das suas mães-de-santo, vem desenvolvendo, desde os anos 1970, e
apesar das dificuldades, uma luta constante pela preservação,
reconhecimento e valorização da religião e cultura afro-brasileiras.
AT | Quais as etnias jejes e suas línguas que ficaram mais marcadas
na Bahia e que são mais representativas no culto hoje?
LNP | A nação jeje incluía africanos de uma pluralidade de etnias
como os fons, aizos, guns, evés, adjás, hulas, huedas, mahis,
savalus, etc. No âmbito do candomblé se preservaram algumas dessas
denominações e ainda outras como dagomé, mudubi ou popo. Porém,
atualmente, os candomblés jejes mais conhecidos na Bahia declaram
pertencer à nação jeje-mahi – às vezes pronunciado jeje-marrim e
jeje-savalu.
(A Tarde, 23/09/2006)
Boletim do Ceao
Destaques
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Força chinesa mostra "lado feio" na África.
Ofensiva comercial reedita ação dos EUA e da Europa no continente,
sem pudores com "inconvenientes" políticos ou sociais.
Comércio bilateral cresce rapidamente e deve superar os US$ 40
bilhões neste ano; regimes corruptos ganham apoio em troca de
petróleo.
VICTOR MALLET
DO "FINANCIAL TIMES"
Na década de 1960 falava-se do "americano feio". Esse clichê começou
com o popular romance político de 1958 ("O Americano Feio", de
William J. Lederer), converteu-se num filme estrelado por Marlon
Brando e captou a idéia de que os EUA, arrogantes e culturalmente
insensíveis, estavam metendo os pés pelas mãos no Sudeste Asiático e
perdendo popularidade para seus rivais comunistas da Guerra Fria.
Nos anos 80, foi a vez de os japoneses serem acusados de
neoimperialismo. As críticas culminaram num livro de Friedemann
Bartu atacando o domínio do Japão sobre as economias asiáticas no
pós-guerra. O título do livro era "The Ugly Japanese: Nippon's
Economic Empire in Asia" (O japonês feio: o império econômico
nipônico na Ásia). Será apenas questão de tempo agora para que as
pessoas comecem a se queixar do "chinês feio". Pequim é uma potência
em ascensão. Sua busca implacável por recursos naturais e influência
política vem provocando arrepios não apenas em Estados asiáticos
debilitados como Mianmar e Laos, mas também em lugares tão distantes
quanto a África, onde a China é acusada de conluio com o genocídio
no Sudão e de apoiar a ditadura do Zimbábue.
Ofensiva chinesa
Para o bem ou para o mal, a África é novamente um lugar onde as
superpotências competem. A velocidade com que a China vem
reivindicando sua parte nos recursos africanos -incluindo o
petróleo, a madeira e os 54 votos de que o continente dispõe na ONU-
vem assustando os rivais de Pequim nos EUA e na Europa. Após um
impulso inicial nos anos 70, quando africanos espantados assistiram
a trabalhadores chineses mais pobres do que eles labutando duro em
obras motivadas por ideologia, como a ferrovia entre Tanzânia e
Zâmbia, os chineses voltaram com força total. Existe muito de
positivo no envolvimento chinês. O capitalismo sem nenhum requinte
empregado pela liderança chinesa nominalmente comunista para
arrancar seu país da pobreza é visto como modelo por economias
africanas mergulhadas em dificuldades. Os comerciantes chineses
investem e assumem riscos em mercados africanos difíceis, como Serra
Leoa, há muito tempo evitados pelos ocidentais. O comércio bilateral
entre África e China vem crescendo rapidamente e deverá superar os
US$ 40 bilhões neste ano, sendo que no início da década movimentava
menos de US$ 1 bilhão. Para os governos africanos, a China
representa uma nova fonte de investimentos e de bens de consumo de
preço baixo, além de servir como contrapeso útil aos EUA e à Europa.
Em dezembro passado, foi aberto em Nairóbi o primeiro Instituto
Confúcio da África, um centro educacional e cultural comparável às
representações do Conselho Britânico ou da Aliança Francesa.
Sem pudores
O que é ainda melhor para os governos é que Pequim afirma não
vincular inconvenientes condições políticas, ambientais ou
econômicas ao dinheiro que entrega. Qualquer pessoa que fizer uma
retrospectiva do comportamento das potências coloniais européias na
África no último século e meio -e também da atuação dos americanos e
soviéticos durante a Guerra Fria- perceberá até que ponto seria
absurdo criticar apenas a China por agir com indiferença na África.
Mas a China terá que se preparar para encarar manifestações de
hostilidade vindas do interior de alguns de seus Estados africanos
clientes. Afinal, ela está se comportando como potência colonial às
antigas, empregando mão-de-obra barata -em alguns casos, importada
da China- para extrair recursos naturais para seu próprio uso e
vendendo produtos manufaturados cuja própria competitividade
enfraquece os produtores locais. Os nigerianos e sul-africanos, em
especial, estão revoltados com a perda de centenas de milhares de
empregos na indústria têxtil. É possível que o setor manufatureiro
africano não tenha futuro de nenhuma maneira. Mas uma queixa mais
grave que tem sido formulada contra a China é que, ao ignorar as
tentativas ocidentais (e também africanas) de vincular a assistência
e os investimentos a proteção dos direitos humanos, às salvaguardas
ambientais e à promoção da transparência no setor petrolífero, ela
está tolerando abusos e corrupção em todo o continente.
Tudo pelo petróleo
O fato de que a China importa do Sudão 7% do petróleo que consome
não constitui desculpa para a venda de armas a Cartum. E tampouco
justifica o uso do poder de veto de que a China dispõe no Conselho
de Segurança da ONU para proteger contra sanções um regime muçulmano
que supervisiona o assassinato em massa de africanos negros em
Darfur, no oeste do país -onde, segundo pesquisa recente, pelo menos
200 mil pessoas morreram em três anos e meio. Em Angola, onde a
China é o maior comprador de petróleo depois dos EUA, um empréstimo
chinês de US$ 2 bilhões livrou o governo notoriamente corrupto de
Luanda da necessidade de aumentar a transparência do setor
petrolífero para conseguir recursos de outros doadores. Foi uma
vitória daqueles que desviam receita petrolífera angolana para suas
finalidades próprias, ao mesmo tempo em que mantêm o país pobre. Mas
é preciso que se recorde à China que o entusiasmo manifestado por
líderes africanos, especialmente os ditadores, com a ajuda chinesa
incondicional nem sempre é compartilhado pela população africana.
Mesmo a retórica sobre a condicionalidade e a suposta não-ingerência
da China nos assuntos de Estados soberanos é bobagem. As condições
impostas simplesmente são diferentes daquelas que exigem os governos
ocidentais, coisa que a Zâmbia descobriu neste mês. O embaixador
chinês no país, indignado pelo fato de um candidato presidencial
cortejar Taiwan e criticar as condições de uma mina de propriedade
chinesa, ameaçou com a suspensão dos investimentos chineses na
mineração, na construção civil e no turismo. Os chineses ainda são
bem-vistos em boa parte da África. Mas o apoio que Pequim dá a
alguns dos regimes mais desagradáveis do continente sugere que sua
política para a África, apesar de ser divulgada como sendo neutra e
voltada aos interesses das empresas, está se tornando pelo menos tão
ávida e imoral quanto eram as de algumas outras potências
estrangeiras na era pós-colonial. Se não injetar alguma dose de
responsabilidade em seu trato com a África, a China não será saudada
por ter criado "um novo paradigma global", como espera o ditador
Robert Mugabe, do Zimbábue. Em vez disso, será lembrada como aliada
de Estados fora-da-lei, saqueadora de florestas e aliada de
assassinos e tiranos. Se isso acontecer, o epíteto "feio" será
merecido.
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Tradução de CLARA ALLAIN
(Folha de São Paulo, domingo, 17 de setembro de 2006)
Boletim do Ceao
Eventos
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"47 ANOS DE CRIAÇÃO DO CEAO/UFBA" e
"CENTENÁRIO DE AGOSTINHO DA SILVA"
21 e 22/09/2006
CEAO – Largo 2 de Julho
George Agostinho da Silva (Agostinho da Silva) nasceu na cidade do
Porto no dia treze de fevereiro de 1906 e faleceu a três de abril de
1994, um domingo da ressurreição. Espírito inquieto se tornou um dos
principais nomes do pensamento português do século XX, tendo
percorrido os cinco continentes, onde levou seus ideais utópicos de
construção de um homem novo. Fixou-se no Brasil, em 1947,
permanecendo aqui por quase duas décadas, fazendo florescer, dentre
outras instituições, o CEAO-UFBA, que neste mês comemora 47 anos de
existência, e que no seu entender serviria como elemento de
aproximação do Brasil com a África e o Oriente. Filósofo, pensador
místico, autor prolixo, mentor de uma geração de intelectuais
brasileiros, se tornou, ainda em vida, uma das mais importantes
referências para o pensamento humanista moderno.
21/09/06 – 19hs
Abertura do evento e da exposição "Agostinho da Silva, pensamento e
ação"
Lançamento do livro: "Pensamento à Solta: um manuscrito autógrafo"
de Agostinho da Silva, Edufba.
22/09/06 - 10hs
Mesa-redonda "Agostinho da Silva e a Bahia"
Coordenador: Ordep Serra (Pró-Reitor de Extensão - UFBA)
Amândio Silva
Pedro Agostinho da Silva (Depto.de Antropologia-UFBA)
14hs
Mesa-redonda "Agostinho da Silva e o Ceao"
Coordenador: Jeferson Bacelar (Depto.de Antropologia-UFBA)
Waldyr Freitas de Oliveira(UFBA)
Vivaldo da Costa Lima(UFBA)
Júlio Braga (Diretor do IPAC)
18hs
Projeção do filme "Agostinho da Silva, um pensamento vivo", de João
Matos.
Boletim do Ceao
Dica cultural
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Entrevista - Caetano Veloso
Caetano Veloso lança "Cê", disco em que utiliza um trio básico de
rock;
na entrevista, discute a questão racial e descarta apoiar a
reeleição do presidente
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EDITOR DA ILUSTRADA
FOLHA - Na música "O Herói" quem fala é um militante que quer semear
o ódio racial, mas descobre no final que é o homem cordial.
Como você concebeu essa letra?
CAETANO VELOSO - É como se fosse a trajetória de um ativista do
movimento negro que, depois de se opor a todas as ilusões da
harmonia racial brasileira, termina reafirmando-se como o homem
cordial e instaurador da democracia racial. É como se ele
atravessasse o processo inteiro e no fim chegasse a uma coisa a que
só um brasileiro poderia chegar. Eu acho que temos que
passar por esses estágios. Quando eu era menino, vi uma menina
preta, filha de dona Morena, que morava perto de nossa casa, em
Santo Amaro, saindo do banho com o cabelo sem estar esticado. Achei
lindo. Quando, nos anos 60, veio a aparecer o cabelo "black
power", eu achei que era uma realização dos meus sonhos. Naquela
época eu torcia para que as coisas ficassem mais acirradas e
visíveis. E vi pessoas negras e de grande talento irem muito fundo
nessas questões, que eu incentivava. Porém, nunca abandonei a
perspectiva da cegueira para as cores tradicionais no Brasil, embora
tenha servido para a manutenção da opressão. Mas não era só
a isso que ela servia -e essa é a história.
Eu acho que, no fim das contas, esse movimento, quando chegar à sua
plenitude, se não houver um desvio alienante, vai reencontrar
esses conteúdos brasileiros, por causa de nossa muito profunda
miscigenação e da tradição de não manifestar o ódio racial.
FOLHA - Você já falou contra a institucionalização do racismo no
Brasil à moda dos EUA.
CAETANO - Há muitas vezes uma vontade, uma necessidade quase
irracional de imitar os americanos. Por isso eu disse "e hoje
olha os mano" na letra de "Rock'n'Raul", que é uma grande canção
subestimada.
FOLHA - Você tem uma posição clara sobre a proposta de cotas
raciais?
CAETANO - Não é 100% clara...
FOLHA - Nem 100% negra... (risos)
CAETANO - Assinei um manifesto para retardar uma possível aprovação
apressada do projeto do Estatuto da Igualdade Racial, que
torna a proposta das cotas mais recusável. Eu acho que definir os
cidadãos brasileiros pela raça em lei não é uma boa idéia. Quanto
às cotas, não sou muito favorável, mas acho que algum movimento de
ação afirmativa deve ser feito.
Me parece evidente demais que, uma vez que os pobres são
majoritariamente negros, se você fizer um programa de educação e de
emprego com vistas a uma reparação da enorme distorção produzida
pela má distribuição de renda no Brasil, os negros estarão
automaticamente sendo beneficiados, sem que haja critério racial e
discriminação dos não-negros.
FOLHA - O que você achou do livro "Não Somos Racistas", do Ali
Kamel?
CAETANO - Achei de grande importância, embora negligenciado por
alguns. Você sabe como é: a esquerda tem o velho hábito de só
ler aqueles livros que já concordam com as idéias que ela tem.
Aquelas pessoas que supostamente são progressistas e que querem
a Justiça já se põem como inimigas do livro, o que é uma pena. O
livro é para verdadeiramente fazer a discussão caminhar. Pela
primeira vez responde-se com rigor estatístico a exigências que
nasceram por causa da atenção às estatísticas. A idéia da
democracia racial brasileira parecia um sonho romântico que as
estatísticas negavam. E nunca se respondia com estatísticas, mas
com retórica. O livro pega a linguagem dos opositores e traz uma
resposta de muita substância. Descartá-lo demonstra falta de
saúde social.
FOLHA - Ao contrário de Chico Buarque, você já disse que não votará
em Lula. Por quê?
CAETANO - Não vou. Não me arrependo de ter votado nele, mas sou
contra a reeleição. Não votei pela reeleição de Fernando
Henrique, que nos deu de presente oito anos de esquerda marxista da
USP. E como eu já estou com 64 anos e ele e Lula são a
mesma coisa, eu acho que seria demais 16 anos com essa turma.
FOLHA - O sociólogo Gilberto Vasconcellos se referia a "essa turma",
que veio a se dividir entre PT e PSDB, como a coalizão CUT-
USP-Fiesp...
CAETANO - Eu acho essa expressão dele totalmente certa.
FOLHA - Em quem você vota?
CAETANO - Não sei em quem vou votar. Não gosto de votar nulo. Eu
preferiria que Lula pelo menos não fosse eleito no primeiro
turno.
FOLHA - Como você vê o escândalo do mensalão?
CAETANO - Eu acho que foi realmente vergonhoso e ruim. Há uma certa
regressão no país -que fez o impeachment de Collor-
quando se passa uma esponja no escândalo do mensalão. Lula e o PT
afastaram os acusados, Lula se disse traído, mas a cada
solenidade de despedida dos que cometeram delitos levantou a voz
para dizer loas morais a essas figuras. E pôs a culpa num
possível complô das elites através da mídia, o que eu acho
completamente incongruente. Eu não sou burro, nem maluco, então não
vou votar nele. Votei em Lula contra Collor no segundo turno, mas
meu candidato não era ele.
Era o Brizola. E continua sendo (risos). Na última eleição, eu achei
que era a hora de um operário chegar ao poder, de o PT enfrentar
a realidade e de se desmistificar tudo isso. Se o Serra tivesse
ganhado, ele, que é um excelente candidato, seria massacrado por
essa mitologia do Lula, da esquerda e do PT. Quando justifiquei meu
voto em Lula, disse que esperava que ele fosse empossado,
que governasse e que passasse a faixa para outro. Continuo pensando
da mesma maneira.
FOLHA - É como naquela canção: "Mamãe eu quero ir a Cuba e quero
voltar"?
CAETANO - Exatamente. E eu cantei isso em Cuba.
FOLHA - Por que há essa leniência em relação ao escândalo?
CAETANO - Eu acho que é por causa da esquerda. A esquerda é como
torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu sou um
simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de dignidade e de
Justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é quem mais
ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar dela.
Frases
"Votei em Lula porque eu achei que era a hora de um operário chegar
ao poder, de o PT enfrentar a realidade e de se desmistificar
tudo isso. Se o Serra tivesse ganhado, ele que é um excelente
candidato, seria massacrado por essa mitologia do Lula e do PT"
"Eu acho que definir os cidadãos brasileiros pela raça em lei não é
uma boa idéia. Quanto às cotas, não sou muito favorável, mas
acho que algum movimento de ação afirmativa deve ser feito"
"Nunca abandonei a perspectiva da cegueira para cores tradicionais
no Brasil, embora ela tenha servido para a manutenção da
opressão. Mas não era só a isso que ela servia -essa é a história"
"Achei o livro de Ali Kamel de grande importância, embora
negligenciado por alguns. Sabe como é: a esquerda tem o velho hábito
de
só ler aqueles livros que já concordam com as idéias que ela tem"
"Se você for ler meu livro, "Verdade Tropical", verá que esse gosto
pelo punk está lá."
"A esquerda é que nem torcida de futebol. As pessoas ficam cegas. Eu
sou um simpatizante da esquerda por sede de harmonia, de
dignidade e de justiça. Mas vejo freqüentemente que a esquerda é
quem mais ameaça essas coisas que me levaram a me aproximar
dela"
"A poética do rock é muito mais de sexo do que de romance. Nesse
disco há muitas canções de melancolia e de sexo, mas não
tem propriamente romance"
CAETANO VELOSO
cantor e compositor
Veja letra de uma das faixas do novo disco de Caetano Veloso
"O Herói"
Nasci num lugar que virou favela
Cresci num lugar que já era
Mas cresci à vera
Fiquei gigante, valente, inteligente
Por um triz não sou bandido
Sempre quis tudo o que desmente esse país encardido
Descobri cedo que o caminho
Não era subir num pódio mundial
E virar um rico olímpico e sozinho
Mas fomentar aqui o ódio racial
A separação nítida entre as raças
Um olho na Bíblia, outro na pistola
Encher os corações e encher as praças
Com meu Guevara e minha Coca-Cola
Não quero jogar bola pra esses ratos
Já fui mulato, eu sou uma legião de ex-mulatos
Quero ser negro 100%. Americano,
Sul-africano, tudo menos o santo
Que a brisa do Brasil beija e balança
E, no entanto, durante a dança
Depois do fim do medo e da esperança
Depois de arrebanhar o marginal, a puta
O evangélico e o policial
Vi que o meu desenho de mim
É tal e qual
O personagem pra quem eu cria que sempre olharia
Com desdém total
Mas não é assim comigo
É como em plena glória espiritual
Que digo:
Eu sou o homem cordial
Que vim para instaurar a democracia racial
Eu sou o homem cordial
Que vim para afirmar a democracia racial
Eu sou o herói
Só Deus e eu sabemos como dói
(Folha de São Paulo, quinta-feira, 07 de setembro de 2006)
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Democracia racial rima com homem cordial
Caetano Veloso - Folha de São Paulo
10/06/2006
Li "Raízes do Brasil" e "Casa-Grande & Senzala" há muito tempo. Não
li Caio Prado. Sou um lírico. Economia é a ciência de tudo o que não
me interessava espontaneamente desde a meninice. Li Paulo Prado e
seu belo livro menor sobre as três raças tristes. Quando tomei
conhecimento da obra de Joaquim Nabuco, passei a considerar que ele
tinha abordado o essencial do que está em Gilberto Freyre. Muito
antes, muito melhor, muito mais no ponto. É claro que isso se deveu
em parte ao entusiasmo da descoberta. Mas ainda acho que em "O
Abolicionismo" e "Minha Formação" há mais decisões intelectuais
relevantes sobre a casa grande e a senzala do que nos livros de
Freyre. É que Freyre sempre me agradou em cheio. Nunca achei que ele
negligenciasse os aspectos horrendos da nossa formação.
Ele é também um crítico duro. Não é porque facilita as coisas para
nós que suas idéias sensualizadas sobre nossa originalidade tropical
e lusa -nossa exuberância mestiça- são rejeitadas; é antes por elas
trazerem a sugestão de uma grande responsabilidade. Preferimos crer
que o que nos distingue é a incapacidade -e julgar tudo por
esquemas "universais" como luta de classes, infra-estrutura
econômica, injustiça social.
Pessoalmente tendo a gastar mais meu tempo pensando na afirmação de
que, dos três povos que nos formaram, o menos lúbrico é o negro. É
por ser assim tão a favor de Freyre que pude (ou precisei) achar
Nabuco maior.
Lentidão íntima
Agora, "Raízes do Brasil" é um livro mais equilibrado e sóbrio do
que os de Freyre. É também um texto estilisticamente mais fluido e
homogêneo -e mesmo mais refinado (embora isso seja mais delicioso
em "Visão do Paraíso"). Sérgio Buarque tem um ritmo lento, de uma
lentidão nobre, mas agradavelmente íntima, como uma voz suave, que
contrasta com a fala retórica e disparada de Gilberto Freyre.
Sem nunca ter escrito a expressão "democracia racial", Freyre é
freqüentemente xingado por causa dela. Eu, que adoro esse mito, acho
que se presta uma homenagem a Freyre ao atribuir-lhe a invenção. Já
o "homem cordial" é um conceito de Sérgio Buarque.
Desde sempre ambíguo, foi defendido pelo próprio autor contra a
interpretação popular que veio a ganhar. Essa interpretação, no
entanto, não é desprezível. Jorge Luis Borges, falando dos
argentinos, também disse que "somos indivíduos, não cidadãos. Para
nós contam mais as relações de amizade que as leis".
Bob Broughton, um inglês adorável que foi presidente da Shell no
Brasil por muitos anos, voltou aqui, depois de já estar na
Inglaterra aposentado, para tratar de uns eventos culturais de
brasileiros em Londres.
Contando-me, em Salvador, sobre o andamento das negociações, ele me
disse: "Você sabe, tenho que esperar para falar com Fulano, que é
amigo de Sicrano: aqui no Brasil tudo se resolve assim".
Comentei: "Que vergonha". E ele: "Não. Que maravilha! Você não sabe
o valor que tem para mim a posição em que os brasileiros colocam a
amizade".
Então eu, que, no último Carnaval, cantei em uníssono com (e
abraçado a) Ariano Suassuna para dezenas de milhares de pessoas no
Marco Zero, priorizo a constatação: "Democracia racial" rima
com "homem cordial". Não é uma solução. Mas vou pôr isso na letra de
uma música.
Boletim do Ceao
Eventos
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O Ceao e a Editora Nova Fronteira
têm o prazer de convidar para o coquetel de lançamento do livro:
"Um Passeio pela África"
de Alberto da Costa e Silva
Terça-feira, 12 de Setembro de 2006 às 18:30h.
No Ceao (Dois de Julho)
SINOPSE
Angola, Guiné, Costa do Marfim, Senegal, Congo. Em Um passeio pela
África, primeiro livro infanto-juvenil do embaixador e acadêmico
Alberto da Costa e Silva, os jovens brasileiros Zezinha, Gustavo e
Inácio se aventuram por um continente que, na maioria das vezes,
conhecemos apenas dos Atlas geográficos. Maior africanista do país e
autor do clássico A enxada e a lança, Costa e Silva propõe um
delicioso roteiro em que olha para o passado africano — mostrando as
diferenças culturais entre os vários povos que vieram para o Brasil
como escravos e ajudaram a formar nossa cultura — mas também aponta
para o futuro. Fugindo dos clichês, ele revela para os jovens
leitores uma África urbana e moderna, sem deixar de destacar as
peculiaridades de cada país visitado por seu trio de personagens.
"Um passeio pela África" conta com as ilustrações de Rodrigo Rosa.
Multicoloridas, elas enfatizam a imagem de um continente vibrante e
plural, destacada pelo autor.
Para Comprar:
http://www.novafronteira.com.br/produto.asp?CodigoProduto=1781
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Alberto da Costa e Silva
Formado pelo Instituto Rio Branco em 1957, serviu como diplomata em
Lisboa (1960-63), Caracas (1963-67), Washington (1969-70), Madrid
(1974-76) e Roma (1977-79), antes de ser embaixador na Nigéria e no
Benim (1979-83), em Portugal (1986-90), na Colômbia (1990-93) e no
Paraguai (1993-95). Foi chefe do Departamento Cultural,
Subsecretário-Geral e Inspetor-Geral do Ministério das Relações
Exteriores. Doutor Honoris Causa pela Universidade Obafemi Awolowo,
da Nigéria. Professor do Instituto Rio Branco. Presidente e Vice-
Presidente da Banca Examinadora do Curso de Altos Estudos.
Como poeta escreveu os seguintes livros: O parque e outros poemas
(1953), O tecelão (1962), Alberto da Costa e Silva carda, fia, dobra
e tece (1962), Livro de linhagem (1966), As linhas da mão (1978 -
Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do Pen Club do Brasil), A roupa no
estendal, o muro, os pombos (1981), Consoada (1993) e Ao lado de
Vera (1997 - Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro). ´Poemas
reunidos´, coletânea com escritos feitos desde a juventude.
Como historiador e africanólogo publicou: A enxada e a lança: a
África antes dos Portugueses (1992-1996) e As relações entre o
Brasil e a África Negra, de 1822 à 1° Guerra Mundial (1996).
Como ensaísta publicou: O vício da África e outros vícios (1989),
Guimarães Rosa, poeta (1992), e Mestre Dezinho de Valença do Piauí
(1999). Como romancista publicou: Espelho do Príncipe (1994).
Organizou várias antologias: Lendas do índio brasileiro (1957, 1969,
1980 e 1992), A nova poesia brasileira (Lisboa, 1960), Poesia
concreta (Lisboa, 1962) Da Costa e Silva (1997), Poemas de amor de
Luís Vaz de Camões (1998) e com Alexei Bueno, organizou: Antologia
da poesia portuguesa contemporânea (1999). Dirigiu e foi o principal
redator da Enciclopédia Internacional Focus (Lisboa, 1963-68).
Para gáudio nosso, ele, que ora preside a mais importante
instituição cultural do Brasil, a Academia Brasileira de Letras, e
tem por missão cuidar da nossa portuguesa língua, iniciou seus
estudos no Colégio Farias Brito, de Fortaleza, onde fez o primário e
ginasial entre 1937 e 1943.
Em síntese, ouso dizer que Alberto da Costa e Silva é um escritor
universal que ancorou sua memória na infância, nas pradarias secas
de Sobral e nos mangueirais de Mecejana, onde muitas vezes se banhou
na lagoa em que José de Alencar, o pai do romance brasileiro e
patrono da ABL, desvirginou em pensamentos Iracema.
O último livro de Alberto da Costa e Silva é Um rio chamado
Atlântico, pela Editora Nova Fronteira com 288 páginas. Nesses
ensaios, o historiador Alberto da Costa e Silva revela
peculiaridades e fatos históricos de uma África que ainda não
conhecemos. Na sua visão o oceano Atlântico foi, durante os séculos
da escravatura e nos primeiros anos que se seguiram à abolição, um
rio largo e comprido que tinha como margens o Brasil e a África
ocidental. O autor sustenta que a cultura africana é um dos
alicerces da cultura brasileira e o modo de vida do outro lado do
Atlântico também foi influenciado pelo Brasil.
Ruy Câmara
http://www.revista.agulha.nom.br/acosta.html#bio
Boletim do Ceao
Destaques
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Na África: para um continente célebre, interesse de peso
Alex Williams
Quando as luzes diminuem para o segundo ato de cada apresentação da
turnê "Confessions" de Madonna, a cantora, usando uma coroa de
espinhos, interpreta seu hino de 1986, "Live to Tell", enquanto seu
corpo se pendura em um simulacro de crucificação em uma cruz
espelhada reluzente como um globo de discoteca.
Madonna tem explorado a imagem do crucifixo há duas décadas. O que
traz este quadro vivo ao presente são as imagens que piscam atrás
dela nas telas: closes de crianças africanas, olhando com olhos
pesarosos, sobrepostos a chamas e um contador em movimento,
registrando 12 milhões de crianças órfãs devido à Aids na África.
O fato de Madonna estar repentinamente voltando seus olhos para a
África não deveria causar surpresa. Afinal, ela sempre soube notar
uma tendência.
E por mais que possa estressar os limites do bom gosto dizê-lo, a
África -- repleta de doença, fome, miséria e guerra civil -- está
repentinamente "na moda".
Desde o início da década, com as missões de levantamento de fatos
promovidas por algumas celebridades a países sub-Saara abalados por
conflitos (Bono em Gana, Bono por toda parte) que logo se tornaram
uma enxurrada nos últimos dois anos (Clay Aiken em Uganda, Jessica
Simpson no Quênia), a África agora foi abraçada pelas massas.
Aqueles que estudam ou trabalham em causas ligadas à África informam
que o turismo em muitos países africanos está em alta, que os
estudantes estão cada vez mais optando por estudar ou realizar
trabalho voluntário lá e que dinheiro está chegando a instituições
de caridades voltadas à África -- desde esforços populares
organizados em igrejas e jantares suburbanos por todo o país até
grandes organizações de ajuda. Mesmo entre os descolados, roupas
decoradas com imagens da África estão começando a substituir as
camisetas de Che Guevara da última temporada.
"Atualmente há uma nova vida no movimento", disse Lisa Szarkowski,
porta-voz da Unicef EUA, que notou que a África vinha sofrendo há
anos de fadiga de doadores antes de celebridades como Bono, que
começou a lutar pelo alívio da dívida do Terceiro Mundo, e Angelina
Jolie, que recentemente teve um filho na Namíbia, ajudarem a renovar
o interesse. "Agora", ela disse, há "mais conversa, mais
possibilidades. O impulso é grande".
Tal interesse renovado no continente foi motivado pela tentativa de
ajuda a diferentes atrocidades. Para alguns se trata do genocídio em
Darfur; para outros, os órfãos da Aids. Mas independente do
interesse específico das pessoas, a maioria descreve de forma
consistente estar atraído pelo que considera a clareza -tanto
política quanto moral- dos problemas africanos.
"Eu me pergunto: 'Por que a África?' Por que não estou motivada pelo
Irã ou outro lugar?" disse Genevieve Parker, uma estudante de 17
anos da Potomac School em McLean, Virgínia, que acabou de voltar de
uma viagem de verão à Etiópia, onde ajudou a instalar canos para um
sistema de irrigação. "É apenas porque não entendo o que está
acontecendo: quem são as pessoas boas e quem são as más."
Na África, disse Parker, "há muitos problemas, mas você pode agrupá-
los. Eu consigo organizar a África na minha cabeça, em termos de
pobreza, secas, mesmo os governos".
Para muitos, em uma época em que os Estados Unidos estão divididos
em
republicanos e democratas, a favor e contra, cessar-fogo ou
bombardeio, a natureza aparentemente não ambígua das necessidades da
África pode ser unificante.
Daniel Millenson, um aluno do segundo ano da Universidade Brandeis
que é líder da Força-Tarefa para Despojamento do Sudão, um movimento
nacional que visa persuadir universidades, governos e corporações a
deixarem de realizar negócios com o Sudão até que acabem os
genocídios no país, disse que questões ligadas à África -fome,
genocídio, doença- não polarizam as pessoas da forma como, digamos,
acontece com a guerra no Iraque.
"A questão é muito popular porque pode atrair pessoas de ambos os
lados, apóiem a guerra no Iraque ou não", disse Millenson. Segundo o
jornal semanal "The Chronicle of Higher Education", o movimento para
despojamento do Sudão é um dos mais ativos nos campi universitários
nos últimos 20 anos.
Ainda assim, por que todo o interesse agora? Sim, as celebridades
provavelmente merecem grande parte do crédito, mas a ponte entre
Hollywood e a África foi construída muito antes de Angelina Jolie
ter nascido. Danny Kaye viajava para a África pela Unicef desde o
governo Eisenhower e Bob Geldof apontou legiões de superastros para
a África em 1985, com seus concertos Live Aid.
Alguns especialistas em África acreditam que o continente pode se
beneficiar de uma população americana impaciente para sentir sua
bondade e influência, mas ao mesmo tempo se sentindo evitada em
grande parte do mundo.
William Easterly, um professor de economia da Universidade de Nova
York e autor do livro "The White Man's Burden: How the West's
Efforts to Aid the Rest Have Done So Much Ill and So Little Good" (o
fardo do homem branco: como os esforços do Ocidente para ajudar os
demais fizeram tanto mal e tão pouco bem), vê a África como
preenchendo uma espécie de vazio existencial para os americanos que
lutam em um mundo pós-11 de setembro.
"Nós tivemos esta repentina conscientização de que há muitas pessoas
lá fora que nos odeiam e precisamos de pessoas que, pelo que
sabemos, não nos odeiem, tenham grandes necessidades e que podemos
ajudar", disse Easterly. "É o encontro perfeito de necessidades -um
cruzamento onde precisamos da África e a África precisa de nós."
Independente dos motivos exatos para os americanos estarem
respondendo,
disseram educadores, filantropos e ativistas, não há dúvida de que o
atual aumento do interesse na África é bem diferente daqueles do
passado. Raramente, eles disseram, o interesse popular na África
abrangeu tantas questões e países diferentes e inspirou tantas
pessoas diferentes a agirem.
"As questões da África nos anos 80 geralmente se concentravam em um
país", disse Una Osili, uma professora associada de economia e
estudos
filantrópicos da Universidade de Indiana, que cresceu na Nigéria. "O
Live Aid se concentrava em uma questão -o combate à fome. Agora,
múltiplas questões estão sendo tratadas: HIV/Aids, Darfur, a questão
da pobreza." O foco agora é regional, ela disse, envolvendo vários
países.
Em termos de doações financeiras ao continente, nenhum agência
monitora cada dólar destinado ao continente, apesar de "ser seguro
dizer que estão crescendo", disse Carol Adelman, diretora do Centro
para a Prosperidade Global, no Instituto Hudson em Washington.
O fato dos Bills -Clinton e Gates- munidos de dólares estarem
viajando em apoio às suas fundações também não atrapalha.
Individualmente, muitas caridades menores dizem estar experimentando
uma generosidade sem precedente. "A resposta ao nosso esforço tem
melhorado drasticamente; ela quintuplicou" nos últimos anos, disse
Paul Newell, um diretor do escritório de Nova York do Fundo Ubuntu
para Educação, que ajuda os sul-africanos.
Um recente evento para arrecadação de fundos repleto de celebridades
no Puck Building, em Manhattan, que teve Kevin Bacon como mestre de
cerimônias -Donna Karan e Iman estavam presentes- superou sua meta
inicial de arrecadação em 50%, levantando US$ 600 mil, disse Newell.
E as pessoas estão sendo inspiradas a criarem suas próprias pequenas
instituições de caridade. Em junho, por exemplo, 125 pessoas, que em
outras épocas poderiam se satisfazer enviando centavos pelo correio
para a Unicef, se reuniram em um restaurante de Dobbs Ferry, Nova
York, e realizaram um leilão silencioso para levantar dinheiro (US$
30 mil) para um hospital na Tanzânia.
"Para construir um hospital, a evidência tangível do destino de seu
dinheiro é muito gratificante", disse Susan Konig, uma organizadora
do evento. Ela acrescentou: "Não é uma coisa amorfa, mas um prédio
de blocos de concreto palpável onde as pessoas na Tanzânia poderão
passar por exames oftalmológicos, receber medicamentos para Aids e
acompanhamento da gravidez".
Os novos benfeitores da África também querem experimentar a África
diretamente, disseram educadores e representantes do setor de
turismo. Nos últimos anos, entre os americanos o turismo está em
alta no Quênia, Ruanda, Zâmbia e África do Sul, segundo os conselhos
nacionais de turismo e embaixadas destes países. De 2003 a 2005, as
viagens ao Quênia dobraram para 73 mil e cresceram quase 16% até
esta altura do ano. Os visitantes americanos à África do Sul
saltaram de 170 mil, em 2001, para 233 mil em 2005.
Quanto aos estudantes, o dr. James Ellis, o diretor de relações
internacionais da Universidade de Johannesburgo, na África do Sul,
também notou nos últimos anos um aumento acentuado na vinda de
americanos para estudar na universidade e percebe uma mudança em
seus motivos. Nos anos 90, eles vinham por curiosidade, para ter um
vislumbre da África do Sul pós-apartheid. Agora, ele disse, eles vêm
para cuidar de crianças e construir casas. "Eles querem ter a
sensação de que deixaram algo, fizeram algo", disse Ellis.
De forma semelhante, os paroquianos da Igreja Presbiteriana de
Cristo em Madison, Wisconsin, não apenas arrecadaram em cinco meses
US$ 200 mil para Ruanda, mas no ano passado enviaram sete
missionários para lá para ajudar os pobres -um deles Ellen Murdoch,
58 anos, que disse ter sido motivada a agir após alugar o DVD
de "Hotel Ruanda".
Mas onde todo este bem deixará a África? Quando se trata de
interesse de celebridades, não é difícil encontrar cínicos, já que
raramente passa um dia sem que alguma personalidade apareça nos
jornais e noticiários sem estar envolvida em alguma causa africana -
Jay-Z em água limpa, Gwyneth Paltrow na ajuda às crianças e Lucy Liu
na Aids.
Michael Musto, um colunista de celebridades para o jornal
semanal "The
Village Voice" de Nova York, considera o atual interesse na África
apenas como a causa do momento entre os famosos.
"As celebridades", disse Musto, "acrescentaram um toque glamouroso a
isto". E isto atende a elas mesmas, especialmente quando precisam de
alguma publicidade positiva, como no caso de Lindsay Lohan, que
sofreu um ano de tratamento difícil pelos tablóides por seu
comportamento festeiro e prometeu visitar ao Quênia em prol da
Campanha Um, ele disse.
E Paul Theroux, um escritor que atuou nas Peace Corps na África nos
anos 60, alertou contra se enobrecer por meio de gestos grandiosos
em um artigo de opinião no "The New York Times", em dezembro passado.
"Como a África parece inacabada e tão diferente do restante do
mundo", ele disse, "é uma paisagem na qual uma pessoa pode esboçar
uma nova
personalidade, atraindo assim mitomaníacos", ele escreveu,
argumentando que a África precisa cultivar seus próprios salvadores.
Mas, disse Morgan Binswanger, um antigo agente de ligação entre
artistas e instituições filantrópicas para a Creative Artists Agency
em Los Angeles, "há interesse próprio e há interesse próprio
esclarecido, e a fronteira entre os dois é cinzenta. Eu acho que
aqueles que dão um passo à frente e realmente praticam um interesse
próprio esclarecido promovem uma agenda".
Alyssa Milano certamente espera que seja verdade. A atriz, que
viajou pela Angola destruída pela guerra civil em 2003 (e se perdeu
em um campo minado ativo, felizmente sem conseqüências), disse que a
África é uma forma das celebridades transformarem a atenção sem
precedente dedicada às suas vidas em algo produtivo.
Don Cheadle, o astro do filme "Hotel Ruanda" de 2004, se recusou a
julgar se a África se tornou de fato uma moda que atende aos
interesses próprios das celebridades, agora que mesmo estrelas mais
jovens como Lohan estão agindo de forma séria a respeito.
Mas Cheadle disse que sente que as celebridades podem causar um
impacto: "As pessoas em Ruanda me dizem pessoalmente que o filme
teve um enorme impacto. Elas disseram que as pessoas costumavam vir
apenas para ver os gorilas, mas agora vêm apenas por interesse na
própria Ruanda".
A grande pergunta é se as pessoas comuns manterão o interesse na
África
assim que as celebridades trocarem o foco de sua atenção. Como Musto
disse: "Assim como um restaurante da moda dura 18 meses, o mesmo
acontecerá com o interesse na África".
Fazendo cena
Algumas das celebridades que visitaram a África desde 2004 e onde
estiveram:
Clay Aiken (Uganda), India Arie (Quênia), Drew Barrymore (Quênia),
Don
Cheadle (Ruanda, Uganda e Quênia), Bill Clinton (14 países), George
Clooney (Darfur), Matt Damon (Zâmbia), Mia Farrow e o filho Ronan
Farrow (Darfur), Roger Federer (África do Sul), Lawrence Fishburne
(África do Sul), Bill e Melinda Gates (África do Sul, Lesoto),
Angelina Jolie (Etiópia, Quênia, Namíbia), Quincy Jones (África do
Sul), Ashley Judd (África do Sul), Alicia Keys (África do Sul), Lucy
Liu (Lesoto), Alyssa Milano (Angola), Brad Pitt (Etiópia, África do
Sul, Namíbia), Jessica Simpson (Quênia) e Oprah Winfrey (África do
Sul).
Paula Schwartz contribuiu com reportagem para este artigo.
Tradução: George El Khouri Andolfato
(The New York Times, 13/08/2006)
Boletim do Ceao
Destaques
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OS FILHOTES DA GUERRA
Aclamado pela crítica aos 23 anos, UZODINMA IWEALA - autor de Feras
de Lugar Nenhum, que acaba de ser lançado no Brasil - vem ao país
para falar de literatura e das muitas Áfricas possíveis
Por Denise Mota
Como muitos jovens ao redor do mundo, Uzodinma Iweala, 23, não está
satisfeito com o que vê ao seu redor. Como poucas pessoas de sua
idade, concentrou energias não em debates calorosos no centro
acadêmico ou em passeatas que paralisam artérias comerciais:
escreveu um livro, Feras de Lugar Nenhum, tornou-se sucesso de
crítica internacional e faz seu pensamento ser ouvido de Washington,
onde nasceu, a Lagos, na Nigéria de seus pais e onde passa a maior
parte do tempo. O livro acaba de ser lançado em português pela
editora Nova Fronteira, e Iweala vem ao Brasil este mês para
participar da Flip - Festa Literária Internacional de Parati, entre
os dias 9 e 13. Feras de Lugar Nenhum, narrativa sobre a experiência
de uma criança-soldado em algum lugar da África, vem recolhendo
adjetivos como "urgentemente visceral" e "chocantemente vivo" por
parte de escritores do porte de Ali Smith (escocesa vencedora do
prestigioso Prêmio Whitbread de 2005). A ficção nasceu do projeto de
conclusão do curso de língua inglesa que Iweala terminou na
Universidade de Harvard. Após impactar-se com um artigo na Newsweek
sobre pequenos combatentes em Serra Leoa, passou a investigar
exaustivamente o tema. Segundo estimativa da Unicef , mais de 300
mil crianças e adolescentes entre 6 e 16 anos estão envolvidos em
conflitos ao redor do mundo. Uma delas - ou, melhor, a síntese de um
pouco de todas - é Agu, protagonista de Feras de Lugar Nenhum. Além
de falar sobre seu livro de estréia, Uzodinma Iweala conversou
animadamente com a Raça sobre os desafios da África, novos projetos
e a vinda para o Brasil.
Você nasceu em Washington, onde vive boa parte do tempo. Escreve em
inglês sobre o mundo africano. Acredita que a intermediação
americana ou européia é, talvez ironicamente, fundamental para que
as chamadas "periferias" se conheçam?
A maior parte da minha família vive na Nigéria, então tenho muita
familiaridade com aquele país, o chamo de minha casa tanto quanto
chamo de minha casa os Estados Unidos. Não acredito que a Europa ou
a América sejam fundamentais para a circulação de informações entre
países em desenvolvimento. Esses lugares, por serem centros de
imigração, tendem a concentrar pessoas de diferentes culturas, que
se encontram e se misturam, mas não diria que é absolutamente
necessário para um livro africano passar pelo hemisfério Norte para
atingir a América Latina. Isto posto, nós no mundo desenvolvido
poderíamos fazer algo melhor e criar ligações diretas.
Feras de Lugar Nenhum apresenta a guerra do ponto de vista de um
garoto. Por que adotar esse olhar para falar dos confrontos na
África?
Não sabia que tinha de tomar essa decisão. Queria falar sobre
crianças-soldado e seus papéis nos diferentes conflitos na África e
no mundo. Foi esse aspecto particular que me interessou, e não
apenas o conflito em si. Que crianças pudessem ser forçadas a matar,
pudessem ser manipuladas e que certos adultos não tenham nenhum mal-
estar em fazer tal coisa é assustador e problemático para mim. Feras
foi minha maneira de tentar entender isso, a mentalidade, e como uma
criança pode viver nesse mundo.
Você chega à Flip ao lado de escritores como o palestino Mourid
Barghouti e Benjamin Zephaniah, de ascendência jamaicana. Acha que -
a exemplo do que vem acontecendo no cinema já há tempos - a
literatura "mainstream" está abrindo os olhos para
autores "periféricos" que trazem novas histórias e olhares?
Não tenho tanta certeza sobre o quanto o Ocidente realmente está
abrindo os olhos. Ou seja, há muita literatura feita pelo "outro"
por aí que eu nunca vi porque não vai nunca chegar nem perto das
prateleiras de livros do Ocidente. E às vezes penso que o mundo
ocidental está pronto apenas realmente para absorver livros que
abordam certas imagens que ele tem do outro. Não excetuaria meu
livro disso. Propus-me a escrever sobre a resposta emocional à
guerra e me frusto freqüentemente com perguntas de leitores no
estilo "todos sabemos que a África é um continente sitiado por
conflitos...". Isso não é verdade, e no entanto é essa imagem que
torna meu livro acessível para leitores nesses meios. É uma estranha
posição para estar - sim, conflitos existem na África (assim como
existem em todo lugar do mundo), e sim é importante saber disso e
combater isso, mas ao mesmo tempo esse livro não foi escrito para
confirmar estereótipos. Foi escrito para mostrar que não se trata de
um continente de pessoas predispostas para o conflito, um continente
de selvagens. É um continente de pessoas reais que expressam emoções
reais e raciocinam sobre triunfo ou perda de modo bastante
semelhante às pessoas no Ocidente. Então, para resumir, é ótimo que
estejam começando a olhar um pouco para essas histórias, mas ao
mesmo tempo trata-se de uma situação perigosa porque parece que as
narrativas que estão sendo vistas podem ser mal interpretadas se não
há uma análise cuidadosa.
O que você está produzindo agora?
Meu próximo projeto é, basicamente, uma história de amor ambientada
em Washington. Vai funcionar? Não sei. Mas o que quero é me divertir
explorando diferentes modos de contar histórias. Se eu conseguir
terminar, lhe conto (risos).
Um dos maiores nomes das letras nigerianas, Chinua Achebe, é o
grande expoente de uma literatura que, há três décadas, falava de
uma sociedade mutante sem abandonar em seus relatos a tradição oral
africana, elementos também bastante presentes em Feras de Lugar
Nenhum. Na sua análise, essa continua a ser a maneira de a África,
mesmo descrita em inglês e para uma audiência internacional, não
perder sua identidade?
Acho que vai ser muito difícil a África "perder sua identidade"
embora haja um impacto crescente da cultura ocidental sobre a
cultura africana. Você vê isso no hip hop africano, no modo como as
pessoas se vestem, mas em cada uma dessas coisas há algo
patentemente "africano" (na falta de um termo melhor), seja o hip
hop apresentado em línguas nativas ou o uso do rap sobre batidas
locais altamente influenciadas pela música tradicional. Penso em
pessoas como JJC [DJ e produtor nigeriano] e seu 419 Squad ou 2 Face
Idibia [cantor]... Com o romance não é diferente. Sim, você pode
dizer que a novela é uma forma ocidental de narrativa, mas autores
como Achebe ou Soyinka Ngugi tomaram essa forma e adaptaram- na para
algo inequivocamente africano. Se você olhar para o uso da oralidade
em Things Fall Apart [clássico de Achebe de 1958], como você mesmo
sugere, ela está muito aparente ali. Também é importante notar que a
identidade não é algo estático. Não sou a mesma pessoa que era há
dez anos. Definitivamente não sou o que era cinco anos atrás, mas
não acho que tenha perdido nada, sim ganhei muito de muitas
maneiras, por meio da interação e do intercâmbio. Penso que o mesmo
pode ser dito sobre arte e literatura. A arte, a cultura africana,
não perdeu nada em nenhum aspecto por estar exposta à cultura
ocidental. Tomamos e damos. Pense em todas as coisas lindas que saem
da fusão e a respeitam, Picasso e seu cubismo de inspiração
africana, por exemplo.
Na África, de quais autores você mais gosta e quais considera
fundamentais para entender não só a realidade mas o imaginário
africano atual?
Acima de tudo, acho que o estado da literatura africana é muito
forte. Há diversos artistas criando sem parar, escritores, poetas,
dramaturgos, cineastas que não têm tanta exposição no Ocidente. Só
na Nigéria, há uma série de escritores incríveis - Seffi Attah,
Chimamanda, Chris Abani - que o Ocidente agora conhece, e muitos
outros que vêm escrevendo grandes livros, mas de quem ninguém sabe
fora da Nigéria. Em termos da compreensão sobre a imaginação e a
realidade - e acho que cada livro faz isso pelo leitor -, o
continente é tão vasto e há tanta coisa que não conheço que seria
tolo de minha parte tentar listar tudo, mas minha filosofia é ler
tudo o que posso e ver aonde me leva. Gosto de muitos, não gosto de
outros, mas sempre aprendo.
ACHO QUE VAI SER MUITO DIFÍCIL A ÁFRICA 'PERDER SUA IDENTIDADE'
EMBORA HAJA UM IMPACTO CRESCENTE DA CULTURA OCIDENTAL SOBRE A
CULTURA AFRICANA"
Você já disse que, para o próximo livro, deseja fazer algo
mais "elaborado". Por outro lado, a crítica elogiou justamente a
espontaneidade de sua prosa, o vigor de sua linguagem. Esse é um
desafio para você: manter a paixão e a impulsividade expostas em
Feras e, ao mesmo tempo, criar uma obra que a seus olhos seja mais
cerebral, mais programada?
Espero não ter dado a impressão de que apenas escrevi Feras. Esse
livro me exigiu reflexão profunda, cautelosa, planejamento. Creio
haver falado mais em termos de definições, de personagens, por
exemplo. Feras é mais linear. Não é tão desafiador seguir a história
nesse sentido e não foi tão desafiador criá-lo nesse sentido. O
próximo livro que desejo escrever provavelmente brincará mais com a
estrutura da narrativa - não tão linear, não tão direta. Isso
exigirá seu próprio tempo de organização, que, tenho certeza, será
extenuante, como sempre. Mas por que trabalhar se você não vai se
estressar? E não creio que escreveria uma linha se não houvesse
paixão. Não poderia se sustentar. Feras é provavelmente mais bruto
do que qualquer coisa que já escrevi, e nesse sentido a paixão do
escritor fica muito próxima da superfície da narrativa. Novamente,
pretendo ser mais sutil na expressão de meu desejo e entusiasmo em
contar a história, mas sem dúvida estarei totalmente envolvido com
ela.
Como alguém que se relaciona com duas realidades - especialmente
devido a seu trânsito entre Lagos e Washington -, vê o papel dos
países desenvolvidos na situação africana?
É estranho navegar entre ambos os mundos, estar exposto a tal
riqueza sistematizada como a que se vê no Ocidente e então virar
para o outro lado e encontrar a pobreza que existe na Nigéria (e que
é semelhante à de outros países). Se eu penso que a África é um
continente esquecido aos olhos da Europa? Não, não, não, nem
minimamente. Eles se lembram muito bem de nós quando se trata de
extrair recursos, seja capital humano (leia-se escravos) no passado,
borracha, café ou outras "commodities", como ouro, prata, diamantes
e, é claro, meu favorito - petróleo!! O Ocidente está muito ciente
da África enquanto um continente de recursos, e isso nunca mudou. A
questão que muitos de nós temos é se somos lembrados como um
continente de pessoas -pessoas reais, que respiram. Minha resposta
para isso seria: "Nem sempre". Isso não quer dizer que todo mundo no
Ocidente seja racista e distraído quanto às lutas do cidadão
africano. Cresci no Ocidente e sei que não é assim - apesar de o
Ocidente ainda ter um longo caminho a fazer em termos de sua
compreensão a respeito da África. Isso fica evidente no caso do
homem que me disse que adoraria visitar as vastidões da Nigéria, que
adoraria ver os lugares despovoados e intocados do país - claro, sem
ter a menor idéia de que a Nigéria é um país de pelo menos 140
milhões de pessoas vivendo num espaço bastante apertado. Ou minha
história favorita - a australiana que veio me perguntar se eu havia
nascido na Somália. É claro que os somalianos têm traços
completamente diferentes dos africanos nascidos no Oeste, como eu.
Quando eu disse a ela que não, ela ficou tão desapontada... E
falou: "Bem, você não serve para mim, então". E, se você observar a
cobertura que a África tem na mídia ocidental - doença, guerra,
corrupção, pobreza -, saberá que aqueles sentimentos coloniais (O
Coração das Trevas) e a idéia da África como um continente sombrio
ainda permanecem. Tenho de dizer, e acho que todo africano
concordaria comigo, que nós, em nossos respectivos países e
culturas, também contribuímos para a inabilidade do mundo em nos
reconhecer como pessoas. Precisamos fazer mais para educar o mundo a
não ver a África somente em comparação com o Ocidente. Nossos
líderes precisam fazer melhor seu trabalho de liderança -
reconhecendo- nos como pessoas, e não como instrumentos. Enquanto
não fizerem isso, o Ocidente nunca o fará.
Em seu livro, é clara a crítica ao poderio africano, a seus
exércitos improvisados e comandantes de causas nebulosas...
Como cidadãos de um continente e país particulares, definitivamente
precisamos exercitar mais nossas vozes e falar com uma unidade
maior. Não sou um superpan- africanista - de certo modo acho um
absurdo pensar que a África pode falar com uma única voz
cultural..., mas ao mesmo tempo penso que todas as nossas culturas e
países têm muitas similitudes e que talvez (como nada une mais as
pessoas do que o dinheiro) tenhamos tantos interesses econômicos
semelhantes que poderíamos cooperar entre nós para avançarmos. Pense
nisso: os países africanos exportam tanto para o resto do mundo e no
entanto há 860 milhões de consumidores em nosso continente. Temos
todos os recursos naturais necessários - minérios, petróleo,
agricultura - para desenvolver um sistema econômico fechado, baseado
totalmente na África. Não que isso seja uma boa idéia, mas serve
para ilustrar que poderíamos nos ajudar construindo sistemas inter-
africanos e soluções africanas para problemas africanos. Acredito
que o Ocidente precisa ser lembrado do quanto prejudicou a África,
mas queixar-se não resolve em nada nenhum dos problemas existentes.
E, sim, eu critico lideranças no meu livro, mas todas as que tenham
se esquecido do seu dever de proteger as pessoas. Para mim matar é
matar. Nao vejo diferença entre esfaquear alguém até a morte ou
explodilo em milhões de pedaços com uma bomba de precisão guiada por
raio laser. A África não é um continente sem esperança. É necessário
apenas vir e ver quantas pessoas estão prosperando apesar das duras
circunstâncias, como estão fazendo tudo o que podem para virar o
jogo.
Brasil e África têm imensos laços históricos e culturais, e você vem
agora para a Flip. O que espera dessa viagem e do evento?
Estou pronto para ver o Brasil. A música, as culturas, as pessoas.
Minha mãe foi ao Brasil e simplesmente adorou o país. Gostou tanto
que, em família, vamos passar as férias e o Natal deste ano aí. E os
festivais conectam pessoas e nos fazem crescer como escritores,
através dos debates com os leitores e com outros autores e da
celebração da arte da literatura. Espero fazer exatamente isso. E
aprender com os autores e leitores brasileiros, bem como com
escritores de todos os lugares do mundo. Estou entusiasmado - meu
irmão mais novo estará comigo em Parati. Ele é poeta, artista de hip
hop e estudante universitário, então será bacana ver o que ele tem a
dizer e como se sentirá. Os dois estamos muito animados.
''NÃO SOU UM SUPER-PAN-AFRICANISTA. ACHO UM ABSURDO PENSAR QUE A
ÁFRICA PODE FALAR COM UMA ÚNICA VOZ CULTURAL"
(Raça Brasil, Edição 101 - Agosto/2006)