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Boletim do Ceao
Destaques
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Religião
Livro é associado a uma inquisição pós-moderna
Publicação assinada por Edir Macedo é condenada por religiosos e
intelectual
Regina Bochicchio
"Nós já estamos acostumados com esse tipo de informação infundada. O
pedido de análise foi encaminhado para a Promotoria da República e,
somente depois da análise do livro pelo promotor de justiça, é que
iremos nos pronunciar", disse o deputado estadual Marcio Marinho
(PL), líder da bancada evangélica da Assembléia Legislativa -
representante principal da Igreja Universal na política local - sobre
o ofício com pedido para análise do livro "Orixás, Caboclos & Guias -
deuses ou demônios?", do pastor Edir Macedo, fundador da Igreja
Universal do Reino de Deus (Iurd).
O ofício é de autoria do promotor de justiça, titular da 2ª
Promotoria de Justiça de Cidadania de Salvador, do Ministério Público
(MP), Lidivaldo Reaiche Raimundo Britto. O deputado disse, também,
que, na sua opinião pessoal, a Iurd considera o direito à crença
religiosa das pessoas: "A gente respeita cada um".
A opinião do deputado Márcio Marinho difere em muito de estudiosos
como o antropólogo Jocélio Telles, especialista no tema religiosidade
e, atualmente, à frente do Centro de Estudos Afro-Orientais
(Ceao/Ufba). Para ele, afirmações como "Oxum, Iemanjá, Ogum e outros
demônios são verdadeiros deuses a quem o adepto oferece trabalhos de
sangue", contidas no livro de Edir Macedo, são mais uma das
manifestações de intolerância na sociedade brasileira, sendo que no
âmbito religioso, este é o exemplo que vem sendo repetido nas duas
últimas décadas. Não só nos livros publicados, mas nos programas
televisivos de emissoras nas quais o comando está a cargo de igrejas
evangélicas.
"Eu leio como uma inquisição pós-moderna. Nós não temos mais
fogueiras, mas a simbologia é transferida para as emissoras, os
textos, os livros são a face do ataque", diz Telles. O pedido de
análise do livro pelo MP, para ele, é a relação lógica e coerente a
ser estabelecida em casos como esse. "Se as leis professam a
liberdade de culto religioso, os mecanismos legais devem ser
acionados por todos os que sofrem preconceito", continua ele. Segundo
informa, as religiões evangélicas cresceram bastante nas duas últimas
décadas, porém, agora têm se mantido estáveis. Isso, em parte,
explicaria o acirramento da intolerância contida em textos como o do
livro de Edir Macedo, como forma de tentar arrebanhar ainda mais
adeptos do catolicismo, kardecismo e gente ligada a outras crenças.
Pluralismo – A Igreja Católica - historicamente ressentida com a Iurd
por conta do episódio do chute na santa, dado pelo pastor Von Elder
em 12 de outubro de 1995, ou seja, em pleno feriado dedicado à Nossa
Senhora Aparecida, e veiculado por uma emissora de TV - não passa a
mão na cabeça de ninguém.
O coordenador local da Pastoral Afro, padre Fidélis Katsan, 41 anos,
natural da Africa Ocidental, é incisivo: "Essa publicação é infeliz,
principalmente no mundo atual, no qual se prega o pluralismo
religioso. Se fosse com os católicos nos sentiríamos ofendidos, sem
dúvida. Mesmo não sendo do candomblé, temos todo o respeito por essa
religião". Padre Fidélis vai além e vê, nas entrelinhas, uma forma de
racismo: "Tudo o que é de negro não presta? É muito sério isso, está
em jogo a convivência entre as pessoas". A via jurídica seria uma
entre muitas maneiras de se resolver o problema.
É bom frisar que nem todas as religiões evangélicas pactuam com a
postura da Igreja Universal. O pastor Fernando Pires, 57 anos, da
Igreja Batista, não crê nessa estratégia. "Nós temos uma pérola
preciosa que se chama Jesus Cristo, que é inesgotável. Minha opinião
é a de que deveríamos falar mais sobre Jesus do que estar combatendo
esta ou aquela crença que não concorda conosco".
Para Constituição, liberdade de crença é inviolável
É certo que cada religião defende um ponto de vista em relação às
crenças. Porém, existem estudiosos ponderados como é o caso de Walter
Barreto de Alencar, 74 anos, membro da Federação Espírita do Estado
da Bahia e autor do livro "Reflexões sobre a doutrina crística". "Eu
os compreendo caritativamente. Se eu fosse praticante de uma religião
afro não me sentiria ofendido porque a visão deles é essa. Não estou
querendo dizer que aprovo esse comportamento, apenas que o patamar
deles é dessa altura. Por isso, não procuraria revidar", diz. Ele
disse, ainda, que deveria haver respeito a todas as correntes de
pensamento e que não sabe se, no caso da Universal, se age desta
forma por interesses mercantilistas, preconceito ou por crença mesmo
nas afirmações contidas do livro, por exemplo. "Se o Ministério
Público está tomando suas providências, deve ter suas razões para
isso".
A legislação brasileira é clara. A Constituição Brasileira em seu
Capítulo I, citando direitos individuais e coletivos, diz que a
liberdade de consicência e crença é inviolável e que garante proteção
aos locais de culto. Diz, também, que ninguém será privado de
direitos por motivo de fé, ideologia filosófica ou política. Há
também a lei nº7.716/89 que qualifica como crime a discriminação
religiosa.
(A Tarde, 22/02/2005)
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Religião
Toda fé tem de ser tolerada
O bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, diz
no livro "Orixás, caboclos & guias" que seguidores do candomblé e
kardecistas têm pacto com entidades do mal. Obaluaê, na publicação
que será examinada pela Justiça, é o "deus da Aids"
Cleidiana Ramos
A representação na Bahia da Procuradoria da República foi acionada,
na última quarta-feira, para examinar o livro "Orixás, Caboclos &
Guias – deuses ou demônios?", escrito pelo líder da Igreja Universal
do Reino de Deus, Edir Macedo. O ofício com o pedido para a análise é
de autoria do promotor de Justiça, titular da 2ª Promotoria de
Justiça da Cidadania de Salvador, do Ministério Público Estadual,
Lidivaldo Reaiche Raimundo Britto, que quer a proibição da venda em
qualquer parte do Brasil.
O promotor se baseia em instrumentos criados na legislação brasileira
para combater a discriminação religiosa, como a Lei nº 7.716/89, que
considera essa prática crime. A Constituição Brasileira em seu
Capítulo I, quando cita os direitos e deveres individuais e
coletivos, diz que a liberdade de consciência e de crença é
inviolável e garante proteção aos locais de culto e às suas
liturgias. Mais adiante, a mesma Constituição afirma que ninguém será
privado de direitos por motivo de fé ou de ideologia filosófica ou
política.
Pois bem, logo no primeiro capítulo do seu livro, Edir Macedo
dispara: "Houve com o decorrer dos séculos um sincretismo religioso,
ou seja, uma mistura curiosa e diabólica de mitologia africana,
indígena brasileira, espiritismo e cristianismo, que criou ou
favoreceu o desenvolvimento de cultos fetichistas como a umbanda, a
quimbanda e o candomblé".
DESRESPEITO – Mais adiante, diz que "Oxum, Iemanjá, Ogum e outros
demônios são verdadeiros deuses a quem o adepto oferece trabalhos de
sangue" (...). Logo depois, parte para cima do espiritismo: "No
kardecismo e nas demais ramificações espíritas ou espiritualistas, os
demônios se apresentam como espíritos evoluídos ou ainda em evolução,
que precisam de doutrina. Na maioria desses cultos, eles são
invocados para prestar caridade, seja praticando o curandeirismo ou
transmitindo mensagens que vão iluminar os adeptos".
Isso tudo está num livro que, segundo informações contidas na sua
folha de rosto, já alcançou a 15ª edição, 6ª tiragem em 2004 e que
pode ser comprado tranqüilamente por R$ 5. O adquirido por A TARDE
estava à venda na livraria que funciona num anexo da Catedral da Fé,
no Iguatemi.
A edição feita em 2004 está diferente da publicada em 2000, que,
segundo informações incluídas no livro, vendeu dois milhões de
exemplares. A capa atual – apesar de trazer a mesma imagem (uma
mulher em vestes utilizadas no culto de candomblé olhando para uma
oferenda onde se sobressai um crânio – já não traz mais o
selo "finalmente liberado pela Justiça".
"O crime de discriminação religiosa fica ainda mais grave quando
utiliza qualquer tipo de publicação para passá-lo adiante", destaca o
promotor Lidivaldo Britto. Ele diz que a punição para esse delito é
de um a três anos. No caso de um agravante, como a divulgação ampla,
a exemplo de registrá-la em livro, aumenta a pena para dois a cinco
anos.
BATALHA – "A venda desse livro também é crime", completa. O promotor
Lidivaldo Britto tem feito um pioneiro trabalho de combate à
intolerância religiosa no âmbito legal. Desde 2001, ele já apresentou
oito denúncias de casos que se encaixam nessa classificação e um
ainda está em apuração (ver quadro abaixo). Desse total, apenas um
não tem como vítimas as religiões de matrizes africanas.
"É um absurdo que ainda tenhamos esse tipo de prática no Brasil, pois
a Constituição é taxativa quanto à liberdade de credo. No caso da
Bahia, isso é mais grave, pois a Constituição Estadual, em seu Art.
275, diz que é dever do Estado preservar e garantir a integridade,
respeitabilidade e a permanência dos valores da religião
afrobrasileira", aponta o promotor.
Livro nega mediunidade
Na introdução do livro, Macedo garante que não quer ver sua obra
transformada em "pomo de discórdia".
Chega a dedicá-la "a todos os pais-de-santo e mães-de-santo da nossa
pátria". "Se assim acontecesse, eu me arrependeria de tê-lo escrito.
Quero, sim, que sirva para mostrar o caminho certo a todos os
errantes; levando o leitor a examinar cuidadosamente, sem
preconceitos, a religião que tem praticado", acrescenta.
Logo adiante num capítulo sobre mediunidade dispara: "Não existe
mediunidade! O que existe são pessoas que, por causa da ignorância,
entregam seus corpos para a habitação dos espíritos demoníacos.
Todas as pessoas que entram no espiritismo são logo chamadas de
médiuns. Por quê? Simplesmente porque, se não têm demônios em seus
corpos, fatalmente o terão e daí passarão à prática do demonismo".
O bispo lança seus dardos também contra os Hare Krishna e a Igreja
Messiânica. "(...) pode se dar o caso de seus adeptos não
manifestarem demônios, mas isso não quer dizer que tais pessoas não
estejam endemoniadas. Há demônios que não se manifestam. Agem na
surdina, ficando disfarçados nas mentes, muitas vezes religiosas, das
pessoas".
Macedo não usa meias palavras para atacar as religiões afros: "(...)
quando temos problemas, satanás se apresenta imediatamente e,
supostamente, se coloca à nossa disposição para resolvê-los. É aí que
entra a umbanda, quimbanda, candomblé e as religiões e práticas
espíritas de um modo geral, que são os principais canais de atuação
dos demônios, principalmente em nossa pátria".
INTOLERÂNCIA – Abaixo de uma imagem onde aparecem pessoas com as
vestes rituais do candomblé diante do que parece um altar católico
está escrito: "Festa de formatura, onde os adeptos ganham de presente
uma legião de demônios para trabalhar com eles".
Ao lado de uma representação da pombagira aparece o texto: "A
pombagira causa, em muitas mulheres, o câncer de útero, de ovário, a
frigidez sexual e outras doenças. À sua atuação atribuem-se as
práticas sexuais ilícitas e outras situações ligadas à sensualidade
pecaminosa".
Num quadro onde estão listados os orixás, Obaluaê é o "deus da
varíola, da peste, das doenças de pele e da Aids". Macedo apresenta-
se como Doutor em Divindade (D.D.), em Teologia (Th.D) e Filosofia
Cristã (Ph.D).
A TARDE tentou contato com a Universal Produções, que assume a edição
do livro e está sediada no Rio de Janeiro. Foram feitas quatro
ligações, que, após passar por um atendimento eletrônico, eram
interrompidas.
"A intolerância religiosa empobrece a capacidade de pensar"
Chefe do Departamento de Antropologia da Ufba, estudioso das
religiões africanas e ogã do Terreiro Casa Branca, o professor Ordep
Serra diz que a impunidade que ainda impera para ações de
discriminação religiosa tem que acabar.
"Isso é um crime racista, fascista, que não deveria acontecer num
país democrático como o Brasil. Tem que acabar a impunidade dessas
pessoas que não controlam igrejas, mas sim empresas eclesiásticas que
estão voltadas para o lucro e busca de poder", lamentou Serra.
Ele acrescenta que atitudes como a do promotor Lidivaldo Britto são
indispensáveis para uma higiene intelectual: "A intolerância
religiosa é uma nova forma do racismo que só empobrece a capacidade
de pensar", completou.
O médium José Medrado diz que o combate à discriminação religiosa é
fundamental para a preservação da cidadania no Brasil, garantida pela
Constituição Federal, e também cobra ações das autoridades
competentes.
"É lamentável que, no século XXI, os grandes conflitos que o mundo
vem vivenciando tenham raízes em diferenças religiosas. O Brasil, que
tem uma vocação pacifista, não pode tolerar que alguém que se diz
líder religioso passe por cima da lei e fique impune por acumular
poder econômico e político que ninguém ousa enfrentar", destaca.
Manchas na liberdade de culto
O Ministério Público da Bahia, por meio da 2ª Promotoria de Justiça
da Cidadania, é pioneiro no Brasil em ações contra a intolerância
religiosa. Confira a seguir os casos que já foram denunciados
2001
A primeira denúncia, apresentada em janeiro de 2001, foi contra o
padre Pierre Ghislain Joseph Mathon, que deu entrevistas em A TARDE
protestando contra uma visita ao Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá
realizada pelos participantes do XI Encontro Nacional de Bispos,
Padres e Diáconos Negros do Brasil.
No mesmo mês, o promotor denunciou Eliane Bezerra Araújo e André Luiz
Barbosa Moura, integrantes da Igreja Assembléia de Deus, por entrarem
sem permissão no terreiro Axé Abassá de Ogum, situado em Itapuã, por
duas vezes, sob o argumento de que ali "era a casa do demônio". A
ialorixá, Gildásia dos Santos, mais conhecida como Mãe Gilda, morreu
poucos dias depois da segunda invasão vitimada por um problema
cardíaco. Os herdeiros, que têm à frente Jaciara Santos, já ganharam
em primeira instância o direito de receber R$ 1,3 milhão da Igreja
Universal, que publicou uma foto da ialorixá no jornal Folha
Universal em uma matéria intitulada "Macumbeiros charlatões lesam o
bolso e a vida dos clientes".
A Promotoria também apresentou denúncia contra Átila Brandão,
presidente da Igreja Batista do Caminho das Árvores, José Carlos
Oliveira da Silva e Antônia Maria dos Santos. Os três participaram do
programa "Portal da Esperança", apresentado na TV Aratu, onde
atacaram o culto afro.
2002
Só foi movida uma denúncia, envolvendo Jurandir Miguel Martins dos
Santos, ministro batista, que distribuía panfletos na Festa de
Iemanjá, dizendo que o culto ao orixá acabaria levando seus
praticantes ao inferno.
2003
Em janeiro, a denunciada foi Sara Ferreira Campos, dona da Escola Sul-
Americana. Ela encomendou uma pintura a um artista que escolheu o
orixá Ogum como tema. Logo depois, ela pediu a retirada do painel
alegando reclamação do pai de um aluno evangélico, que ameaçou
retirar o menino da escola se o painel continuasse exposto.
Três meses depois, a Promotoria apresentou uma das denúncias de maior
repercussão: o bispo evangélico Sérgio Santos Correa e os pastores
Gilberto Muniz Pereira e Aurélio Mendonça da Trindade, responsáveis
pelo programa Ponto de Luz, produzido pela Igreja Universal do Reino
de Deus e exibido na TV Itapoan, apresentavam o culto afro como
condutor de maldições e mortes. O programa apresentava o
arrependimento de pessoas sob o argumento de que a "libertação" só
aconteceu a partir da participação na Igreja Universal. A ação do MP
conseguiu a mudança de horário do programa, que era veiculado das 13
às 14 horas, para o final da noite.
A última denúncia apresentada em 2003 envolve Wellington Pereira dos
Santos, Roberto Pereira dos Santos e Maria do Carmo dos Santos Matos
por agressão aos freqüentadores do Terreiro de Umbanda Boiadeiro Rei
de Águas Claras, localizado em Cosme de Farias. Justificando uma
desavença com um dos participantes, eles passaram a jogar pedras e
ofender quem chegava para participar do culto.
2004
Em junho, a denúncia envolveu o contra mestre Pedro José Barbosa, o
engenheiro civil Carlos Henrique Sales de Castro e Marcelo Meireles,
da empresa M. Dias Branco S.A. – Comércio e Indústria Grande Moinho
Aratu são acusados de discriminar evangélicos. Segundo a denúncia,
Pedro José afirmou não gostar de "crente, nem de baiano" e sempre
dizia que "crente é preguiçoso e baiano é burro".
A partir da apresentação da denúncia pelo MP, essas ações passam a
ficar a cargo de julgamento judicial.
(A Tarde, 21/02/2005)
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Ter, 22 de Fev de 2005 2:55 pm
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