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#30 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Ter, 27 de Jul de 1999 1:23 am
Assunto: Nome e Fama
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Nome e Fama


     NA IDADE MADURA, JAMYANG KHYENTSE Wangpo resolveu nunca mais sair
de seu quarto. Ele iria ficar seus quarenta anos restantes meditando
e rezando em retiro. "Jamais cruzarei a porta dessa casa," ele disse.

     Depois de tomar este voto, Khyentse deu os sapatos a seus criados.
Eles foram deixados num rio proximo.

     Uma manha, alguns anos depois, o clarividente Mestre Manjusri
inexperadamente instruiu seus criados a receber quem quer que quisesse
visita-lo.

     Mais tarde naquele dia, um vagabundo anonimo apareceu. Ele foi
direto para a ala pessoal de Khyentse Rinpoche e largou sua surrada
mochila feita a mao no canto da cozinha. "Vim ver Ngedon. Onde esta'
Ngedon?" ele perguntou.

     Os servos imediatamente se ofenderam. Esqueceram-se completamente
das instrucoes do mestre. Quem era esse vagabundo maltrapilho para
insultar seu glorioso mestre chamando-o pelo seu nome de crianca,
Ngedon?

     Ordenaram que o mendigo se fosse. "O mestre esta' em meditacao
profunda," disseram ao mendigo. "Talvez outra hora!"

     O mendigo falou bruscamente, "Ele realmente ficou tao importante
agora! Quando eramos jovens eu dividia meu queijo com ele, e agora nem
consigo passar por seus criados! Nao tenho tempo a perder." E comecou
a partir.

     Repentinamente os servos lembraram das instrucoes incomuns.
Apressadamente, perguntaram o nome do mendigo. O impaciente Patrul,
ja' de saida, gritou, "Orgyen" - o nome de Padma Sambhava (bem como
seu proprio) - sobre seu ombro e desapareceu nas colinas.

     Naquela noite, Khyentse Rinpoche perguntou se alguem tinha vindo
visita-lo. Um criado respondeu, "So' um velho vagabundo enjoado, que
insultou seu nome. Ele grandiosamente chamou a si proprio Orgyen e
nao quis esperar."

     "O que?!" exclamou Khyentse Rinpoche. "Nao o deixaram entrar?
Aquele era meu irmao do Darma Patrul Rinpoche, Orgyen Chokyi Wangpo.
Encontrem-no e tragam-no aqui."

     Os criados humilhados finalmente, depois de uma longa e cansativa
busca, encontraram Patrul acampado na floresta bem longe do vale.
Prostrando-se eles muito se desculparam e convidaram para ser o
convidado de honra de seu veneravel mestre. Gargalhando, Patrul
respondeu que estava ocupado demais meditando para atender
convites sociais.

     Aquele foi o ultimo contato direto entre os lendarios parceiros.
Apesar disso, um sempre sabia das atividades do outro,
e frequentemente presenteavam seus discipulos com historias e piadas
a respeito um do outro.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
http://bodisatva.org

#29 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Sex, 23 de Jul de 1999 4:42 pm
Assunto: Reliquias de Cabelos Sagrados
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Reliquias de Cabelos Sagrados

             Patrul Rinpoche nao gostava de bajuladores. Se este mestre
             direto, franco, realista e imparcial percebia puxa-sacos
             ele os chamava de "mentes desviadas".
             Os lamas frequentemente amarram cordinhas vermelhas em
             volta dos pescocos de seus seguidores, como protecao e
             bencao. Acredita-se que o cabelo, unhas, roupas
             e assemelhados dos lamas contem bencaos comunicaveis aos
             fieis e portanto sao preservados e mantidos.


     UM DIA, UM LAMA CHAMADO Longna Tulku veio visitar Patrul Rinpoche.
Enquanto Longna Tulku se prostrava na porta, Patrul Rinpoche observou
brincalhao, "Parece que alguem esta' se prostrando aqui - por que
sera?"

     Longna (que significa bambu d'agua) se apresentou. "Ah-zi!"
exclamou o mestre. "Que tempos estranhos vivemos; agora ate' os bambus
tem tulkus!"

     Gargalhando, Longna retrucou, "Bem, se podem haver tukus 'troncos',
porque nao 'bambus-d'agua' - pelo menos e' madeira verde e viva!"
Foi um inteligente trocadilho no nome da reencarnacao do guru de
Patrul, Dza Trama Tulku - pois "trama" pode significar pedacos
pequenos de madeira seca, tanto quanto um lugar no Tibete oriental.
     Patrul nao disse nada. Ele ficou obviamente satisfeito com a
resposta do lama. E sabia que seu visitante tinha incomensuravel
respeito pelos praticantes do Dzogchen.

     Logna Tulku sentou aos pes de Patrul. Enquanto conversavam, ele
pegou discretamente alguns cabelos humanos do tapete para manter como
uma reliquia. Percebendo o que seu visitante estava fazendo,
Patrul rosnou, "Qual e' a tua?"

     Sabendo que Patrul Rinpoche nao aprovaria seus cabelos perdidos
sendo feitos reliquias, Longna Tulku charlateou, "O gado de meus
discipulos foram atingidos por uma epidemia, e os lobos sempre os
atacam. Se amarrar esses cabelos a volta de seus pescocos, isso os
protegera'."

     Patrul Rinpoche nao se deixou enganar. Porem, consciente da
sinceridade do visitante, nao somente deixou-o juntar o cabelo mas
tambem tirou uma peca de roupa que estava vestindo e a deu a Longna -
uma cortesia especial sem duvida.

     "Aqui esta uma protecao para o teu rebanho," ele gesticulou gentil.
"Com um pastor malandro que nem tu para cuidar deles, eles precisam
de toda protecao que conseguirem!"

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Ainda temos cinco historias de Patrul Rinpoche... :)
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
http://bodisatva.org

#28 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qui, 22 de Jul de 1999 4:22 pm
Assunto: O Rei dos Fantasmas
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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O Rei dos Fantasmas


         Chogyur Lingpa e Dza Patrul eram jovens contemporaneos de
         Jamgon Kongtrul e Jamyang Khyentse Wangpo, que comecaram
         uma renascenca budista no tibete oriental do seculo dezenove.
         Ambos mestres iluminados estudaram de uma forma nao-sectaria
         sob a tutelagem de muitos dos maiores mestres de seu tempo,
         recebendo transmissoes de todos os ensinamentos sobreviventes
         e linhagens orais.
         Diz-se que monges malvados renascem, em alguns casos, como
         reis fantasmas. Samaya refere-se aos votos e compromissos
         tantricos.


    CERTA VEZ CHOGYUR LINGPA DISSE AO abade Khenpo Rinchen Dargye', um
de seus principais discipulos, "Deverias ir a Dzachuca e receber
ensinamentos de Patrul Rinpoche, especialmente o Bodhicarya-avatara
de Shantideva, que ele sabe de cor. Ele e' um professor inesquecivel,
transborda sabedoria e bencaos."

    O Mestre dos Tesouros graciosamente deu a seu erudito discipulo
uma carta de recomendacao pessoal, dirigida a Patrul, dizendo,
"Por favor, de roupas, alimento e darma para este meu orgulhoso
discipulo."

    Khenpo Rinchen Dargye' era um monge completamente ordenado, um
exemplar detentor dos tres veiculos da tradicao Budista: Theravada,
Mahayana e Vajrayana. Pela sua aparencia externa ele era um
renunciante, desapegado, desabrigado monge e seguidor da senda,
enquanto sua atitude interna era a de um bodisatva compassivo cujos
votos altruistas infalivelmente colocavam as necessidades dos outros
a frente das suas. Secretamente, ele era um desinibido praticante
dos ensinamentos nao-duais do Tantra Budista Vajrayana.

    Carregando seus imaculados trajes monasticos num ombro, sua grande
vasilha de esmolas nas costas, e sua bengala de mendicante na mao,
finalmente o khenpo, depois de muitos dias a pe', chegou na presenca
de Patrul. Enquanto o veneravel abade se prostrava perante Patrul,
este exclamou, "Ah-yii! Aqui esta o rei dos fantasmas!"

    Ele se levantou rapidamente, sem dar chance a Khenpo Rinchen Dargye'
de oferecer as tres prostracoes formais. Rinchen Dargye' mal consegui
apresentar sua carta de apresentacao, que Patrul jogou num canto
escuro, antes de ser expulso da cela espartana do lama.

    No outro dia, reunindo sua coragem, o khenpo novamente se apresentou
a Patrul, o vagabundo iluminado. Ele pediu instrucao espiritual e
orientacao, especialmente ensinamentos sobre a "Entrada no caminho
do Bodisatva," o Bodhicarya-avatara, como seu professor Chogyur Lingpa
havia-o instruido a fazer.

    Patrul replicou, "Nao posso te dar estes ensinamentos. Nao sou um
professor; nao ha' nada que eu possa fazer por uma pessoa importante
como tu. Que queres de um velho tolo que nem eu?" E o Khenpo foi
novamente expulso do recinto.

    Na manha seguinte, Rinchen Dargye' renovou seu pedido. Patrul disse
a ele, "Bem, fique por ai'; entao veremos."

    Por um mes, o implacavel Patrul nao pronunciou uma palavra sequer
de instrucao na presenca do khenpo. Rinchen Dargye' aparecia
diariamente, se prostrava ao mestre, sentava alimentando esperancas
e bebendo cha' fraco - e finalmente ia embora.

    Sendo uma das mais mais altas regioes de Khan, Dzachuka era fria e
assolada por ventos. O rigores incomuns da montanha rugosa de Patrul
se provaram inconfortaveis para o elegante abade. Finalmente Rinchen
Dargye' confessou ao mestre, "O Mestre dos Tesouros Chogyur Lingpa me
enviou para receber ensinamentos de ti. Mas se nao vais me conceder
nem uma palavra de conselho ou instrucao, devo retornar a ele de maos
vazias. Porem, se, por sua preocupacao compassiva, tu gentilmente
consentires me ensinar, por favor saiba que tenho fervorosa fe' tanto
em ti quanto na linhagem impecavel que representas e corporificas.
Eu realmente desejo praticar seus ensinamentos ao ponto mais alto.
Nao tenho votos monasticos quebrados, nem samaya Vajrayana danificado,
e tenho purificado todos os pensamentos invertidos. Por favor
ensina teu servo humilde!" O famoso abade e erudito continuava a
assediar o mestre vestido em trapos de ovelha.

    Sem dar muita atencao a esta fala elaborada, o laconico Patrul
replicou despreocupado, "OK, volte amanha."

    Na manha seguinte, quando Rinchen Dargye' apareceu, Patrul
primeiro deu a ele um robe monastico dizendo, "Aqui esta' a roupa."
Entao presenteou o abade com uma perna de carneiro. "Aqui esta' a
comida," ele disse. Enfim, Patrul presenteou o khenpo com um volume
do Bodhicarya-avatara, dizendo, "Aqui esta' o Darma".

    Entao o provocativo mestre concluiu, "Entao, agora tu ja' recebece
roupa, comida e Darma, como queria o Mestre dos Tesouros. Amanha
deves ir."

    Profundamente desapontado, Rinchen Dargye' se prostrou perante
Patrul no chao de terra, se curvando varias vezes, fervorosamente
gritando, "Por favor me da' ensinamentos!"

    Patrul disse impassivel, "Chogyur Lingpa disse para dar roupa,
comida e Darma. Tu ja' os tem; e' isso."

    Porem, Rinchen Dargye' persistiu, implorando a Patrul para
liberta'-lo da ilusao atraves dos preciosos ensinamentos, para
beneficio dele e dos outros.

    Finalmente, quando intuiu que Rinchen Dargye' estava maduro,
o mestre incomprometidamente comecou a ensinar. Ele continuou por
muitos meses. Khenpo Dargye' rapidamente progredia, finalmente
se tornando um dos grandes mestres de seu tempo.

    O khenpo ficou eternamente grato a Patrul pelas licoes pessoais que
recebeu - nao somente pelos ensinamentos formais mas tambem pelos
modos bruscos e dureza que o mestre continuou a mostrar de forma
a eliminar o orgulho e pretensao de Rinchen Dargye'.

    O khenpo frequentemente contava que Patrul havia-o chamado
"rei dos fantasmas" no primeiro encontro e purificado-o por faze-lo
esperar tanto, porque percebeu que Rinchen Dargye' estava afetado
por um residuo oculto de auto-estima por ser um erudito e monge
exemplar.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
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#27 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qui, 22 de Jul de 1999 4:21 pm
Assunto: A Prata e' um Veneno
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A Prata e' um Veneno


     UMA VEZ PATRUL VIVEU EM UM VALE onde as pessoas eram muito
devotadas a ele. Um dia alguns eruditos khenpos (abades), juntamente
com o filho do mestre dos tesouros Chogyur Lingpa, Tsewang Norbu,
foram ate' seu retiro solitario de forma a receber ensinamentos;
todos sentaram ao redor de Patrul em uma varzea cercada de flores
silvestres.

     No vale havia um homem que fervorosamente desejava oferecer a
Patrul uma peca de prata na forma de uma ferradura do tamanho de
uma pedra. Mas ele sabia que Patrul raramente aceitava oferendas.

     O velho chegou repentinamente a cavalo, desmontou, prostrou-se
tres vezes, e colocou o pedaco de prata aos pes de Patrul. Ele gritou,
"Aqui esta' uma oferenda. Por favor me salve de renascer nos reinos
inferiores!" Entao ele saltou no cavalo e fugiu galopando, consciente
de que se permanecesse, Patrul rejeitaria sua oferenda.

    Tsewang Norbu pensou para si, "Patrul provavelmente utilizara' esta
oferenda para algum proposito meritorio." Patrul, porem, nunca pegou
o pedaco de prata. Quando completou seus ensinamentos, simplesmente
se levantou e saiu.  Tsewang Norbu nao podia deixar de pensar que
teria sido melhor utiliza-la para algum proposito meritorio, ao inves
de apenas deixa-la ali, mas manteve estes pensamentos para si.

    Enquanto caminhava, olhou para tras varias vezes: a prata ainda
estava ali, um ponto brilhante na varzea verde. Esta imagem permaneceu
com ele enquanto desciam a colina, e um sentimento muito poderoso
de cansaco com as coisas do mundo e renuncia surgiu dentro dele.

    Tsewang Norbu pensou consigo mesmo, "Quando penso no meu gracioso
guru e nas pessoas ao redor dele que totalmente renunciaram aos apegos
ilusorios desta vida passageira, me faz pensar que deve ter sido
exatamente assim durante a vida de Buda e os arhats liberados."

    Entao lembrou uma historia:

    Certa vez o Senhor Buda e seus discipulos - incluindo Ananda,
Kasyapa e outros - estavam caminhando quando viram uma grande
pepita de ouro no chao. Enquanto passavam, um apos o outro exclamava,
"Veneno!"

    Uma garotinha que estava colhendo lenha ali por perto ouviu isso.
Depois que eles se foram, ela viu a pepita, sem saber exatamente o
que era. Ela pensou, "Que estranho - aqui esta uma peca bonita e bela
de pedra amarela, e todos os estimados arhats pularam por ela e
evitaram toca-la, exclamando 'Veneno!' Deve ser algo que eu tambem nao
devo tocar.

    A crianca correu para casa para contar a sua mae. "Hoje vi um tipo
esquisito de veneno," ela comecou, relatando o que havia ocorrido.
Sua mae foi imediatamente checar. Ela achou o ouro, levou para casa
e utilizou-o para patrocinar oferendas religiosas.

    As noticias se espalharam como fogo de que o Buda e seus amigos
renunciantes haviam intencionalmente evitado uma peca de ouro,
deixando-a na relva, e alem disso que haviam chamado-a de veneno.

    Tsewang Norbu se sentiu muito edificado, inspirado por ver -
que mesmo nos tempos modernos - seu professor Patrul Rinpoche
naturalmente seguia seus passos.

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"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
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#26 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 21 de Jul de 1999 2:35 pm
Assunto: Chuva de Flores
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Chuva de Flores


     CERTA VEZ PATRUL RINPOCHE ENSINOU o Tantra da Essencia Secreta
perto de sua caverna em Upper Doe. Entre seus discipulos estava um
nomade idoso. Atravessando o rio no seu iaque todas as manhas, ele
voltava para casa toda noite.

     Um dia uma chuva torrencial fez o rio transbordar. Apesar disso
o devoto anciao tentou cruza-lo. Carregado pela forte correnteza,
ele se afogou. Alguns nativos carregaram seu corpo pela colina ate'
Patrul.

     "Ah-zi! Pobre senhor!" Patrul exclamou. "Ele morreu por seu desejo
de receber ensinamentos. Devemos orar e fazer profundas aspiracoes para
seu desenvolvimento futuro."

     O cadaver jazia no chao perante o mestre compassivo. A mulher e
parentes do velho se lamentavam ruidosamente. No Tibete oriental a
morte por afogamento e' considerada especialmente de mau agouro, ja'
que os nomades acreditam que quem morre assim renasce nos planos
inferiores da existencia.

     "Por favor o proteja com sua compaixao infalivel!" a angustiada
viuva implorava repetidas vezes a Patrul, se lamentando e chorando.
"Livre-o dos tormentos do inferno."

     Acompanhado por sua assembleia de discipulos, Patrul comecou a
cantar a pratica de Phowa, que transfere a consciencia do morto para
os reinos mais altos na direcao da liberdade e iluminacao.

     Um chuvisco gentil, que os tibetanos excentricamente chamam de
"chuva de flores," comecou a cair, e delicadas nuvens nas cores do
arco-iris comecaram a se formar. Olhando para o ceu e depois para
o cadaver, Patrul comecou a gargalhar repentinamente, deixando a
recitacao inacabada. Os monges e lamas reunidos completaram o ritual
a sos, mas ninguem ousou questionar Patrul.

     Alguns dias depois, um discipulo respeitosamente perguntou,
"Rinpoche, todos sabem que amabilidade e compaixao sao os principais
focos de sua meditacao. Porque gargalhastes quando aquele velho
nomade morreu?"

     Patrul respondeu, "Aquele senhor era realmente digno de compaixao.
Mas algo engracado aconteceu ali."

     "O que aconteceu?" o discipulo perguntou.

     "Sentindo grande pena, orei para que renascesse num reino de
deleites; instantaneamente o vi renascendo como um ser celestial no
Paraiso dos Trinta e Tres Deuses. Por gratidao pelo meu ensinamento
do "Tantra da Essencia Secreta," ele sorriu e lancou uma chuva de
flores divinas sobre nos.

     "Olhei para o cadaver enrugado de cabelos brancos a minha frente
e para todos os parentes solucando com medo do inferno - e nao
pude aguentar. Pensei para mim mesmo, 'Isto realmente e' a ilusao
de samsara!' Entao pensei, 'Vendo-me rir, estas pessoas pensam que
eu sou estranho; vendo-as chorar, quando o velho homem ja' virou
um ser celestial, penso que elas sao estranhas. Isto, tambem, e'
a ilusao de samsara!'"


---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#25 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 21 de Jul de 1999 2:37 pm
Assunto: Viagens Tantricas
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Viagens Tantricas


              Choying Rangdrol era um mestre iluminado que nao possuia
              bens mundanos. Dia e noite ele sentava numa almofada de
              meditacao, vestindo somente uma pele solta de ovelha.
              Sem educacao formal, ele havia atravessado o caminho
              do despertar.
              "Os iogues nao querem e nao precisam de nada alem da
              natureza imutavel do autentico ser," ele cantava.


     UM DIA, PATRUL RINPOCHE - QUE RECEBEU extensivos ensinamentos de
Choying Rangdrol -  estava sentado com o mestre de meditacao, quando
ele perguntou, "Alias, o que anda fazendo ultimamente Mingyur Dorje
do Mosteiro Dzogchen?"

     Patrul Rinpoche lhe deu algumas noticias, Choying Rangdro lembrou,
"Estes caras do Dzogchen nao tratam Mingyur Dorje do jeito que deviam.
Se conhecessem sua real identidade, seria diferente. Um verdadeiro
Siddha raramente revela todas suas qualidades intrinsecas."

     Mais tarde, sem razao aparente, Choying Rangdrol disse, "Durante
as grandes reunioes no Mosteiro Dzogchen, Mingyur Dorje senta num
trono alto, nao longe da porta, de frente para o centro; isto e' meio
esquisito, nao e'? O trono do professor costumava ser perto do altar."
Entao ele continuou lembrando varios costumes e personagens do
Mosteiro Dzogchen.

     Por toda a conversa, Patrul Rinpoche - que havia estudado em
Dzogchen - concordava inclinando a cabeca, aparentemente compartilhando
das reminiscencias do mestre de meditacao. Um jovem neofito, Pema
Dorje, que estava presente (e que mais tarde se tornou o principal
khenpo [abade] do Mosteiro Dzogchen) pensou, "Como pode esse lama
iletrado saber tanto sobre nosso mosteiro? Ele deve ter estado por
la' durante sua juventude."

     Finalmente o curioso rapaz perguntou ao mestre de meditacao,
"Veneravel lama, tens ido ao Mosteiro Dzogchen?"

     "Poderias dizer que sim," o mestre respondeu.

     "Quando?"

     "Todo ano eles realizam a cerimonia da Grande Reuniao. Quando,
do trono, Mingyur Dorje toca um pequeno tambor de marfim e canta a
invocacao: 'Vidyadharas, detentores do estado desperto atemporal,
dakas, dakinis, venham com seus sequitos - venham e participem do
banquete vajra,' entao todas as deidades da mandala universal, bem
como os patriarcas da linhagem ancestral, *tem* que responder a esse
convite auspicioso. Portanto foi assim que eu visitei Dzogchen. De
outra forma, nunca visitei fisicamente teu mosteiro."

     O jovem Pema Dorje percebeu que Choying Rangdrol era um siddha
clarividente, com qualidades intrinsecas extraordinarias, e que podia
transcender tempo e espaco. Cheio de fe', o menino se curvou perante o
mestre e recebeu sua bencao.

     Algum tempo depois Pema Dorje seguiu Choying Rangdrol e Patrul
a Buditude.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Alias, Pema Dorje e' um nome muito comum, conheco pessoalmente uns 5.
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#24 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 21 de Jul de 1999 12:00 am
Assunto: Uma Fortaleza Assombrada
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Uma Fortaleza Assombrada


          Patrul Rinpoche ensinou o extenso classico sanscrito
          Bodhycharya-avatara em detalhe, de memoria, mais de cem
          vezes. Seu proprio comentario escrito, elucidando a
          essencia da Bodicita e as Seis Perfeicoes, e' um classico
          tibetano.
          Durante a segunda metade de sua vida produtiva, este mestre
          manteve o voto de jamais dormir sob um teto e vivia como
          um iogue mendicante. Patrul era vegetariano, nunca cavalgou
          ou explorou animais de carga, nao acumulou posses ou sequito,
          e realmente incorporava Grande Compaixao, Avalokitsvara.
          Patrul era a reencarnacao de Shantideva.


    EM NYARONG HAVIA uma fortaleza assombrada cujos espiritos eram
ouvidos berrando alto, mesmo a luz do dia. Ninguem ousava chegar
perto.

    Uma vez, ao fim de alguns ensinamentos, Patrul Rinpoche disse que
se alguem fosse na fortaleza e recitasse o Bodhicharya-Avatara
cem vezes, os espiritos se libertariam. Um discipulo proximo,
Tsanyak Sherab, imediatamente se ofereceu. Todos os nativos
sacudiram as cabecas, temendo que nunca mais veriam o popular
lama de novo - que pena!

    Chegando na fortaleza assombrada, o corajoso Tsanyak Sherab
jogou sua almofada no chao de um recinto vazio. Entao gerou intensa
compaixao e bodicita altruista, meditou na vacuidade, e comecou
a recitar alto os dez capitulos do Bodhicarya-Avatara de Shantideva.

    Dia apos dia ele continuou. Quando os nativos viram fumaca saindo
do fogo que Sherab acendeu para ferver agua para o cha, eles
exclamaram, "Ele nao esta' morto!" Um dos mais bravos nativos
reuniu sua corajem e foi ver o que havia acontecido na fortaleza
assombrada.

    Para sua surpresa, encontrou Sherab pacificamente ensinando
a escritura para uma audiencia invisivel. Depois o homem voltou
e relatou os fatos, dia apos dia mais nativos viajavam ao forte
para ouvir. Quando Sherab estava alcancando sua centesima recitacao
do extenso livro, a vila inteira sentava em extase perante dele.

    Misteriosamente, dali em diante, nenhum espirito gritou novamente.
Ao contrario, frequentemente as pessoas iam ali para rezar, meditar
e ser inspiradas pela lembranca da presenca de Patrul.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
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ICQ 3246923
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#23 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Ter, 20 de Jul de 1999 11:43 pm
Assunto: A Sabedoria Pode Ser Contagiosa
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A Sabedoria Pode Ser Contagiosa


      Ate' recentemente Kham no Tibete oriental era uma terra
      inabitada, primitiva, nao muito diferente do velho-oeste
      norte-americano de um seculo atras. Nao era incomum os clas ali
      guerrearem uns contra os outros. A bandidagem reinava, e as
      regras feudais prevaleciam.
      Paradoxicalmente, ja' que haviam poucas pessoas, a vida era
      simples, e a isolacao facilmente alcancada, Kham tambem foi
      por seculos um dos maiores centro de meditacao e pratica
      iogue do Tibete.
      Bodicita (mente desperta) e' um sinonimo com a verdadeira
      grandeza de coracao. Refere-se a mente iluminada imparcial
      e altruista de um bodisatva, um heroi espiritual.


   PATRUL RINPOCHE UMA VEZ PASSEAVA sozinho nas montanhas rugosas
proximas a Markhog, acampando ao ar livre. Ele meditava nos
ensinamentos sobre Bodicita de Shantideva a respeito da
aspiracao altruista pela iluminacao. Era desejo de Patrul
ser suficientemente livre de preconceitos para tratar os
outros como a si mesmo.

    Uma trilha suja e dificil cortava atraves da cordilheira e ligava
os vales de dois clas inimigos. A sensibilidade meditativa do
mestre solitario a violencia que o cercava servia para inspirar
suas oracoes compassivas e devocoes.

     Um dia os lados guerreiros perceberam o vagabundo ao lado da
trilha; se perguntaram quem era ou quem pretendia ser. Encontraram
Patrul deitado numa fissura estreita na trilha montanha, onde todo
o viajante se via obrigado a passar por cima dele. Nessa posicao
incomum, Patrul podia orar para cada viajante individualmente,
na esperanca de pacificar suas emocoes violentas.

      Depois de um tempo, tres cavalheiros armados chegaram ao
desgastado mendigo proximo a seu frio acampamento. Forcados a
parar abruptamente seus cavalos e desmontar, eles exigiram,
"Estas doente, aleijado - leproso, talvez? O que ha' de errado
contigo, deitado no caminho desse jeito?"

      O despreocupado mestre respondeu, "Nao se preocupem, jovens,
nao pegarao minha doenca. E' chamada Bodicita, e dificilmente
passaria para saudaveis rapazes guerreiros!" Um pouco confusos,
os tres remontaram e foram embora.

      Mais tarde Patrul disse, "Talvez *seja* contagiosa, essa
Bodicita imparcial, pois *podes* pega-la dos grandes praticantes
espirituais. Mas nestes dias, apesar de muitos dizerem que a possuem,
poucos parecem realmente desenvolver seus sintomas de amor e
compaixa altruista incondicionais."

      Entao ele orou, "Possam todos os seres sem excessao ser
infectados pela preciosa Bodicita."

      Miraculosamente, o feudo sanguinario em Markhog logo terminou.
O povo local dizia que os jovens guerreiros deveriam ter pego
a doenca infecciosa de paz daquele vagabundo iluminado anonimo
que bloqueava a passagem na montanha, a quem nunca mais viram.


---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Cuidado com a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#22 De: "Rui Duarte" <ruiduarte@xxxx.xxx
Data: Ter, 20 de Jul de 1999 11:27 pm
Assunto: Um texto de Agostinho da Silva
ruiduarte@xxxx.xxx
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Oi lista aqui vai um texto q gosto mto:



          " Há, talvez, duas espécies de revolução:
uma é a de mudar o mundo, como tanto tem sido
tentado, sempre com resultados muito aquém das
levantadas esperanças, a outra a de mudar cada
pessoa, já que as prepectivas da transformação
oposta ou parecem muito exageradas, muito
desmentidas pelos resultados no quotidiano, ou
envolvem tais dificuldades ou tais riscos, mesmo
vitoriosas, e sobretudo quando vitoriosas, que
parece melhor tentar a alternativa. É isso o que
diriamos da revolução pessoal que tem, no
Ocidente, os exemplos de São Paulo ou São
Francisco, no Oriente, e por exemplo também, o
caso de Buda e de, quase em nosso tempo,
Ramakrishna, que experimentou as três vias do
hinduismo, do cristianismo e do islão, nelas três
atingindo suas metas. Quem sabe se não haveria
aínda que trilhar novo caminho: o de, tomando toda
a simplicidade, todo o despojamento, toda a
disciplina, toda a dedicação do que foi citado - e
bem sabendo de nossas inferioridades e limitações
- ninguém se retirar do mundo, como muitos deles
fizeram, ninguém se recolher a convento algum, mas
no século permanecer, com bom humor, paciência,
entusiasmo, fé no triunfo e absoluta confiança nas
qualidades do homem, quaisquer que sejam as
aparências. Combater sem agressividade, esperar
sem se tornar passivo, acreditar haevr saída para
tudo,  conservar-se na marcha geral, embora
escolhendo o seu próprio caminho e jamais
esquecendo seu rumo, abertos sempre a novas ideias
e acolhedores de todos os estimulos. Sem internas
quebras, navegar o que parece impossivel, sem
desânimo, adiantar a tarefa sem temer o paradoxo,
dar toda a eternidade à corrida do tempo, sem
pressa nunca cessando a marcha. E ver em todos os
companheiros não um grupo que se seguia, o que
logo faz suigir hierarquias, mas no nosso amparo,
o nosso incitamento: Mestres, afinal, não
discipulos.
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#21 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Ter, 20 de Jul de 1999 2:01 pm
Assunto: Faca Suas Proprias Oferendas
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Faca Suas Proprias Oferendas


            O professor de Patrul Rinpoche foi o ilustre iogui, o
            ultrajante mestre Dzogchen Doe Khyentse.
            Tormas sao bolos conicos feitos de farinha torrada de
            centeio e sao utilizados em varios ritos de oferenda.
            Estes bolos vermelhos e brancos simbolizam a uniao
            inseparavel de meios habeis e sabedoria, extase e
            vacuidade. Oferecer e entao espalhar tormas representa
            a dispersao da ilusao do ego.


      CERTO DIA DZA PATRUL, PASSEANDO anonimamente disfarcado de
mendigo, chegou para visitar seu mestre Doe Khyentse. Ao chegar
deparou-se com um lama fazendo tormas na cozinha do acampamento
do mestre.

      Quando Patrul Rinpoche perguntou ao lama se ele podia ver Doe
Khyentse, o lama, olhando de lado para o mendigo esfarrapado
diante dele, disse, "Oh, claro, marcarei uma entrevista para ti,
nao se preocupe. Enquanto isso, nao te importarias de me ajudar
com essas tormas?" Entao o lama saiu, rindo sozinho, enquanto
Patrul fazia os bolos para ele.

      Como nao encontrou manteiga para pintar a torma branca mas
bastante tintura vermelha para as vermelhas, o indiscutivelmente
erudito Patrul pintou uma torma vermelha que - pelo formato -
todos saberiam que deveria ter sido pintada de branco. Mesmo seu
nome, kartor, significaria torma branca, exigindo que fosse branca...
Mas agora era vermelha.

      Quando o lama finalmente retornou, ele ficou satisfeito de
ver que o mendigo havia feito todo seu trabalho... ate' que percebeu
que uma kartor havia sido pintada de vermelho e nao de branco.

      "Que burrice e' essa?" berrou o lama.

      Patrul Rinpoche gentilmente respondeu, "Poderias me dizer,
bom senhor, a razao ritual pela qual ela nao pode ser vermelha
e precisa indiscutivelmente ser branca?"

      "O que!?" explodiu o lama, rolando seus olhos vermelhos
injetados para cima exasperado. "Nao so' esse imundo vagabundo
faz esses erros idiotas mas ainda por cima e' sem vergonha o
suficiente para me questionar!" Entao ele comecou a surrar o
mendigo na frente dele e chutou-o para fora.

      "Podes esquecer de encontrar Doe Khyentse enquanto eu estiver
por perto!" berrou o lama para a esquiva figura de Patrul Rinpoche,
que desapareceu na floresta.

      Aquela noite Doe Khyentse Rinpoche perguntou se alguem havia
vindo visita-lo durante o dia, ja' que - devido a uma premonicao
que recebeu em um sonho - ele estava esperando ver seu protegido
especial, seu filho espiritual Patrul Rinpoche. Seus seguidores
informaram que ninguem havia vindo durante o dia inteiro.

      Porem, quando o mestre clarividente insistiu que alguem
*deveria* ter vindo, o lama que estava fazendo as tormas na cozinha
finalmente falou, contando a Doe Khyentse que de fato um mendigo
havia chegado a cozinha pedindo esmolas em troca de trabalho mas que
ele havia sido mandado embora quando cometeu o erro de pintar um
torma branca de vermelho!

      "Aquele era Dza Patrul, tolo!" trovejou Doe Khyentse, que era
conhecido por sua ira tanto quanto por sua sabedoria e compaixao.
"Va' e traga-o imediatamente. Nao quero ver ninguem ate' que o
veja!"

      Os servos tiveram que encontrar o mendigo e persuadi-lo a
retornar, a convite explicito de Doe Khyentse.

      Quando finalmente Patrul chegou a presenca de seu mestre na
manha seguinte, Doe Khyentse colocou-o no trono de ensinamentos
e reverentemente pediu para que elucidasse o texto classico
chamado "O Guia da Conduta do Bodisatva" (Bodhicharya-avatara) de
Shantideva, cujos comentarios de Patrul eram famosissimos.

      Perante uma vasta assembleia, Patrul Rinpoche expos o classico,
explicando a Bodicita (a aspiracao altruistica da iluminacao) em
especial juntamente com todos os seus meios e sentidos. Entao ele
disse, enquanto seu envergonhado companheiro de pintura de tormas
escondia sua cara vermelha sob seu manto monastico vermelho, "E
apenar de todos hoje em dia falarem maravilhas sobre a mente
altruista da iluminacao, ainda ha' alguns entre nos que nem sabem
o significado das tormas rituais que estao pintando tao orgulhosos,
porem sabem *realmente* como bater naqueles que os questionam."

      Doe Khyentse gargalhou; atraves de sua clarividencia ele sabia
perfeitamente o que havia ocorrido na cozinha no dia anterior. Ele
disse alto, "Maravilha! Um trecho de Shantideva que eu nunca tinha
ouvido antes!"


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"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#20 De: "Padma Dorje" <pdorje@...>
Data: Ter, 20 de Jul de 1999 1:32 pm
Assunto: A Mulher de Patrul Rinpoche
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A Mulher de Patrul Rinpoche


     CERTA VEZ PATRUL RINPOCHE ESTAVA PASSEANDO pela vasta planicie
de Golok no Tibete oriental ao norte de Dzachuka. Ele encontrou
uma mulher miseravel acompanhada de seus tres filhos, cujo pai
havia recentemente sido morto por um gigantesco urso vermelho. A
pobre viuva se lamentava e arrancava os cabelos.

     Patrul perguntou para onde ela ia. Ao surrado mendigo em frente
ela despejou a terrivel historia, concluindo, "Preciso chegar a
Dazchuka e mendigar comida para minhas criancas. Havera uma grande
reuniao Darmica la'. Certamente havera muitas doacoes."

     "Ka-ho! E' um caminho bem longo," disse Patrul gentilmente.
"Nao va' sozinha; tambem estou indo para la'. Te ajudarei; vamos
viajar juntos."

     Por muitos dias eles caminharam. A noite eles dormiam sobre o
brilhante ceu estrelado. Patrul carregava uma ou duas criancas nas
dobras de sua velha roupa de pele de ovelha, enquanto a mulher
fazia algo parecido com os outros. Durante o dia, Patrul carregava
uma crianca nas costas, enquanto a mulher carregava a menor;
o mais velho caminhava. Cada dia na aurora e no alvorecer eles
preparavam cha' no fogo do acampamento.

     Os viajantes que encontravam pelo caminho pensavam ser eles
meros mendigos. Ninguem - muito menos a traumatizada viuva -
teria adivinhado quem realmente era o nomade que levava sua
crianca nas costas. Quando a viuva mendigava nos casebres que
encontravam no caminho, Patrul fazia o mesmo, reunindo suficiente
farinha de cevada torrada, manteiga, iogurte e queijo de iaque
para sobreviver.

     Finalmente chegaram a Dazchuka. A viuva foi mendigar sozinha;
Patrul fez o mesmo.

     Mais tarde, Patrul parecia descontente. A viuva perguntou o
porque de seu comportamento incomum. "Nao e' nada. Tenho algo
a fazer, mas a fofoca daqui torna dificil para mim fazer o que
tenho que fazer."

     "Que tipo de trabalho tu poderias ter aqui?" A mulher surpresa
perguntou.

     Patrul respondeu sorrindo, "Nao importa. Vamos."

     A pequena familia logo alcancou a parte externa do mosteiro
ao lado da colina. Patrul repentinamente parou, virou-se para a
mulher, e disse a ela, "Preciso ir; podes vir tambem, depois
de alguns dias. Farei uma pequena peregrinacao pelo mosteiro e
esperarei por ti la'."

     Isso realmente nao era o que a mulher tinha em mente. Nessa
altura ela ja' tinha ficado bem apegada ao ar de forca gentil e
espontaneidade que circundava sua recem achada compania e a
inexplicavel paz e sensacao de bem-estar que substituiu sua dor
desde que juntou-se a Patrul na estrada.

     Ela reclamou, "Nao fale bobagem! Vamos ficar juntos. Ate' agora
fostes tao gentil - nao nos abandone. Poderiamos casar, ou ao menos
eu poderia ficar contigo, para me beneficiar de tua protecao.
Nao sei porque, mas me sinto muito bem contigo."

     O mestre, porem, ja' tinha tomado uma decisao. "Nao vai dar.
Ate' agora te ajudei como pude, mas as pessoas por aqui sao
fofoqueiras. Nao podemos ficar juntos. Venha em alguns dias e
me encontrara no mosteiro." Entao Patrul caminhou com passo
determinado a colina. A mulher e as criancas ficaram para tras,
mendigando comida.

     No outro dia o vale inteiro estava cheio noticias: "O mestre
iluminado Patrul Rinpoche chegou - ele estara ensinando sobre o
Bodhicarya-avatara!" Todos os fieis correram para o mosteiro,
guiando iaques carregados com tendas e provisoes para uma estada
longa, de forma a receber os ensinamentos sublimes.

     Ouvindo estas noticias e observando a comocao geral, a
viuva ficou alegre. Ela pensou, "Um lama tao famoso veio; esta e'
uma verdadeiramente afortunada ocasiao para fazer uma oferenda em
nome do meu falecido marido." Imediatamente ela se apressou na
direcao do mosteiro com suas tres criancas e as oferendas de
sua mendicancia em maos.

     Quando chegou, Patrul Rinpoche havia instruido os monges e
lamas, "Deixem de lado todos os alimentos oferecidos a mim; tenho
um convidado chegando e ele precisara'." Patrul era reconhecido
por nunca aceitar oferendas ou acumular posses e riqueza de qualquer
tipo, por isso os monges se surpreenderam, mas nao tinham outra
escolha alem de seguir suas ordens.

     A viuva chegou e encontrou um assento num canto da grande
assembleia, bem longe do trono do lama. Ela ouviu, sem reconhecer
o eloquente Patrul daquela distancia. Finalmente, quando a
palestra do dia estava completa e as oracoes, bencaos e dedicacao
de merito haviam sido proclamadas, a mulher se aproximou do trono
de forma a receber a bencao pessoal do lama. Ali ela ficou chocada
ao descobrir que sua fiel compania de viajem sorrindo benevolente
para ela.

     A surpresa viuva reverentemente pediu o perdao do mestre. "Por
favor me conceda o perdao por nao ter te reconhecido, por te fazer
carregar meus filhos, propor casamento, e o resto!" ela chorou.

     Patrul Rinpoche riu e disse para ela nao se preocupar. Entao
se virou para seus ajudantes e disse, "Aqui esta' minha convidada.
Ela me ajudou a chegar aqui. De a ela toda manteiga, queijo e
outras provisoes que separamos. Cuidem para que ela tenha qualquer
coisa que sua familia precise."

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"The Snow Lion's Turquise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
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#19 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 5:11 pm
Assunto: Nyoshul e' Apresentado `as Coisas Como Elas Sao
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Nyoshul e' Apresentado `as Coisas Como Elas Sao

               Nyoshul Kungtok era o principal discipulo de Patrul
              Rinpoche. Ele recebeu de seu mestre instrucoes
              pessoais em teoria e pratica do Dzogchen por vinte e
              cinco anos, enquanto meditavam na natureza.
               Dharmakaya refere-se ao corpo sem forma do Buda, a
              verdade ultima, realidade ou a natureza inata de todas
              as coisas. Vajra Sattva (Ser Adamantino) e' a purificacao
              branca do Buda.
               O vacuo-da-atencao e' abertura brilhante, sem centro que
              e' a luminosidade vazia do coracao e mente despertos.
              Milarepa cantou, "A Natureza de Buda nao pode ser
              encontrada procurando-se fora, portanto contemple a
              a natureza de sua propria mente." A Mente-de-Buda
              refere-se a perfeicao inata e transcendencia de nossa
              propria verdadeira natureza.


       CERTA VEZ PATRUL RINPOCHE vivia com alguns discipulos num
descampado perto do Ermiterio Nagchung. Era costume deitar-se
toda noite ao ceu aberto, olhando para cima. Ele estava praticando
a Ioga Dzogchen de Olhar-o-Ceu, uma meditacao profunda na qual
misturamos a mente com o infinito do espaco aberto.

       Um dia, meditando dessa forma, Patrul chamou Nyoshul Lungtok,
que estava por perto, perguntando se ele ainda nao tinha realizado
a natureza essencial da mente desperta. O discipulo confirmou que
ele nao tinha.

       Entao Patrul disse, "Nao se preocupe. Nao ha nada que tu nao
possa saber! Nao pense a respeito." O mestre riu; entao eles
continuaram meditando.

       Nyoshul Lungtok teve um sonho recorrente no qual Patrul
Rinpoche desfiava uma bola montanhosa de linha negra, revelando em
seu centro uma estatua dourada de Vajra Sattva. Uma noite Patrul
chamou Kungtok para deitar perto dele. "Agora desfiaremos tudo,"
ele prometeu. "Fique acordado!"

       Juntos eles olharam no firmamento vasto e vazio. Longe ouviam
os caoes latindo no Mosteiro Dzogchen.

       Dza Patrul disse a Nyoshul Lungtok, "Amigo, tu ouves os caoes
latindo?"

       "Sim," respondeu Lungtok.

       "E' isto!" o mestre exclamou. Ele entao perguntou, "Ves as
estrelas no ceu? "

       Lungtok novamente respondeu afirmativamente.

       Patrul exclamou, "E' exatamente isso! E' tudo atencao
iluminada intrinseca, Mente-de-Buda. Nao desvie o olhar!"

       Entao ali, na escuridao, o olho de sabedoria nao-dual de
Lungtok se abriu. Naquele mesmo momento sua propria mente e o
Dharmakaya estavam completamente inseparaveis; nao havia nada para
conhecer ou conquistar que nao estivesse presente o tempo inteiro.
Entao ele chorou de alegria.

       Dessa forma, Nyoshul Lungtok se libertou da rede do apego
dualista. Ele reconheceu e experimentou diretamente o vazio-de-atencao
nao-dual. Dali em diante, a Mente-de-Buda e sua propria atencao
ficaram unicas e inseparaveis. Ele intuitivamente compreendia todas
as experiencias como o funcionamento da Mente-de-Buda e elevou-se
acima da parcialidade e da limitacao.

       Como proclama o tantra chamado "O Rei das Deidades":

       No veiculo causal do caminho do sutra,
       diz-se que todos os seres sencientes sao dotados
       do potencial
       para alcancar a buditude.
       No veiculo da fruicao, o caminho tantrico,
       reconhece-se que a natureza essencial da
       atencao intrinseca
       *e'* a buditude.

       Anos mais tarde, Nyoshul Lungtok mesmo recontou isto,
terminando com uma citacao de Longchenpa:

       Tudo esta no estado de buditude primordial;
       o reconhecimento disto e' o despertar espiritual.

       Os seis sentidos deixados no seu estado natural
       compoem a perspectiva da Grande Perfeicao natural.

       Regozijando-se em tudo, simplesmente
       deixe-a como e'
       e descanse sua mente fatigada.


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Desculpem a traducao rapida e descuidada,
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#18 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 4:42 pm
Assunto: Compaixao Clarividente
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Compaixao Clarividente


    DURANTE UM ANO PATRUL RINPOCHE DECIDIU oferecer cem mil prostracoes
para seu professor Mingyur Namkhai Dorje. Mas este, que era o maior
lama do Mosteiro Dzogchen, era totalmente imprevisivel.

    Logo que Patrul fazia uma prostracao, o grande mestre se levantava
e se prostrava a Patrul. Isso ocorria cada vez que Patrul comecava
a se curvar diante do grande lama. Finalmente Patrul se escondeu
no templo, atras do trono de Namkhai Dorje, ali, invisivel, ele
oferecia discretamente suas prostracoes.

    Namkhai Dorje tambem era conhecido por sua clarividencia
desimpedida. Uma vez Patrul Rinpoche parecia estar procurando por
algo em sua saida; enquanto ele estava colocando seus sapatos
na porta do quarto Namkhai Dorje disse, "Perdestes tua descalcadora?
Esta' na campina perto do rio." O discipulo encontrou o que queria
bem onde o mestre disse que estava.

    Outra vez, ladroes entraram no templo do Mosteiro Dzogchen e
roubaram joias do pescoco de uma estatua muito alta. Todos
ficaram perplexos, o templo era fechado e as joias pareciam
inalcancaveis, tao alta era a estatua.

    Quando Namkhai Dorje ficou sabendo do roubo, ele disse calmamente,
"Conheco o ladrao. Ele entrou no primeiro andar, caminhou pelo
parapeito dentro do templo, alcancou e retirou os ornamentos com
uma vara longa."

    Quando os monges foram checar, eles encontraram as marcas da
passagem do ladrao e a vara, que havia sido deixada no parapeito.
Apesar disto, Namkhai Dorje se recusou revelar a identidade do
ladrao, pois o homem seria punido severamente se encontrado.

    "Ele precisa de nossas oracoes, nao nossa punicao," disse o
benevolente lama idoso. "Possam as joias do Buda trazer a ele o
tesouro da completude eterna e paz interior."

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Padma Dorje
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#17 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 4:25 pm
Assunto: Aperfeicoando a Paciencia
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Aperfeicoando a Paciencia

             Nem todos os praticantes budistas dedicados sao monges em
            mosteiros. Ha' uma grande tradicao de iogues tibetanos que
            vivem como eremitas, meditando e orando a sos. Outros
            erram livres e desapegados, anacoretas sem status social
            ou posses, aparentando ser meros mendigos ou vagabundos
            mas na verdade estando mais proximos dos misticos loucos
            divinos dos tempos ancestrais, os siddhas da India.
             Patrul Rinpoche era conhecido pelo seu rude estilo
            de vida, comportamento iconoclastico e
            aparencia despretensiosa bem como por sua imensa
            erudicao e realizacao espiritual. Profundamente preocupado
            em manter os praticantes focados na essencia da
            espiritualidade em contraponto as meras convencoes formais,
            ele nunca hesitou em denunciar a pretensao e a hipocrisia.


     UM SECULO ATRAS, O ILUMINADO vagabundo Patrul Rinpoche estava
divagando como um mendicante anonimo quando ouviu de um famoso
eremita que vivia a muito tempo em reclusao. Patrul foi visita-lo,
entrando na escura caverna do monge sem ser convidado e espiando
por todos os lados com um sorriso ironico em seu rosto castigado.

     "Quem es tu?" perguntou o eremita. "De onde viestes, para
onde vais?"

     "Venho da direcao atras das minhas costas e vou na direcao
que esta' na minha frente," respondeu Patrul.

     O eremita ficou perplexo. "Onde nascestes?"

     "Na terra," foi a resposta.

     Agora o eremita ficou um pouco agitado. "Qual e' seu nome?"
ele exigiu.

     "Iogue Alem da Acao," respondeu o convidado inesperado.

     Entao Patrul Rinpoche inocentemente perguntou porque o eremita
vivia em um lugar tao remoto. Esta era uma questao que o eremita,
com algum orgulho, estava preparado para responder.

     "Tenho estado aqui por vinte anos. Estou meditando na
Perfeicao da Paciencia transcedental."

     "Essa e' boa!" disse o visitante anonimo. Entao, chegando mais
perto como se para dizer um segredo, Patrul sussurrou, "Duas fraudes
que nem nos nunca conseguiriamos fazer uma coisa dessas!"

     O irado eremita levantou rapido de seu assento. "Quem tu pensa
que es, perturbando meu retiro assim? Que te fez vir aqui? Porque
nao podias deixar um humilde praticante como eu meditanto em paz?!"
ele explodiu.

     "E agora, amigo," disse calmamente Patrul, "onde esta' sua
perfeita paciencia?"

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"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem qualquer coisa,
Padma Dorje
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#16 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 3:59 pm
Assunto: Prostracoes a um Vagabundo Iluminado
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Prostracoes a um Vagabundo Iluminado

          Dza Patrul Rinpoche foi o maior mestre Dzogchen (Grande
          Perfeicao) da virada do seculo. Um conhecido professor,
          poeta e autor, ele viajou anonimamente atraves do Tibete
          oriental, vestido em um traje nomade feito a mao de pele
          de ovelha. Poucos reconheciam este reverenciado lama ao
          qual todos queriam conhecer.

    UMA VEZ PATRUL RINPOCHE DEPAROU-SE com um bando de lamas que
estavam a caminho de uma grande reuniao, e ele juntou-se a eles. Ele
estava tao grotescamente vestido, e era tao contido que foi tratado
como um praticante medicante comum. Ele tinha que ajudar a preparar
o cha', pegar a lenha, e servir os monges da comitiva enquanto
viajavam atraves de uma regiao remota de Kham no Tibete oriental.

    Um dia, um grupo ouviu que um importante lama estava proximo
dando uma grande transmissao, iniciacao e ensinamentos Vajrayana
(Veiculo do Diamante), e a comitiva se apressou para comparecer.
Quando chegaram, todos os lamas e importantes clericos se adornaram
em trajes monasticos completos, com chapeus, coroas e aderecos;
selas ornamenadas e grinaldas decoravam alegremente suas montarias.
Longos berrantes, conchas e trombetas de bronze ofereciam uma
verdadeira sinfonia de sons celestiais. Cada reverenciado lama
estava sentado em um trono, sua altura de acordo com a hierarquia
oficial... Entao os rituais e iniciacoes comecaram.

    Ao fim da iniciacao, todos se aproximaram para apresentar oferendas
ao mestre regente e receber bencaos de sua mao sobre suas cabecas.
Patrul, que estava sentadinho quieto atras da congregacao o tempo
todo, entrou no fim da longa fila esperando pela bencao. Enquanto
a coisa progredia vagarosamente, pessoa por pessoa se prostrava
perante o trono do grande mestre, oferecendo uma encharpe branca e
recebendo uma bencao.

     No inicio o lama tocava cada um na cabeca com sua mao. Entao,
como a congregacao era muito grande, ele comecou simplesmente a
toca-los com uma longa pena de pavao. Assim continuou, ate' que o
maltrapilho vagabundo chegou diante dele. Os olhos do mestre regente
se arregalaram surpresos: esta figura grosseira era ninguem mais
do que o Buda vivo, o supremo mestre Dzogchen Dza Patrul!

     Descendo do trono, o grande lama se curvou ao chao. Enquanto a
massa ficava boquiaberta, ele ofereceu a Patrul a pena de pavao e
prostrou-se muitas vezes diante do sabio que sorria gentil.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
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#15 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 3:58 pm
Assunto: Um Grande Banquete
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Um Grande Banquete


    PATRUL RINPOCHE E SEU DISCIPULO Nyoshul Lungtok estavam em Doyul,
meditando num retiro solitario nas montanhas. De tempos em tempos
outros discipulos se juntavam a eles.

    Ouvindo que seu mestre mercurial Doe Khyentse estava num vale
perto dali, Patrul disse a Lungtok, "Vamos dar uma caminhada."

    Logo chegaram a uma vasta planicie. Longe, perto de um grande
lago, eles viram um acampamento de tendas brancas. Incontaveis
ovelhas pastavam perto dali. Aqui estavam Doe Khyentse, acompanhado
pelo segundo Dodrup Chen; eles estavam pastoreando as ovelhas ate'
Datsedo como faziam todos os anos. Na direcao deles Patrul ergueu
as maos com as palmas juntas em reverencia.

    Chegando nas tendas, encontraram uma cena movimentada. Um criado
levou-os diretamente a Doe Khyentse Yeshe' Dorje, que estava sentado,
vestido em pele de ovelha branca, seu rifle ao lado e seus
caes cacadores a seus pes. Por ali estava Dodrup Chen Rinpoche,
tambem vestido de branco.

    Com uma grande faca de caca, Doe Khyentse simultaneamente
raspava e comia grandes pedacos de carne. Deleitado ao ver Patrul,
convidou os recem chegados para sentar num belo tapete tecido a mao.
Chamou um criado e ordenou o abate de uma ovelha para os visitantes.

    Patrul era conhecido por sua nao-violencia. Ele jamais machucaria
uma criatura viva, nem mesmo o menor dos insetos. Alem disso, ele
consativamente repudiava o costume nomade de abater o rebanho de
forma a fazer banquetes para festas Budistas, e ele proibia a matanca
de animais em suas visitas. Ao contrario da maioria dos tibetanos,
Patrul era vegetariano.

    O criado fez como instruido. Quando retornou, ofereceu o melhor
corte a Patrul, que aceitou com entusiasmo. Nyoshul Lungtok, porem,
comovido por compaixao pela ovelha, teve que forcar-se a comer de
forma a nao ofender seu exaltado anfitriao.

    Lendo a mente de Lungtok, Doe Khyentse jogou um pedacao de carne
em seu colo. "Aqui - este e' pra ti!" ele exclamou. Patrul continuava
comendo em silencio.

    Quando a refeicao terminou, Patrul pediu a iniciacao de dakini Longchen
Nyingthig chamada "Rainha do Grande Extase." Doe Khyentse
disse, "Tenho mantido esses ensinamentos secretos, mas agora chegou
a hora; hoje concederei-os a ti. Tu viveras oitenta anos e ajudara
todos que encontrares. Apenas ouvir seu nome fechara' as portas
para o renascimento nos reinos inferiores."

    Finalmente Patrul e Lungtok foram embora. Olhando para tras de
uma passagem montanhosa, eles viram um pontinho branco no grande
pasto aberto, que era o grande rebanho de ovelhas.

    Patrul Rinpoche disse, "Estes dois, Doe Khyentse e Dodrup Chen,
sao Budas vivos. Se tu tivesses visao pura, veria-os como genuinas
encarnacoes do Rigdzin Jigme' Lingpa e seu discipulo, o primeiro
Dodrup Chen Rinpoche.

    "Tenho te ensinado o Darma por um longo tempo, mas nao posso
garantir que iras para o paraiso de Padma Sambhava na Montanha
Cor-de-Cobre quando morreres. Ainda assim, todas aquelas ovelhas,
sem nenhuma excessao, atraves da bencao excepcional daqueles dois
sabios iluminados, iram direto para Zangdok Palri no momento que
morrerem. Nao seriamos afortunados estando naquele rebanho?"

    Assim o comportamento iconoclastico ultrajante dos
mestres tantricos foi explicado.

---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet" Surya Das

Desculpem a traducao bla bla bla,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
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#14 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 2:29 pm
Assunto: Re: Sobre o templo
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Novamente :)

>, mas entretanto apaguei o mail sem querer.

Os e-mails ficam todos na onelist... basta ir la' entrar
na lista bodisatva e ler os arquivos.

Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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pdorje@...
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#13 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 2:31 pm
Assunto: Re: Sobre o templo
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Oi Rui,

>     Oi lista, penso q aínda n me apresentei. Sou
>Rui de Portugal e pratico meditação no centro de
>budismo tibetano cá de Lisboa.

E'.. a lista ainda e' nova e ninguem se apresentou :)
Sou Eduardo Pinheiro, Padma Dorje, e pratico o
budismo tibetano da linhagem nyingma no centro aqui
de Porto Alegre.

>    Vc qdo falou sobre a contrução do templo aí no
>Brasil deu a entender q havia um certo misterio
>sobre a construção do mosteiro... Sei de uma
>profecia tibetana q diz q o ser do dalai lama
>reencarnará no Brasil, e q este Dalai-Lama n é o
>verdadeiro ser q tem encarnado ao longo dos
>tempos. Não sei se terá q haver com o assunto, tb
>só posso especular, tinha mais qq coisa para dizer
>, mas entretanto apaguei o mail sem querer.

Sobre o Dalai Lama, nao sei bem.. Ha' a profecia
sobre o Dharma vir ao ocidente, e o Dalai Lama
disse que na proxima vida nao voltara no Tibete,
e sim num outro pais livre... como sou brasileiro,
torco para que seja aqui :))

Abracos,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
http://bodisatva.org

#12 De: "Rui Duarte" <ruiduarte@xxxx.xxx
Data: Seg, 19 de Jul de 1999 1:00 am
Assunto: Sobre o templo
ruiduarte@xxxx.xxx
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Oi lista, penso q aínda n me apresentei. Sou
Rui de Portugal e pratico meditação no centro de
budismo tibetano cá de Lisboa.
    Vc qdo falou sobre a contrução do templo aí no
Brasil deu a entender q havia um certo misterio
sobre a construção do mosteiro... Sei de uma
profecia tibetana q diz q o ser do dalai lama
reencarnará no Brasil, e q este Dalai-Lama n é o
verdadeiro ser q tem encarnado ao longo dos
tempos. Não sei se terá q haver com o assunto, tb
só posso especular, tinha mais qq coisa para dizer
, mas entretanto apaguei o mail sem querer.

                          Blessings
______________________________________________________
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#11 De: "Roger Garin-Michaud" <garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Data: Qui, 15 de Jul de 1999 3:47 am
Assunto: Buddhist links page updated
garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
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I have updated the Buddhist links page at :
http://members.aol.com/Wangchuk/English1.html
if you see that a center isn't listed please do let me know !
Tashi delegs,
Thubten Wangchuk aka
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ICQ 14009290
http://fly.to/Rogers
http://www.onelist.com/surveycenter/bouddhisme

#10 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qui, 15 de Jul de 1999 12:07 am
Assunto: "Not a Damned Thing" (mensagem em portugues)
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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Mais Merda Nenhuma


        Konchog Paldron era a filha e sucessora espiritual do Mestre
        dos Tesouros Chogyur Lingpa. Reconhecida como uma encarnacao
        de Tara Verde, ela foi uma memoravel professora e mae de
        muitos tulkus, lamas reencarnados.

    KONCHOG PALDRON RECEBEU EXTENSIVOS ENSINAMENTOS de muitos mestres
iluminados, inclusive o Mestre Manjusri Jamyang Khyentse e o primeiro
Jamgon Kongtrul. Porem, foram as piedosas instrucoes orais de Patrul
Rinpoche que despertaram sua mente budica inerente. Ela mais tarde
transmitiu os ensinamentos Dzogschen de Dza Patrul para muitos
praticantes.

    Um dia, falando em verso, Patrul lhe disse:

    "Nao prolongue o passado,
    Nao convide o futuro,
    Nao altere sua atencao natural -
    Nao tema aparencias.
    Nao ha' nada alem disso!"

    Ouvindo essas palavras, Konchog Paldron inesperadamente vivenciou
grande iluminacao.

    Patrul havia falado em um grosseiro dialeto nomade. A frase
final soava como "Fora isso, nao ha' mais merda nenhuma!"

    Isto ficou conhecido como "O Ensinamento Mais-Merda-Nenhuma."
Tem sido passado de mestre a discipulo ate' os dias de hoje.


---

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet"
Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada.
(NAO me desculpo pela escolha das palavras ;D)
Padma Dorje
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#9 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 14 de Jul de 1999 11:56 pm
Assunto: As Vidas Passadas de Patrul
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As Vidas Passadas de Patrul

              Na linhagem da pratica, onde teoria e' menos importante
              do que a pratica espiritual de fato, diligencia e' mais
              importante do que intelecto, e meditacao e' mais
              enfatizada do que o mero aprendizado. Patrul Rinpoche
              estava entre os maiores eruditos entre os sabios
              iluminados, porem foram seu rude estilo de vida,
              franqueza, simplicidade, humor e calor humano que
              levaram-no atraves de sucessivas geracoes.


   CERTA VEZ PATRUL MEDITAVA NA Caverna de Yamantaka mais baixa, proxima ao
Mosteiro Dzogchen. Na caverna superior residia um
praticante simplorio de Gyalmo Rong; quase analfabeto, ele
tambem praticava a meditacao solitaria.

   Um dia, Patrul provocou-o brincando. "Se praticamos em um lugar
como este, longe das distracoes, a atencao intrinseca se torna
naturalmente clara. Entao e' facil perceber deidades, relembrar
vidas passadas, etc.... Tu tens estas experiencias?"

   "Nunca!" respondeu o inocente solitario. "E tu tens?"

   "Pra dizer a verdade," contemplou Patrul, "Eu ocasionalmente
me lembro de centenas de minhas vidas passadas."

   "Fale-me sobre suas existencias," implorou o eremita. "Certamente
minha pratica de meditacao se beneficiara' com isto."

   "Em uma vida fui uma prostituta na India, na vila onde o grande
sabio negro Krishnacarya vivia," disse Patrul. "Movida pela fe',
ofereci-lhe um bracelete de ouro puro. Depois disso nunca mais
nasci um caipira mas tenho tido a boa-sorte de me tornar um padita."

   "Infelizmente nao tenho nenhum ouro para te oferecer," disse o
recluso, que podia nao ser tao fraquinho quanto parecia. "De qualquer
forma, aspiro somente a iluminacao, nao erudicao."

   "E eu nao sou um mestre como Krishnacarya!" gargalhou Patrul.
"Que droga!"

---

Panditas sao doutores em budismo.
retirado de "The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From
Tibet" Lama Surya Das

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
(alias, ja' havia postado essa historia com minhas proprias palavras
e percebi agora na traducao pelo menos um erro grave na minha versao.
"Dim" me parecia significar "brilhante", mas era o oposto, "fraco",
portanto o cara nao era exatamente burro, e sim mais realizado do
que parecia. Desculpem, isso parece fazer grande diferenca no
conteudo darmico da historia... mas pelo menos aqui esta' a correcao.)

Abracos,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#8 De: "Padma Dorje" <pdorje@...>
Data: Qua, 14 de Jul de 1999 4:32 pm
Assunto: "Cachorro Velho"
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"Cachorro Velho"


       Dza Patrul Rinpoche era conhecido por sua maneira direta de
       falar e seu desprezo pela pompa e hipocrisia. Patrul Rinpoche
       foi o principal discipulo de Jigme' Gyalway Nyugu, o sucessor
       de Jigme' Lingpa.
       Patrul tambem estudou e praticou sob a direcao pessoal do
       louco iogue iluminado Doe Khyentse Yeshe' Dorje. Sob a tutelagem
       destes mestres, Patrul se tornou herdeiro de todos os
       ensinamentos orais profundos da escola Dzogchen Nyingthig
       (Quintessencia da Grande Perfeicao).


   DOE KHYENTSE RINPOCHE VIVIA NAS matas, carregando um rifle de
cacador que ele supostamente utilizava para iluminar os outros.
Ele era um mestre mercurial a quem Jamyang Khyentse Wangpo, o
grande primeiro Khyentse, nomeou seu alter ego. Quando Doe
Khyentse morreu, o clarividente primeiro Khyentse sentiu o que
havia ocorrido longe dali. Como reverencia ele disse, "Agora
aquele velho vagabundo se dissolveu em mim."

   Patrul Rinpoche ja' havia sido apresentado a natureza da mente
budica inata por Gyalway Nyugu quando um dia Doe Khyentse
perseguiu-o com certas afirmacoes provocativas sobre como as coisas
*sao* na verdade. Primeiro Doe Khyentse zombou de Patrul,
"Hey, heroizinho do Dharma, porque mantens uma distancia respeitosa?
Se e' que tens alguma coragem, vem aqui!"

   Quando Patrul se aproximou, Doe Khyentse agilmente agarrou-o
por seu cabelo longo trancado, e jogou-o no chao, chutando areia
por cima dele.

   Sentindo cheiro de cerveja no halito do lama, Patrul concluiu
que o mestre estava bebado e perdoou o tratamento recebido. Doe
Khyentse leu seus pensamentos e ralhou com ele bem alto.

   "Voces intelectuais!" ele berrou. "Como pode pensamentos
mundanos como estes entrarem em sua diminuta cabecinha? Tudo e'
puro e perfeito, seu cachorro velho!" Dando uma banana a Patrul -
no estilo tibetano, usando o dedo mindinho - ele cuspiu nele
e cambaleou embora em desgosto.

   Instantaneamente, tudo ficou claro como cristal para Patrul.
Ele experimentou a absoluta inseparatividade entre nossa propria
mente e a mente nao dual do Buda, a infinita luminosidade do
estado desperto atemporal. Enquanto isso, o sol la' em cima
brilhava num ceu perfeitamente azul.

   Experimentando uma paz indizivel, Patrul instintivamente sentou
para meditar naquele mesmo lugar, precisamente onde seu mestre
irrascivel havia desvelado a natureza absoluta da mente.

   Mais tarde, Patrul Rinpoche diria, "Gracas a peculiar
gentileza do Senhor Khyentse, agora meu nome Dzogchen e'
Cachorro Velho. Sem querer ou precisar de qualquer coisa, eu
apenas caminho livremente por ai'."

---
"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet"
("A Juba Turquesa da Leoa das Neves: Contos Tibetanos de Sabedoria")
Surya Das

Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
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#7 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 14 de Jul de 1999 1:46 am
Assunto: Perfeita Generosidade
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Perfeita Generosidade

         Por muitos anos Patrul Rinpoche utilizava o que quer que
         fosse oferecido a ele como patrocinio para esculpir
         mantras em pedras, que entao eram empilhadas para formar
         um muro de oracoes. Dessa forma ele sustentava muitos
         artesoes indigentes e pauperrimos, inspirando-os a trabalhar.
         Patrul certa vez cantou:


   "Seja bom com os destituidos,
    seja paciente e gentil com os malvados,
    seja bom com os aflitos,
    seja gentil com os tolos,
    Empatize com os fracos e oprimidos,
    seja especialmente compassivo para com aqueles
    que apegam-se a uma realidade concreta."

    INEVITAVELMENTE, DEPOIS DE DAR ESMOLAS AOS mendigos, Patrul
parecia ainda mais feliz do que eles. Ele preferia o som de alguem
mendigando ao som de musica ou conversa.

    Uma vez um pobre escultor chamado Phukhop implorou dinheiro a
ele. "Pobre amigo," disse Patrul, "apenas diga, 'nao preciso de
dinheiro,' e eu lhe darei algum."

    "Que tipo de brincadeira e' esta?" Phukhop pensou, sem nada
dizer.

    Depois que Patrul Rinpoche repetiu seu pedido tres vezes, o
amarrado Phukhop finalmente murmurou, "Nao preciso de dinheiro."
O mestre entao presenteou-o com um grande punhado de moedas.

    Ja' que Patrul nunca perdia uma oportunidade de dar esmolas sob
nenhuma circunstancia, um discipulo depois pediu uma explicacao
sobre o comportamento do mestre.

    Patrul contou esta historia: "Uma vez, durante a vida de nosso
guia espiritual, Buda Sakiamuni, um homem pobre ofereceu-lhe um
pedaco de doce. Um ganancioso Brahmane imediatamente pediu pelo
doce, sabendo que o Buda nunca dizia nao.

    "O Buda respondeu, 'Apenas diga, "Gautama, nao preciso deste doce,"
e eu o darei a ti.' E assim foi feito.

    "Mais tarde, Ananda pediu a Buda que explicasse. O Buda entao
detalhou, 'Atraves de quinhentas vidas, este Brahmane nunca nenhuma
vez sequer pronunciou as palavras, 'Eu nao preciso.' Eu ajudei-o
a pronunciar essas simples palavras de forma a gerar nele o
sentimento de nao precisar de nada. Diluindo a ganancia, estas
palavras plantarao nele as sementes da generosidade.'"

    Entao, por varios dias, nenhum escultor necessitado aproximou-se
de Patrul. As oferendas dos fieis se empilhavam, ja' que nao havia
ninguem para quem distribui-las. De repente, os olhinhos de Patrul
brilharam. "Eles estao chegando!" ele gritou, reunindo todo seu
dinheiro.

    Quatro ou cinco escultores logo chegaram. Assim que os mendigos
entraram em sua presenca, antes mesmo que pudessem falar qualquer
coisa, Patrul exclamou, "Aqui esta'!" e lhes deu punhados de
dinheiro. "Esculpam pedras mani!" Ele adicionou. "Cultivem virtude."

    Depois que os escultores se foram, Patrul comentou, "Ate' que
enfim me livrei daquela velharia, inutil como um cadaver apodrecendo
no chao!"


---
de "The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet"
Surya Das.
(Tenho me concentrado nas historias de Patrul Rinpoche, mas
ha' todo tipo de historias no livro que *realmente* vale a pena.)

Desculpem pela traducao rapida e descuidada.
Padma Dorje
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#6 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Qua, 14 de Jul de 1999 12:21 am
Assunto: Um Ladrao e' Convertido
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Um Ladrao e' Convertido

    QUANDO PATRUL RINPOCHE ENSINOU o Bodhicharya-avatara em Zhamthang,
um velho ofereceu-lhe uma peca de prata moldada na forma de uma
ferradura. O homem tinha poucas posses, mas sentindo grande fe' em
Patrul, ele sabia que seria meritorio fazer uma oferenda.

    Depois de uma semana de ensinamentos, Patrul deixou o distrito.
Um ladrao, que havia visto patrul receber a ferradura, seguiu-o com
a intencao de rouba-la.

    Patrul caminhava sozinho, sem nenhuma outra motivacao alem de
passar suas noites em paz sob as estrelas. Naquela primeira noite,
o ladrao se escondeu na escuridao enquanto Patrul dormia. Proximo
a Patrul jazia uma pequena bolsa de tecido e uma xicara de barro.
Cuidadosamente o ladrao comecou a explorar as roupas de Patrul.

    Suas maos acordaram o lama, que exclamou, "Ka-ho! Que estas fazendo,
mexendo sob minhas roupas?"

    O ladrao respondeu alarmado, "Alguem te deu uma grande peca de
prata. Da' ela para mim!"

    "Ka-ho!" gritou o mestre. "Olha que confusao fizestes de tua vida,
correndo por ai como um louco! Viestes ate' tao longe so' por causa
daquela prata - idiota! Ouca: va' agora, e pela aurora alcancaras
o montinho de grama onde sentei... A prata esta' ali perto. Useia
como uma pedra para apoiar minha xicara. Olhe nas cinzas da
fogueira do acampamento."

    O ladrao duvidou, mas viu que a prata nao estava mais com Patrul.
Parecia muito improvavel que a ferradura estivesse abandonada no
acampamento; apesar disso, ele voltou para conferir. Quando chegou
onde o mestre havia ensinado, ele procurou e encontrou a prata,
entre as cinzas da fogueira.

    O ladrao ficou totalmente bestificado e lamentou-se, "Ah-zi!
Este Patrul e' um lama de verdade, sem apegos mundanos, enquanto
eu so' ganhei mau carma pela intencao de roubar-lhe. Agora certamente
irei para o inferno!"

    Perseguido pelo remorso, ele se dirigiu para encontrar Patrul
novamente. Quando finalmente chegou ate' ele, o mestre o enquiriu,
"Aqui de novo, louquinho! Eu te disse onde encontrar o que querias.
O que queres agora?"

    Muito agitado o ladral explicou, solucando, "Nao e' isso -
encontrei a prata. Mas pequei por conspirar contra um ser
espiritual como tu es! Estava prestes a surra-lo e pegar tudo que
tens! Ofereco minha conficao e imploro seu perdao."

    Patrul o acalmou. "Nao ha' necessidade de oferecer uma confissao
ou pedir perdao. Apenas tenha um bom coracao e ore para as Tres Joias
(Buda, Darma e Sanga); isso sera' o suficiente."

    Mais tarde, quando outros descobriram o que havia acontecido,
eles perseguiram e surraram o ladrao. Patrul Rinpoche berrou a eles,
"Se machucam meu discipulo, e' como se estivessem me machucando.
Deixe-o em paz!"

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de "The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet"
Surya Das.

Desculpem a traducao rapida e descuidada,
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#5 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Ter, 13 de Jul de 1999 12:53 am
Assunto: Sobre o Lha Kang
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Ola' Chung Tao.

    Estive este fim de semana trabalhando como guia para os visitantes
do templo tradicional tibetano de Tres Coroas. E' um trabalho para
o qual a sanga de Porto Alegre se reveza, pois os moradores do local
estao sempre muito atarefados com o acabamento dos detalhes do templo.

    Gostaria de partilhar com vcs as respostas que tive que encontrar
para algumas perguntas dos visitantes e minha propria impressao do
trabalho que e' realizado no Lha Kang. Me foi recomendado que nao
falasse sobre nada que nao fosse perguntado, e que se nao soubesse
algo, que perguntasse a alguem ou que dissesse que nao sabia. Essas
sao recomendacoes dadas aos guias pois como nao sao professores
autorizados, e como muitas vezes sao a porta de entrada para o darma
para muitos visitantes, e' preciso que haja muito cuidado.

    O Lha Kang e' um templo tradicional tibetano, o primeiro da
america latina. O projeto inicial era para o centro de S.E.
Chagdud Tulku Rinpoche na California, mas apos algumas visitas ao
Brasil, ele resolveu instalar-se na serra gaucha. Muitos visitantes
perguntam porque S.E. escolheu este lugar. Perguntam se e' um
lugar energetico ou algo do tipo. Eu respondia que nao tinha
certeza, que so' o Rinpoche sabia. Algumas pessoas me perguntaram
se era pq era no paralelo 30, e eu disse que provavelmente os
tibetanos nao sabem o que sao "paralelos".

    De fato ofereceram terras ao Rinpoche em Sao Paulo, mas ele
declinou. Alfredo Aveline (depois Lama Padma Samten) ofereceu
algumas terras junto ao Lha Kang para a obra, mas Rinpoche escolheu
um lugar um pouco mais alto, e ele mesmo comprou a terra. Lama
Samten foi quem primeiro mostrou as terras onde agora esta' o Lha
Kang a Rinpoche.

    A uns quatro anos atras comecaram as obras para a primeira
sala de meditacao, onde agora e' um dormitorio, o predio do
refeitorio, a antiga lojinha e uma casa de hospedes. Muitos
praticantes antigos tambem construiram suas casas dentro das terras
do Chagdud Gonpa.

    O dinheiro para a construcao veio de doacoes. O proprio Rinpoche
desembolsou bastante dinheiro, e a sanga americana e suica outro
tanto. Estimaria, nao sei de valores por certo, que mais de meio
milhao de dolares foram gastos na obra. As fundacoes suportariam
um predio de 20 andares. A obra foi feita para durar de 500
a 1000 anos. Apesar dos detalhes e formato basico serem tibetanos,
a tecnologia utilizada na obra e' muito moderna. Ha' um sistema
de aquecimento por baixo do piso, por exemplo. Ha' detalhes em
cimento moldado em silicone e fibra de vidro. A marcenaria interna
foi toda feita em madeira da melhor qualidade, e os detalhes internos
estao sendo pintados por um nepales com a ajuda de americanos
e brasileiros. A obra foi concluida em menos de 6 meses, mas os detalhes e
acabamento podem ir por alguns anos ainda.

    A primeira construcao que se encontra ao subir pela estradinha
ingreme que da' nas construcoes principais e' uma estatua de 3 metros
de Guru Padmasambhava. S.E. moldou todas as pecas ele mesmo, em
cimento e epoxi. Naquele mesmo lugar havera' uma stupa e uma grande
roda de oracoes, que nao foram comecadas ainda.

    Ao aproximarmo-nos vemos a imponencia do predio, com 3 andares
mais uma cupula. Em frente a porta de entrada, vemos a roda
e os dois cervos acima de um telhadinho dourado. No topo da
construcao ha' 3 detalhes no formato de stupa tambem.

    Ao subirmos as escadas, vemos 6 rodas de oracao forjadas em metal,
com o mantra OM MANI PADME HUM escrito em um alfabeto que nao e'
nem tibetano nem sanscrito. E' algo anterior ao sanscrito,
me disseram.

    O trabalho dos detalhes em metal foi feito todo ali mesmo, por
um outro artesao nepales.

    Dentro da sala principal do templo, o templo de fato, nos
maravilhamos com inumeras Thangkas (delicadas pinturas tibetanas
em tecido) e estatuas trazidas do oriente.
A arte contida ali tem um valor inestimavel tanto pela riqueza
de detalhes quanto pelo significado religioso.

    Vemos as bancadinhas onde os praticantes colocam seu material
de pratica. Sinos e dorjes, porta-saddhanas, damarus, 3 ou 4
tipos de instrumentos de sopro, pratos, tambores e guisos. Vemos
o trono de rinpoche proximo a grande estante que contem as estatuas
e os ensinamentos. Ha' um conjunto destes envoltos em pano colorido
que sao os 84.000 ensinamentos do Buda, ha' varios outros menores.
Em geral os visitantes perguntam se aquilo sao almofadinhas.
Ouvi um morador dizer a um grupo que so' o fato de ter olhado
para aqueles textos enrolados ja' garante que a liberacao
nao demorara' muito.

    Os visitantes geralmente perguntam o que representavam as estatuas.
"Sao os budas" eu dizia. Um que outro "mas eu pensava que so' havia
um...", dai' eu apontava para a estatua dourada de um metro de altura
do Buda Sakiamuni acima da estatua um pouco maior de Tara Vermelha.
As vezes eu dizia que Sakiamuni era o historico Gautama Buda,
contava um pouco da historia dele e dizia que ele era o quarto
da era muito afortunada em que vivemos em que aparecerao 1000 budas.
Falava tambem de Tara Vermelha, a Salvadora Veloz, como a forma
feminina do Buda, que responde imediatamente qualquer pedido
nao-egoista e demora um pouco mais nos pedidos egoistas...

    Me perguntavam sobre os outros, as vezes eu dava seus nomes:
Avalokiteshvara, Manjusri, Nagarjuna, Milarepa, Vajravarahi, etc.
Quando insistiam "mas pq tantos?", eu explicava que era quase
como os santos catolicos em alguns casos, em outros quase como
que os anjos catolicos. Eu dizia que o Buda nao esta' preso
dentro de uma forma humana propriamente, e que se manifesta
em formas diversas para atender as necessidades diversas dos seres.
Expliquei que alguns haviam sido praticantes de carne e osso,
como Sakiamuni, mas que outros eram formas transcedentais.

    Alguns viam as imagens iradas e perguntavam "ah, e tem os
do bem e os do mal?" e eu pacientemente explicava que nao, que todas
as imagens ali representavam a compaixao. Em alguns casos o
buda se manifesta de forma irada segundo as necessidades dos seres.
Eu dava o exemplo do livro "Portoes da Pratica Budista" em que
se uma crianca esta' prestes a cair em um precipicio e vc
falar gentilmente, vc nao conseguira' parar ela. Vc deve gritar,
e o Buda as vezes "grita" com os seres que estao muito equivocados,
e que isso e' um ato de compaixao.

    "Pq tantos bracos?" Em alguns casos eu respondia novamente
que o buda nao estava preso a uma forma humana, e que os
bracos representavam a energia compassiva agindo de diversas
formas simultaneamente.
No caso de Avalokiteshvara, expliquei a uma menina que os
quatro bracos eram as quatro qualidades incomensuraveis
(Equanimidade, Amor, Alegria e Compaixao), e que seguravam
no centro uma joia que realiza desejos, na mao direita um rosario
para rezar pelos seres e na mao esquerda uma flor de lotus,
representando sua pureza.

    "Estes aqui estao fazendo sexo?" pergunta um rapaz, apontando
para uma estatuazinha fantastica de um heruka de 20 bracos e 10
pernas e varios rostos que eu nao sei o nome em uniao com sua
consorte. "Isso e' magia sexual?" Ele completa. Que complicado
explicar isso... puxa. Parti dos livros que li. Disse que
a energia masculina era a sabedoria, meios habeis ou a luminosidade
e que a energia feminina era a compaixao ou o vazio, e que as duas
coisas unidas eram o estado iluminado. Completei usando a palavra
tantra e falando um pouco sobre a diferenca do tantra hindu
para o tantra budista. Quando eu fui um pouco sectario e disse que
o tantra hindu era dado a orgias degeneradas, fui eu que recebi o
ensinamento: "mas e' uma orgia pura" disse o rapaz. Bem, quem sou
eu para falar mal de outra tradicao...

    "O Budismo acredita em deus?" Respondi que enquanto ser de
sabedoria, o budismo aceitava a existencia de seres de sabedoria,
e de uma "essencia" dos seres de sabedoria, que seria o proprio
estado de Buda. Mas completava dizendo que o budismo nao aceita
um deus criador.

    "Por que tantas cores, pq o vermelho?" Disse tudo que e'
sensorial e' utilizado na meditacao do budismo tibetano.
Disse que era a caracteristica essencial do budismo tibetano
utilizar o sensorial para eliminar o apego a este proprio sensorial,
e que outras escolas budistas fugiam do sensorial. Falava dos
templos zen com sua beleza simples e elegante, de poucos detalhes.
Disse que neste budismo medita-se sobre o cheiro, a cor, o som,
o gosto e a sensacao tactil, ao inves de procurar fugir dos sentidos
como no budismo hinayana se faz. Falei que o vermelho era ligado
essencialmente ao veneno do desejo e sua superacao atraves da
sabedoria discriminatoria. Falava dos outros venenos mentais
e das outras cores associadas: [copiarei a tabela do livro tibetano
dos mortos do qual postei alguns excertos outro dia]

Agregado    veneno         Buda           Cor       Sabedoria
--------
forma       raiva          Akshobya       diamante  do espelho
sensacao    orgulho        Ratnasambhava  dourado   da equanimidade
concepcao   desejo         Amithaba       vermelho  discriminatoria
             (luxuria)
emocao      inveja         Amoghasiddhi   esmeralda que tudo realiza
cognicao    ilusao         Vairochana     safira    da perfeicao da
             (ignorancia)                            realidade

Sao essas as cinco principais cores contidas no templo.

Explicava que o vermelho era mais significativo por causa da linhagem
de S.E., e que a cor principal da linhagem do Dalai Lama por
exemplo, era o amarelo.

Faziam muitas perguntas sobre S.E. tambem. "Ele fala portugues?"
Nao, um ingles ininteligivel, mas ha' uma interprete. "De
onde ele veio?" do tibete, morou na india e nos EUA e agora esta'
no brasil. Geralmente eu adicionava que ele era casado com uma
norte-americana, que tambem era lama. "O que ele faz no cotidiano?"
Ele trabalha nos detalhes do templo, nas esculturas, nas mascaras,
tambem pinta, ja' foi medico, e' considerado um grande cantor
e trabalha na coreografia das dancas. "Que idade ele tem?" 69, mas
parece mais pq ele sofre de diabetes. Geralmente acrescentava que
ele e' o XVI Chagdud, que foi reconhecido com a idade de 3 anos,
e que era o abade principal de um dos mosteiros tibetanos, um
dos 20 que sobreviveram dos 5000 destruidos pelos chineses. Dizia
tambem que ele e' um mestre tao realizado que nao precisaria mais
entrar em um corpo humano e passar pela velhice, doenca e morte,
mas que pelo bem dos seres, ele permanece entrando em um corpo.
"Eu posso falar com ele?" Dois domingos por mes ele responde perguntas
apos a pratica de Tara, que comeca as 8:00 da manha. Se vc quer
uma entrevista pessoal, e' bom conversar com a secretaria e
tradutora dele. Neste domingo as pessoas tiveram sorte, pq o
Rinpoche resolveu dar uma caminhada para ver a obra, e muitas
puderam cumprimeta-lo pessoalmente.

"Como eu faco para participar?" Todos os dias as 6 da manha
tem pratica em tibetano, e e' aberta ao publico e gratuita.
Se a pessoa vai dormir ou comer, uma taxa e' cobrada. Em caso
de retiros especiais, taxas adicionais sao cobradas. Ha' salas
de pratica em varias cidades, Porto Alegre e Sao Paulo por exemplo.
A pessoa pode ligar para o centro (051 - 5461563) de Tres Coroas e
se informar sobre retiros e ensinamentos.

"Pq as taxas sao tao caras?" A taxa de alimentacao nao e' realmente
cara, sao 12 reais pelas tres refeicoes do dia. As taxas de
dormitorio variam dependendo das acomodacoes, ha' quartos individuais
e quartos com beliches, ou a pessoa pode montar uma barraca. Em
todo o caso, sai mais barato do que um hotel na cidade de Tres Coroas.
As taxas de retiros incluem contribuicoes para o centro, que
se mobiliza para receber ate' 200 pessoas, de diversos lugares
do pais e do mundo. Ninguem ali vive em meio ao luxo, e o trabalho
e' muito pesado. Alguns residentes dali que tem dinheiro e algumas
vezes vieram de ricas mansoes no exterior, aceitam os chuveiros
frios e as estradas de barro e os mosquitos no verao, com paciencia
budista. Exceto as paredes, que foram erguidas por pedreiros
brasileiros (muito bem pagos alias, pela natureza da obra), tudo
ali foi feito com trabalho voluntario. Marceneiros e arquitetos
americanos trabalharam apenas pelo darma, sem cobrar nada.

Alias, isso me lembra as frequentes perguntas: "Que sao essas
tigelinhas de agua?" "Para que sao essas bolachinhas?"

Como uma pratica de generosidade, todo o dia sao dispostas 108
tigelas de agua, algumas tigelas de arroz, bolachinhas, agua
perfumada, flores, incenso e lamparinas. As 108 tigelas de agua
sao renovadas todos os dias antes da pratica. As 10 lamparinas
sao limpas e acesas todo o dia (em retiros sao 108 lamparinas,
que levam quase duas horas para serem preparadas). Essas ofertas
simbolicas sao feitas aos seres de sabedoria para que nada
falte a nenhum ser e para que haja prosperidade.

E' bom lembrar que o proprio predio do Lha Kang e' uma oferenda
que beneficiara' os seres desta regiao por muitas geracoes.
O trabalho ali desenvolvido, pregando esse tipo raro de darma,
e' feito com foco totalmente altruista, nao ha' beneficios pessoais
advindos da obra.

Nao deixem de visitar, nem que seja por turismo. A serra gaucha
e' muito bonita e as cidades de gramado e canela tem muitas atracoes.
Para quem gosta de arte, uma bela vista e um passeio na natureza,
e' imperdivel a visita ao templo.
Para quem tem conexao com o budismo entao, nem se fala. Peregrine
ate' la' com a fe' de quem vai a um lugar realmente sagrado.
Circumambule as construcoes e prostre-se as estatuas. Se tiver
a chance de ver S.E., isso ja' seria uma bencao, quanto mais
receber ensinamentos.

Finalmente, se ha' possibilidade, faca os tres tipos de oferendas:
a maior, que e' a de pratica - a mediana, que e' a de trabalho
(e sempre ha' muito trabalho por fazer) - e a menor, que e' a
de dinheiro. Vc contribui assim para que beneficios sejam
assegurados para muitos seres durante muito tempo.


Abracos,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
http://bodisatva.org

#4 De: "Padma Dorje" <pdorje@xxxxxxx.xxxx
Data: Seg, 12 de Jul de 1999 9:19 pm
Assunto: As Instrucoes Orais do Buda Primordial
pdorje@xxxxxxx.xxxx
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As Instrucoes Orais do Buda Primordial

        O siddha (adepto tantrico iluminado) Gyalwa Jangshub
        predisse que Patrul Rinpoche, uma verdadeira encarnacao
        de Avalokitesvara (Chenrayzig, o Buda da Compaixao),
        iria a Derge' no Tibete oriental e que aqueles com
        percepcoes comuns, iludidas, nao o reconheceriam,
        percebendo somente um mendigo em trapos, apenas um errante
        pedindo esmolas por ali... assim aconteceu.
        As "Instrucoes Orais do Buda Primordial" ("Kunzang
        Lamai Shalung" em tibetano, [publicado sob o titulo
        "The Words of my Perfect Teacher" em ingles]) e' um
        dos mais renomados escritos de Patrul, um livro
        popular e original de muitas centenas de folios
        [as folhas retangulares soltas comuns aos textos
        tibetanos].


    CERTA VEZ PATRUL RINPOCHE ESTAVA CAMINHANDO pelas montanhas
proximas a Katog, na provincia de Derge', onde ha' varias grandes
stupas (estas sao grandes monumentos em forma de sino que servem
como santuarios `as reliquias sagradas dos patriarcas budistas).
Patrul encontrou ali a hospitalidade de um velho lama de Gyarong.

    Patrul e o lama conversaram. O lama de Gyarong contou ao anonimo
Patrul, que parecia a ele como sendo um sincero mendigo religioso,
"Tu pareces interessado nos ensinamentos budistas. Conheces algo
de sua pratica efetiva?"

    O incomparavelmente erudito e realizado Patrul respondeu, "Um
pouco, apenas umas coisinhas aqui e ali que fui bem-afortunado
o suficiente para ouvir atraves dos anos. Por certo o Darma
sublime e' inimaginavelmente vasto e profundo."

    O monge disse a Patrul, "Ouca, tenho aqui um texto maravilhoso
que explica completamente os fundamentos da doutrina budista;
e' cheio de historinhas interessantes e piedosos insights. Foi
escrito recentemente pelo professor iluminado Patrul Rinpoche.
O livro e' chamado 'As Instrucoes Orais do Buda Primordial".
Explicarei-o a ti, se quiseres."

    Patrul Rinpoche pareceu gostar da ideia. O idoso lama ensinou-lhe
sobre as quatro contemplacoes que retiram a mente do samsara
(o mundano), e outros topicos dos capitulos iniciais do livro que
contem as instrucoes essenciais da linhagem oral, que o *proprio*
Patrul havia reunido. O lama estava satisfeito por ter um estudante
atento, e explicou tudinho extensamente, para seu deleite mutuo.

    Poucos dias depois, todos ficaram sabendo que o ilustre Patrul
Rinpoche iria dar ensinamentos bem perto, no mosteiro de Katok.
O proprio Patrul passou uma grande parte do tempo circumambulando
as stupas, as quais, atraves de sua visao sagrada, ele percebia como
o local de todos os iluminados do passado, do presente e do futuro.
Alguns monges de Dzachuka que tambem estava circulando as stupas o
viram ali; reconhecendo-o imediatamente, eles se prostraram na
terra. Todos se regozijaram: o glorioso Dza Patrul havia chegado!

    Aquela noite o lama de Gyarong retornou do mercado. Ele disse a
todos na casa quao maravilhoso era que o proprio Patrul estava na
area de Katog e logo chegaria ao mosteiro. Se virando para o mendigo
anonimo em seu meio, o lama disse, "Nao e' explendido que o
autor iluminado desse mesmo livro que estamos estudando esteja tao
proximo?"

    Patrul pareceu pouco impressionado. "Talvez seja ele, mas por
outro lado talvez nao... Quem pode dizer? Afinal, o que ha' de
tao especial a respeito de Dza Patrul? Ele provavelmente e' apenas
mais um lama da cidade. 'E' melhor reverenciar os ensinamentos do
que o professor,' como o Buda disse."

    O lama bateu nele, berrando,  "Como ousas falar dessa forma a seus
superiores? Devo te mandar embora dessa casa direita! Tu devias ter
mais respeito por nosso professor gracioso, o buda vivo Patrul
Rinpoche."

    Dois dias mais tarde, Patrul subiu ao decorado trono de ensinamentos
no mosteiro de Katog, perante uma assembleia de milhares. Quando o
lama de Gyarong viu seu estudante temporario sentado no trono, ele
imediatamente percebeu o que havia acontecido. Ele fugiu envergonhado,
e nunca mais foi visto em Katog.

    Mais tarde Patrul foi relembrado da historia. Ele sorriu e disse,
"Isso e' muito ruim mesmo. Talvez ele realmente tenha ficado bravo
comigo; mas mesmo assim ele me deu excelentes instrucoes
das 'Instrucoes Orais do Buda Primordial' a respeito das quatro
contemplacoes que livram a mente do samsara, que eu nunca me canso
de refletir a respeito. Eu espero sinceramente e rezo para que
meu gentil professor, o lama de Gyarong, encontre a paz sublime, e
que todos os seres ligados a mim se iluminem ao mesmo tempo."


----

Retirado do excelente livro

"The Snow Lion's Turquoise Mane: Wisdom Tales From Tibet", Surya
Das, Harper Collins, introdution by H.H. the Dalai Lama, foreword
by Daniel Goleman. US$ 18.

S.E. Chagdud Tulku Rinpoche costuma dar um ensinamento resumido
sobre as "Intrucoes Orais do Buda Primordial" em Tres Coroas durante
os retiros de Ngöndro que acontecem pelo menos uma vez por ano e
duram geralmente 2 ou 3 dias.

Desculpem a traducao rapida e descuidada. As notas em [colchetes]
sao minhas,
Padma Dorje
[Eduardo Pinheiro]
ICQ 3246923
pdorje@...
http://bodisatva.org

#3 De: "Roger Garin-Michaud" <garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Data: Sáb, 3 de Jul de 1999 6:48 am
Assunto: Buddhist bibliography July update
garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Enviar e-mail Enviar e-mail
 
#2 De: "garin-michaud-roger" <garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Data: Seg, 31 de Mai de 1999 12:04 pm
Assunto: # Buddhist bibliography June update
garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Enviar e-mail Enviar e-mail
 
#1 De: "garin-michaud-roger" <garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
Data: Sáb, 1 de Mai de 1999 9:04 am
Assunto: Buddhist bibliography May update
garin-michaud-roger@xxxxxxx.xxx
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