ABATIDOS
A pior palavra do ano não designa qualquer prémio ambiental: viaturas
completamente novas são destruídas com elevados custos energéticos, para serem
produzidas outras com ainda maiores custos energéticos. Esta é a sociedade do
bota-fora no seu melhor. Pouco adianta, porém, se o depósito vazio da máquina do
fim em si mesmo capitalista voltar a ser abastecido pelo Estado com umas míseras
gotas de combustível. Isto não é uma ajuda à conjuntura, porque, em
contrapartida, os revendedores de carros usados abrem falência em série, as
limusines Mercedes e BMW mesmo assim não são compradas - e a alegria dos
produtores de veículos utilitários é o sofrimento de todas as outras empresas
cujos produtos não são subsidiados. Então que é isto? Um presente eleitoral para
amantes de automóveis de rendimento médio, naturalmente. Porque se continua a ir
por água abaixo, é certo e sabido que virá o próximo programa conjuntural. Se é
preciso aliciar os eleitores precisamente na depressão, o slogan que se aplica,
também ao Ministro das Finanças, é: depois de nós o dilúvio, quer dizer, a
inflação. O que seria ainda susceptível de ser pensado na sede do partido?
Possivelmente um prémio de abate para frigoríficos, leitores de CD, ecrãs planos
ou tarecos diversos. Talvez até mesmo para os queijos e enchidos, três semanas
antes da data de validade. E assim, finalmente, os bens de consumo seriam
declarados oficialmente lixo universal. Mas não será isto um pouco complicado?
Mais simples seria um genuíno presente eleitoral, como é costume cada vez mais,
mesmo no círculo de entes queridos, sob a árvore de Natal: não mais qualquer
valor de uso seleccionado, mas sim logo o puro equivalente geral. Ou seja,
simplesmente 2500 € acabadinhos de imprimir para todos, de modo que as cidadãs e
os cidadãos pudessem ir à vontade, mais uma vez, às compras em grande. Isso de
facto não ajuda nada a longo prazo, mas, perante uma crise real e umas eleições
realmente livres, seria também uma última refeição de condenado realmente
grátis, sem discriminar ninguém.
Abatidos - Robert Kurz; Abril de 2009
ECONOMIA DE GUERRA SEM GUERRA
Todos sabem ou suspeitam que a pretensa administração da crise pelo Estado,
novamente na moda, leva à inflação. O Estado não produz mais-valia, pelo
contrário, consome parte dela. Se é precisamente o maior consumidor improdutivo
que há-de fazer reviver a agonizante valorização do capital, não é do paciente
que ele pode retirar o poder de compra para isso necessário. O problema surgiu,
pela primeira vez, nas economias de guerra a partir de 1914. O consumo de
extermínio da guerra industrializada apenas pôde ser financiado através duma
oferta excessiva de dinheiro sem substância pelos bancos emissores. O padrão
ouro acabou. A pronta contrapartida foi a desvalorização do dinheiro, a
destruição de bens e os cortes nas moedas. Mas a inflação havia chegado para
nunca mais partir. Ela foi roendo o capitalismo no século XX e há-de engoli-lo
no século XXI.
Economia de Guerra sem Guerra - Robert Kurz; Março de 2009
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