Olá!
Eu estou ouvindo os áudios do JFK 2003 Weekend with Ken Wilber
(http://www.formlessmountain.com/audio1/audio.html) e gostaria de
levantar alguns pontos essenciais explicados por Ken Wilber.
:: Sobre encontrar um mestre espiritual
Wilber diz que não há nenhum ser que tenha chegado ao nível máximo de
cada linha do desenvolvimento (moral, artística, cognitiva, etc). Mas,
ainda assim, nós como seres "integrally informed" (orientados sob a
perspectiva integral), podemos trabalhar com um mestre, sim.
Wilber conta (mantendo a tradição budista) que a prática suprema é o
Guru Ioga, que implica no relacionamento com um mestre qualificado de
uma tradição autêntica. No entanto, ele ressalta que isso pode ser
desastroso: da mesma forma que eu aprendo japonês mais rápido e
facilmente quando tenho uma amante japonesa, eu sofro muito quando
esta amante faz algo que me prejudica. A solução que ele dá é a
abordagem AQAL que coloca a relação espiritual no seu devido lugar,
sem dar muito espaço para problemas emocionais que possam surgir.
Ele também conta de seus primeiros mestres do Zen e dos mestres
Vajrayana com os quais estudou posteriormente.
:: Sobre Nagarjuna, madhyamika, vacuidade e não-dualidade
Na minha visão, sua maior influência é Nagarjuna (pronuncia-se
"na-gár-ju-na", e eu descobri isso graças ao Prof. Leonardo Vieira da
UFMG). Curiosamente, Wilber lista alguns autores mais acaba falando
somente de Nagarjuna, o grande pioneiro, o ser que discursou
explicitamente, com o maior rigor filosófico, sobre não-dualidade.
Ele diz que a filosofia da vacuidade é a suprema visão. Não podemos
descansar em outro lugar que não seja a não-dualidade, que não é uma
filosofia e nem mesmo uma experiência, mas o espaço no qual as
experiências surgem. Wilber diz: Nada de Gaia, Unidade ou qualquer
afirmação absoluta! Nem X, nem Y, nem X e Y, nem não X e não Y.
A idéia é simples Até Nagarjuna, a prática espiritual parava no nível
causal (ausênsia de fenômenos) e tal realização era denominada nirvana
("cessação", significado que realmente apoia tal hipótese wilberiana).
A genialidade de Nagarjuna é dizer que a iluminação não é o nirvana,
nesse sentido causal, e sim a não-dualidade, no qual atravessamos o
portão sem portas e chegamos ao lugar em que sempre estivemos. Depois
do causal (vacuidade), simplesmente mergulhamos lucidamente de volta
para os mundos fenomênicos (forma). Não há unidade, nem dualidade, nem
mesmo não-dualidade!
A chave aqui é compreender que mesmo a não-dualidade e a dualidade são
não-duais. Há uma aparência de dualidade antes de atravessarmos o
portão sem portões (gateless gate), mas logo após que temos a sensação
de termos atravessado, dizem os mestres, olhamos para trás e vemos que
nunca houve portão algum!
Nagarjuna disse que nunca construiu nenhuma teoria e nunca postulou
nenhuma verdade. Ele simplesmente é uma máquina de dissolver
equívocos.
:: O que acontece depois da morte?
Wilber diz que ele tenta não escrever sobre isso porque é como
escrever sobre política. É uma questão de "skillful means" (meios
hábeis) -- isto é, o ensinamento depende de quem faz a pergunta. Buda
disse que ensinou renascimento para os menos inteligentes e
"não-nascido" para os mais inteligentes.
Após isso, Wilber diz que é muito mais fácil de se demonstrar (com
estudos científicos) a existência da iluminação, satori, nesta vida,
do que demonstrar a existência de bardos pós-morte. Ele diz que não
possui memórias de vidas passadas e muito menos S.S. Dalai Lama.
Ele acredita que é o corpo-mente sutil que transmigra, logo após a
dissolução do corpo-mente grosseiro. No momento da morte, podemos
reconhecer a luminosidade da realidade (descansar em Dharmakaya) e
passar por tudo lucidamente. Diz que se temos uma estabilidade com
sonhos lúcidos (ficando conscientes regularmente durante nossos
sonhos, corpo-mente sutil), poderemos no momento da morte controlar
nosso renascimento. Se não reconhecemos, nós tendemos a ir onde nossos
impulsos nos levam.
Portanto, o que levamos depois da morte não são memórias de nossa
vida, pois estas são basicamente ligadas ao corpo-mente grosseiro e
morrem com o cérebro. O que transmigra são duas coisas: sabedoria e
virtude. Wilber explica isso detalhadamente em seu texto DEATH,
REBIRTH AND MEDITATION, disponível aqui:
http://br.groups.yahoo.com/group/Ken-Wilber/files/
Sabedoria é a capacidade de reconhecer a vacuidade, a qualidade
onírica, insubstancial, da realidade. E virtude é a capacidade de
fazer o bem no mundo manifesto. Wilber afirma que apesar de fazer
muito sentido, isso ainda não pode ser verificado cientificamente, com
um método, consensualmente, etc.
[continua...]
--
Abraços,
Gustavo Gitti
http://transconhecimento.blogspot.com [pt]
http://integralbrazil.blogspot.com [en]
P.S.: Assim que der, reunirei minhas anotações para falar sobre o
evento com Chris Cowan (Spiral Dynamics) e também para continuar com o
estudo do Wilber-5.