Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo
Cláudia Magalhães
Três amigos; Um bar!
Amores, amizade, inveja, traicões...
O acaso rege o destino de homens e mulheres
Na esquina do Paraíso com o Inferno
Onde a hora é sempre dezoito horas
Hora do cão lobo
A esquina do Mundo
Um mundo à beira da tragédia
Regidas não por mãos humanas
Mas pelo incompreensível.
(Trecho da peça teatral "Esquina do Mundo - A hora do Cão Lobo")
Dezoito horas... Esquina do Paraíso com o inferno... Há pouco, o Sol beijou a lua e sob o canto suave da Ave Maria, eles fizeram juras eternas de amor. A Rainha da noite, excessivamente romântica, cheia de saliva, fez amor nos astros e estrelas, deliciou-se na boca do seu amante, virou música, verso, prosa... Ele vai embora. Vazio. Há pouco, ele a pegou por trás e ela sentiu toda a sua paixão escorrer pelo seu sexo, descer até a terra e formar um mar de sangue...
Esse sangue nos revela um prédio de um vermelho extravagante, onde, no térreo, funciona um bar popular, destes encravados nos becos das grandes cidades. De um lado funciona o salão com mesas e cadeiras muito simples, posters de time de futebol e cartazes com dizeres como "Protegido por Deus" e "Fiado só amanhã", do outro lado, separada por um enorme balcão, uma pequena cozinha. Em cima, dois kitnets, um de Rato e o outro de Zé e Ceição. Nos vários sets a vista: Esperança arruma o quarto de Rato e se arruma, incansavelmente; Zé, no seu quarto, bebe e olha fixamente para o relógio de parede; Gardênia cantarola na cozinha, exultante; No salão, Patrícia toma café com bolacha e escuta Rato, que sentado com os pés na lama, canta um chorinho acompanhado por dois boêmios que estão em uma mesa próxima; Teobaldo está sentado no meio da escada observando a lua que brilha incansavelmente no céu, cheia de tristeza, melancolia, poesia, contrastando, e por isso mesmo, enaltecendo a decadência do lugar.
(Salão do bar)
Não me condene, não sou vagabundo
Nem tampouco vigarista
Sou um boêmio, um sonhador
Eu tenho alma de artista.
Na mistura do céu e do inferno
Encontrei a esquina do mundo
Da vida, do poeta,
Do doutor, do moribundo.
Aqui ele ri, ele chora,
Toma cana com limão e mel
Toma rum com coca-cola
Com os pés na lama
Olhando para o céu
Desabafa, se esfola
Vai afogando a sua dor.
É a Ribeira dos becos
Da lama, da amargura
Onde tudo se mistura:
Fé, Cajú,
Sangue, Coentro,Papa-Figo, Urubu,
Medo, Tormento,
Black-Out, Gentileza,
Virtude, Desalento,
Badalo, Fineza,
Tristeza, Lamento.
Siqueira, Poesia,
Djalma, Vitória,
Navarro, Alegria.
Carrapicho, Flores,
Zé Areia, Esperteza,
As Marias, Os Amores.
Loucura, Lambretinha,
Óvni, Verdade,
Nazi, Meladinha.
É do resultado dessa mistura
Que se faz esse lugar.Venha, amigo, se sentar
Não precisa documento
Basta só ter sentimento
E entre uma alegria e outra
Um pouco de lamento
Porque daqui ninguém sai isento
Sem vontade de chorar!
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